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domingo, 22 de janeiro de 2023

ENTENDA POR QUE LULA EXONEROU O COMANDANTE DO EXÉRCITO

Lula aproveitou bem a chance para
afirmar a sua autoridade...
S
ó se surpreende com a exoneração de Júlio Cesar de Arruda do comando do Exército quem esqueceu ou prefere esquecer as jogadas políticas de Lula no passado. 

Daí a importância de abrirmos o baú da memória, pois, se não levarmos em conta o morde e assopra da década de 1980, a tendência será engolirmos mais uma vez conversa pra boi dormir. Recapitulemos, portanto.

Durante a sua trajetória sindical Lula sempre foi, no máximo, um reformista que acreditava em obter pequenas melhoras para sua categoria dentro do capitalismo e nem de longe pretendia conduzir o proletariado ao poder por meio de uma revolução.

Só mudou quando Leonel Brizola, voltando do exílio como herói, partiu para a formação do seu partido.

Percebendo que, se não criassem uma agremiação concorrente, o gaúcho acabaria estendendo sua influência também para o movimento sindical, Lula e seu grupo, que antes afastavam inclusive na porrada as tendências de esquerda que tentavam aproximar-se  dos movimentos grevistas do ABC, foram obrigados a recuar de sua intransigência. 

Negociaram com a esquerda católica e com quadros remanescentes da luta armada uma composição de forças para viabilizar o PT nacionalmente. Sem isto, ficariam restritos quase que somente a São Paulo.

Objetivo atingido, a ala majoritária do petismo passou a livrar-se dos indesejados companheiros de viagem, processo que acentuou-se:
— quando, nas eleições gerais de 1982 (para governadores, senadores, deputados federais e estaduais, prefeitos e vereadores), por imposição da Lei Falcão, na propaganda eleitoral gratuita eram mostrados apenas foto e trajetória dos candidatos, tendo a direita explorado ao máximo o fato de os inscritos pelo PT incluírem um grande contingente de ex-presos políticos, espalhando zombarias do tipo "os petistas não têm currículos, têm prontuários policiais": 
...sobre um ministro
sem nenhum carisma.
— quando a rejeição da emenda das
diretas-já decepcionou profundamente os que tentavam acelerar o ritmo da redemocratização. Com José Sarney, filhote da ditadura, ascendendo ao poder, a burguesia conseguiu ditar tal rimo, evitando, p. ex., que a remoção dos entulhos autoritários tivesse a abrangência  necessária.  

Lula foi um dos dirigentes petistas que, aproveitando o refluxo revolucionário, pressionaram fortemente o partido para deflagrar aquela vergonhosa
caça às bruxas por meio da qual o PT expeliu uma infinidade de tendências de esquerda. 

Das dezenas que existiam, cito algumas: Ação Popular, Ala Vermelha do PCdoB, Convergência Socialista, Força Socialista, Movimento pela Emancipação do Proletariado, Organização Socialista Internacionalista, Partido Comunista Brasileiro Revolucionário e Partido Revolucionário Comunista. 

As que sobreviveram à década de 1980 foram espirrando nas seguintes.

Enquanto isto, as portas do partido eram escancaradas para os meros carreiristas, que só o inflaram e tornaram flácido, mas tinham a vantagem de contribuir alegremente para a desideologização do PT.

Finalmente, em 2002 Lula avaliou que o PT estava suficientemente domesticado e conseguiu fazê-lo engolir sua Carta ao Povo Brasileiro, por meio da qual prestou vassalagem à classe dominante, comprometendo-se a presidir o Brasil com obediência estrita aos ditames do poder econômico.  

Ou seja, percebendo a vulnerabilidade da esquerda do partido em 1982 e, depois, em 1984, Lula não vacilou em estimular devassas para consolidar seu poder afastando quem lhe fazia sombra.
Já o general Tomás Paiva promete
enquadrar direitinho os relutantes

E o anzol para fisgar novas adesões eram as evidentes perspectivas de crescimento do PT. Relaxando os critérios para admissão de novos filiados, atraiu uma imensidão de pessoas ambiciosas e oportunistas, dispostas a tudo para subirem na vida. 

