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quinta-feira, 16 de janeiro de 2025

BALBÚRDIA DO PIX MOSTRA QUE O LULOPETISMO DESCONHE O PAÍS QUE ELE PRÓPRIO AJUDOU A CRIAR

 

Não se enganem, o boato de que o PIX seria taxado não começou com o vídeo do deputado federal bolsonarista Nikolas Ferreira e nem foi pura obra de fake news espalhadas pela extrema-direita, mas movimento orgânico que dominou a população nesses primeiros dias do ano de 2025, o qual promete ser um annus horribilis para Lula e sua corja, conforme prenunciado em artigo publicado aqui no blog no dia primeiro. 

O acontecimento reforça dois dos maiores sintomas da derrocada lulopetista: a alienação sobre a realidade brasileira e a profunda prepotência de Lula e cia. Na verdade, tais defeitos costumam estar juntos e quanto maior é a ignorância, maior a soberba. 

Contudo, a pataquada do PIX é mais imperdoável porque está diretamente ligada à dinâmica social que o lulopetismo ajudou a forjar nas últimas duas décadas, um país de empreendedores, recheado de Elon Musks que vendem bolo de pote e fazem corridas de Uber rumo ao primeiro milhão. Esses indivíduos fazem seus corres abaixo dos radares do Ministério da Fazenda e de seu voraz Leão enquanto se embebem de ideologia liberal despejada sobre eles pela mídia burguesa e pelo governo dito de esquerda. 

Não nos esqueçamos que Lula fez o que Bolsonaro se negou a fazer e cedeu ao lobby dos varejistas tupiniquins ao taxar compras internacionais antes isentas - a famosa taxa das blusinhas - que foi um duro golpe para o consumo das classes populares. Diante desse histórico, qual não foi a impressão popular quando o governo resolveu apertar o cerco sobre as transações efetuadas pela modalidade de PIX? O microempreendedor individual (MEI) que vende coco na praia entrou em pânico. 

Por óbvio, não se trata e nunca se tratou de taxar a transação por PIX, pois tal tipo de cobrança configuraria a finada CPMF - Cobrança Provisória sobre Movimentação Financeira - extinta em 2011 e só pode ser constituída por força de lei aprovada no Congresso, mas a intenção de ampliar o cerco sobre a sonegação é muito clara e defendida abertamente pelo governo. O problema, porém, é que o sonegador é justamente o MEI com fumos de bilionário, forjado pelo lulopetismo ao longo de décadas de desregulamentação das relações de trabalho e de financeirização generalizada. 

O MEI possui isenção de impostos, mas isso caso movimente uma quantia baixa de valores. Para manter a isenção, mas ter seus lucros assegurados, muitos fazem movimentações em contas de pessoas físicas e não em sua conta jurídica, recebendo em PIX porque essa forma de pagamento estava fora do rastreamento da Fazenda. Da noite para o dia, com sua nova regra, o governo arriscou colocar na ilegalidade milhões de microempreendedores que teriam de prestar contas de suas movimentações, se regularizar junto ao fisco e virtualmente perder as isenções financeiras.

Daí a revolta contra a ação de Lula. O país de empreendedores forjado por ele durante anos de medidas neoliberais se levantou em peso contra a possibilidade de começarem a pagar impostos. As criaturas se viraram contra o criador. 

É difícil imaginar que Haddad não soubesse dessas consequências de sua medida, mas certamente em sua arrogância ele não deve ter imaginado tal reação, prevendo uma vitória igual a obtida na tributação das compras internacionais. Em sua fúria de taxar as grandes pobrezas, embevecido pelos tapinhas nas costas que recebe dos bem-pensantes do mercado financeiro, contava ter mais uma vez montado nas costas dos pobretões do Brasil para rachar de dinheiro o baronato. Ledo engano! Mas, como já  dizíamos, Fernando Haddad é o pior ministro do governo Lula 3.

