Mostrando postagens com marcador Norman Mailer. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Norman Mailer. Mostrar todas as postagens

sábado, 22 de março de 2025

GEORGE FOREMAN ESTÁ MORTO. VALE A PENA RELEMBRARMOS A MAIOR LUTA DE BOXE DA HISTÓRIA.

A
morte aos 76 anos, por causas não reveladas, do boxeador George Edward Bill Foreman, nos remete diretamente à fase de ouro do pugilismo mundial e à maior luta de boxe de todos os tempos, categorias e países, travada em 1974 no então Zaire, contra o lendário Muhammad Ali. 

Foi um confronto entre um Golias no auge de sua força e um Davi envelhecido que conseguiu, usando tudo que aprendera em sua magnífica trajetória, sair vivo e vitorioso do ringue, apesar dos temores generalizados de que o amor próprio o impedisse de conformar-se com a derrota inevitável, fazendo com que lutasse até morrer.

Campeão olímpico em 1968, Foreman era tido como o pugilista com soco mais forte até então conhecido. Após uma sucessão impressionante de nocautes na sua fase profissional, conquistou o título mundial em  1973, numa luta de pesadelo na qual derrubou Joe Frazier seis vezes em dois rounds. Seu cartel até então era de 37 vitórias, nenhum empate, nenhuma derrota.

Mas Ali tinha muito mais trunfos do que Frazier. Começou minando a autoconfiança de Foreman ao tratá-lo de forma desrespeitosa em todas as entrevistas (chegava a imitar sua movimentação deselegante no ringue, comparando-a com o andar vacilante do monstro de Frankenstein nos filmes de terror). Nenhum adversário do gigante até então ousara irritá-lo dessa forma na véspera da batalha.
Depois, como a luta entre ambos precisou ser adiada, Foreman deve ter-se ressentido de, passando mais tempo no Zaire do que o planejado, ver a população daquele país da mãe África inteiramente devotada ao mulato Ali, a ponto de pedirem em coro: Ali, mata ele! 

Negro puro sangue, Foreman se viu rejeitado por sua gente. O aclamado era o adversário, menos negro mas imensamente mais carismático e que sempre confrontara o racismo estadunidense. 

Era um herói para os africanos, e merecia sê-lo, Quem mais preferiria passar anos preciosos proibido de lutar do que abdicar das próprias convicções (alegou que sua religião o impedia de participar da Guerra do Vietnã)?

Assustador, Lacônico, desajeitado com as palavras, Foreman não imaginava, contudo, que viria a ser unanimemente visto como vilão.

Tudo isto, mais a derrota que jamais esperara sofrer, impactou Foreman de tal forma que ele passou um bom tempo lambendo as feridas. Voltou totalmente mudado, como um simpático pastor evangélico. 

Ao raspar o cabelo a zero, sua imagem também se abrandara, a ponto de ele ganhar uma fortuna como garoto-propaganda de uma fábrica de torradeiras. O
Big George se metamorfoseou no velho e bom Tio George, personagem de aparições constantes na mídia eletrônica.

O que não o impediu de matar as saudades do ringue, já sem a ferocidade de outrora, mas ainda com murro devastador. Assim, se tornou o peso-pesado mais idoso a conquistar o título, nocauteando Michael Moorer em 1994, aos 45 anos. 

O campeão de 26 anos tinha a vitória por pontos assegurada, mas vacilou no décimo e último assalto, quando o portentoso cruzado de direita de Foreman finalmente entrou, mandando Moorer à lona.

A LUTA DO SÉCULO -- O épico confronto entre Foreman e Ali no Zaire foi imortalizada nos excelentes livro de Norman Mailer (A Luta,1975) e documentário de Leon Gast (Quando éramos reis, 1996).

Contra todos os prognósticos, Ali mais uma vez tirou coelho da cartola. Todos lembram de sua técnica refinadíssima, mas ele era muito mais do que isto. Tinha dons de grande estrategista, como se combinasse os papéis de pugilista e de técnico.

