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sexta-feira, 20 de novembro de 2020

TRIBUTO A UM GIGANTE DA LUTA PARA A AFIRMAÇÃO DA CONSCIÊNCIA NEGRA

 "Tem a postura da estátua da Liberdade
e a altura do Empire State.
Salve, Cassius Marcellus Clay!
Soul brother, soul boxeur, soul man"
(Jorge Ben)
Eu tinha 13 anos e, talvez por ser de família kardecista, jamais vira sentido nenhum no racismo. Considerava todos os seres humanos iguais, dava-me bem com os colegas negros da escola e da turminha da rua, mas nunca me preocupara muito com os preconceitos; apenas discordava deles.

Aí, em fevereiro do ano maldito de 1964, a luta tipo Davi contra Golias, entre um jovem e atrevido pugilista negro e um brutamontes ex-presidiário me atraiu a atenção. Fiquei chocado ao saber que racistas dos EUA torciam para que o também negro Sonny Liston calasse a boca de Cassius Clay para sempre. 

Desejei sua vitória, mas acreditando que o campeão demolidor o destruiria. Para minha surpresa, ele fez valer a inteligência e a arte contra a força bruta, conquistando o título dos pesos-pesados e confirmando-o na revanche. Fiquei tão eufórico que passei a acompanhar as notícias sobre ele e a torcer por suas vitórias nos ringues e na vida.

Daí estar homenageando-o neste Dia da Consciência Negra. Pois, se adiante vim a admirar mais negros da política, dos esportes e das artes, ele foi o primeiro e tão extraordinário na sua época quanto Lewis Hamilton –outro cujas humilhações que impõe aos racistas me lavam a alma– está sendo agora. (por Celso Lungaretti)
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SUA GRANDE LUTA FOI CONTRA O
 SISTEMA. E ELE VENCEU POR NOCAUTE!
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Cassius Clay, que mudou seu nome para Muhammad Ali ao se converter ao islamismo em 6 de março de 1964, duas semanas após ter conquistado pela primeira vez o título mundial, simplesmente revolucionou o boxe peso-pesado, antes dominado por grandalhões fortes mas lentos. 

Bem mais ágil do que os adversários, baseava sua defesa antes na rapidez com que se movimentava no ringue do que na guarda. Chegava a usar as mãos apenas para golpear, batendo e saindo sem ser atingido. E levava os racistas ao paroxismo da indignação, ao proclamar-se forte, ágil e bonito.

Era um negro orgulhoso de ser negro, algo inimaginável naqueles tempos em que os negros conheciam o seu lugar  e aceitavam passivamente sentar-se em locais separados nos transportes, nos restaurantes, nos cinemas, etc.

Falastrão, ele chegava também a ofender seus adversários, como Sonny Liston, o primeiro homem mau do boxe que Ali humilhou nas declarações prévias e depois detonou no ringue, por nocaute técnico no 7º assalto e por nocaute-relâmpago aos 2:12 da revanche.

Num excelente documentário de Dimitri Logothetis, Champions forever (1989), os aposentados Ali, George Foreman, Joe Frazier, Ken Norton e Larry Holmes trocaram ideias sobre os duelos de gigantes que travaram. Os outros quatro mostraram muito carinho por Ali e reconheceram que suas declarações bombásticas para promover as lutas multiplicaram várias vezes o valor das bolsas que recebiam, daí não lhe terem guardado ressentimentos.
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"VIETCONG NENHUM ME CHAMA DE NIGGER"
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Suas esquivas colocavam o rival em ridículo
Ali perdeu o cinturão, muita grana e alguns dos melhores anos da carreira de um pugilista por recusar-se a coonestar a agressão estadunidense ao povo vietnamita –atitude que justificou com argumentos religiosos, mas cujo motivo maior ficou evidenciado na frase Vietcong nenhum me chama de  nigger  [pejorativo muito usado pelos racistas dos EUA].

Preconceituosos e/ou direitistas de lá lhe atribuíram covardia, mas o Exército jamais se arriscaria a deixá-lo ao alcance do fogo inimigo; caso fosse atingido, o efeito moral seria devastador. Os militares, na verdade, lhe garantiram que apenas serviria como relações-públicas do esforço guerreiro, seguindo as pegadas do ator Bob Hope.

Ali preferiu ficar sem o título, sem os muitos milhões de dólares que teria ganhado, sem o direito de exercer sua profissão –em razão da inacreditável pena de suspensão por tempo indeterminado que recebeu da máfia do pugilismo. O que, afinal, tinha a ver o título de campeão do mundo com a recusa em envergar a farda dos EUA?

Para sobreviver, chegou a dar palestras em faculdades, encantando os estudantes com sua grandeza moral e sua inteligência aguda. 
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Documentário do History Chanell, já no fim de vida de Ali
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Certa vez lhe pediram que, de bate-pronto, compusesse um poema. Não negou fogo. Fez um de apenas duas palavras: Eu. Nós. 

O minimalismo extremo –alguém imaginaria que ele fosse capaz de criar algo assim?
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UM DAVI VETERANO CONTRA UM JOVEM GOLIAS
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Depois de perder seu título e passar três anos e meio fora dos ringues, Ali voltou e, já na terceira luta, tentou reconquistar o cetro.

Pareceu não ter-se dado conta de que a vantagem sobre os adversários diminuíra (haviam assimilado suas inovações) e até de que estava despreparado para a maratona de 15 assaltos.

Vinha melhor, mas foi derrubado por Frazier no último round. A vantagem por pontos que acumulara, aparentemente, ainda lhe garantiria a vitória, mas os jurados assim não entenderam.

Depois, sem título em disputa, travaram nova luta equilibradíssima e a vitória por pontos –também muito contestada– foi conferida a Ali.

Ele recuperou o cinturão ao vencer Foreman na maior luta de boxe de todos os tempos e de todas as categorias [imortalizada nos excelentes livro de Norman Mailer (A Luta, 1975) e documentário de Leon Gast (Quando éramos reis, 1996)].

Já com 32 anos, teve de enfrentar um campeão jovem e poderosíssimo, que acabara de simplesmente massacrar Joe Frazier, mandando-o à lona seis vezes em dois rounds.

A apreensão generalizada era de que Ali, além de derrotado, saísse morto do ringue, pois seu amor-próprio o impediria de desistir, fosse qual fosse a intensidade do castigo recebido.