O bolsonarismo ter capitalizado com a insatisfação diante da medida do governo não pode ser surpresa, pois esses ditos empreendedores são uma de suas bases fundamentais ao acolherem o discurso liberal do self made man, da livre competição e do Estado interventor, com suas taxas e regras. O Brasil dos MEIs é o Brasil do bolsonarismo. 

Mas é justamente este país que o lulopetismo ajudou a forjar: com relações de trabalho precarizadas, serviços públicos arruinados, afundado na superexploração, com a miséria galopante e em que as soluções são individuais, pela via do esforço pessoal, do empreendedorismo. Lula o criou, mas não o compreende porque não possui capacidade para tal, sendo muito mais o instrumento das forças históricas do capitalismo. Contudo, em sua soberba, ele acredita ter o povo em suas mãos, ser seu intérprete mais exato e virá daí sua ruína. (por David Coelho)

terça-feira, 19 de março de 2024

GOVERNO LULA QUER ABOLIR AS LEIS TRABALHISTAS

 

Jorge Luiz Souto Maior
O Projeto de Lei das Plataformas de Transporte proposto semana passada pelo governo federal – com seu contexto específico – consegue ser ainda pior do que a contrarreforma trabalhista de 2017. É assim que precisamos compreender a proposta de regulação da atividade de motoristas contratados por empresas que operam seu negócio por intermédio de plataformas digitais. Na verdade, trata-se do pior momento da história dos direitos trabalhistas no Brasil.

O evento festivo da assinatura do PL, então, foi um show de horrores, forjado a partir de alegorias artificialmente propostas para criar uma realidade paralela. Aliás, bem ao estilo do dito “trabalho virtual”. Uma explicitação de autêntico negacionismo, vindo daqueles que, justamente, se apresentaram como um contraponto ao processo de bestialização vivenciado de 2018 a 2022.

Desde o início do ano passado, com presença ativa do governo, vinham sendo feitas discussões entre representações dos motoristas e das empresas que exploram sua força de trabalho. A proposta das empresas, desde o início, era a regulação precarizante: chamar de autônomos seus empregados; permitir que estes trabalhassem em limite - inconstitucional, é bom frisar - de 12h diárias!; e que se mantivesse um sistema de controle das atividades dos motoristas, com permissivos punitivos, inclusive. E qual o teor do texto do PL apresentado, com pompa e circunstância, pelo governo? Exatamente o que as empresas propuseram desde o início.

O texto não reflete, portanto, diálogo e estudos para enfrentamento de uma questão que seria promovida pela inserção da nova tecnologia no mundo do trabalho. Considerando os dados concretos, refletidos no histórico e no resultado final do PL, trata-se, isto sim, de mera capitulação!

Em sentido diametralmente oposto ao que vem sendo realizado, em termos de regulação deste tipo de trabalho, o PL, no entanto, foi apresentado como a melhor proposta possível…Mas isto, evidentemente, apenas para os tomadores do trabalho, ou seja, para os capitalistas!

O governo trabalhista capitula, cai de joelhos, e defende, explicitamente, os ideais dos patrões, ou, mais precisamente, do capital estrangeiro, em seu propósito de auferir grandes taxas de lucro por meio da exploração de um trabalho sem proteção social e poder de reivindicação. A leitura do texto causa indignação e revolta!

Foi a tarde da consagração da maior derrota da classe trabalhadora brasileira, mesmo que o PL, caso sejamos tomados por uma hecatombe, não seja aprovado no Congresso Nacional. Neste aspecto, a fala do Presidente da República é plenamente verdadeira. O evento foi histórico. Ele e seu governo entrarão para a história como os agentes que apresentaram e defenderam, de forma convicta, uma lei com potencial para destruir completamente o aparato jurídico de proteção dos trabalhadores e das trabalhadoras, ao qual se denomina Direito do Trabalho. Parece exagero? Pois bem, vamos lá.