Foi assim que ele conquistou a maior de todas as suas vitórias. Boxeando francamente contra Foreman no primeiro assalto, percebeu que jamais conseguiria prevalecer lutando de igual para igual com um titã que tinha pouco mais da metade de sua idade.
Vídeo da transmissão da luta pela TV estadunidense...
Então, adotou a postura que qualquer boxeador comum consideraria suicida diante da enorme potência dos golpes de Foreman: deixou-se ficar encostado nas cordas, recebendo o bombardeio e aparando-o com sua guarda.

Alguns obuses atingiam o alvo de raspão, outros se chocavam com os braços de Ali. Nenhum o abalou suficientemente. E Foreman, acostumado a nocautes rápidos, foi se cansando.

No quinto assalto, o Ali aparentemente apático, que só se defendia, mostrou que era, isto sim, um tigre se preparando para dar o bote: com um contra-ataque fulminante, quase nocauteou Foreman.

Depois de dois rounds letárgicos, foi o que acabou acontecendo no oitavo assalto. Ali novamente surpreendeu Foreman e, com uma sequência de golpes cuja rapidez era inimaginável àquela altura de uma luta tão exaustiva, metralhou a cabeça do oponente até fazer aquele gigante desabar em câmara lenta.
...e o documentário de Gast, incluindo o show que abriu a noitada. 
A coragem que deu a vitória a Ali nessa luta foi a mesma que o manteve no ringue até o fim de uma luta na qual teve seu maxilar fraturado no 2º round, por Ken Norton.

O castigo que recebeu de Foreman foi tão terrível que, depois da vitória consumada, ele teve, durante as comemorações, um breve desmaio que passou despercebido porque seus segundos rapidamente se colocaram ao redor, encobrindo-o. Até então, entretanto, a adrenalina o mantivera em pé. (por Celso Lungaretti)    

sexta-feira, 20 de novembro de 2020

TRIBUTO A UM GIGANTE DA LUTA PARA A AFIRMAÇÃO DA CONSCIÊNCIA NEGRA

 "Tem a postura da estátua da Liberdade
e a altura do Empire State.
Salve, Cassius Marcellus Clay!
Soul brother, soul boxeur, soul man"
(Jorge Ben)
Eu tinha 13 anos e, talvez por ser de família kardecista, jamais vira sentido nenhum no racismo. Considerava todos os seres humanos iguais, dava-me bem com os colegas negros da escola e da turminha da rua, mas nunca me preocupara muito com os preconceitos; apenas discordava deles.

Aí, em fevereiro do ano maldito de 1964, a luta tipo Davi contra Golias, entre um jovem e atrevido pugilista negro e um brutamontes ex-presidiário me atraiu a atenção. Fiquei chocado ao saber que racistas dos EUA torciam para que o também negro Sonny Liston calasse a boca de Cassius Clay para sempre. 

Desejei sua vitória, mas acreditando que o campeão demolidor o destruiria. Para minha surpresa, ele fez valer a inteligência e a arte contra a força bruta, conquistando o título dos pesos-pesados e confirmando-o na revanche. Fiquei tão eufórico que passei a acompanhar as notícias sobre ele e a torcer por suas vitórias nos ringues e na vida.

Daí estar homenageando-o neste Dia da Consciência Negra. Pois, se adiante vim a admirar mais negros da política, dos esportes e das artes, ele foi o primeiro e tão extraordinário na sua época quanto Lewis Hamilton –outro cujas humilhações que impõe aos racistas me lavam a alma– está sendo agora. (por Celso Lungaretti)
.
SUA GRANDE LUTA FOI CONTRA O
 SISTEMA. E ELE VENCEU POR NOCAUTE!
.
Cassius Clay, que mudou seu nome para Muhammad Ali ao se converter ao islamismo em 6 de março de 1964, duas semanas após ter conquistado pela primeira vez o título mundial, simplesmente revolucionou o boxe peso-pesado, antes dominado por grandalhões fortes mas lentos. 

Bem mais ágil do que os adversários, baseava sua defesa antes na rapidez com que se movimentava no ringue do que na guarda. Chegava a usar as mãos apenas para golpear, batendo e saindo sem ser atingido. E levava os racistas ao paroxismo da indignação, ao proclamar-se forte, ágil e bonito.

