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quinta-feira, 18 de julho de 2019

HÁ 25 ANOS O BRASIL CONQUISTAVA O TETRA NA LOTERIA DOS PÊNALTIS, APÓS 120 MINUTOS DE TÉDIO E 0x0...

O baixinho fez a diferença
Já que, com espírito de efeméride,  deram de elogiar a conquista insossa do tetra cauteloso, que de realmente inesquecível só teve Romário, vamos reavivar as lembranças. 

Aqueles 120 minutos de 0x0 na final foram o maior anticlímax da história dos mundiais da Fifa! E tivemos de aguentar o desabafo raivoso do Dunga, como se nosso escrete tivesse ganhado de 5x2, 3x1 ou 4x1, como fazia quando ainda éramos os melhores do planeta bola.

O Brasil chegou à Copa de 1994 com a responsabilidade de reconquistar a hegemonia do futebol mundial, depois de cinco decepções consecutivas.

Primeiro foi a desagradável surpresa de ver a Seleção totalmente superada pelo carrossel holandês em 1974, na Alemanha. Mereceu perder a semifinal para o timaço de Cruyff e Neeskens, por 2x0.

Consolamo-nos com a avaliação de que havia sido a Copa da entressafra. Uma geração de craques chegara ao fim (Pelé, Gerson, Carlos Alberto, Tostão, Clodoaldo), Jairzinho deixara de ser um furacão e Rivellino não conseguiu resolver tudo sozinho.

Foi a defesa que carregou o Brasil, aos trancos e barrancos, até o 4º lugar, aceitando só quatro gols. Pena que o ataque marcou míseros seis, metade dos quais contra o patético Zaire.

Em 1978, na Argentina, Rivellino estava maduro demais e Zico ainda verde. Mas, depois de empates decepcionantes contra a Suécia e a Espanha, a Seleção do técnico Cláudio Coutinho melhorou. Esteve próxima de derrotar os anfitriões (0x0), além de obter quatro vitórias.
Melhor partida do Brasil no Mundial/94, na íntegra: os 3x2 sobre a Holanda
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Só não foi à final porque o Peru entregou o jogo para a Argentina, deixando-se golear por 6x0 para que ela alcançasse o saldo de gols necessário.

Por haver terminado a campanha invicto, derrotado apenas nos bastidores mafiosos do futebol, o Brasil autoproclamou-se campeão moral.
A DERROTA MAIS SOFRIDA, EM 1982 – E seria derrotado novamente em 1982, não por armações extra-campo, mas pela fatalidade que se abateu sobre a melhor seleção do Mundial da Espanha. Como a Hungria em 1954 e a Holanda de 1974, o Brasil maravilhou o mundo mas foi sobrepujado por um adversário calculista em dia de sorte.

Com Falcão, Zico e Sócrates compondo um meio-de-campo notável, o Brasil não se abalou com um frangaço de Valdir Peres, vencendo a URSS de virada por 2x1; goleou como quis a Nova Zelândia (4x0) e a Escócia (4x1); e impôs categóricos 3x1 à Argentina de Maradona, a outra favorita ao título.
Os geniais Sócrates e Zico mereciam melhor sorte...

Três falhas da defesa puseram tudo a perder contra a Itália, apesar dos golaços de Sócrates e Falcão.

Os torcedores brasileiros, que desde 1970 não ficavam tão empolgados com a Seleção, respaldaram a renovação, na Copa seguinte, da aposta do técnico Telê Santana no futebol-arte – caso raro após uma campanha malsucedida.

A volta ao México em 1986 não foi, entretanto, auspiciosa. Sócrates e Falcão já tinham passado do auge, Zico andou contundido. Mesmo assim, acumulamos quatro vitórias até a eliminação noutra partida sumamente infeliz, contra o esquadrão francês de Platini.

Com 1x1 no placar, Zico desperdiçou uma penalidade máxima e a partida foi para a prorrogação, equilibrada até o fim. Na decisão por pênaltis (3x4), brilhou a estrela de Bats, que fez defesa elástica no chute de Sócrates e teve a sorte que faltou ao nosso goleiro: a cobrança brasileira contra a trave (Júlio César) acabou em nada, enquanto a cobrança francesa contra a trave bateu nas costas de Carlos e entrou.
...assim como o rei de Roma, Falcão
Tão decepcionados ficaram os brasileiros com essa derrota do futebol-arte que nem se deram conta de que o talento acabara saindo vencedor do duelo contra as rígidas esquematizações táticas: a Argentina foi campeã, com Maradona fulgurante como nunca.