A base das decisões que vêm sendo proferidas nas reclamações constitucionais propostas por essas mesmas empresas é a de que não são elas que se relacionam com os motoristas e sim o aplicativo; ou uma modalidade de contratação por meio de plataforma digital. Assim, por este passe de mágica, elas não se integrariam à figura do empregador. E o art. 3º do PL acolhe exatamente essa fantasia, dizendo que o motorista, “para fins trabalhistas”, ostenta a condição jurídica de um “trabalhador autônomo por plataforma”.

E não só!

Ao tratar desse trabalho como autônomo, o governo acaba de algum modo fazendo coro ao discurso de que tais relações devem ser submetidas à justiça comum. Contribui, portanto, para o movimento de esvaziamento da competência material da Justiça do Trabalho.

O PL já inicia referindo tratar de relação de trabalho “intermediada” por “empresas operadoras de aplicativos de transporte”. Mas não há intermediação. Ora, a empresa admite, pois aceita ou não o cadastro de quem se candidata ao trabalho; assalaria, estabelecendo, inclusive, o valor do trabalho; e dirige a atividade, pois fixa o modo como o trabalho será prestado.  Além disso, assume os riscos do empreendimento, pois é a empresa que contratamos, quando precisamos do transporte de coisas ou de pessoas.

Há referência, também no art. 3º, à “plena liberdade para decidir sobre dias, horários e períodos em que se conectará ao aplicativo”. No entanto, essa condição já existe em outras relações de trabalho e não guarda relação alguma com autonomia ou subordinação. É a mesma condição de quem realiza teletrabalho, por exemplo. A suposta liberdade não altera os moldes da exploração. É apenas o reconhecimento de uma característica desse vínculo específico e que, na prática, nem se realiza. E o mais importante: não constitui reconhecimento de direito algum, pois essa possibilidade de trabalhar em horários variáveis é condicionada - com ou sem a aprovação dessa lei - às tarifas praticadas pela empresa, à quantidade de motoristas atuando na mesma região, às características do lugar em que o trabalho está sendo realizado. Então, sequer essa condição é efetivamente expressão da liberdade de quem está vendendo sua força de trabalho.

A ausência de exclusividade também não é direito reconhecido por essa legislação. Em lugar algum na legislação trabalhista existe tal exigência para a formação de um vínculo de emprego. Do mesmo modo, a possibilidade de representação sindical é direito de todas as pessoas que vivem do trabalho, sendo desnecessária lei que a refira.

O §2º do artigo 3º impressiona. Refere que o “período máximo de conexão do trabalhador a uma mesma plataforma não poderá ultrapassar doze horas diárias”. 12 horas!!! 12 horas, todos os dias! Isso, apesar da Convenção 01 da OIT, de 1919, fixar o máximo de 8 horas de trabalho por dia. Apesar de o Art. 7º da Constituição fixar como direito “dos trabalhadores urbanos e rurais, além de outros que visem à melhoria de sua condição social” “XIII – duração do trabalho normal não superior a oito horas diárias”. Um retrocesso inaceitável.

Ainda que estivéssemos diante de um contrato formulado a partir dos parâmetros do direito, não teríamos como sustentar a possibilidade de uma lei que contraria o limite máximo estabelecido por um dispositivo constitucional e que, nitidamente, fere direitos fundamentais. Não há como sustentar, juridicamente, a existência de um grupo de pessoas para as quais os direitos fundamentais e a Constituição não tenham validade.

O art. 5º é igualmente assustador. Estabelece a possibilidade de que as empresas operadoras de aplicativos adotem “normas e medidas para manter a qualidade dos serviços prestados por intermédio da plataforma, inclusive suspensões, bloqueios e exclusões”. Punição, no melhor estilo do que a linguagem, à época do capitalismo industrial, chamava de “gancho”. Algo que sequer a CLT prevê: a possibilidade de punir quem depende do trabalho para sobreviver. Nada pode representar melhor o quanto as relações de trabalho no Brasil seguem atravessadas por uma racionalidade escravista, que não vê limite à lógica da exploração e da precarização do trabalho.