Era um negro orgulhoso de ser negro, algo inimaginável naqueles tempos em que os negros conheciam o seu lugar  e aceitavam passivamente sentar-se em locais separados nos transportes, nos restaurantes, nos cinemas, etc.

Falastrão, ele chegava também a ofender seus adversários, como Sonny Liston, o primeiro homem mau do boxe que Ali humilhou nas declarações prévias e depois detonou no ringue, por nocaute técnico no 7º assalto e por nocaute-relâmpago aos 2:12 da revanche.

Num excelente documentário de Dimitri Logothetis, Champions forever (1989), os aposentados Ali, George Foreman, Joe Frazier, Ken Norton e Larry Holmes trocaram ideias sobre os duelos de gigantes que travaram. Os outros quatro mostraram muito carinho por Ali e reconheceram que suas declarações bombásticas para promover as lutas multiplicaram várias vezes o valor das bolsas que recebiam, daí não lhe terem guardado ressentimentos.
.
"VIETCONG NENHUM ME CHAMA DE NIGGER"
.
Suas esquivas colocavam o rival em ridículo
Ali perdeu o cinturão, muita grana e alguns dos melhores anos da carreira de um pugilista por recusar-se a coonestar a agressão estadunidense ao povo vietnamita –atitude que justificou com argumentos religiosos, mas cujo motivo maior ficou evidenciado na frase Vietcong nenhum me chama de  nigger  [pejorativo muito usado pelos racistas dos EUA].

Preconceituosos e/ou direitistas de lá lhe atribuíram covardia, mas o Exército jamais se arriscaria a deixá-lo ao alcance do fogo inimigo; caso fosse atingido, o efeito moral seria devastador. Os militares, na verdade, lhe garantiram que apenas serviria como relações-públicas do esforço guerreiro, seguindo as pegadas do ator Bob Hope.

Ali preferiu ficar sem o título, sem os muitos milhões de dólares que teria ganhado, sem o direito de exercer sua profissão –em razão da inacreditável pena de suspensão por tempo indeterminado que recebeu da máfia do pugilismo. O que, afinal, tinha a ver o título de campeão do mundo com a recusa em envergar a farda dos EUA?

Para sobreviver, chegou a dar palestras em faculdades, encantando os estudantes com sua grandeza moral e sua inteligência aguda. 
.
Documentário do History Chanell, já no fim de vida de Ali
.
Certa vez lhe pediram que, de bate-pronto, compusesse um poema. Não negou fogo. Fez um de apenas duas palavras: Eu. Nós. 

O minimalismo extremo –alguém imaginaria que ele fosse capaz de criar algo assim?
.
UM DAVI VETERANO CONTRA UM JOVEM GOLIAS
.
Depois de perder seu título e passar três anos e meio fora dos ringues, Ali voltou e, já na terceira luta, tentou reconquistar o cetro.

Pareceu não ter-se dado conta de que a vantagem sobre os adversários diminuíra (haviam assimilado suas inovações) e até de que estava despreparado para a maratona de 15 assaltos.

Vinha melhor, mas foi derrubado por Frazier no último round. A vantagem por pontos que acumulara, aparentemente, ainda lhe garantiria a vitória, mas os jurados assim não entenderam.

Depois, sem título em disputa, travaram nova luta equilibradíssima e a vitória por pontos –também muito contestada– foi conferida a Ali.

Ele recuperou o cinturão ao vencer Foreman na maior luta de boxe de todos os tempos e de todas as categorias [imortalizada nos excelentes livro de Norman Mailer (A Luta, 1975) e documentário de Leon Gast (Quando éramos reis, 1996)].

Já com 32 anos, teve de enfrentar um campeão jovem e poderosíssimo, que acabara de simplesmente massacrar Joe Frazier, mandando-o à lona seis vezes em dois rounds.

A apreensão generalizada era de que Ali, além de derrotado, saísse morto do ringue, pois seu amor-próprio o impediria de desistir, fosse qual fosse a intensidade do castigo recebido.