Mas, ele tirou coelho da cartola. Todos lembram de sua técnica refinadíssima, mas Ali era muito mais do que isto. Tinha dons de grande estrategista, como se combinasse os papéis de pugilista e de técnico.
A direita erguida deixara de golpear Foreman
Foi assim que ele venceu o invencível  Big George. Boxeando francamente contra ele no primeiro assalto, percebeu que jamais conseguiria a vitória lutando de igual para igual. A força descomunal do lutador mais jovem prevaleceria.

Então, adotou a postura que qualquer pugilista comum consideraria suicida diante da enorme potência dos golpes de Foreman: deixou-se ficar encostado nas cordas, recebendo o bombardeio e aparando-o com sua guarda.

Alguns obuses atingiam o alvo de raspão, outros se chocavam com os braços de Ali. Nenhum o abalou suficientemente. E Foreman, acostumado a nocautes rápidos, foi se cansando.

No quinto assalto, o Ali aparentemente apático, que só se defendia, mostrou que era, isto sim, um tigre se preparando para dar o bote: com um contra-ataque fulminante, quase nocauteou Foreman.

Depois de dois rounds letárgicos, foi o que acabou acontecendo no oitavo assalto. Ali novamente surpreendeu Foreman e, com uma sequência de golpes cuja rapidez era inimaginável àquela altura de uma luta tão exaustiva, metralhou a cabeça do oponente até fazer aquele gigante desabar em câmara lenta no ringue.

Ali x Foreman: eis a luta do século, na íntegra.

A coragem que deu a vitória a Ali nessa luta foi a mesma que o manteve no ringue até o fim de uma luta na qual teve seu maxilar fraturado no 2º round por Ken Norton.

O castigo que recebeu de Foreman foi tão terrível que, depois da vitória consumada, ele teve um breve desmaio durante as comemorações. Até então, entretanto, a adrenalina o mantivera em pé.
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CAVALHEIRISMO RARO NUM BOXEADOR
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Joe Frazier sofreu duro castigo
Na sequência, colocou o título em jogo no tira-teima contra Frazier.

Tinha todos os motivos para impor derrota contundente ao rival e, assim, não deixar dúvidas de sua superioridade, depois das decisões polêmicas nas duas lutas anteriores.

No 14º assalto, esteve com Frazier à sua mercê, grogue, praticamente nocauteado em pé. Mas, ao invés de desfechar o golpe de misericórdia, pediu insistentemente ao juiz que interrompesse a luta.

Como não foi atendido, evitou bater pesado até o gongo soar. [Atitude semelhante à que teve ao nocautear Foreman: armou um soco mas, ao perceber que o cambaleante adversário cairia de qualquer jeito, não o desferiu, mostrando um autocontrole raríssimo em pugilistas.]

Os segundos decidiram que Frazier não tinha condições para disputar o 15º e último round. Vitória de Ali por abandono.

A caminho do vestiário, ele cruzou com o filho de Frazier e prestou tributo ao grande adversário: Seu pai foi o homem mais valente que eu já enfrentei.

Estava certo. Na foto publicada pelos jornais do dia seguinte, o rosto do pobre Joe estava assustador, de tão marcado pelos golpes de Ali.

Ótimo documentário sobre o boxe e seu maior campeão

Deveria ter parado então, no auge da glória e sem sequelas. Insistiu em permanecer nos ringues e acabou sofrendo castigos desnecessários que, provavelmente, lhe causaram ou agravaram o mal de parkinson. Escolhido como O desportista do século em 1999 pela influente revista The Sport Ilustrated, Ali morreu em junho de 2016, aos 74 anos, após lutar durante os últimos 32 contra a moléstia.

A melhor frase sobre ele foi a de Foreman, no documentário de Logothetis. Indagado se Ali tinha sido o maior peso-pesado de todos os tempos, Foreman esquivou-se de compará-lo com o igualmente superlativo Joe Louis. E ponderou:
"Não sei quem foi o maior de todos, mas, certamente, Ali foi o melhor cidadão que já lutou boxe peso-pesado".

Foi comovente o tributo de Jorge Ben a Muhammad Ali

segunda-feira, 14 de outubro de 2019

SÓ POSTEI ESTE VÍDEO PARA QUE NINGUÉM POSSA ALEGAR QUE IGNORAVA O QUÃO BESTIAIS SÃO AS RINHAS DE GENTE

Na janelinha abaixo você assiste a um crime hediondo.

A vítima é o boxeador Patrick Day, fulminado no 10º round de uma luta de super meio-médios estadunidenses, em Chicago.  Antes, ele já fora duas vezes à lona. A terceira o deixou em coma, com lesão cerebral gravíssima.

O vilão menor é o pugilista Charles Conwell, a quem nunca ofereceram chance melhor na vida e que poderia muito bem ser ele a estar no mesmo leito hospitalar de Chicago no qual seu adversário agoniza.

O vilão maior é um sistema que considera a destruição bestial de seres humanos um espetáculo como qualquer outro, cuja rentabilidade está aí para ser explorada. 

E o pior é sabermos que o sofrimento dos entes queridos de Patrick Day e sua quase inevitável morte serão em vão, pois as lutas de boxe e de artes marciais mistas continuarão deixando sua trilha de sangue e cruzes onde quer que sejam realizadas.
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Atualização: aconteceu aquilo de que ninguém duvidava após assistir ao vídeo abaixo: Patrick Day morreu neste 4ª feira, 16, vítima da ganância capitalista e da desumanidade dos que prestigiam tais pancadarias. Tinha 27 anos.

terça-feira, 28 de junho de 2016

TÊNIS TAMBÉM TEM SEU 'HOMEM CINDERELA'. O DO BOXE RENDEU ATÉ FILME.

Federer encarou com simpatia a perspectiva...  
Nesta 4ª feira (29), na 2ª rodada do torneio de Wimbledon, o maior tenista de todos os tempos vai enfrentar um azarão que ocupa a 772ª posição no ranking da ATP.

Roger Federer, ainda competitivo aos 34 anos, faz mais uma tentativa de conquistar seu ambicionado 18º slam. Seria uma extraordinária façanha para um jogador tão veterano, que ora enfrenta não apenas a geração posterior à sua, mas também a seguinte. Algo assim como um vovô duelando de igual para igual nas quadras com seus filhos e netos. 