Assim, no Mundial da Itália, em 1990, foi numa rígida esquematização 5-3-2 que o técnico Sebastião Lazaroni apostou, para vê-la ruir como castelo de areia num solitário lampejo do já decadente Maradona.
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NOVE ATRÁS E DOIS NA FRENTE – Em 1994, o técnico Carlos Alberto Parreira avaliou que o fundamental era interromper a série de fracassos, mesmo que sacrificando a beleza e a ousadia novamente reivindicadas pelos brasileiros – comparando as estilísticas exibições da Era Telê com a perda total na chamada Era Dunga em 1990 (feia retranca, futebol burocrático e desclassificação precoce), os torcedores haviam voltado a preferir a primeira opção.
Com Parreira o Brasil voltou a vencer. Mas, sem encantar

Parreira ficou no meio termo. Descartou esquemas pretensiosos que engessavam o time, como os de Cláudio Coutinho e Lazaroni; e temeu expor a Seleção em demasia, como Telê Santana fizera em 1982.

Optou por um futebol pragmático e cauteloso, com defesa sólida e ataque que aproveitasse bem as poucas chances criadas.

Nos seus planos não cabia Romário, o maior atacante brasileiro então em atividade (no Barcelona), mas tido como independente em demasia. Na verdade, Romário tinha consciência de que podia fazer mais pelo time do que qualquer técnico e, pouco dado à diplomacia, não silenciava tal convicção.

Ao final de uma péssima campanha na eliminatória, entretanto, o Brasil não poderia perder do Uruguai no Maracanã, caso contrário se repetiria a tragédia de 1950. Parreira tremeu. E, a contragosto, atendeu ao clamor unânime dos torcedores brasileiros pelo craque Romário.

Aconteceu o previsível: o baixinho exorcizou os fantasmas com dois belos gols e garantiu seu lugar na Copa, contra a vontade de técnico e cartolas.
Cavando esta falta, Branco salvou o Brasil
Sobre ele e Bebeto recaía a responsabilidade de fazerem os gols, como únicos atacantes avançados. Para servi-los, Mazinho e Zinho, o que não era grande coisa. Tecnicamente superior, Raí estava em má fase: começou como titular e acabou na reserva.

Romário abriu caminho para a vitória contra a Rússia, sofrendo, depois, o pênalti que culminou no gol de Raí. 2x0.

Repetiu a dose contra a empolgada mas ingênua seleção de Camarões. Márcio Santos e Bebeto fecharam o placar: 3x0.

E, assinalando o gol de empate, evitou pelo menos uma derrota diante da Suécia: 1x1.

Também foi dele o tento que mandou os suecos para casa, na semifinal. 1x0.

Bebeto, por sua vez, despachou os anfitriões, nas oitavas-de-final. A vitória sofrida (1x0) contra os incipientes estadunidenses dá bem uma ideia de como o futebol brasileiro minguava sob Parreira.

A partida inesquecível da nossa Seleção em 1994 foi a pedreira contra os holandeses, nas quartas-de-final. O Brasil começou melhor o 2º tempo e, em ótima jornada, Romário e Bebeto marcaram. Com 2x0, parecia tudo decidido.
Todos os gols da campanha brasileira. Narração do saudoso Luciano do Valle

De repente, a sólida defesa brasileira desmanchou no ar, tomando gol até em escanteio alçado para a pequena área.

Jogo empatado e se aproximando da prorrogação, quem salvou a pátria foi o lateral Branco, cavando uma falta na intermediária e acertando um petardo indefensável. 3x2.

Quanto à final contra a Itália – 120 minutos de quase nada –, foi o que se poderia esperar de duas seleções com medo de atacar.

Aliás, a escalação do Brasil já diz tudo: Taffarel; Branco, Aldair, Márcio Santos e Jorginho; Dunga, Mauro Silva, Zinho e Mazinho; Romário e Bebeto.
Taffarel defendeu 1 pênalti e viu italianos errarem 2

Deu no que deu, Romário e Bebeto brigando sempre com uns 4 ou 5 italianos, enquanto quem deveria ajudá-los estava pregado lá atrás...