Mas, ele tirou coelho da cartola. Todos lembram de sua técnica refinadíssima, mas Ali era muito mais do que isto. Tinha dons de grande estrategista, como se combinasse os papéis de pugilista e de técnico.
A direita erguida deixara de golpear Foreman
Foi assim que ele venceu o invencível  Big George. Boxeando francamente contra ele no primeiro assalto, percebeu que jamais conseguiria a vitória lutando de igual para igual. A força descomunal do lutador mais jovem prevaleceria.

Então, adotou a postura que qualquer pugilista comum consideraria suicida diante da enorme potência dos golpes de Foreman: deixou-se ficar encostado nas cordas, recebendo o bombardeio e aparando-o com sua guarda.

Alguns obuses atingiam o alvo de raspão, outros se chocavam com os braços de Ali. Nenhum o abalou suficientemente. E Foreman, acostumado a nocautes rápidos, foi se cansando.

No quinto assalto, o Ali aparentemente apático, que só se defendia, mostrou que era, isto sim, um tigre se preparando para dar o bote: com um contra-ataque fulminante, quase nocauteou Foreman.

Depois de dois rounds letárgicos, foi o que acabou acontecendo no oitavo assalto. Ali novamente surpreendeu Foreman e, com uma sequência de golpes cuja rapidez era inimaginável àquela altura de uma luta tão exaustiva, metralhou a cabeça do oponente até fazer aquele gigante desabar em câmara lenta no ringue.

Ali x Foreman: eis a luta do século, na íntegra.

A coragem que deu a vitória a Ali nessa luta foi a mesma que o manteve no ringue até o fim de uma luta na qual teve seu maxilar fraturado no 2º round por Ken Norton.

O castigo que recebeu de Foreman foi tão terrível que, depois da vitória consumada, ele teve um breve desmaio durante as comemorações. Até então, entretanto, a adrenalina o mantivera em pé.
.
CAVALHEIRISMO RARO NUM BOXEADOR
.
Joe Frazier sofreu duro castigo
Na sequência, colocou o título em jogo no tira-teima contra Frazier.

Tinha todos os motivos para impor derrota contundente ao rival e, assim, não deixar dúvidas de sua superioridade, depois das decisões polêmicas nas duas lutas anteriores.

No 14º assalto, esteve com Frazier à sua mercê, grogue, praticamente nocauteado em pé. Mas, ao invés de desfechar o golpe de misericórdia, pediu insistentemente ao juiz que interrompesse a luta.

Como não foi atendido, evitou bater pesado até o gongo soar. [Atitude semelhante à que teve ao nocautear Foreman: armou um soco mas, ao perceber que o cambaleante adversário cairia de qualquer jeito, não o desferiu, mostrando um autocontrole raríssimo em pugilistas.]

Os segundos decidiram que Frazier não tinha condições para disputar o 15º e último round. Vitória de Ali por abandono.

A caminho do vestiário, ele cruzou com o filho de Frazier e prestou tributo ao grande adversário: Seu pai foi o homem mais valente que eu já enfrentei.

Estava certo. Na foto publicada pelos jornais do dia seguinte, o rosto do pobre Joe estava assustador, de tão marcado pelos golpes de Ali.

Ótimo documentário sobre o boxe e seu maior campeão

Deveria ter parado então, no auge da glória e sem sequelas. Insistiu em permanecer nos ringues e acabou sofrendo castigos desnecessários que, provavelmente, lhe causaram ou agravaram o mal de parkinson. Escolhido como O desportista do século em 1999 pela influente revista The Sport Ilustrated, Ali morreu em junho de 2016, aos 74 anos, após lutar durante os últimos 32 contra a moléstia.

A melhor frase sobre ele foi a de Foreman, no documentário de Logothetis. Indagado se Ali tinha sido o maior peso-pesado de todos os tempos, Foreman esquivou-se de compará-lo com o igualmente superlativo Joe Louis. E ponderou:
"Não sei quem foi o maior de todos, mas, certamente, Ali foi o melhor cidadão que já lutou boxe peso-pesado".

