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| Lula aproveitou bem a chance para afirmar a sua autoridade... |
Daí a importância de abrirmos o baú da memória, pois, se não levarmos em conta o morde e assopra da década de 1980, a tendência será engolirmos mais uma vez conversa pra boi dormir. Recapitulemos, portanto.
Durante a sua trajetória sindical Lula sempre foi, no máximo, um reformista que acreditava em obter pequenas melhoras para sua categoria dentro do capitalismo e nem de longe pretendia conduzir o proletariado ao poder por meio de uma revolução.
Só mudou quando Leonel Brizola, voltando do exílio como herói, partiu para a formação do seu partido.
Percebendo que, se não criassem uma agremiação concorrente, o gaúcho acabaria estendendo sua influência também para o movimento sindical, Lula e seu grupo, que antes afastavam inclusive na porrada as tendências de esquerda que tentavam aproximar-se dos movimentos grevistas do ABC, foram obrigados a recuar de sua intransigência.
Negociaram com a esquerda católica e com quadros remanescentes da luta armada uma composição de forças para viabilizar o PT nacionalmente. Sem isto, ficariam restritos quase que somente a São Paulo.
Objetivo atingido, a ala majoritária do petismo passou a livrar-se dos indesejados companheiros de viagem, processo que acentuou-se:
— quando, nas eleições gerais de 1982 (para governadores, senadores, deputados federais e estaduais, prefeitos e vereadores), por imposição da Lei Falcão, na propaganda eleitoral gratuita eram mostrados apenas foto e trajetória dos candidatos, tendo a direita explorado ao máximo o fato de os inscritos pelo PT incluírem um grande contingente de ex-presos políticos, espalhando zombarias do tipo "os petistas não têm currículos, têm prontuários policiais":
| ...sobre um ministro sem nenhum carisma. |
Lula foi um dos dirigentes petistas que, aproveitando o refluxo revolucionário, pressionaram fortemente o partido para deflagrar aquela vergonhosa caça às bruxas por meio da qual o PT expeliu uma infinidade de tendências de esquerda.
Das dezenas que existiam, cito algumas: Ação Popular, Ala Vermelha do PCdoB, Convergência Socialista, Força Socialista, Movimento pela Emancipação do Proletariado, Organização Socialista Internacionalista, Partido Comunista Brasileiro Revolucionário e Partido Revolucionário Comunista.
As que sobreviveram à década de 1980 foram espirrando nas seguintes.
Enquanto isto, as portas do partido eram escancaradas para os meros carreiristas, que só o inflaram e tornaram flácido, mas tinham a vantagem de contribuir alegremente para a desideologização do PT.
Finalmente, em 2002 Lula avaliou que o PT estava suficientemente domesticado e conseguiu fazê-lo engolir sua Carta ao Povo Brasileiro, por meio da qual prestou vassalagem à classe dominante, comprometendo-se a presidir o Brasil com obediência estrita aos ditames do poder econômico.
Ou seja, percebendo a vulnerabilidade da esquerda do partido em 1982 e, depois, em 1984, Lula não vacilou em estimular devassas para consolidar seu poder afastando quem lhe fazia sombra.
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| Já o general Tomás Paiva promete enquadrar direitinho os relutantes |
E o anzol para fisgar novas adesões eram as evidentes perspectivas de crescimento do PT. Relaxando os critérios para admissão de novos filiados, atraiu uma imensidão de pessoas ambiciosas e oportunistas, dispostas a tudo para subirem na vida.
Movidos por interesses, tais carreiristas seriam sempre aliados do Lula nos embates contra os idealistas das tendências de esquerda.
O MORDE E ASSOPRA DE 2023 – Agora, com a extrema-direita derrotada inapelavelmente, passando por um processo de luta interna e tendo de encontrar outro líder após a morte política do Bolsonaro, Lula aproveita a oportunidade para descartar um ministro que não nunca foi exatamente um golpista, mas apenas parece ter evitado queimar seu filme com algum dos lados antes de saber qual deles prevaleceria.
Era necessário? Claro que não! Pelas declarações de fidelidade eterna à democracia que Arruda fizera ao se dar conta de a quem deveria agradar, decerto bastaria um pouquinho de pressão para que seguisse obedientemente a voz do novo dono.
Mas, enxotá-lo servia como exemplo para que outros altos oficiais se convencessem a descer logo de cima do muro. Mudou o alvo, mas o que Lula está fazendo, quatro décadas depois, é limpar a área com uma nova caça às bruxas.
E qual é a cenoura que Lula sacode sob os narizes militares? O trem da alegria dos grandes investimentos na modernização das Forças Armadas que têm sido colocados no cardápio das negociações dele com os fardados.
Ou seja, quem se comportar mal ficará sem sobremesa. Já os bons meninos vão receber mesada para adquirirem submarino nuclear, novas aeronaves, mais blindados e outros brinquedos caros. Já sabemos como transcorrem esses processos.
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| Bons meninos receberão brinquedos novos |
Com um pouco de sorte, talvez consiga não ser incomodado seriamente por ela até 2026, o que lhe dará oportunidade para uma nova reeleição (quem acredita que vá mesmo pendurar as chuteiras depois do Lula 3?) ou de insistir em impingir ao povo brasileiro seu poste favorito, o colecionador de derrotas Fernando Haddad.
Resta saber até quando ele se beneficiará do desnorteamento da extrema-direita e do adesismo oportunista de quase toda a esquerda.
E por quanto tempo o povo, aliviado com o fim do show de horrores do demente genocida, poupará Lula de cobranças de uma saída da interminável recessão econômica que nos assola.
Recessão da qual ele também não nos livrará, pois é um fenômeno estrutural e não uma mera consequência de má governança.
E nada indica que cairá para Lula a ficha de que o capitalismo se torna cada dia mais disfuncional por força de suas contradições insolúveis, marchando para uma depressão pior ainda que a da década de 1930.
Assim, a teimosa devoção do Lula a um reformismo anacrônico o conduzirá inexoravelmente ao fracasso, arrastando-nos juntos se continuarmos bancando as suas tentativas de reeditar um passado que, é bom esclarecermos, estava muito longe de ser tão paradisíaco como ele o pinta.
Quem viver, verá. (por Celso Lungaretti)
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