Já na prorrogação, com a Itália caindo de cansaço, Parreira ousou colocar um terceiro atacante, Viola, deixando o Brasil bem mais perto do gol; e os brasileiros, com a nítida sensação de que uma vitória de verdade teria sido possível.

Sobrou o coitus interruptus dos pênaltis. E deu Brasil, porque a Itália abusou do direito de errar, desperdiçando três deles. Até o craque do time, Baggio, isolou o seu...

Pelo Brasil marcaram Romário, Branco e Dunga. Márcio Santos perdeu o seu e nossa quinta cobrança foi desnecessária. 0x0 no jogo, 0x0 na prorrogação e 3x2 nos pênaltis.

Os deuses do futebol nos pregaram uma peça, devolvendo pela metade o título que tomaram em 1982: veio a taça, mas não o orgulho de tê-la conquistado com brilhantismo.
A vitória nos pênaltis contra a Itália

segunda-feira, 27 de junho de 2016

O CHORO DA CIGARRA MESSI E A MONOTONIA DAS FORMIGAS CHILENAS

Gênios na berlinda: Messi em 2016...
Lionel Messi é o melhor jogador de futebol de todos os tempos.

Enquanto a comparação com o principal craque do século passado (Pelé) se dava em termos de talento individual, ainda havia dúvida possível. 

Ambos capazes de fazer jogadas geniais, o brasileiro parecia ser um pouco superior na concretização dos gols e o argentino, muito superior no jogo coletivo. Dependendo dos pesos que se atribuísse a um e outro quesito, dava até para acreditarmos que Pelé continuasse sendo o rei do futebol.

A última evolução de Messi, passando a jogar mais recuado e oferecendo assistências primorosas para os companheiros (que estão fazendo de Suárez o matador mais afortunado do planeta bola), encerrou a questão. 

Mesmo admitindo-se que Pelé tenha sido um tantinho melhor no auge de ambos, o argentino é tão acentuadamente superior no pós-auge que já não há mais nada a discutirmos.

Ou há? Os que veem o futebol com mentalidade de guarda-livros (os contadores de outrora) alegam que Pelé foi muito melhor como jogador de seleção. 

Mas, se colocarmos a conquista de Copas do Mundo como critério fundamental para a aferição da qualidade dos futebolistas, excluiremos verdadeiros gênios dos gramados como Cruyff, Di Stéfano, Falcão, Platini, Puskas, Sócrates e Zico. Um pecado!
...Sócrates, em 1982...

Pelé conquistou dois Mundiais da Fifa (1962 e 1970) nos quais a Seleção Brasileira  era insuperável, não apenas por causa dele, mas de cracaços como Gilmar, Nilton Santos, Didi, Garrincha, Gerson, Tostão, Jairzinho e Rivellino. E viu Garrincha carregar o escrete nas costas em 1962, já que ele próprio se contundira aos 25' da segunda partida, contra a Checoslováquia (que terminou 0x0), depois de ajudar o Brasil a fazer a lição de casa  contra o freguês México (2x0).

Se formos considerar o peso do contribuição individual para a conquista coletiva, não seria Pelé o melhor de todos os tempos, mas sim três jogadores que, eles sim, fizeram destacadamente a diferença: o já citado Garrincha (1962), Paolo Rossi (1982) e Maradona (1986).

Quanto a Messi, teve o azar de vir numa época na qual uma andorinha só já não consegue fazer verão. Quando tem grandes jogadores a seu lado, é o primus inter pares. Mas, nem mesmo ele é capaz de fazer milagres quando a Argentina só tem mais um fora-de-série em tempo integral (Mascherano) e outro de vez em quanto (Di Maria, que parece nunca estar em bos condições físicas nos momentos cruciais).

O que se viu na decisão da Copa América 2016 fez lembrar o Pelé caçado no Mundial de 1966: Messi bravamente tentando criar jogadas em meio a quatro adversários que o cercavam por todos os lados. Mesmo assim, cavou a expulsão de um dos mastins, sofreu faltas, serviu companheiros desmarcados (mas limitados demais para tirarem proveito da situação). 
...e Baggio em 1994.