Criaram a figura do trabalhador autônomo com direito de ser punido por aquele que não é seu patrão e que diz que não é seu patrão porque o trabalhador é livre!!! Dá até para entender a comemoração: precisa ter muita criatividade e inventividade para se chegar a uma tal formulação; ou muito cinismo!

A questão é que agora a proposta de precarização vem assinada por um ex-líder sindical, operário, cuja carreira política sustentou-se em seu compromisso com a classe trabalhadora.

O projeto estabelece, ainda, o direito da tomadora do trabalho de utilizar “sistemas de acompanhamento em tempo real da execução dos serviços e dos trajetos realizados”, ou seja, controle da jornada, e “sistemas de avaliação de trabalhadores e de usuários”, ou seja, metas para a extração de mais-valia. Ainda, podem oferecer “cursos ou treinamentos”, em óbvio direcionamento da atividade. Tudo, sem que se “configure relação de emprego nos termos do disposto na Consolidação das Leis do Trabalho”. Parece deboche.

Aliás, o art. 6º dispõe que a empresa poderá excluir unilateralmente o trabalhador da plataforma nas “hipóteses de fraudes, abusos ou mau uso da plataforma, garantido o direito de defesa”. Daí a comparação com a contrarreforma de 2017. Estamos diante de uma proposta de lei empresarial.

Mas dirão aqueles que seguem defendendo cegamente a postura adotada pelo governo: há garantia de remuneração mínima pelas horas trabalhadas. Ora, também aí não houve avanço, pois o reconhecimento de que se trata de um típico vínculo de emprego seria suficiente para que um salário mínimo fosse garantido. A regra, na realidade, tem também uma finalidade precarizante, pois se refere ao ressarcimento das despesas que o trabalhador suporta, a serem devidas “nos termos do regulamento”, incluídas no valor-hora. Ou seja, concretamente não haverá ressarcimento de despesas.

E submetidas as partes ao processo negocial livre, determinado pela lei de mercado, ou seja, da oferta e da procura, a tendência é que os ganhos tendam a um rebaixamento constante, ainda que um valor nominal esteja garantido, pois poder de compra não tem correlação exata com este valor.

Enfim, o que se tem é o projeto de uma lei para um trabalho sem direitos. Uma lei que garante às multinacionais que exploram trabalho de transporte por meio de plataformas digitais, a possibilidade de seguirem atuando à revelia da legislação trabalhista e do pacto constitucional de solidariedade. Uma lei que fere a regra da jornada máxima prevista na Constituição. Uma lei que autoriza punição entre particulares que se relacionam a partir dos parâmetros jurídicos da igualdade e da liberdade. Um festival de retrocessos.

Se estivéssemos no governo anterior, certamente setores da esquerda e entidades do mundo do trabalho, incluindo o próprio Presidente e seu partido político, já teriam apelidado a proposta de “PL da morte dos trabalhadores e das trabalhadoras”.

Mas não foi o governo golpista, nem foi aquele que debochou das pessoas mortas por asfixia, durante a pandemia, que acabaram desferindo este ataque à classe trabalhadora. A ferida está sendo provocada por um ato de violência vindo do governo trabalhista e fará sangrar os trabalhadores e as trabalhadoras, ainda mais do que vêm sangrando na realidade brasileira (e não é de hoje); fará sofrer quem depende do trabalho para sobreviver.

Talvez por tudo isso esteja doendo tanto. (JORGE LUIZ SOUTO MAIOR E VALDETE SOUTO SEVERO) 

sábado, 27 de janeiro de 2024

SÓ ROBERT ALTMAN SERIA CAPAZ DE FAZER UM WESTERN DETONANDO AS ILUSÕES LIBERAIS E O EMPREENDEDORISMO

O empreendedor que desenvolve um novo mercado e sua experiente gestora de corpo-de-obra
Cineasta estadunidense que só obteve o merecido reconhecimento a partir da Palma de Ouro conquistada no Festival de Cannes de 1970 com M.A.S.H., Robert Altman (1925-2006) estava em grande forma ao realizar, no ano seguinte, Onde os homens são homens, uma parábola sobre as ilusões liberais, ambientada numa remota cidade mineira do velho Oeste.