Foi comovente o tributo de Jorge Ben a Muhammad Ali

quinta-feira, 15 de agosto de 2019

DICAS DE LIVROS E FILMES PARA SE CONHECER MELHOR A GERAÇÃO 68

Eu já considerava suficiente o registro cá no blog do 50º aniversário do festival de Woodstock com o  post de anteontem quando o Hebert, um de nossos comentaristas habituais, pediu:
"Gostaria de ver uma crônica mais detalhada sobre contracultura, há quem diga que a nossa em um determinado período do país, a nossa arte pop, foi mais rica e diversificada, também gostaria ler mais sobre dicas de filme".
Minha resposta ao Hebert acabou reunindo informações complementares que podem ser interessantes para as novas gerações, então vale a pena reproduzi-la aqui.
.
"COM UM POUCO DE PACIÊNCIA, DÁ PARA BAIXAR TODOS OS FILMES E MONTES DE VÍDEOS MUSICAIS"
Não sou dos que ficam relendo eternamente livros sobre o passado que vivi, então seria difícil para eu indicar em quais você poderia obter informações sobre tudo aquilo hoje e agora. 

Do que me lembro, os melhores artigos sobre a contracultura que li de autor brasileiro eram os do Luiz Carlos Maciel no Pasquim (ele tinha uma coluna underground fixa). Seu livro de 1987, ANOS 60, deve dar uma boa ideia do que ele escrevia então e era tão novo e fascinante para nós, brasileiros (hoje, evidentemente, nem tanto). E as próprias edições antigas do Pasquim já foram lançadas em forma de antologia, vale a pena dar uma olhada. 

Um retrato incrível da contestação jovem estadunidense é OS DEGRAUS DO PENTÁGONO (também chamado de OS EXÉRCITOS DA NOITE), do Norman Mailer, sobre uma grande manifestação contra o complexo industrial-militar que rolou durante o dia e foi duramente reprimida na madrugada, quando a maioria dos manifestantes já tinha ido embora. 
Mailer era um extraordinário narrador de episódios dos quais participara pessoalmente (chegou até a ser preso junto com os estudantes naquela ocasião).

Em termos teóricos, os livros que mais influenciaram a geração 68 foram A IDEOLOGIA DA SOCIEDADE INDUSTRIAL e EROS E CIVILIZAÇÃO, do Marcuse. Eu considero imperdível o VIDA CONTRA MORTE, do Norman O. Brown (dica do Maciel no Pasquim, ele traduziu e reproduziu os principais capítulos antes de o livro ser lançado por aqui), mas poucos conheciam. Reich e Jung eram outros muito lidos pelo pessoal.
Os filmes essenciais são o do festival de Woodstock (há uma versão estendida bem mais longa que a dos cinemas, eu baixei na internet), o MONTEREY POP (sobre um festival que foi uma espécie de trailer de Woodstock), o GIMME SHELTER (dos Rolling Stones), o JOE COCKER, MAD DOGS & ENGLISHMEN (o título nos cinemas daqui foi um horror: JOE COCKER E O GRUPO DA PESADA) e o FESTIVAL DA ILHA DE WIGHT de 1970. Há também os documentários musicais sobre a Janis Joplin, Jimi Hendrix, The Doors e outros.

Já dentre os alusivos àquele momento e suas consequências, o principal é o EASY RIDER, ou SEM DESTINO (dirigido pelo Dennis Hopper, 1969) Foram WOODSTOCK (d. Michael Wadleigh, 1970) e EASY RIDER que apresentaram a novidade ao público brasileiro, todo o resto veio na esteira.
São muitos, eu recomendaria especialmente CORRIDA CONTRA O DESTINO ("Vanishing Point", d. Richard C. Sarafian, 1971), M.A.S.H. (idem, d. Robert Altman, 1970), À PROCURA DA VERDADE ("Getting Straight", d. Richard Rush, 1970), VOAR É COM OS PÁSSAROS ("Brewster McCloud", d. Robert Altman, 1970) e CADA UM VIVE COMO QUER ("Five Easy Pieces", d. Bob Rafelson, 1970). 

E as melhores abordagens cinematográficas das óperas-rock tão características daquele período são JESUS CHRIST SUPERSTAR (d. Norman Jewison, 1973), TOMMY (d. Ken Russell, 1975) e HAIR (d. Milos Forman, 1979). 
Com um pouco de paciência, dá para baixar todos os filmes citados e montes de vídeos musicais da internet. (por Celso Lungaretti)

segunda-feira, 3 de julho de 2017

"ORDEM E PROGRESSO"? UM LEMA MAIS APROPRIADO PARA O BRASIL SERIA "DEIXA COMO ESTÁ PRA VER COMO É QUE FICA"...