Movidos por interesses, tais carreiristas seriam sempre aliados do Lula nos embates contra os idealistas das tendências de esquerda.
O MORDE E ASSOPRA DE 2023 – Agora, com a extrema-direita derrotada inapelavelmente, passando por um processo de luta interna e tendo de encontrar outro líder após a morte política do Bolsonaro, Lula aproveita a oportunidade para descartar um ministro que não nunca foi exatamente um golpista, mas apenas parece ter evitado queimar seu filme com algum dos lados antes de saber qual deles prevaleceria.

Era necessário? Claro que não! Pelas declarações de fidelidade eterna à democracia que Arruda fizera ao se dar conta de a quem deveria agradar, decerto bastaria um pouquinho de pressão para que seguisse obedientemente a voz do novo dono. 

Mas, enxotá-lo servia como exemplo para que outros altos oficiais se convencessem a descer logo de cima do muro. Mudou o alvo, mas o que Lula está fazendo, quatro décadas depois, é limpar a área com uma nova caça às bruxas

E qual é a cenoura que Lula sacode sob os narizes militares? O trem da alegria dos grandes investimentos na modernização das Forças Armadas que têm sido colocados no cardápio das negociações dele com os fardados. 

Ou seja, quem se comportar mal ficará sem sobremesa. Já os bons meninos vão receber mesada para adquirirem submarino nuclear, novas aeronaves, mais blindados e outros brinquedos caros. Já sabemos como transcorrem esses processos.
Bons meninos receberão brinquedos novos
Assim, Lula dá um passo importante para alongar o período em que a extrema-direita permanecerá impotente para atrapalhar seu governo. 

Com um pouco de sorte, talvez consiga não ser incomodado seriamente por ela até 2026, o que lhe dará oportunidade para uma nova reeleição (quem acredita que vá mesmo pendurar as chuteiras depois do Lula 3?) ou de insistir em impingir ao povo brasileiro seu poste favorito, o colecionador de derrotas Fernando Haddad.

Resta saber até quando ele se beneficiará do desnorteamento da extrema-direita e do adesismo oportunista de quase toda a esquerda.

E por quanto tempo o povo, aliviado com o fim do show de horrores do demente genocida, poupará Lula de cobranças de uma saída da interminável recessão econômica que nos assola.

Recessão da qual ele também não nos livrará, pois é um fenômeno estrutural e não uma mera consequência de má governança. 

E nada indica que cairá para Lula a ficha de que o capitalismo se torna cada dia mais disfuncional por força de suas contradições insolúveis, marchando para uma depressão pior ainda que a da década de 1930. 

Assim, a teimosa devoção do Lula a um reformismo anacrônico o conduzirá inexoravelmente ao fracasso, arrastando-nos juntos se continuarmos bancando as suas tentativas de reeditar um passado que, é bom esclarecermos, estava muito longe de ser tão paradisíaco como ele o pinta. 

Quem viver, verá. (por Celso Lungaretti)

sábado, 1 de outubro de 2016

SÓ EXISTE UMA OPÇÃO COERENTE PARA OS ESQUERDISTAS NESTE DOMINGO

Há exato meio século frequento rodas de esquerda. Jamais ouvi algum companheiro se referir ao nosso sistema político como democracia, pura e simplesmente. O complemento burguesa sempre foi obrigatório.

Porque, contrariando o significado expresso na origem grega da palavra, não se trata de um governo do povo, mas sim do enquadramento do povo no arcabouço institucional por meio do qual a classe dominante: 
  • faz prevalecer seus interesses próprios e impinge a ilusão de que eles coincidam com as necessidades da sociedade; 
  • defende e tenta eternizar o capitalismo, impingindo a ilusão de que ele seja insubstituível; 
  • defende e tenta eternizar a propriedade privada dos meios de produção, impingindo a ilusão de que ela seja condição sine qua non do dinamismo econômico; 
  • defende e tenta eternizar a exploração do homem pelo homem, impingindo a ilusão de que ela, tanto quanto a escravidão no passado, não seja uma afronta à dignidade do ser humano.
Nos pronunciamentos públicos, contudo, os principais representantes da esquerda brasileira passaram, farisaicamente, a tratar a democracia como se fosse algo a ser seguido, praticado e preservado. Já não a qualificam de burguesa. Já não afirmam que ela embute a dominação de classe. Nem sequer se identificam mais como revolucionários.