Mesmo assim, as atenções estão todas voltadas para seu adversário, o britânico Marcus Willis, por conta de este possuir "uma das melhores histórias em muito tempo no nosso esporte", conforme destacou o próprio Federer.
...de enfrentar Willis e sua admirável história...

É que Willis, depois de atingir um promissor 15º lugar no ranking mundial de juniores, viu sua carreira estagnar e, aos 25 anos, já se dispunha a trocar a raquete pela prancheta de treinador. A namorada o convenceu a fazer uma última tentativa em Wimbledon e, surpreendentemente, ele superou os três adversários da pré-qualificação, mais os outros três da qualificação. 

Parecia já ter ido longe demais. No entanto, sobreviveu à partida inicial de Wimbledon, despachando por 6x3, 6x3 e 6x4 o 54º colocado do ranking, Ricardas Berankis.

Agora, mesmo que a carruagem vire abóbora ao se defrontar com Federer, terá sentido o gostinho de enfrentar uma lenda viva. Algo em que ninguém, nem mesmo ele próprio, apostaria há algumas semanas.
...que já provocou reações como esta.
É uma boa oportunidade para eu disponibilizar, na janelinha abaixo, mais um interessante filme para ver no blogue: A luta pela esperança (d. Ron Howard, 2005). Tem tudo a ver, só muda o esporte.

Mostra o ex-boxeador James Braddock (interpretado por Russell Crowe) encontrando muitas dificuldades para sustentar a família durante a Grande Depressão. Ele começara bem sua carreira, chegando a disputar o título mundial, mas foi aí que a sorte virou; perdeu por pontos de Tuffy Griffiths e, ainda por cima, fraturou a mão direita. 

A partir de então, acumulou 22 derrotas em 33 lutas. Abandonou os ringues e teve de resignar-se a trabalhos braçais como o de estivador.

De repente, a maré virou de novo. Um  aspirante ao título ficou sem adversário à véspera da última luta que precisava vencer para adquirir o direito de desafiar o campeão; e, temerosos, pugilistas mais adequados não o quiseram substituir (este episódio real foi a inspiração de Sylvester Stallone, quando ele escreveu o roteiro de Rocky, um lutador).
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Trechos da luta entre Braddock e Max Bauer...
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Em desespero de causa, até Braddock se tornou aceitável. Este concordou porque estava disposto a correr quaisquer riscos por dinheiro. E até tinha um novo trunfo: a dura labuta na estiva tornara poderosa sua mão esquerda, compensando a perda de potência na direita. 

Venceu uma, duas, três lutas. A imprensa o saudou como o homem Cinderela.  E o conto de fadas se completou com sua vitória sobre Max Bauer, tomando-lhe o cinturão dos peso-pesados.

Adiante o perderia para Joe Louis, mas consertou a vida para sempre. Inclusive lançou uma autobiografia que fez aumentar ainda mais sua popularidade, como exemplo edificante de homem que conseguiu dar a volta por cima, superando a adversidade.
...e o filme em que ela é o momento culminante.
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P.S. - O sonho de Willis terminou com a derrota por 6x0, 6x3 e 6x4 que Roger Federer lhe impôs em apenas 1h24. Depois, cavalheirescamente, consolou Willis, dizendo que ele jogara "como um Top 50". 

sábado, 4 de junho de 2016

MORRE MUHAMMAD ALI, O BOXEADOR QUE NÃO VENDEU SUA ALMA.

"Tem a postura da estátua da Liberdade
e a altura do Empire State.
Salve, Cassius Marcellus Clay!
Soul brother, soul boxeur, soul man"
(Jorge Ben)
Depois de longa luta contra o mal de Parkinson, morreu na madrugada deste sábado (4), aos 74 anos, o extraordinário Muhammad Ali. Os médicos deram problemas respiratórios como causa.

Ele simplesmente revolucionou o boxe peso-pesado, antes dominado por grandalhões fortes mas lentos. Bem mais ágil do que os adversários, baseava sua defesa antes na rapidez com que se movimentava no ringue do que na guarda. Chegava a usar as mãos apenas para golpear, batendo e saindo sem ser atingido.

E levava os racistas ao paroxismo da indignação, ao proclamar-se forte, ágil e bonito.

Era um negro orgulhoso de ser negro, algo inimaginável naqueles tempos em que os negros conheciam o seu lugar  e aceitavam passivamente sentar-se em locais separados nos ônibus, nos restaurantes, etc.

Falastrão, ele chegava também a ofender seus adversários, como Sonny Liston, o primeiro homem mau do boxe que Ali humilhou nas declarações prévias e depois demoliu no ringue, despojando-o do título com duas contundentes vitórias –por nocaute técnico no 7º assalto e por nocaute-relâmpago aos 2:12 da revanche.

Num excelente documentário de Dimitri Logothetis, Champions forever (1989), os aposentados Ali, George Foreman, Joe Frazier, Ken Norton e Larry Holmes trocaram ideias sobre os duelos de gigantes que travaram. Os outros quatro mostraram muito carinho por Ali e reconheceram que suas declarações bombásticas para promover as lutas multiplicaram várias vezes o valor das bolsas que recebiam, daí não lhe terem guardado ressentimentos.

"VIETCONG NENHUM ME CHAMA DE  NIGGER"

Suas esquivas colocavam o adversário em ridículo
Ali perdeu o cinturão, muita grana e alguns dos melhores anos da carreira de um pugilista por recusar-se a coonestar a agressão estadunidense ao povo vietnamita –atitude que justificou com argumentos religiosos, mas cujo motivo maior ficou evidenciado na frase "Vietcong nenhum me chama de  nigger  [pejorativo muito usado pelos racistas dos EUA]".

Preconceituosos e/ou direitistas de lá falaram em covardia, mas o Exército jamais se arriscaria a deixá-lo ao alcance do fogo inimigo; caso fosse atingido, o efeito moral seria devastador. Os militares lhe asseguraram que apenas serviria como relações-públicas do esforço guerreiro, seguindo as pegadas do ator Bob Hope.

Ali preferiu ficar sem o título, sem os muitos milhões de dólares que teria ganhado, sem o direito de exercer sua profissão –em razão da inacreditável pena de suspensão por tempo indeterminado que recebeu da máfia do pugilismo. O que, afinal, tinha a ver o título de campeão do mundo com a recusa em envergar a farda dos EUA?

Para sobreviver, chegou a dar palestras em faculdades, encantando os estudantes com sua grandeza moral e sua inteligência aguda. 