Toque do Lungaretti
Segundo o Dicionário de Comunicação do Carlos Alberto Rabaça, tijolo, tijolaço ou catatau é um "bloco de texto em composição compacta e pesada, sem claros nem ilustrações". Sempre os detestei, porque torna difícil a leitura; você vai atender o telefone ou fazer xixi e, ao retomar, tem uma dificuldade danada para encontrar o trecho no qual parou.

Certa vez cai na besteira de acreditar numa crítica de jornal elogiosa e comprei um livro do espanhol Juan Goytisolo (que o sebo o tenha!). Era um parágrafo gigantesco, não me lembro se pelo menos dividido em capítulos ou nem isto. O certo é que lá pela décima página já estava bocejando... 

E, embora nos meus primeiros tempos de jornalismo gostasse de testar fórmulas de autores da minha predileção (como os relatos de Norman Mailer em que ele se coloca também como personagem do acontecimento enfocado, fosse uma manifestação contra a guerra do Vietnã ou a luta do século entre Ali e Foreman), jamais tive curiosidade de ver como me sairia num tijolaço.

Tanto tempo se passou, minha trajetória como jornalista profissional terminou e eis que, nesta 2ª feira (3), tive paciência para ler até o fim o tijolaço do Gregorio Duvivier publicado na Folha de S. Paulo, Esse país que detesta mudança muito brusca. E não é que gostei?! 
Duvivier: sem mudança brusca.

Evidentemente, o assunto ajuda, pois vem ao encontro de uma constatação que é minha também, sobre a índole resignada e submissa dos brasileiros, que me faz morrer de inveja dos pueblos hermanos de nuestra America, bem mais rebeldes do que nós (vide, p. ex., este artigo que nem me lembro mais de quando escrevi, tendo-o várias vezes republicado nos feriados de 21 de abril). 

O certo é que, para minha surpresa, constatei que a arquitetura do texto do Duvivier não atrapalhou, foi até coerente com o conteúdo. Vivendo e aprendendo. 

Mas, fica a ressalva: o que é aceitável numa crônica não o é necessariamente num livro. Ou seja, não darei uma segunda chance ao Goytisolo.

Leiam e avaliem.
.
Aécio não foi preso porque essa coisa de começar a prender senador seria uma mudança muito brusca, e Temer não deve cair pela mesma razão, e provavelmente não vamos ter eleições diretas, porque seria uma mudança brusca, e no Brasil não costuma acontecer nenhuma mudança brusca, mas se por acaso o Temer cair, o governo já prometeu que vai assumir alguém igual ao Temer, vai ser uma espécie de governo Temer sem Temer, porque o Brasil não gosta muito de mudança brusca, e o próprio Temer não foi uma mudança tão brusca porque o Temer já era vice da Dilma, sim, Temer foi o primeiro vice da história a tramar um impeachment que empossou ele mesmo, sim, eu sei que é estranho, é um pouco como você receber a herança de um parente que você matou, mas, desde então, Temer tem conseguido ser mais impopular que Dilma, que já era bem impopular, e pra explicar como ela foi eleita tem que voltar mais um pouco, porque as pessoas queriam que o governo Lula continuasse igualzinho, e não tivesse nenhuma mudança brusca, e Lula já não podia continuar porque já tava lá há oito anos, e só foi eleito na época porque tinha prometido que não ia ter nenhuma mudança brusca em relação ao governo Fernando Henrique, que já não podia ser reeleito porque já tava lá há oito anos, e só foi eleito porque tinha sido ministro no governo anterior, do Itamar,  que  ninguém  gostava  muito,  mas  o 
outro candidato era o Lula, e aquilo seria uma mudança brusca, e Itamar só assumiu porque era vice do Collor, que as pessoas só elegeram porque tinham medo que o Lula fizesse alguma mudança brusca, e mesmo que elas odiassem o Sarney ninguém queria uma mudança muito brusca, e antes do Sarney a ditadura só tinha acabado porque todo o mundo se comprometeu a não prender nenhum general e nenhum torturador, não, nenhum torturador foi preso no Brasil, e eram muitos, mas prender torturador seria uma mudança muito brusca, e todo o mundo queria o fim da ditadura, mas ninguém queria uma mudança brusca, mesmo que tudo estivesse uma bosta, e o golpe de 64 só aconteceu porque o Jango tava ameaçando fazer uma mudança brusca, quer dizer, na verdade nem chegou a ameaçar, mas o pessoal sentiu cheiro de mudança brusca, e tudo foi uma grande continuidade, e já não sei se alguma vez na nossa história houve uma mudança brusca, se você for ver os últimos 500 anos do Brasil foram um grande medo de mudança brusca, ou seja, por aqui, pode ter certeza de que nada de realmente novo vai acontecer por um bom tempo, tem muita gente trabalhando intensamente pra isso, por aqui mudam-se os tempos, mudam-se as vontades —mas, como diz o poeta, devagar, devagar, devagarinho. 