Assisti, estarrecido, a tal transição. Na eleição de 1982 para o governo dos estados, o Senado, a Câmara Federal e as assembleias legislativas, ainda estávamos submetidos à Lei Falcão, que limitava a divulgação nas rádios à leitura, por parte de um locutor, de um breve currículo de cada candidato, complementada nas tevês pela exibição de uma foto 3x4 do dito cujo.

Os petistas que haviam resistido à ditadura, dignamente incluíram nesses currículos sua condição de ex-presos políticos e, às vezes, também o porquê (quais atos ditos subversivos tinham praticado). Os adversários reagiram com zombarias do tipo "os candidatos do PT não têm currículos, têm fichas criminais".

A eleição direta seguinte foi em 1986, para os mesmos cargos e já sem as limitações impostas pela Lei Falcão. O PT, no primeiro dos muitos e muitos recuos que o desfiguraram, deixou de evidenciar a participação dos seus candidatos na luta contra a ditadura militar, antes escondendo-a, ao mesmo tempo em que começou a tentar enquadrar (ou expurgar) tendências de esquerda que existiam no seu seio, como a Convergência Socialista e o PRC. 

Quanto mais poder conquistava sob o capitalismo e sem confrontar o capitalismo, mais se definia como um partido de massas igualzinho aos outros, tendo como objetivo máximo a conquista de governos e de cadeiras no Legislativo; e não um partido revolucionário, que tem como objetivo máximo substituir a ganância, a competição zoológica e a aberrante desigualdade capitalistas pela cooperação solidária dos indivíduos para a promoção do bem comum numa sociedade regida pelo igualitarismo.

Ao contrário do simplismo demagógico de Reinaldo Azevedo (segundo quem, por não aceitar seu impedimento, Dilma Rousseff estaria moralmente obrigada a retomar a luta armada), os revolucionários não oscilamos entre dois polos excludentes. 
Travamos todas as lutas econômicas, políticas e sociais cujos motivos sejam justos, mas sempre encarando-as como acumulação de forças para a ruptura decisiva, sem a qual toda vitória parcial será efêmera. [É, por sinal, o que estamos presenciando agora, com as conquistas dos governos de Lula desmanchando no ar e os novos remediados sendo reconduzidos à velha pindaíba.]

Ao longo de três mandatos presidenciais e um terço, o PT comprovou cabalmente que as ilusões eleitorais não nos levam aonde precisamos urgentemente chegar,  nestes tempos em que o capitalismo se torna cada vez mais devastador em termos econômicos e ambientais, ameaçando inclusive a sobrevivência da espécie humana.

Se no século passado (e principalmente na Europa) ainda fazia sentido a esquerda participar de governos e parlamentos, desde que não superestimasse sua relevância, hoje salta aos olhos que o poder político se tornou um mero apêndice do poder econômico, servindo apenas para esconder do povo qual a verdadeira origem dos seus infortúnios. 

Então, nem sequer utilidade tática têm mais para nós. Há vida fora de palácios do governo e das sedes do Legislativo. É nos locais de trabalho, nas escolas, nas ruas, campos e construções, que a esquerda a tem de ir buscar, voltando a fazer o trabalho de formiguinha de outrora, até readquirir forças para voos maiores (e melhores!).

Neste momento de extremo desencanto com a política oficial e os políticos, chega a ser hipócrita a presença do PT e dos partidos que permanecerem fiéis a Dilma Rousseff nas eleições deste domingo. Afinal, não cansaram de esgoelar acusações de golpe, aqui e lá fora? 

Mas, se a democracia burguesa brasileira for, ademais, golpista, de que lhes adiantará conquistarem cadeiras que poderão ser retiradas de forma escusa a qualquer momento? Parece que, além das bandeiras revolucionárias, essa gente deixou para trás também o raciocínio dialético, não conseguindo mais enxergar certas contradições gritantes nas suas posturas...

