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sábado, 30 de março de 2024

MILITARISMO E PATRIOTISMO, DOGMAS SUPREMOS DO CAPITALISMO

 


A doutrina social consiste num conjunto de ideias que devem exprimir um sentido do viver social orientado por determinados princípios que lhe servem de base estrutural e aspecto teleológico. 

Não raro, as doutrinas são transformadas em dogmas, que nada mais são do que verdades absolutas, inquestionáveis, imutáveis, que em assim sendo tentam tornar, muitas vezes, a própria doutrina como algo antagônico à dialética do movimento social em seu sentido mais dinâmico, amplo e abrangente. 

O pensamento dogmático não admite a síntese, que é a saudável depuração discursiva da tese e da antítese, justamente por estabelecer verdades repressivamente absolutistas e imutáveis que sempre são nocivas ao bom desenvolvimento da vida social e suas mutabilidades decorrentes do processo evolutivo das relações sociais graças ao acúmulo do saber e consequente qualificação científica do ser humano em sociedade.  

Começo este artigo tratando desse tema filosófico para dizer que há sempre uma doutrina, mesmo que implícita, por trás de qualquer regra de convivência social estabelecida.  

O capitalismo se caracteriza como doutrina social histórica e, portanto, com começo, meio e fim, como tudo que é histórico, e nele estão inseridos preceitos de natureza orgânica que dão suporte à sua existência doutrinária. 

Foi a doutrina iluminista, que parecia trazer luzes às trevas do feudalismo, aquilo que embasou filosoficamente o processo de implantação do republicanismo burguês e seu escravismo indireto capitalista.  

Dissequemos um dos aspectos da sustentação institucional doutrinária do capital, qual seja o seu conceito de pátria e a sua correspondente defesa do militarismo.   

O conceito de pátria decorre do dogma de que a dita cuja consiste num conjunto de pessoas vivendo num determinado território sob uma ordem de relação social estabelecida por suas crenças, costumes e idioma(s), que devem ser preservados. São conceitos pretensamente consensuais de vida social, tanto no seu aspecto de produção social como na sua ordem jurídico constitucional.  

Entretanto, tal ideia, de pátria, é uma invenção criada - e imposta pela força das armas de fogo - como forma de institucionalização de uma ordem opressora e escravista da maioria dos cidadãos, e de tal forma sublinear de convencimento que o oprimido se sente culpado pela própria situação a que é submetido.  

A questão que se coloca diante do conceito de pátria, que se confunde com o conceito de nacionalidade, que por sua vez decorre do conceito de nação, que é instituto jurídico recente entre as sociedades humanas, é que nele está inserido um sentimento de exclusividade xenófobo, nacionalista, e como se fosse algo virtuoso. 

Não se percebe a relação entre pátria e opressão “patriótica” do Estado.

Fidel era nacionalista, patriótico - pátria o muerte, era o dístico dos outdoors cubanos -; Brizola, Hitler, Bolsonaro, Castelo Branco e todos os generais presidentes da ditadura militar brasileira de 1964 a 1985; Simon Bolivar, José Marti, Sandino, Nicolás Maduro, Emiliano Zapata, e cada um com suas boas ou más intenções, mas igualmente equivocados nesse particular.  

A pátria espolia o cidadão, mas o trata como nacional detentor de determinados direitos e, principalmente, sobre os demais membros não nacionais, ainda que diga o contrário e afirme defender a sua pretensa natureza pacífica em relação aos seus vizinhos.  

O capitalismo é belicista, e essa sua natureza é a razão das guerras modernas cada vez mais frequentes. Essa é a razão pela qual, em defesa da pátria, admite-se durante a deflagração política de uma guerra, que os nacionais de uma determinada pátria matem os nacionais de outra, que sequer conhecem.      

O capitalismo e suas necessidades mercantis forjou paulatinamente os conceitos exclusivistas de nação e de exércitos permanentes, profissionais, remunerados pelo dinheiro dos salários, que divergia do conceito do feudalismo no qual os exércitos eram menos numerosos, mercenários e eventuais, inconstantes, vez que não havia ainda desenvolvido a ambição da relação mercantil extramuros.

Alguém acha que Cristóvão Colombo e Pedro Alvares Cabral descobriram as Américas para promover a fraternidade humana? Ou aqui vieram sob um processo de necessidade de expansão da pilhagem de riquezas materiais que se transformavam em riquezas abstratas, ouro e prata, principalmente, que já serviam de lastro monetário em expansão pré-capitalista? 

O desenvolvimento dos burgos, de onde deriva o termo burguesia, locais onde se processavam as trocas de produtos transformados em mercadorias, muitos deles já manufaturados, com intercambio entre comunidades, constituiu-se em práticas sociais cada vez mais frequentes, que passaram a exigir uma ordem social consentânea com seus critérios de vida social baseada na produção de mercadorias destinadas à compra e venda. 

Ora, o feudalismo, no qual a monarquia e a igreja, de mãos dadas com a aristocracia rural, ditavam as ordens, teria que dar lugar a uma nova ordem na qual o capital em processo de desenvolvimento pudesse se expandir sem as amarras das castas sociais que eram avessas a tal desenvolvimento.  