Obrigado até então a limitar-se a trabalhos mais convencionais, Altman pôde dar vazão à sua visão crítica e sarcástica do Tio Sam e do american way of life quando a melhor juventude dos EUA se insurgiu contra a Guerra do Vietnã e o establishment como um todo.

Sua sátira devastadora à intervenção estadunidense no Vietnã, mesmo que fingindo referir-se à Guerra da Coréia, foi o chamado filme certo na hora certa, granjeando-lhe prestígio mundial. 
No mundo dos negócios às vezes surgem imprevistos... 

O novo status lhe garantiu um bom período de liberdade para fazer as obras autorais que sempre quis realizar, com destaque para Voar é com os pássaros (1970), O perigoso adeus (1973), Nashville (1975), Cerimônia de casamento (1978), Quinteto   (1979) e Popeye (1980).

Onde os homens são homens, título brasileiro que dá uma ideia totalmente inadequada de McCabe & Mrs. Miller, mostra Warren Beatty como um jogador que não chegou aonde queria com o baralho e decide fazer outro tipo de aposta, tornando-se empreendedor.

Como não muitos dos seus congêneres atuais, ele se mostra hábil em identificar oportunidades de negócio, desenvolver ideias inovadoras e criar um novo empreendimento:  vai montar um bordel mais sofisticado numa cidadezinha com clientes endinheirados, mas mal servidos desse item de consumo.

Como não saberia lidar com as funcionárias, ele de pronto aceita a oferta de sociedade de uma especialista no gerenciamento desse corpo-de-obra (Julie Christie), acabando por manter um quase-romance com ela, o que não a impede de cobrar dele também os serviços especializados que igualmente lhe presta.
...que obrigam o empresário a improvisar.

Mas, antes mesmo de seu sucesso na nova atividade lhe proporcionar prêmios de
empresário do ano, ele se vê pressionado por uma grande corporação, que, atraída por aquele florescente mercado, decide nele instalar-se, adquirindo um negócio já montado por uma quantia inferior à que realmente vale.

Então, McCabe cai na besteira de ir numa cidade grande consultar-se com um advogado pomposo, que, seguindo à risca a cartilha liberal, o aconselha a resistir, pois tem a lei a seu lado. 

Na volta, descobre que os poderosos se lixam para a lei e, quando não conseguem o que querem graças às suas vantagens competitivas, tratam de eliminar a concorrência (inclusive fisicamente). 

Ele se vê, assim, obrigado a defender a liberdade de empreender com armas, contra três pistoleiros que são bons conhecedores do ofício. 

E ninguém dá a mínima importância para seu duelo solitário na cidade gelada, exceto Mrs. Miller, a sua sócia, que, entristecida, droga-se enquanto ele está lutando não só pela sobrevivência no mundo dos negócios, como também pela vida.

Ironias à parte, é um belíssimo faroeste outonal, com sua melancolia realçada por uma magistral  trilha sonora de Leonard Cohen. (por Celso Lungaretti)  

As legendas são em espanhol, opção que restou, pois o filme é raro.
 

Também legendada em espanhol, The stranger song (a canção dos títulos)

terça-feira, 23 de maio de 2023

NA ERA DOS OLIGOPÓLIOS, O EMPREENDEDORISMO É A IDEOLOGIA DECADENTE DE UM MUNDO DECADENTE

 

O capitalismo do século XXI é marcado pela falta de oportunidades e pela oligopolização da economia, com o predomínio de pouquíssimas empresas e a concentração da riqueza global nas mãos de um punhado de bilionários. Para a maioria esmagadora da humanidade resta apenas a precariedade e a ausência de futuro. Não é acidental, portanto, que a ideologia do empreendedorismo tenha surgido neste período enquanto contraface perversa de um mundo perverso. 