Certa vez lhe pediram que, de bate-pronto, compusesse um poema. Não negou fogo. Fez um de apenas duas palavras: "Eu. Nós." 

O minimalismo extremo --alguém imaginaria que ele fosse capaz de criar algo assim?
DAVI VETERANO x GOLIAS NO AUGE

Depois de perder seu título e passar três anos e meio fora dos ringues, Ali voltou e, já na terceira luta, tentou reconquistar o cetro.

Pareceu não ter-se dado conta de que a vantagem sobre os adversários diminuíra (haviam assimilado suas inovações) e até estar despreparado para a maratona de 15 assaltos.

Vinha melhor, mas foi derrubado por Frazier no último round. A vantagem por pontos que acumulara, aparentemente, ainda lhe garantiria a vitória, mas os jurados assim não entenderam.

Depois, sem título em disputa, travaram nova luta equilibradíssima e a vitória por pontos –também muito contestada– foi conferida a Ali.

Ele recuperou o cinturão ao vencer Foreman na maior luta de boxe de todos os tempos e de todas as categorias [imortalizada nos excelentes livro de Norman Mailer (A Luta,1975) e documentário de Leon Gast (Quando éramos reis, 1996)].

Já com 32 anos, teve de enfrentar um campeão jovem e poderosíssimo, que acabara de simplesmente massacrar Joe Frazier, mandando-o à lona seis vezes em dois rounds.

A apreensão generalizada era de que Ali, além de derrotado, saísse morto do ringue, pois seu amor-próprio o impediria de desistir, fosse qual fosse a intensidade do castigo recebido.

Mas, ele tirou coelho da cartola. Todos lembram de sua técnica refinadíssima, mas Ali era muito mais do que isto. Tinha dons de grande estrategista, como se combinasse os papéis de pugilista e de técnico.
A direita ainda erguida é a que deixara de golpear Foreman

Foi assim que ele venceu o invencível  Big George. Boxeando francamente contra ele no primeiro assalto, percebeu que jamais conseguiria a vitória lutando de igual para igual. A força descomunal do lutador mais jovem prevaleceria.

Então, adotou a postura que qualquer pugilista comum consideraria suicida diante da enorme potência dos golpes de Foreman: deixou-se ficar encostado nas cordas, recebendo o bombardeio e aparando-o com sua guarda.

Alguns obuses atingiam o alvo de raspão, outros se chocavam com os braços de Ali. Nenhum o abalou suficientemente. E Foreman, acostumado a nocautes rápidos, foi se cansando.

No quinto assalto, o Ali aparentemente apático, que só se defendia, mostrou que era, isto sim, um tigre se preparando para dar o bote: com um contra-ataque fulminante, quase nocauteou Foreman.

Depois de dois rounds letárgicos, foi o que acabou acontecendo no oitavo assalto. Ali novamente surpreendeu Foreman e, com uma sequência de golpes cuja rapidez era inimaginável àquela altura de uma luta tão exaustiva, metralhou a cabeça do oponente até fazer aquele gigante desabar em câmara lenta no ringue.

Ali x Foreman: eis a luta do século, na íntegra.

A coragem que deu a vitória a Ali nessa luta foi a mesma que o manteve no ringue até o fim de uma luta na qual teve seu maxilar fraturado no 2º round, por Ken Norton.

O castigo que recebeu de Foreman foi tão terrível que, depois da vitória consumada, ele teve um breve desmaio durante as comemorações. Até então, entretanto, a adrenalina o mantivera em pé.

CAVALHEIRISMO RARO NUM BOXEADOR

Joe Frazier: duro castigo.
Na sequência, colocou o título em jogo no tira-teima contra Frazier.

Tinha todos os motivos para impor derrota contundente ao rival e, assim, não deixar dúvidas de sua superioridade, depois das decisões polêmicas nas duas lutas anteriores.

No 14º assalto, esteve com Frazier à sua mercê, grogue, praticamente nocauteado em pé. Mas, ao invés de desfechar o golpe de misericórdia, pediu insistentemente ao juiz que interrompesse a luta.

Como não foi atendido, evitou bater pesado até o gongo soar. [Atitude semelhante à que teve ao nocautear Foreman: armou um soco mas, ao perceber que o cambaleante adversário cairia de qualquer jeito, não o desferiu, mostrando um autocontrole raríssimo em pugilistas.]

Os segundos decidiram que Frazier não tinha condições para disputar o 15º e último round. Vitória de Ali por abandono.

A caminho do vestiário, ele cruzou com o filho de Frazier e prestou tributo ao grande adversário: "Seu pai foi o homem mais valente que eu já enfrentei".

Estava certo. Na foto publicada pelos jornais do dia seguinte, o rosto do pobre Joe estava assustador, de tão marcado pelos golpes de Ali.

Ótimo documentário sobre o boxe e seu maior campeão

Deveria ter parado então, no auge da glória e sem sequelas. Insistiu em permanecer nos ringues e acabou sofrendo castigos desnecessários que, provavelmente, lhe causaram ou agravaram o mal de parkinson.

A melhor frase sobre ele foi a de Foreman, no documentário de Logothetis. Indagado se Ali tinha sido o maior peso-pesado de todos os tempos, Foreman esquivou-se de compará-lo com o igualmente superlativo Joe Louis. E ponderou:
"Não sei quem foi o maior de todos, mas, certamente, Ali foi o melhor cidadão que já lutou boxe peso-pesado".

Foi belo o tributo de Jorge Ben a Muhammad Ali

sexta-feira, 29 de junho de 2012

GRANDE CAMPEÃO ENSAIA UM MAGNÍFICO CANTO DO CISNE

Se alguns leitores deste blogue ficam escandalizados quando eu escrevo sobre o futebol, por eles tido como o  ópio do povo,  o que dirão ao encontrarem aqui algumas mal traçadas linhas sobre o  elitista  tênis?

Mas, nunca nego ou escondo minhas devoções e predileções. Jamais submeterei meus temas a triagens ideológicas,  submetendo-me a modismos e patrulhamentos.

Os pernósticos cricris que passam a vida procurando pêlo em ovo podem produzir verdadeiros tratados sobre a existência de implicações racistas na obra de Monteiro Lobato, que eu continuarei rindo na cara deles. 