 O capital tem a característica de ser uma abstração impessoal que comanda a sociedade acima dos homens a quem torna súditos de sua lógica tão ditatorial quanto aquela personalíssima, feudal, e que agora se apresentava sob o manto da “liberdade” de escolha, pelo trabalhador abstrato escravizado indiretamente pelo salário e extração de mais-valia, o “direito” de vender a sua única propriedade, o seu tempo-valor de trabalho abstrato.   

Assim, o conceito de pátria está umbilicalmente ligado a uma ordem de produção social e de organização jurídica determinada pelo capital, razão pela qual a força militar criada sob o soldo dos militares profissionais, bem como todo o aparato de guerra, com tudo financiado pelos impostos extraídos das atividades mercantis, pagos pelo povo, é fiel ao conceito de defesa dogmaticamente ensinado e absorvido nas academias militares. 

Quando se compreende que Bolsonaro não recebeu apoio militar para sua aventura golpista no Brasil, pode-se perfeitamente compreender que o comando miliar - à exceção de alguns poucos desavisados - entendeu que não havia clima para tal aventura, e o fez por vários motivos, quais sejam: 


a conjuntura capitalista depressiva ainda não atingiu o estágio de necessidade de intervenção militar;

- o Bolsonaro era um militar sem história de disciplina e carreira como deseja o dogma doutrinário militar; - a locomotiva do capitalismo nas Américas, os Estados Unidos, não tinham interesse, como tiveram em 1964, num golpe civil-militar encabeçado por um protagonista despreparado e sem currículo que o abonasse, igual Bolsonaro, até porque de um novo Hugo Chávez na América latina eles estão ressabiados; - o mercado confia no Lula, que se jacta de que os bancos nacionais e internacionais que aqui operam, tiveram os maiores lucros da história em seus governos; - apesar de Bolsonaro ter enchido seu governo com militares da reserva e até da ativa, os estudos geopolíticos da caserna, desde Golbery do Couto e Silva, estão atentos à conjuntura internacional do capitalismo que anuncia tempos sombrios de sua administração e que desaconselham uma interveniência direta de apoio à Bolsonaro e sua trupe, reservando-se a possibilidade de intervenção para o futuro; - os erros estratégicos de Bolsonaro, que ao não aderir a tempo de promover a vacinação no Brasil, e estimular o povo a continuar vivendo normalmente como se nada estivesse havendo em relação à pandemia de covid19 que assombrou o mundo, provocou a morte de 700 mil pessoas no Brasil, com dados que se supõe subestimados, cerca de 10% dos casos mundiais - um absurdo se considerarmos que o Brasil tem cerca de 3% da população mundial - e que vai se firmar como o maior genocida da história do Brasil. A doutrina militar moderna nasceu com o capitalismo e se tornou um dogma que está acima dos próprios militares comandantes - virou verdade doutrinária conceitual corporativa imutável a ser obedecida inquestionavelmente -, é essa é a sua orientação patriótica, razão pela qual para defendê-la a caserna vai às últimas consequências. Putin, por exemplo, militarista desde os tempos da KGB, que o diga com suas ameaças nucleares...

Quando se prenunciar o colapso capitalista, que deverá começar pelo crash do sistema bancário internacional em razão da dívida pública impossível de ter os juros renegociados para pagamento aos rentistas mundo afora, somente restará à ordem capitalista a tentativa de sustentação militar de seus postulados, ainda que insustentáveis. Esse será o início da hora da verdade dos tempos atuais. (por Dalton Rosado)

quinta-feira, 11 de outubro de 2018

ROGER WATERS DEFENDE DIREITOS HUMANOS, REPUDIA DITADURAS E SE POSICIONA CONTRA O FASCISMO. BRAVO!

Roger Waters mostrou que, além de músico competente e excelente letrista, é um homem de caráter.

O co-fundador do Pink Floyd tem o militarismo como alvo de alguns de seus desabafos musicais mais candentes, com toda razão: o avô morreu na guerra quando o pai era criança e este acabou sendo vítima da mesmíssima sina, deixando Waters órfão. O estrago emocional que tal perda lhe causou perpassa todo o álbum The Wall, a obra-prima dessa banda inglesa.

Daí decorre seu repúdio visceral ao nazismo, conforme se pode constatar no vídeo abaixo, trecho do filme Pink Floyd - The Wall, de 1982, dirigido por Alan Parker (trata-se "Run like hell", a 2ª parte da música "In the flesh").

E Waters não se omitiu quanto ao pesadelo pelo qual passa o Brasil, ameaçado de um retrocesso aos brutais anos de chumbo. 

Na sua primeira apresentação em São Paulo, não só fez projetar no telão a hashtag #elenão e uma relação de políticos de vários países que corporificam a invasão bárbara, como respondeu de forma altaneira aos fanáticos obtusos que o vaiavam:
"Sou contra o ressurgimento do fascismo. E acredito nos direitos humanos. Prefiro estar num lugar em que o líder não acredita que a ditadura é uma coisa boa. Lembro das ditaduras da América do sul e foi feio".
Tem toda razão. Se os civilizados não virarem o jogo, o Brasil será um péssimo lugar para qualquer pessoa estar nos próximos anos. 