O empreendedorismo prega o potencial de cada indivíduo em ser patrão de si mesmo. Assim, já traz em seu seio a ideia da dominação e da naturalização da classe capitalista, pois mesmo o sujeito possuindo  autonomia, ele ainda estaria em uma dinâmica de exploração, no caso explorando a si mesmo e, de fato, tal ideia de auto exploração é perfeitamente cabível quando se sabe, a partir de pesquisas, que a maioria dos chamados empreendedores possui altíssimas jornadas de trabalho, praticamente nunca tirando férias, e sacrificam o próprio bem estar em nome de débeis lucros. 

No entanto, quando se desce ao detalhe das relações econômicas dos tais empreendedores, é visível a mentira da suposta autonomia destes indivíduos. Em sua maioria esmagadora são trabalhadores precarizados ou pequeno empresários subordinados a empresas maiores, as chamadas franquias. A propaganda vende a ideia de que estariam em pé de igualdade com os grandes capitalistas do globo, fazendo livremente seus próprios horários e não tendo de prestar contas a ninguém. Na realidade, se subordinam a relações econômicas draconianas, sendo obrigados a repassar grande parte de seus ganhos às corporações na forma de royalties, aluguéis e taxas, nada mais distante do ideal do burguês senhor de si mesmo. 

E isso está bem acomodado às relações oligopólicas do capitalismo contemporâneo, com terceirizações infinitas e subcontratações que ramificam toda a cadeia produtiva e de circulação das mercadorias em uma complexa estrutura centralizada em um núcleo duro de pouquíssimas mega corporações. Nesse cenário, a ideologia do empreendedorismo acaba servindo como justificativa bem elaborada para a super exploração na base da pirâmide social, dando ao indivíduo a ilusão de que ele é livre, não está sujeito a nenhum controle ou coação porque não possuí relação tradicional de subordinação econômica.

 Ou seja, o fato de ele não ser um assalariado comum, não respondendo a um patrão convencional, cria em sua consciência a falsa concepção de autonomia, de estar em pé de igualdade com os grandes capitalistas, quando, concretamente, está de todo subordinado aos ditames das mega corporações, trabalhando para elas e por elas.  

Muito pior é a situação de quem sequer consegue se encaixar dentro da lógica de subordinação às corporações e parte para atividades antes designadas como bico, mas hoje chamadas orwelianamente de empreendedorismo. Essas pessoas ficam completamente à margem do processo econômico regular e mal conseguem o suficiente para a sobrevivência. No caso, a ideologia do empreendedorismo as leva a acreditar que sua batalha diária pela sobrevivência as transforma em capitalistas, também patrões de si mesmas, quando apenas estão dentro de uma massa de indivíduos inabsorvíveis pelo capitalismo. 

Inclusive, esse grupo em específico é cada vez mais numeroso devido às mudanças tecnológicas do sistema produtivo e de circulação, com o fechamento de postos de trabalho mesmo no setor de serviços. Em um país economicamente débil igual o Brasil, com sua base produtiva limitada ao neoextrativismo, tais fatores disruptivos tendem a agravar o quadro, criando milhões e milhões de indivíduos sem qualquer função econômica, elemento certo para a desestabilização política e possíveis explosões sociais. A ideologia empreendedorista serve como uma tentativa de anteparo a isso. 

Ideia decadente de uma sociedade decadente, simples escarro da antiga concepção do self made man - que tinha lá sua verdade na época clássica do capitalismo liberal do século XIX -, o empreendedorismo é mais uma forma de justificar a exploração humana e a barbárie do capitalismo em sua fase agônica. (por David Emanuel Coelho) 



quarta-feira, 15 de fevereiro de 2023

NOVO ENSINO MÉDIO ENSINA AO ESTUDANTE A VIVER NA NOVA REALIDADE BRASILEIRA DE PRECARIEDADE SOCIAL

 


O Novo Ensino Médio entrou definitivamente em vigor neste ano de 2023 e traz em si a marca do projeto de nossa burguesia para o Brasil. 