Dava pena. Com Messi dando o máximo de si, bastaria existir um artilheiro competente a seu lado para o Chile ser goleado.

A maldição dos pênaltis novamente puniu os craques que carregam a maior responsabilidade. Assim foi com Baggio, Beckham, Drogba, Cristiano Ronaldo, Marcelinho Carioca, Sócrates, Zico e tantos outros.

E Messi, que tanto queria ser amado pelos ingratos hermanos, chorou.

Chorou porque sua genialidade se resume às quatro linhas. Não consegue perceber o que se passa fora delas, como o desvirtuamento do futebol, cada vez menos arte e cada vez mais competição (além de chafurdar em corrupção). 

Com jogadores obrigados a esforços desmedidos, correndo o tempo todo e sendo obrigados a tirar folgas imprevistas quando estão prestes a estourar.

Com decisões espetaculosas mas lotéricas como a da cobrança de pênaltis, que satisfazem a volúpia dos torcedores/telespectadores por emoções baratas mas frequentemente dão ensejo a grandes injustiças, na contramão do desempenho dos times e seleções ao longo da competição, como aconteceu neste domingo, 26 (a Argentina tinha melhor campanha). 

Depois de a revolução espanhola ter propiciado uma década de hegemonia do futebol-arte, técnicos como Diego Simeone e seleções como a do Chile aperfeiçoaram o antídoto à inspiração e ao jogo ofensivo, com sua marcação sob pressão praticamente no campo inteiro, quase sempre congestionando seu campo  defensivo com todos os jogadores.

Pergunto-me como alguém pode gostar daquele amontoado de transpiradores tentando abafar cada adversário que está com a bola. Que graça tem ver Messi derrubado a cada seis passadas por um medíocre qualquer. O que há de gratificante em 120 minutos de faltas violentas, muita catimba e quase nenhuma oportunidade de gol, merecidamente coroados por um 0x0.
O carrossel holandês ressuscitou o futebol ofensivo

Depois do carrossel holandês e de a geração de ouro brasileira ter saído de mãos abanando do Mundial de 1982, passamos mais de duas décadas assistindo a partidas banais, vendo as defesas prevalecerem, os zagueiros darem estourões e os gols saírem de bolas paradas. Temo que, depois do circulo virtuoso, tenhamos entrado noutro circulo vicioso  desses. 

Ai de nós se não soubemos preservar o que o futebol ainda tem de belo! Se desprezarmos as cigarras cujo canto nos encanta, sobrarão só as formigas, cujo monótono automatismo nos entedia até a medula.

quinta-feira, 19 de novembro de 2015

XAVI HERNÁNDEZ DISSE TUDO: MESSI É O CRAQUE SUPREMO NO MELHOR MOMENTO DA HISTÓRIA DO FUTEBOL.

Sempre que as editorias de Esporte da grande imprensa estão sem assunto, dão um jeito de trazer à tona a velha discussão: quem é o melhor futebolista de todos os tempos?

Antes de Messi atingir o seu esplendor, eu respondia primeiramente ressalvando que era injusto compararmos grandes nomes de diferentes épocas, correndo o risco de avaliarmos por baixo gigantes do passado como Puskás e Di Stéfano, pois são poucos e precários os registros que restam de suas proezas nos gramados.

E depois completava que, mesmo assim, eu não tinha nenhuma dúvida da superioridade do Pelé sobre os concorrentes que eu vi em ação: Garrincha, Cruyff, Maradona, Platini e Zidaine, dentre outros.

Mas, a coisa começou a pegar quando a comparação passou a ser com Messi, pois eu não consigo imaginar um Pelé nascido algumas décadas depois sendo capaz de exercer a função de maestro do ataque, em altíssima velocidade, como o gênio argentino. 

Ou seja, as habilidades individuais se nivelam, talvez com uma pequena vantagem para Pelé. Mas no jogo coletivo, Messi é simplesmente incomparável e insuperável. 

Chega a lembrar o extraordinário Cruyff, o jogador de futebol mais inteligente que eu conhecera, mas conjugando a leitura perfeita das jogadas com uma extraordinária habilidade e uma rapidez extrema de raciocínio e execução (parece estar sempre um segundo na frente de todos os outros, companheiros e adversários).