Sou fiel ao primeiro autor a me estimular o espírito crítico, que fez uma obra grandiosa e,  last but not least, confrontou corajosamente os poderosos do seu tempo; não aos aprendizes de inquisidores que pensam ser de esquerda ao tentarem nos impor index.

Hoje é um dia em que não encontrei nada que me inspirasse em termos de  assuntos sérios. Gostaria de acreditar que ainda é possível fazer algo contra o golpe paraguaio, como os companheiros que articulam reuniões públicas, protestos e corrente virtuais, mas sei que o  impeachment-relâmpago  é fato consumado, só nos restando tomar precauções contra as viradas de mesa vindouras. Depois de Honduras não o fizemos e fomos surpreendidos pela segunda vez. Quantas mais?!

Enfim, apeteceu-me enfocar o tênis, apenas e tão somente porque Roger Federer tem no torneio de Wimbledon uma chance única, imperdível, de fechar sua trajetória com um canto do cisne magnífico.
* * *
Afora o futebol, único esporte coletivo que sempre me atraiu (a outros, como o vôlei e o basquete, eu só assisto nos grandes momentos), acompanhei com atenção o boxe e o xadrez, no passado; e até hoje me ligo no automobilismo e no tênis.

Refletindo um pouco sobre essas paixões, percebi que os quatro têm em comum colocarem o indivíduo diante de desafios extremos, andando no fio da navalha. São esportes em que só é grande quem alia uma vontade sobre-humana a um autocontrole inacessível aos comuns mortais.

No boxe, todos lembram a técnica refinadíssima de um Muhammad Ali, mas ele era muito mais do que isso. Tinha dons de grande estrategista, era como se combinasse os papéis de pugilista e de técnico.

Foi assim que ele venceu o invencível George Foreman, na maior luta de todos os tempos. Boxeou francamente contra ele no primeiro assalto e percebeu que jamais conseguiria a vitória lutando de igual para igual. A força descomunal do lutador mais jovem prevaleceria.

Então, adotou a postura que qualquer pugilista comum consideraria suicida diante da enorme potência dos golpes de Foreman: deixou-se ficar encostado nas cordas, recebendo o bombardeio e aparando-o com sua guarda.

Alguns obuses atingiam o alvo de raspão, outros se chocavam com os braços de Ali. Nenhum o abalou de verdade. E Foreman, acostumado a nocautes rápidos, foi se cansando.

No quinto assalto, o Ali aparentemente apático, que só se defendia, mostrou que era, isto sim, um tigre se preparando para dar o bote: com um contra-ataque fulminante, quase nocauteou Foreman.

Depois de mais dois rounds letárgicos, foi o que acabou acontecendo. Ali novamente surpreendeu Foreman e, com uma sequência de golpes cuja rapidez era inimaginável àquela altura de uma luta tão exaustiva, metralhou a cabeça de Foreman até fazer o gigante desabar em câmara lenta no ringue.

A coragem que deu a vitória a Ali nessa luta foi a mesma que o manteve no ringue até o fim de uma luta na qual teve seu maxilar fraturado no 2º round, contra Ken Norton.

O castigo que recebeu de Foreman foi tão terrível que, depois da vitória consumada, ele teve até um breve desmaio (que poucos perceberam) durante as comemorações. Até então, entretanto, a adrenalina o mativera em pé.

No xadrez também a pressão moral que um campeão suporta é devastadora, tendo de refletir sobre infinitas combinações enquanto o relógio o acossa.

É simplesmente inacreditável que o jovem desafiante Garry Kasparov tenha aguentado umas 20 partidas contra o campeão Anapoly Karpov, com 5x1 contra e dependendo só de uma derrota mais para perder o match, sem cometer falha nenhuma.

Forçou empate após empate, até que foi o veterano quem desabou: perdeu duas vezes seguidas e perderia as três restantes, se o match não tivesse sido anulado por "desumanidade" das regras (exigiam seis vitórias, pouco importando quantas partidas fossem necessárias para um deles alcançar tal total).

O socorro suspeito do presidente filipino da Federação Internacional de Xadrez não mudou o que já se decidira no tabuleiro. A coroa pertencia a Kasparov, que cumprira seu rito de passagem durante aquele torneio e dele saíra como homem e esportista superior: fulminou Karpov quando o match, zerado, foi disputado de novo.

No automobilismo, Schumacher não conquistou sete Mundiais de Fórmula 1 por acaso. Conseguiu aliar o senso estratégico de um Prost com o arrojo de um Senna (só o utilizando, entretanto, quando estritamente necessário, não se vexando em vencer corridas só na estratégia de troca de pneus, nas vezes em que isto bastava).

E Federer? Além de ser o mais completo tenista da História, "bom" ou "ótimo" em todos os fundamentos, ele já foi capaz de reerguer-se uma vez depois que derrubado do pedestal por Rafael Nadal e ameaça repetir o feito agora.

Acostumado ao predomínio absoluto, a emergência de um verdadeiro rival o desconcertou durante alguns meses, no segundo semestre de 2008.

Mas, nas férias de fim de ano, conseguiu colocar a cabeça em ordem; e encontrou ânimo para dar a volta por cima, vencendo o desafio de retomar sua coroa.

Para sua surpresa, acabou sendo bem mais fácil do que tudo levava a crer: na verdade, Nadal forçara a natureza para derrotar o titã. Exigira mais do seu corpo do que ele era capaz. Só assim, com muita transpiração, conseguira sobrepujar a inspiração de Federer.

O preço acabou sendo alto: depois de uma temporada consagradora, foi fulminado por uma contusão no joelho.

E Federer, que sempre mantivera o sacrifício exigido de seus músculos no limite do razoável, voltou ao topo por uns tempos.

Os jovens contra-atacaram: não só Nadal o desalojou de novo, como Novak Djokovic veio numa arrancada fulminante e superou a ambos. Federer chegou até mesmo a ceder a terceira posição no ranking, esporadicamente, a Andy Murray.

Não ganha um torneio de grand slam (os quatro principais do tênis: Wimbledon, Rolland Garros, Aberto da Austrália, US Open) desde o início de 2010.

Rico, respeitado e aclamado, feliz no casamento, de bem com a vida, pai coruja de duas gêmeas, tudo levava a crer que se curvaria à evidência dos fatos, pendurando a raquete como o maior de todos os tempos.

Mas, perseverou. E não como coadjuvante, o papel que Schumacher vem desempenhando estoicamente desde sua volta às pistas. Reciclou seu jogo, aperfeiçoou alguns golpes, melhorou as estratégias.