O voto coerente, neste domingo e provavelmente em todas as vezes daqui para a frente, será o voto nulo. Isto, claro, supondo-se que os eleitores prefiram escapar das multas, sanções e amolações autoritariamente impostas a quem deixa de comparecer aos locais de votação.

sexta-feira, 11 de setembro de 2015

DILMA PODERÁ SER LEMBRADA COMO GUERREIRA DERRUBADA PELAS ELITES OU COMO GUERRILHEIRA QUE VIROU SUCO

Na abertura do seu clássico Conversa na Catedral, Mario Vargas Llosa perguntou em que momento o Peru tinha se f... No caso do PT, eu apontaria três momentos:
  • quando a votação pífia que obteve na eleição de 1982 levou os dirigentes a decidirem evitar dali em diante a identificação com a resistência à ditadura. Naquele pleito, a propaganda eleitoral gratuita, obedecendo à Lei Falcão, restringia-se à leitura de dados e exibição de fotos dos candidatos. Muitos do PT, orgulhosamente, citaram o tempo de cárcere cumprido como presos políticos. A direita retrucou com desqualificações do tipo "eles não têm currículos, têm fichas criminais". E, ao invés de defenderem o direito que os seres humanos dignos deste nome tinham de combater a tirania, os petistas passaram a não tocar mais no assunto em campanhas eleitorais. Foi quando negaram a revolução pela primeira vez.
  • quando, também na década de 1980, afrouxou os critérios de filiação, permitindo o ingresso indiscriminado de carreiristas e oportunistas de todos os matizes, desideologizando o partido. Tratou-se do expediente adotado pela corrente majoritária para colocar-se em grande vantagem sobre as demais tendências, ao preço de descaracterizar o partido. Foi quando o PT negou a revolução pela segunda vez.
  • quando, respondendo às acusações públicas de um militante exemplar contra o safado que pilotava o primeiro grande esquema de desvio de recursos dos cofres públicos para o partido, expulsou o acusador, emitindo sinal verde para a corrupção (vide aqui). Ao optar pela moral deles em detrimento da nossa, o PT negou a revolução pela terceira vez.
O resto foi consequência: por colocar a conquista do poder sob o capitalismo como objetivo supremo, escanteando a revolução, não teve pejo de firmar um pacto repulsivo com os donos do Brasil em 2002: se vocês não interferirem, deixando-nos ganhar a eleição e assumir o poder, abdicaremos de fixar nós mesmos as diretrizes macroeconômicas, acatando fielmente as determinações do grande capital e contemplando sempre seus interesses. Lula assumiu com autonomia apenas sobre os ministérios das miudezas, pois quem dava as cartas nos ministérios econômicos era a burguesia. 

No início o esquema funcionou a contento por se tratar de um período altamente favorável às commodities brasileiras, tanto que sob Lula o PIB cresceu, em média, 4% ao ano. Era o suficiente para saciar o pantagruélico apetite dos grandes capitalistas, sobrar um tantinho a mais do que antes para colocar na mesa dos pobres (insuficiente, contudo, para caracterizar a emergência de uma nova classe média, mera propaganda enganosa...) e ainda queimar rios de dinheiro em barganhas com os partidos fisiológicos, comprando seu apoio mediante o loteamento de Pastas e cargos, além, é claro, do por fora de mensalões e petrolões.

SOB DILMA, CRESCIMENTO 
DO PIB CAIU PELA METADE.


A maré virou no primeiro governo de Dilma Rousseff, quando a evolução do PIB caiu pela metade, passando a ser de 2,1% a.a. Então, tornou-se impossível contentar, ao mesmo tempo, o grande capital,  os trabalhadores e os sanguessugas da política. As receitas se tornaram insuficientes para bancar os privilégios da burguesia e a gastança do Estado.

O poder econômico passou a exigir um arrocho fiscal e uma recessão purgativa, que sacrificariam os outros dois contingentes, enquanto os burgueses continuariam desfrutando suas fortunas escandalosas. 