No meu tempo, quem ia em shows de rock detestava a repressão. Hoje, neles também são encontrados masoquistas enrustidos, ansiosos por serem tratados a pontapés, vivendo debaixo das botas de tiranetes medíocres. Lamentável.

terça-feira, 22 de maio de 2018

MADURO QUER FICAR NO PODER ATÉ 2025. A VENEZUELA NÃO SOBREVIVERÁ ATÉ LÁ.

Por Celso Lungaretti
Ainda existem articulistas de esquerda que preferem encarar corajosamente as verdades desagradáveis do que impingir a seus leitores realidades alternativas, como se estivessem escrevendo novelas de ficção-científica para tranquilizar adultos imaturos. 

Para aqueles que permanecem íntegros e comprometidos com os valores fundamentais do marxismo e do anarquismo, o que aconteceu no último domingo foi tão somente isto: um dos piores ditadores da atualidade deu mais um passo rumo ao abismo para o qual se encaminha e para o qual conduz o sofrido povo venezuelano. 

Meus parabéns a Ricardo Kotscho, um dos maiores jornalistas brasileiros vivos,  que já atuou em quase todos os veículos importantes do País e foi secretário de Imprensa do Governo Lula em 2003/2004.  O artigo abaixo faz jus a quem ele é, ao mesmo tempo envergonhando os que um dia foram parecidos com ele, mas hoje nada mais são.

Por Ricardo Kotscho
DITADURA DE MADURO MONTA FARSA, MAS OS ELEITORES
FOGEM DAS URNAS
Ditaduras no mundo inteiro sempre promoveram eleições para se legitimar, inclusive a nossa.

Salas de votação vazias guardadas por paramilitares fardados são o melhor retrato da farsa que foi a votação de domingo na Venezuela em que Nicolás Maduro foi reeleito por mais quatro anos.

Para quê, se o país está quebrado, dilacerado, sem comida, sem remédios e sem esperança?

Mais da metade dos eleitores não compareceu às urnas, a abstenção chegou a 54% dos inscritos.

Com o absoluto controle do Estado e os principais opositores presos ou impedidos de disputar a eleição, Maduro teve 5,8 milhões de votos (67% dos válidos), contra o principal adversário admitido nas urnas, Henri Falcón, que ficou bem distante, com 1,8 milhão de votos. 

“O que a gente ganha não dá nem para comer. Quem vai se entusiasmar com essa eleição?”, perguntou o pintor de carros Jesus Pereira ao repórter Fabiano Maisonnave, da Folha.

“Todos estão saindo do país como os pássaros. Quem pode vai embora”, desabafou o eleitor, que compareceu à mesma seção em que votava Hugo Chávez, morto em 2013.

Chávez instalou o bolivarianismo em 1999 e desde então seu grupo foi implantando e ampliando uma ditadura, à medida em que perdia apoio popular e a economia venezuelana se esfacelava.

Maduro foi nomeado herdeiro político do chavismo e, desde que assumiu pela primeira vez, abriu guerra contra as empresas que estariam a serviço dos Estados Unidos.

A indústria nacional foi destruída, vários países importantes cortaram relações e começou a grande debandada de venezuelanos em busca de sobrevivência. Só no Brasil já são mais de 50 mil que entraram no país nos últimos anos.

Mesmo assim, Maduro encontrou motivos para comemorar a vitória em seu discurso no Palácio Miraflores:

“Obrigado por me fazer presidente da República Bolivariana da Venezuela para o período 2019 a 2025. Quanto me subestimaram, e aqui estou.”

Será que o país sobreviverá até lá? O pior é que não tem nada para colocar no lugar dos bolivarianos.

É importante lembrar que o grande drama venezuelano não é provocado só pelo governo, na desatinada luta pela sobrevivência no poder, mas pelas elites locais, a começar pela mídia, a serviço dos interesses americanos.

Com a oposição dividida por interesses diversos e as instituições totalmente desacreditadas, a população não tem a quem recorrer.

Nós brasileiros deveríamos prestar mais atenção no que acontece por lá, para que a mesma tragédia não se repita aqui com as viúvas da ditadura dos generais, encantadas com a patética figura de Jair Bolsonaro, um ex-capitão, militar como foi Hugo Chávez, só que com os sinais trocados.
A diferença é que Chávez resolveu afrontar os Estados Unidos, enquanto Bolsonaro está pronto para prestar absoluta vassalagem ao grande irmão do norte.

Lá como cá, como sabemos, por trás de tudo está a disputa pelas reservas de petróleo.

Não podemos esquecer que brasileiros também já estão emigrando em massa, não só para Miami e Lisboa, mas também para o Paraguai.

Corremos o risco de virar não uma Grécia amanhã, mas uma Venezuela, se não tivermos juízo.

Vida que segue.
Já que estamos falando num pequeno ditador infame
e ridículo, por que não relembrarmos um grande ditador?
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