segunda-feira, 6 de outubro de 2014

MARINA NA HORA DA VERDADE: QUE POSIÇÃO DEVE ASSUMIR NO 2º TURNO?

"Política é propriedade", definiu o escritor Norman Mailer. Os profissionais deste ofício acumulam um certo capital e, mesmo nos reveses, tentam fazê-lo crescer.

No caso presente, o da candidata derrotada Marina Silva, a moeda usual pela qual poderá trocar seu acervo de votos e as declarações de amor eterno a um(a) dos finalistas, seria(m) ministério(s) para si ou para seu partido no eventual governo daquele com quem fechar o acordo.

Ocorre que Aécio Neves representa o inimigo de classe, como ela aprendeu ou deveria ter aprendido durante as mais de duas décadas de militância no PT. Talvez sua educação haja sido negligenciada, afinal oPTou no ano de 1985, quando o partido já iniciara a faina de expurgar tendências de esquerda e abandonar, uma a uma, as bandeiras mais consequentes do passado. 

Aqui cabe uma recapitulação. Em 1982, ainda sob a ditadura militar, o PT disputou suas primeiras eleições (concorrendo aos cargos de governador, senador, deputado federal e estadual). A propaganda eleitoral gratuita era regida pela Lei Falcão, que dava ao partido o direito de expor apenas as fotos dos candidatos, enquanto um locutor lia os respectivos currículos.

Como parte significativa dos seus candidatos participara da resistência à ditadura, o PT, dignamente, incluiu nesses currículos a informação de que haviam sido presos políticos.

Ora, quem tem formas de comunicar-se em massa sempre pode propagar invencionices e quase sempre tais falácias colam, pois um traço perverso da mentalidade do homem comum brasileiro é acreditar piamente no que se fala de mau sobre outrem, sem exigir prova nenhuma.

P. ex., se caluniadores imundos lançarem o boato de que uma respeitável educadora exerce atividade parasitária e vil, martelando-a incessantemente como recomendava Goebbels, muitos idiotas sairão repetindo como papagaios esta mentira deslavada.

Vai daí que a direita passou a desqualificar os candidatos petistas com zombarias do tipo "eles não têm currículos, têm prontuários policiais". E, então como agora, se os caluniados não dispõem de uma rede equivalente para restabelecerem o primado da verdade, são esmagados pelos rolos compressores que, a partir do impulso inicial dado por raposões, vão sendo engrossados cada vez mais pelos crédulos (que engolem qualquer patranha) e pelos despersonalizados (que nunca ousam se colocarem contra a maioria).

É outro traço bem brasileiro: diante de um linchamento, a grande maioria toma o partido dos linchadores.

Os resultados pífios obtidos na sua estréia eleitoral apavoraram os grãos petistas. A palavra-de-ordem passou a ser respeitabilidade a qualquer preço! Inclusive quando o preço era deixar militantes entregues às feras direitistas, sendo retaliados e quase assassinados, como ocorreu no episódio dos quatro de Salvador, que relato aqui.