Nunca havia escrito sobre esta minha conclusão, só a apresentando aos amigos nos papos de boteco. Sempre vi a questão ser tratada --quando a disputa era entre Pelé e Maradona-- com tanto destempero e chauvinismo que preferia não botar a mão nessa cumbuca.

Criei coragem após ler esta brilhante explanação de um dos maiores jogadores do nosso século, o campeoníssimo Xavi Hernández, que praticamente esgotou o assunto com míseras 49 palavras:
"Pelé e Maradona fizeram uma grande diferença, mas o futebol evoluiu. Os jogadores são melhores do que eram, o jogo é melhor. Fisicamente, taticamente, tecnicamente e psicologicamente, o futebol é melhor do que nunca. E o Messi se destaca como o melhor, no melhor momento da história do futebol".
Nada a acrescentar.
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domingo, 15 de janeiro de 2012

DEUSES DO ESPORTE

Hoje é um domingo daqueles que inspiraram os versos de Gilberto Gil, "O jornal de manhã chega cedo/ Mas não traz o que eu quero saber/ As notícias que leio conheço/ Já sabia antes mesmo de ler" (Domingou).

Jornalões e revistonas valorizam assuntos menores durante meses mortos como janeiro, porque, para eles, o importante é preencher espaços.

Não é o meu caso. Então, à falta de algo realmente palpitante, prefiro reeditar um bom texto do passado. 

Como este que escrevi há quase um ano e tem agora a serventia adicional de servir como tributo a Muhammad Ali, um dos maiores ícones da minha geração, que completará 70 anos depois de amanhã.

DEUSES DO ESPORTE

Com uma vitória magnífica no Aberto da Austrália, Roger Federer confirmou sua condição de maior tenista de todos os tempos.

E daí, perguntarão os leitores deste blogue, acostumados a nele encontrarem, principalmente, abordagens políticas?

No meu caso, a paixão por alguns esportes antecedeu qualquer juízo político ou ideológico, então não tenho justificativas óbvias para dar.

Por exemplo, sou corinthiano, torcedor do time do povo. Mas, a opção futebolística veio quando, aos quatro anos de idade, moleques da rua me perguntaram para qual time torcia e eu não sabia o que responder, por que isso nunca me interessara.

Mas, é uma idade em que não queremos ficar em desvantagem aos olhos alheios. Então, disse "Corinthians", porque era o time do meu pai. E Corinthians ficou.

Mais tarde, percebi ter feito a escolha certa. Provavelmente por ter sido o primeiro grande paulista a admitir negros no seu elenco, os miseráveis e excluídos adotaram o Corinthians como seu representante mítico.

Assim, tem como símbolo mais frequente o mosqueteiro, um herói das classes baixas lutando contra os poderosos da corte para fazer prevalecer a verdadeira justiça.

Mas, a idade foi mudando meu olhar para o mundo. Até 1977, eu era como qualquer torcedor fanático, querendo que, a qualquer preço, o Corinthians fosse campeão, pois não conquistava esse título desde 1954.

O fim do jejum me libertou para apreciar o futebol mais como beleza. Principalmente porque o Corinthians passou a dar exibições primorosas da arte futebolística, com a dupla Sócrates/Palhinha em 1979 e com o inesquecível time da democracia corinthiana em 1982 e 1983.

Foi também a época da extraordinária Seleção Brasileira do Mundial de 1982, com os foras-de-série Falcão, Zico e Sócrates na zona de raciocínio, produzindo seus lampejos fulgurantes.

Era como ter Cruyff desdobrado em três, regendo uma orquestra que produzia sonoridades sublimes (mas, às vezes, desafinava por causa da indefinição quanto a quem realmente eram os solistas...).

Foi a derrota mais sofrida de quantas amarguei no futebol. Eu trocaria dez conquistas insossas como a de 1994 pela vitória do futebol-arte em 1982.

E os esportes individuais?

Afora o futebol, único esporte coletivo que sempre me atraiu (a outros, como o vôlei e o basquete, eu só assisto nos grandes momentos), acompanhei com atenção o boxe e o xadrez, no passado; e até hoje me ligo no automobilismo e no tênis.

Refletindo um pouco sobre essas paixões, percebi que os quatro têm em comum colocarem o indivíduo diante de desafios extremos, andando no fio da navalha. São esportes em que só é grande quem alia uma vontade sobre-humana a um autocontrole inacessível aos comuns mortais.