Apenas duas disciplinas passaram a ser totalmente obrigatórias e com bastante espaço na grade horária, Português e Matemática. Sociologia, Filosofia, Biologia, Física, Química, História, Geografia, etc., foram substancialmente reduzidas para dar lugar a matérias luminares iguais a estas:

O que rola por aí?

RPG

Brigadeiro Caseiro 

Mundo Pets S.A.

Arte de Morar

O Mundo ao Redor 

Tais disciplinas fariam parte do itinerário formativo, escolha de cada aluno. Desconhece-se a oferta de disciplinas profissionalizantes, a menos que fazer brigadeiro seja considerado como profissão. Considerando o tipo de país ao qual o Brasil tem se transformado, é possível considerar ser sim preparar brigadeiros e sair por aí vendendo como exatamente a ideia de profissão almejada por nossa burguesia para os trabalhadores. 

Bancada e idealizada por fundações educacionais do mercado, - sendo a mais notória, a Fundação Lemann, de Paulo Lemann, o mesmo indivíduo envolvido no rombo bilionário das Americanas - a reforma do ensino médio foi implementada durante o começo do governo Temer e tinha por base a promessa de melhorar o engajamento dos estudantes nesta fase escolar, pois o índice de evasão é altíssimo.

Não é preciso ser especialista em educação para entender os motivos da alta evasão escolar no ensino médio brasileiro. O nó górdio é econômico, pois os estudantes pobres são pressionados a começar a trabalhar cedo - muitas vezes, já antes dos 15 anos de idade - para contribuir no sustento doméstico, levando-os à impossibilidade de compartimentar a vida laboral com a estudantil. 

Em complemento a isto, a própria vida escolar se torna pouco atrativa, seja porque não há vislumbre de prosseguir os estudos no ensino superior ou mesmo porque o estímulo salarial é muito baixo, havendo pouca diferença entre o salário de quem termina o ensino médio e de quem não o termina. 

Ou seja, a evasão escolar ocorre pela própria pressão social sobre os filhos da classe trabalhadora, causada pela ausência de perspectivas e pela baixa qualidade das vagas de emprego no Brasil. Mas, qual a causa apontada pelos tecnocratas das instituições de fomento à educação? O problema é o currículo! Sim, o currículo seria entediante e desconectado da realidade do aluno e, por isso, ele abandonaria o ensino médio... 

Daí tirarem as disciplinas chatas das ciências humanas, exatas e biológicas e colocarem aulas sobre Pets. Afinal, ter aulas sobre animais de estimação é o melhor para preparar os estudantes para o mundo de amanhã. A profissão de cuidadores dos animaizinhos da classe média e alta estará em voga em pouco tempo. 

Na realidade, a reforma do ensino médio casa-se perfeitamente com a nova lógica capitalista do Brasil. Em um país em franca decadência econômica, se desindustrializando e onde a precariedade foi elevada à condição de empreendedorismo, faz todo sentido se retirar disciplinas científicas e humanísticas para se ocupar o aluno com matérias que o ensinam a se virar e a exercitar a arte do vazio. 

A cereja do bolo certamente é a disciplina Projeto de Vida. Quando não existe mais empregos garantidos, não é possível mais comprar a própria casa, ter qualquer estabilidade ou planejamento mínimo do futuro, pois a precariedade engole a todos no capitalismo do século XXI, acreditar em um projeto de vida na adolescência é quase um exercício de sadismo. 

Por óbvio, tais ações valem apenas para o ensino público, já tradicionalmente sucateado. Quem pode pagar matrículas a peso de ouro para seus rebentos continuará recebendo o melhor da educação tradicional - e chata - capaz de prepara-los para ocupar os postos-chave do futuro. À classe trabalhadora restará vender brigadeiro ou cuidar dos bichinhos de estimação destes afortunados. (por David Emanuel Coelho)

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