Reatando o fio da meada, faz sentido que uma ex-seringueira, ex-doméstica e ex-analfabeta, entrando aos 27 anos num partido que cada vez mais se afastava dos ideais revolucionários e provavelmente não estaria ensinando nem sequer o bê-a-bá do marxismo aos ingressantes, mostre até hoje pouca familiaridade com o equacionamento dessas questões em termos de classes sociais.

Afinal, até uma ex-guerrilheira diz coisas que tirariam Marx do sério, como o auto-elogio por haver ajudado a criar uma nova classe média.

O velho barbudo queria é livrar a humanidade das divisões artificiais que só servem para perpetuar a desigualdade; a visão que tinha dos que oscilavam entre a burguesia e o proletariado era a mais depreciativa possível; e, como papa da economia política, ele riria na cara de quem ousasse sustentar que um coitadeza,  tendo como renda mensal uma merreca tipo R$ 291, pertenceria à classe média...

Mas, presume-se que de ambientalismo a Marina entenda. Como poderia associar-se ao representante de uma das burguesias mais selvagens e destruidoras do patrimônio natural que existem no mundo?! Apoiar Aécio, no caso dela, é inadmissível!

Há, contudo, um pequeno problema com relação à opção contrária. Marina saiu do PT exatamente porque sua adversária no Ministério, Dilma Rousseff, conseguiu impor no Governo Lula a diretriz do crescimento econômico sem freios, passando como um trator sobre suas bandeiras ecológicas.

E, na atual campanha sucessória, Dilma aprovou e aplaudiu a sua satanização, acumpliciando-se e sendo beneficiária de um dos capítulos mais deploráveis da história da esquerda brasileira.

Então, espero que Marina tenha a grandeza de portar-se como verdadeira arauta de uma nova política, abdicando dos dividendos que a velha política lhe permitiria extrair do capital acumulado nas urnas. Caso contrário, os perspicazes imediatamente saberão que eram palavras ao vento; e os demais, aos poucos, irão chegando à mesma conclusão. 

A coerência manda, portanto, que Marina se declare neutra e libere os seus seguidores para votarem em quem quiserem.

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

INTOLERÂNCIA

Tenho convicções formadas há tanto tempo que perdi de vista o caminho percorrido para chegar até elas.

Mas hoje, após escrever sobre a estapafúrdia decapitação, em pleno século 21, de uma pobre coitada acusada de bruxaria na Arábia Saudita, ocorreu-me refletir sobre por que me causa tanta irritação a intolerância religiosa. E acabei recordando algo que estava num canto empoeirado do baú da memória.

Tenho um primo com grave defeito de nascença, que foi obrigado a passar por várias cirurgias nos primeiros anos de vida.

E, por falta de melhores condições financeiras, a família recorreu à Santa Casa de Misericórdia, na capital paulista.

Uma freira nada misericordiosa lhe perguntou a religião. E, quando meu primo respondeu que era espírita (kardecista), correu a alvoroçar as demais.

Como consequência, ele passou a receber tratamento ríspido e a ser ridicularizado. Chamavam-no de  endemoniado.

Seu relato me chocou. E, quando comecei a cursar o primário, não titubeei diante da indagação da professora, que perguntou à classe se havia alguém preferindo ficar no pátio do que assistir ao catecismo. Eu e mais dois escolhemos o pátio. Havia outros que não eram católicos, mas fraquejaram.

A servente que tomava conta de nós enquanto fazia outras coisas, provavelmente era da mesma estirpe da freira inquisidora: impunha, aos berros, que nem sequer conversássemos, permanecendo apenas encostados na parede sem fazer nada.

Eu me consolava com o pensamento de que bem pior fora tratado meu primo, numa idade inferior à minha (sete anos). E, por solidariedade ou teimosia, perseverei: passei 1958 inteiro descendo ao pátio uma vez por semana para não fazer nada e ser intimidado pela gritaria da servente.

Norman Mailer escreveu, em Os exércitos da noite, sobre esses momentos em que fazemos travessias positivas ou negativas.

Hoje percebo que, ao não arredar pé da opção assumida (vale registrar que os dois colegas também se mantiveram firmes), moldei um padrão para o resto da vida: jamais abdicaria de agir conforme minha consciência ordenava em função de conveniências ou de pressões morais.
Related Posts with Thumbnails