No boxe, todos lembram a técnica refinadíssima de um Muhammad Ali, mas ele era muito mais do que isso. Tinha dons de grande estrategista, era como se combinasse os papéis de pugilista e de técnico.

Foi assim que ele venceu o invencível George Foreman, na maior luta de todos os tempos. Boxeou francamente contra ele no primeiro assalto e percebeu que jamais conseguiria a vitória lutando de igual para igual. A força descomunal do lutador mais jovem prevaleceria.

Então, adotou a postura que qualquer pugilista comum consideraria suicida diante da enorme potência dos golpes de Foreman: deixou-se ficar encostado nas cordas, recebendo o bombardeio e aparando-o com sua guarda.

Alguns obuses atingiam o alvo de raspão, outros se chocavam com os braços de Ali. Nenhum o abalou de verdade. E Foreman, acostumado a nocautes rápidos, foi se cansando.

No quinto assalto, o Ali aparentemente apático, que só se defendia, mostrou que era, isto sim, um tigre se preparando para dar o bote: com um contra-ataque fulminante, quase nocauteou Foreman.

Depois de mais dois rounds letárgicos, foi o que acabou acontecendo. Ali novamente surpreendeu Foreman e, com uma sequência de golpes cuja rapidez era inimaginável àquela altura de uma luta tão exaustiva, metralhou a cabeça de Foreman até fazer o gigante desabar em câmara lenta no ringue.

A coragem que deu a vitória a Ali nessa luta foi a mesma que o manteve no ringue até o fim de uma luta na qual teve seu maxilar fraturado no 2º round, contra Ken Norton.

O castigo que recebeu de Foreman foi tão terrível que, depois da vitória consumada, ele teve até um breve desmaio (que poucos perceberam) durante as comemorações. Até então, entretanto, a adrenalina o mativera em pé.

No xadrez também a pressão moral que um campeão suporta é devastadora, tendo de refletir sobre infinitas combinações enquanto o relógio o acossa.

É simplesmente inacreditável que o jovem desafiante Garry Kasparov tenha aguentado umas 20 partidas contra o campeão Anapoly Karpov, com 5x1 contra e dependendo só de uma derrota mais para perder o match, sem cometer falha nenhuma.

Forçou empate após empate, até que foi o veterano quem desabou: perdeu duas vezes seguidas e perderia as três restantes, se o match não tivesse sido anulado por "desumanidade" das regras (exigiam seis vitórias, pouco importando quantas partidas fossem necessárias para um deles alcançar tal total).

O socorro suspeito do presidente filipino da Federação Internacional de Xadrez não mudou o que já se decidira no tabuleiro. A coroa pertencia a Kasparov, que cumprira seu rito de passagem durante aquele torneio e dele saíra como homem e esportista superior: fulminou Karpov quando o match, zerado, foi disputado de novo.

No automobilismo, Schumacher não conquistou sete Mundiais de Fórmula 1 por acaso. Conseguiu aliar o senso estratégico de um Prost com o arrojo de um Senna (só o utilizando, entretanto, quando estritamente necessário, não se vexando em vencer corridas só na estratégia de troca de pneus, nas vezes em que isto bastava).

E Federer? Além de ser o mais completo tenista da História, "bom" ou "ótimo" em todos os fundamentos, ele foi capaz de reerguer-se depois que derrubado do pedestal por Rafael Nadal. Acostumado ao predomínio absoluto, a emergência de um verdadeiro rival o desconcertou durante alguns meses, no segundo semestre de 2008.

Mas, nas férias de fim de ano, conseguiu colocar a cabeça em ordem; e encontrou ânimo para dar a volta por cima, vencendo o desafio de retomar sua coroa.

Para sua surpresa, acabou sendo bem mais fácil do que tudo levava a crer: na verdade, Nadal forçara a natureza para derrotar o titã. Exigira mais do seu corpo do que ele era capaz. Só assim, com muita transpiração, conseguira sobrepujar a inspiração de Federer.

O preço acabou sendo alto: depois de uma temporada consagradora, foi fulminado por uma contusão no joelho que comprometeu sua temporada passada e o atormenta até hoje.