Eu alertei que um partido dito dos trabalhadores implementar uma política econômica tão desfavorável aos trabalhadores o destruiria. Era o momento de o PT, ou renegar o pacto mefistofélico firmado em 2002 e propor uma alternativa à ortodoxia capitalista, ou então deixar em outras mãos o acatamento das exigências do grande capital (bastaria, p. ex., não ter desconstruído a candidatura de Marina Silva com a campanha de satanização mais falaciosa da política brasileira em todos os tempos).

Nem uma coisa, nem outra. Dilma se reelegeu na bacia das almas e, de imediato, prestou vassalagem aos verdadeiramente poderosos, entregando a condução da economia ao neoliberal Joaquim Levy (ademais, um economista de segunda categoria, sem currículo à altura do posto).

Deu no que deu. O fato de, na campanha eleitoral, haver jurado solenemente que não faria o que incumbiu Levy de fazer, deixou em cacos a popularidade de Dilma. E um governo fraco e sem credibilidade não consegue convencer nem obrigar burguesia, trabalhadores e sanguessugas a sacrificarem-se para que as contas públicas voltem a um mínimo equilíbrio. Os três contingentes defendem vigorosamente seus interesses, imobilizando Levy, enquanto a situação econômica se deteriora cada vez mais.

Dilma está excessivamente desmoralizada para mediar qualquer acordo entre o capital, o trabalho e a ociosidade. O governo cairá antes, pois o que se empenham em derrubá-lo não têm motivo nenhum para recuarem agora que estão com a faca e o queijo nas mãos (e, sem a participação deles, não haverá pacto de salvação nacional capaz de vingar, mesmo que Lula e FHC se tranquem para conversar durante uma semana inteira). É simples assim.

Então, as opções que lhe restam hoje não passam de duas:
  • a renúncia antes de ser impedida, para não conceder triunfo tão apoteótico aos inimigos; ou
  • uma guinada corajosa à esquerda, fazendo o aumento da arrecadação recair sobre as costas dos que têm demais e sempre foram privilegiados e não dos trabalhadores que sempre foram tosquiados, além de extinguir o sem-número de Pastas e cargos que só servem como moeda de barganha política e cabides de emprego.
Sem ilusões, contudo. É tarde demais para Dilma salvar seu mandato; mas pode, ainda, salvar a reputação. 

Se tiver contra si a burguesia coesa (até o Trabuco...) e os parlamentares contrariados, sequiosos por retaliarem com o impeachment, a queda virá a toque de caixa. E daí? Por acaso é preferível a atual agonia lenta, essas iniciativas erráticas que fracassam umas após outras, essa interminável sucessão de vexames e trapalhadas, com o mesmíssimo desfecho esperando no final da linha? Só se a Dilma for masoquista...

Voltando às origens, Dilma seria ao menos lembrada como uma guerreira derrubada pelas elites e não como uma guerrilheira que virou suco.

Com o tempo,  a historiografia de esquerda minimizaria sua guinada neoliberal em 2015, assim como quase ninguém lembra mais que João Goulart chegou a ter como ministro da Fazenda o conservador Carvalho Pinto (o qual, justiça seja feita, equivalia a Levy em termos ideológicos, mas era infinitamente melhor como economista e administrador).

segunda-feira, 6 de outubro de 2014

MARINA NA HORA DA VERDADE: QUE POSIÇÃO DEVE ASSUMIR NO 2º TURNO?

"Política é propriedade", definiu o escritor Norman Mailer. Os profissionais deste ofício acumulam um certo capital e, mesmo nos reveses, tentam fazê-lo crescer.

No caso presente, o da candidata derrotada Marina Silva, a moeda usual pela qual poderá trocar seu acervo de votos e as declarações de amor eterno a um(a) dos finalistas, seria(m) ministério(s) para si ou para seu partido no eventual governo daquele com quem fechar o acordo.

Ocorre que Aécio Neves representa o inimigo de classe, como ela aprendeu ou deveria ter aprendido durante as mais de duas décadas de militância no PT. Talvez sua educação haja sido negligenciada, afinal oPTou no ano de 1985, quando o partido já iniciara a faina de expurgar tendências de esquerda e abandonar, uma a uma, as bandeiras mais consequentes do passado. 