Foi buscar novas armas, já que as antigas tinham sido alcançadas pelos rivais. Seu saque, p. ex., agora é muito mais poderoso, abrindo caminho para vitórias rápidas contra os adversários mais fracos --dada a importância, no caso de um veterano, de guardar energias para enfrentar os mais fortes.

Então, desde o semestre passado, ele vem pouco a pouco se reaproximando do topo, armando o bote. E, agora, pode conseguir este feito que parecia impossível para um tenista  com mais de 30  (vai completar 31 anos em agosto), dependendo de sua colocação e da de Djokovic no torneio de Wimbledon, em curso; se for campeão, p. ex., ele voltará ao topo do ranking, além de igualar o recorde de mais semanas de permanência como o nº 1.

* * *

Como todo ser humano, admiro quem me inspira. Várias vezes meu autocontrole foi testado no limite extremo e, levando em conta a diferente magnitude dos desafios enfrentados, creio não ter ficado tão atrás de Schumacher, Kasparov e Federer. Também já ganhei partidas que pareciam totalmente perdidas, nas batalhas da vida.

E tenho, confesso, uma satisfação um tanto egoísta em presenciar os feitos dos maiores de todos os tempos. Pois, é sempre frustrante termos de ouvir falarem maravilhas sobre grandes nomes do passado, como se nada acontecesse de relevante no presente que vivemos.

Não questiono nem duvido que Leônidas da Silva, Fangio, Joe Louis e Capablanca tenham sido esportistas grandiosos.

Mas, em vez de ficar venerando quem nem sequer conheci, aprecio mais ter visto Pelé, Schumacher e Muhammad Ali superarem nitidamente os três primeiros; e saber que Kasparov, no mínimo, merece figurar ao lado do quarto, no panteão dos deuses do esporte.

quarta-feira, 6 de junho de 2012

O QUE O SERRA TEM EM COMUM COM O BOXEADOR LENNOX LEWIS?


Episódio 1
Em 1992 o pugilista Riddick Bowe (foto abaixo), diante da imprensa, jogou seu cinturão no lixo; foi um protesto por discordar da determinação do Conselho Mundial de Boxe, que o intimou a colocar em jogo o título de campeão dos peso-pesados contra Lennox Lewis.

Na época, como era de se esperar, as más línguas disseram que Lewis tinha apanhado o cinturão no lixo e colocado na cintura...

Episódio 2
O Partido da República --cujo presidente, Alfredo Nascimento, saiu sob vara do Ministério dos Transportes, em meio a muitas acusações de corrupção-- deslocou seu apoio em São Paulo para a candidatura a prefeito de José Serra. Este, depois de concorrer à sucessão presidencial com Índio da Costa ao seu lado, terá Tiririca como parceiro na campanha municipal.  Ridi, pagliaccio!

A pergunta que não quer calar: onde é que o Serra foi apanhar seu um minuto e meio a mais na propaganda eleitoral?

FEIOS, SUJOS E MALVADOS

Para compensar, o candidato petista Fernando Haddad contará com os 1min22s do Partido Socialista Brasileiro.

Neste sentido, o presidente do PSB, Márcio França, está deixando de ser o secretário de Turismo de Geraldo Alckmin. Promete "fazer tudo para evitar a vitória de Serra", que, diz ele, "representa o atraso, a direita e o neoliberalismo".

E o Alckmin, o que representa? Por acaso a ocupação militar da USP e a barbárie no Pinheirinho são exemplos de  modernidade, esquerda e socialismo?

Outra pergunta que não quer calar: o que é que a digna companheira Luíza Erundina está fazendo junto com quem até ontem rezava pela cartilha do  Sr. Opus Dei?

Sartre dizia que fazer a política é enfiar a mão no sangue e na merda. Mas, não precisavam exagerar. O fedor está cada vez pior.

sábado, 14 de janeiro de 2012

SALVE, NARCISO NEGRO! SALVE, MUHAMMAD ALI!

"Salve, narciso negro! Salve, Muhammad Ali!
Salve, fightty brother! Salve, king Clay!
O eterno campeão.
Na realidade, um ídolo mundial.
Tem a postura da Estátua da Liberdade
e a altura do Empire State.
Salve, Cassius Marcellus Clay!
Soul brother, soul boxeur, soul man"
(Jorge Ben)

Na próxima terça-feira (17), o grande Muhammad Ali completará 70 anos.

Ele simplesmente revolucionou o boxe peso-pesado, antes dominado por grandalhões fortes mas lentos. Bem mais ágil do que os adversários, baseava sua defesa antes na rapidez com que se movimentava no ringue do que na guarda. Chegava a usar as mãos apenas para golpear, batendo e saindo sem ser atingido.

E levava os racistas ao paroxismo da indignação, ao proclamar-se forte, ágil e bonito.

Era um negro orgulhoso de ser negro, algo inimaginável naqueles tempos em que os negros  conheciam o seu lugar  e aceitavam passivamente sentar-se em locais separados nos ônibus, nos restaurantes, etc.

Falastrão, ele chegava também a ofender seus adversários, como Sonny Liston, o primeiro homem mau do boxe que Ali humilhou nas declarações prévias e depois demoliu no ringue, despojando-o do título com duas contudentes vitórias -- por nocaute técnico no 7º assalto e por nocaute-relâmpago aos 2:12 da revanche.

Num excelente documentário de Dimitri Logothetis, Champions forever (1989), os aposentados Ali, George Foreman, Joe Frazier, Ken Norton e Larry Holmes trocaram idéias sobre os duelos de gigantes que travaram. Os outros quatro mostraram muito carinho por Ali e reconheceram que suas declarações bombásticas para promover as lutas multiplicaram várias vezes o valor das bolsas que recebiam, daí não lhe terem guardado ressentimentos.

"VIETCONG NENHUM ME CHAMA DE  NIGGER"

Ali perdeu o cinturão, muita grana e alguns dos melhores anos da carreira de um pugilista por recusar-se a coonestar a agressão estadunidense ao povo vietnamita -- atitude que justificou com argumentos religiosos, mas cujo motivo maior ficou evidenciado na frase "Vietcong nenhum me chama de  nigger  [pejorativo muito usado pelos racistas dos EUA]".