E Federer, que sempre manteve o sacrifício exigido de seus músculos no limite do razoável, agora reina soberano e pulveriza todos os recordes, tal qual Schumacher.

Como todo ser humano, admiro quem me inspira. Várias vezes meu autocontrole foi testado no limite extremo e, levando em conta a diferente magnitude dos desafios enfrentados, creio não ter ficado tão atrás de Schumacher, Kasparov e Federer. Também já ganhei partidas que pareciam totalmente perdidas, nas batalhas da vida.

E tenho, confesso, uma satisfação um tanto egoísta em presenciar os feitos dos maiores de todos os tempos. Pois, é sempre frustrante termos de ouvir falarem maravilhas sobre grandes nomes do passado, como se nada acontecesse de relevante no presente que vivemos.

Não questiono nem duvido que Leônidas da Silva, Fangio, Joe Louis e Capablanca tenham sido esportistas grandiosos.

Mas, em vez de ficar venerando quem nem sequer conheci, aprecio mais ter visto Pelé, Schumacher e Muhammad Ali superarem nitidamente os três primeiros; e saber que Kasparov, no mínimo, merece figurar ao lado do quarto, no panteão dos deuses do esporte.

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

UM JOGADOR HABILIDOSO COMO POUCOS E CEREBRAL COMO NENHUM

Nos dois posts anteriores, eu lembrei o papel marcante de Sócrates na campanha das diretas-já e determinante na democracia corinthiana --que foi, para o povão, uma amostra da democracia que almejávamos para a sociedade, ou seja, o grupo decidindo e não um cartola a mandar e desmandar sozinho.

Faltou dizer algo sobre o jogador.

Foi o mais inteligente que já vi atuar -- com a ressalva de não haver acompanhado com idêntica atenção a carreira de Cruyff, até porque as partidas da Europa não eram disponibilizadas amplamente na TV como agora.

Pode ser que o maestro da  laranja mecânica  se equiparasse ao Sócrates. Pode ser.

A utilização frequente do calcanhar, p. ex., foi um expediente genial que ele encontrou para superar uma deficiência física. Algo como os dribles desconcertantes que Garrincha dava apesar de ter uma perna mais curta do que a outra --só que premeditado, não intuitivo.

Alto, magro e com pés pequenos, Sócrates tinha pouco equilíbrio e qualquer esbarrão dos zagueiros o atirava no chão. Daí ter desenvolvido toda uma técnica para não reter a bola, evitando os choques.

Quando estava marcado e recebia o passe, mesmo pelo alto, procurava dar destino imediato à bola, lançando-a para o companheiro com um único toque, no chão ou no ar.

Era um espetáculo a precisão desses toques --os de calcanhar inclusos. Muitos jogadores, com a bola rolando no gramado, não conseguiam passar tão bem.

Também me chamava a atenção o fato de que na arquibancada, com uma visão bem mais ampla do  tabuleiro e, portanto, vislumbrando melhor o lance correto a ser feito, eu raramente encontrava um jogador que o fizesse na maioria das vezes.

Sócrates era uma exceção absoluta: quase sempre o fazia. Ou um melhor ainda, que não me ocorrera.

Impagávell foi seu  drible do olhar  num jogo sem muita importância do Corinthians contra um time pequeno.

Puxando o contra-ataque, ele conduziu a bola olhando sempre para a direita, o que fez toda a defesa adversária se preocupar com o corinthiano para o qual o  doutor  fazia menção de lançar a bola.

Pelo contrário, sem virar o rosto, ele deu um toquinho hábil para o companheiro que descia sozinho pela esquerda, colocando-o diante do goleiro. Depois, enquanto os corinthianos comemoravam, os zagueiros logrados ficaram entreolhando-se em silêncio, com cara de bobos...

Finalmente, eu sempre reparei que ele achava natural fazer aquilo que fazia. Não mostrava vaidade.

Ao chegar no Corinthians, surpreendeu a torcida com sua fleuma depois de fazer um golaço: virava as costas e voltava para o seu campo.

Quando isto começou a ser comentado negativamente --afinal o Corinthians sempre foi time da grande massa, portanto vibrante--, ele mudou de atitude e passou a comemorar os gols, esforçando-se para aparentar um entusiasmo que geralmente não estava sentindo.

Percebia-se que considerava ter feito apenas sua obrigação.
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