Aqui cabe uma recapitulação. Em 1982, ainda sob a ditadura militar, o PT disputou suas primeiras eleições (concorrendo aos cargos de governador, senador, deputado federal e estadual). A propaganda eleitoral gratuita era regida pela Lei Falcão, que dava ao partido o direito de expor apenas as fotos dos candidatos, enquanto um locutor lia os respectivos currículos.

Como parte significativa dos seus candidatos participara da resistência à ditadura, o PT, dignamente, incluiu nesses currículos a informação de que haviam sido presos políticos.

Ora, quem tem formas de comunicar-se em massa sempre pode propagar invencionices e quase sempre tais falácias colam, pois um traço perverso da mentalidade do homem comum brasileiro é acreditar piamente no que se fala de mau sobre outrem, sem exigir prova nenhuma.

P. ex., se caluniadores imundos lançarem o boato de que uma respeitável educadora exerce atividade parasitária e vil, martelando-a incessantemente como recomendava Goebbels, muitos idiotas sairão repetindo como papagaios esta mentira deslavada.

Vai daí que a direita passou a desqualificar os candidatos petistas com zombarias do tipo "eles não têm currículos, têm prontuários policiais". E, então como agora, se os caluniados não dispõem de uma rede equivalente para restabelecerem o primado da verdade, são esmagados pelos rolos compressores que, a partir do impulso inicial dado por raposões, vão sendo engrossados cada vez mais pelos crédulos (que engolem qualquer patranha) e pelos despersonalizados (que nunca ousam se colocarem contra a maioria).

É outro traço bem brasileiro: diante de um linchamento, a grande maioria toma o partido dos linchadores.

Os resultados pífios obtidos na sua estréia eleitoral apavoraram os grãos petistas. A palavra-de-ordem passou a ser respeitabilidade a qualquer preço! Inclusive quando o preço era deixar militantes entregues às feras direitistas, sendo retaliados e quase assassinados, como ocorreu no episódio dos quatro de Salvador, que relato aqui.

Reatando o fio da meada, faz sentido que uma ex-seringueira, ex-doméstica e ex-analfabeta, entrando aos 27 anos num partido que cada vez mais se afastava dos ideais revolucionários e provavelmente não estaria ensinando nem sequer o bê-a-bá do marxismo aos ingressantes, mostre até hoje pouca familiaridade com o equacionamento dessas questões em termos de classes sociais.

Afinal, até uma ex-guerrilheira diz coisas que tirariam Marx do sério, como o auto-elogio por haver ajudado a criar uma nova classe média.

O velho barbudo queria é livrar a humanidade das divisões artificiais que só servem para perpetuar a desigualdade; a visão que tinha dos que oscilavam entre a burguesia e o proletariado era a mais depreciativa possível; e, como papa da economia política, ele riria na cara de quem ousasse sustentar que um coitadeza,  tendo como renda mensal uma merreca tipo R$ 291, pertenceria à classe média...

Mas, presume-se que de ambientalismo a Marina entenda. Como poderia associar-se ao representante de uma das burguesias mais selvagens e destruidoras do patrimônio natural que existem no mundo?! Apoiar Aécio, no caso dela, é inadmissível!

Há, contudo, um pequeno problema com relação à opção contrária. Marina saiu do PT exatamente porque sua adversária no Ministério, Dilma Rousseff, conseguiu impor no Governo Lula a diretriz do crescimento econômico sem freios, passando como um trator sobre suas bandeiras ecológicas.

E, na atual campanha sucessória, Dilma aprovou e aplaudiu a sua satanização, acumpliciando-se e sendo beneficiária de um dos capítulos mais deploráveis da história da esquerda brasileira.

Então, espero que Marina tenha a grandeza de portar-se como verdadeira arauta de uma nova política, abdicando dos dividendos que a velha política lhe permitiria extrair do capital acumulado nas urnas. Caso contrário, os perspicazes imediatamente saberão que eram palavras ao vento; e os demais, aos poucos, irão chegando à mesma conclusão. 

A coerência manda, portanto, que Marina se declare neutra e libere os seus seguidores para votarem em quem quiserem.
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