A direitalha de lá falou em covardia, mas o Exército jamais se arriscaria a deixá-lo ao alcance do fogo inimigo; caso fosse atingido, o efeito moral seria devastador.

Os militares lhe asseguraram que apenas serviria como relações-públicas do esforço guerreiro, seguindo as pegadas do ator Bob Hope.

Ali preferiu ficar sem o título, sem os muitos milhões de dólares que teria ganhado, sem o direito de exercer sua profissão --em razão da inacreditável pena de suspensão por tempo indeterminado que recebeu da máfia do pugilismo. O que, afinal, tinha a ver o título de campeão do mundo com a recusa em envergar a farda dos EUA?

Para sobreviver, chegou a dar palestras em faculdades, encantando os estudantes com sua grandeza moral e sua inteligência aguda. 

Certa vez lhe pediram que, de batepronto, compusesse um poema. Não negou fogo. Fez um de apenas duas palavras: "Eu. Nós." 

O minimalismo extremo --alguém imaginaria que ele fosse capaz de criar algo assim?

DAVI VETERANO x GOLIAS NO AUGE

Depois de perder seu título e passar três anos e meio fora dos ringues, Ali voltou e, já na terceira luta, tentou reconquistar o cetro.

Pareceu não ter-se dado conta de que a vantagem sobre os adversários diminuíra (haviam assimilado suas inovações) e até estar despreparado para a maratona de 15 assaltos.

Vinha melhor, mas foi derrubado por Frazier no último round. A vantagem por pontos que acumulara, aparentemente, ainda lhe garantiria a vitória, mas os jurados assim não entenderam.

Depois, sem título em disputa, travaram nova luta equilibradíssima e a vitória por pontos --também muito contestada-- foi conferida a Ali.

Ele recuperou o cinturão ao vencer Foreman na maior luta de boxe de todos os tempos e de todas as categorias [imortalizada nos excelentes livro de Norman Mailer (A Luta,1975) e documentário de Leon Gast (Quando éramos reis, 1996)].

Já com 32 anos, teve de enfrentar um campeão jovem e poderosíssimo, que acabara de simplesmente massacrar Joe Frazier, mandando-o à lona seis vezes em dois rounds.

A apreensão generalizada era de que Ali, além de derrotado, saísse morto do ringue, pois seu amor-próprio o impediria de desistir, fosse qual fosse a intensidade do castigo recebido.

Mas, ele tirou coelho da cartola. Todos lembram de sua técnica refinadíssima, mas Ali era muito mais do que isto. Tinha dons de grande estrategista, como se combinasse os papéis de pugilista e de técnico.

Foi assim que ele venceu o invencível  Big George. Boxeando francamente contra ele no primeiro assalto, percebeu que jamais conseguiria a vitória lutando de igual para igual. A força descomunal do lutador mais jovem prevaleceria.

Então, adotou a postura que qualquer pugilista comum consideraria suicida diante da enorme potência dos golpes de Foreman: deixou-se ficar encostado nas cordas, recebendo o bombardeio e aparando-o com sua guarda.

Alguns obuses atingiam o alvo de raspão, outros se chocavam com os braços de Ali. Nenhum o abalou suficientemente. E Foreman, acostumado a nocautes rápidos, foi se cansando.

No quinto assalto, o Ali aparentemente apático, que só se defendia, mostrou que era, isto sim, um tigre se preparando para dar o bote: com um contra-ataque fulminante, quase nocauteou Foreman.

Depois de dois rounds letárgicos, foi o que acabou acontecendo no oitavo assalto. Ali novamente surpreendeu Foreman e, com uma sequência de golpes cuja rapidez era inimaginável àquela altura de uma luta tão exaustiva, metralhou a cabeça do oponente até fazer aquele gigante desabar em câmara lenta no ringue.

A coragem que deu a vitória a Ali nessa luta foi a mesma que o manteve no ringue até o fim de uma luta na qual teve seu maxilar fraturado no 2º round, por Ken Norton.

O castigo que recebeu de Foreman foi tão terrível que, depois da vitória consumada, ele teve um breve desmaio durante as comemorações. Até então, entretanto, a adrenalina o mantivera em pé.

CAVALHEIRISMO RARO NUM BOXEADOR

Na sequência, colocou o título em jogo no tira-teima contra Frazier.

Tinha todos os motivos para impor derrota contundente ao rival e, assim, não deixar dúvidas de sua superioridade, depois das decisões polêmicas nas duas lutas anteriores.

No 14º assalto, esteve com Frazier à sua mercê, grogue, praticamente nocauteado em pé. Mas, ao invés de desfechar o golpe de misericórdia, pediu insistentemente ao juiz que interrompesse a luta.

Como não foi atendido, evitou bater pesado até o gongo soar. [Atitude semelhante à que teve ao nocautear Foreman: armou um soco mas, ao perceber que o cambaleante adversário cairia de qualquer jeito, não o desferiu, mostrando um autocontrole raríssimo em pugilistas.]

Os segundos decidiram que Frazier não tinha condições para disputar o 15º e último round. Vitória de Ali por abandono.

A caminho do vestiário, ele cruzou com o filho de Frazier e prestou tributo ao grande adversário: "Seu pai foi o homem mais valente que eu já enfrentei".

Estava certo. Na foto publicada pelos jornais do dia seguinte, o rosto do pobre Joe estava irreconhecível, de tão marcado pelos golpes de Ali. Um inchaço só.

Deveria ter parado então, no auge da glória e sem sequelas. Insistiu em permanecer nos ringues e acabou sofrendo castigos desnecessários que, provavelmente, lhe causaram ou agravaram o mal de parkinson.

A melhor frase sobre ele foi a de Foreman, no documentário de Logothetis. Indagado se Ali tinha sido o maior peso-pesado de todos os tempos, Foreman esquivou-se de compará-lo com o igualmente extraordinário Joe Louis. E ponderou:
"Não sei quem foi o maior de todos, mas, certamente, Ali foi o melhor cidadão que já lutou boxe peso-pesado".

domingo, 4 de dezembro de 2011

SÓCRATES ERA MAIOR DO QUE O FUTEBOL

Muhammad Ali esteve no Brasil quando assumia conscientemente o papel de símbolo da luta dos negros contra o racismo e Pelé, um gênio do futebol e um zero à esquerda em preocupações sociais.

Um repórter perguntou ao grande  Ali o que achava de Pelé. Com seu brilhantismo habitual, ele respondeu algo assim (não encontrei a frase exata): "Se alguém é um esportista extraordinário, isto já basta. Mas, se além disto, ele também levanta as bandeiras de sua gente e trava o bom combate, aí sim ele é completo".

Sócrates era completo.

Parafraseando o que Foreman disse sobre o próprio Ali, talvez Sócrates não tenha sido o maior jogador brasileiro de todos os tempos, mas, sem dúvida, foi o melhor cidadão brasileiro que já atuou no futebol profissional.

A ponto de, quando os melhores cidadãos brasileiros saíram às ruas para recuperar o direito de elegerem o presidente da República, ele se ter comprometido com a multidão que lotava o Vale do Anhangabaú (SP) a recusar a proposta estratosférica da Fiorentina e permanecer no País para ajudar a reconstruí-lo, caso fosse aprovada a emenda das diretas-já.

Perdemos um grande companheiro, um irmão de fé. Foi doído demais.


segunda-feira, 29 de agosto de 2011

GRANDE MAGRÃO: LEVANTA, SACODE A POEIRA E DÁ A VOLTA POR CIMA!

No palanque das diretas, anunciado por Osmar Santos
Ótima notícia é a alta de Socrates Brasileiro.

Parafraseando a inesquecível frase com que George Foreman esquivou-se de comparar os geniais Muhammad Ali e Joe Louis ("Não sei dizer se Ali foi o maior peso-pesado de todos os tempos, mas, sem dúvida, foi o melhor cidadão que já lutou boxe"), eu diria que o Doutor foi o melhor cidadão que já se tornou grande futebolista.

Antes dele, os craques eram quase todos vaquinhas de presépio dos cartolas -- vis parasitas que vicejam à sombra das chuteiras imortais, para, da arte dos boleiros, extraírem grana, prestígio e poder.

Mesmo os que tinham espírito mais crítico e independente, evitavam dizer o que realmente pensavam da engrenagem mafiosa do futebol. Afonsinho, rara exceção, não teve a carreira que seu talento prefigurava, exatamente por haver ousado trombetear a nudez do rei.

O que Sócrates fez foi impressionante: não só venceu como jogador (apesar do submundo do futebol e a venal imprensa caudatária terem insistentemente tentado desmoralizá-lo), como conseguiu unir o elenco do Corinthians em torno de suas idéias e impô-las aos dirigentes do clube.

Parabéns pelo novo gol, doutor!
Lembrem-se: ainda estávamos sob ditadura. A  democracia corinthiana  (o direito de os atletas participarem da tomada de decisões que os afetavam, como a necessidade ou não de concentração antes dos jogos) servia como modelo e cartão de visitas da democracia  em si. Havia um conteúdo político maior, subjacente à afirmação da dignidade profissional dos jogadores.

E, exatamente como Muhammad Ali, teve Sócrates a grandeza de dispor-se a um grande sacrifício pessoal em nome de suas convicções.

Ali perdeu o cinturão, muita grana e alguns dos melhores anos da carreira de um pugilista por recusar-se a servir como relações públicas para a agressão estadunidense ao povo vietnamita -- atitude que justificou com argumentos religiosos, mas cujo motivo maior ficou evidenciado na frase "Vietcong nenhum me chama de nigger  [pejorativo muito usado pelos racistas dos EUA]".

Da mesma forma, Sócrates abriria mão de muita grana italiana se tivesse a oportunidade de contribuir para a reconstrução democrática do Brasil. Foi o que jurou num ato público da campanha das diretas-já, no Vale do Anhangabaú (SP): comprometeu-se solenemente a, caso fosse aprovada a emenda Dante de Oliveira, recusar a estratostérica proposta da Fiorentina.

Tenha vida longa, Magrão. Ainda precisamos de você... e muito!

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

DEUSES DAS QUADRAS E DOS RINGUES

No prestigioso torneio de encerramento da temporada de tênis, reunindo os oito jogadores com pontuação mais elevada em 2010, o suíço Roger Federer (nº 2 do ranking) definiu facil e rapidamente as quatro partidas iniciais.

O espanhol Rafael Nadal (nº 1) teve de lutar bem mais, principalmente na semifinal de sábado (27), quando ficou na quadra praticamente o dobro do tempo de Federer e saiu queixando-se do cansaço.

Na final deste domingo, chegou ao 3º set empatado em tudo com Federer (6x3 para cada um) e foi fulminado por 6x1.

Na coletiva, os jornalistas, obviamente, perguntaram se fora a exaustão que determinara sua derrota.

Nadal mostrou toda sua dignidade: disse que estava bem e o mérito fora do adversário.

Não tem sido outro o comportamento de Federer nos reveses. Ambos disputam a condição de melhor do mundo com extrema dignidade e respeito mútuo.

Um exemplo dos mais edificantes, nestes tempos em que tantos liliputianos são celebridades do esporte, mas não verdadeiros esportistas.

Fez-me lembrar dois gigantes do boxe: Muhammad Ali e Joe Frazier.

Depois de perder seu título e passar anos fora dos ringues por se recusar a servir de relações públicas para uma guerra injusta (a do Vietnã), Ali sofreu discutível derrota na luta em que tentava recuperar o cetro.

Apesar de Frazier o derrubar uma vez no finalzinho, a vantagem por pontos que acumulara, aparentemente, ainda lhe garantiria a vitória, mas os jurados assim não entenderam.

Depois, já sem título em disputa, travaram nova luta equilibradíssima e a vitória -- também muito contestada -- foi conferida a Ali.

Este recuperou o cinturão ao vencer George Foreman na maior luta de boxe de todos os tempos e de todas as categorias.

Na sequência, colocou-o em jogo no tira-teima contra Frazier.

Tinha todos os motivos para impor derrota contundente ao rival, para não deixar dúvidas de sua superioridade, depois das decisões polêmicas nas duas lutas anteriores.

No 14º assalto, teve Frazier à sua mercê, grogue, praticamente nocauteado em pé.

Ao invés de desfechar o golpe de misericórdia, pediu insistentemente ao juiz que interrompesse a luta.

Não atendido, evitou bater pesado até o gongo soar.

Os segundos decidiram que Frazier não tinha condições para disputar o 15º e último round. Vitória de Ali por abandono.

A caminho do vestiário, ele cruzou com o filho de Frazier e prestou tributo ao grande adversário: "Seu pai foi o homem mais valente que eu já enfrentei".

Magnífico.
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