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terça-feira, 12 de janeiro de 2021

VAI-SE A FORD SEM NADA DEIXAR PARA TRÁS, SALVO ESTA CERTEZA: O MODELO COLONIZADO BRASILEIRO FRACASSOU!

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elfim Netto, num momento, era o grande timoneiro econômico da esquerda brasileira. Foi consultor de Lula, Dilma e Ciro, escrevia na Carta Capital e suas declarações contrárias ao impeachment de Dilma Rousseff recebiam destaque imenso nos sites e blogs caudatários do PT. 

Delfim também foi o homem forte da ditadura militar, responsável pelo malogrado milagre brasileiro, do qual resultou hiperinflação e desigualdade social recorde.

Mesmo assim, o milagre do Delfim Netto continua sendo sentido até hoje. O projeto dele e da ditadura de industrializar o Brasil via instalação de multinacionais acabou de dar mais um de seus frutos: a saída da Ford do Brasil. 

O modelo Delfim-milicos foi uma contrapartida ao nacional-desenvolvimentismo pré-64, que previa, num processo liderado pelo Estado e fortemente estimulado por investimentos estatais, um crescimento econômico alicerçado principalmente na expansão do mercado interno  e numa participação cada vez maior dos trabalhadores no dito cujo, à medida que o aumento de sua capacidade aquisitiva lhes permitiria consumir mais. 

Complementarmente, reformas estruturais (agrária, bancária, fiscal, urbana, administrativa e universitária) para eliminar distorções e focos de atraso, desimpedindo o caminho para um capitalismo moderno no Brasil (e não para o comunismo, como martelava a propaganda reacionária).
O golpe de 64 veio para impedir este modelo e implementar o desenvolvimento industrial por via conservadora, sem reformas e com inclusão relativa e controlada das classes trabalhadoras. 

Ao invés de reformas estruturais, pequenas mudanças cosméticas. Ao invés do desenvolvimento de forças produtivas nacionais, a mera transposição de indústrias multinacionais, com gordos incentivos fiscais (até mesmo os terrenos e a eletricidade lhes eram subsidiados!). O Brasil se endividava para alavancar o lucro das múltis. 

Optava-se, assim, pela transformação do país em mera barriga de aluguel das multinacionais, com um desenvolvimento superficial, pautado nas decisões volúveis dos proprietários das empresas, estes residentes fora do país. O país, portanto, criava um modelo de desenvolvimento refém dos movimentos de acionistas cujo único objetivo era o lucro. 

Enquanto as polpudas isenções fiscais e os nababescos incentivos do governo fluíam, as multinacionais iam ficando. Sem compromisso com transferência tecnológica ou com implementação de qualquer estrutura científica ou mesmo econômica. 

Mas, quando se tornou mais lucrativo para as multinacionais irem para outras bandas, elas saíram em peso. E assim foi ao longo da década de 90, com a transferência de fábricas para a Ásia, particularmente para a China. 

Não à toa, os últimos 30 anos viram o crescimento do peso das commodities no PIB nacional. A soja e o minério de ferro foram substituindo os manufaturados, à medida que a desindustrialização se acelerava. 

Portanto, não se trata de um fenômeno recente ou cuja responsabilidade recaia apenas sobre a insegurança econômica gerada pelo errático Governo Bolsonaro. Ele apenas é o epílogo deste processo, sendo também efeito dele. 

O modelo criado por Delfim e pelos militares mostrou-se insustentável justamente porque não trouxe complexificação e enraizamento industrial ao país. Sem reformas estruturais e desenvolvimento tecnológico nacional, era apenas questão de tempo para as multinacionais partirem daqui, seja em busca de lugares mais atrativos, seja por questões de reorganização produtiva. 

Algo irônico nisso tudo é que os militares golpistas diziam ser necessário impor a ditadura para evitar que o Brasil se tornasse uma nova China. Que palpite infeliz!

O modelo chinês hoje, para o bem ou para o mal, obtém sucesso em desenvolver o país, graças imensamente às reformas estruturais feitas por Mao. E, enquanto a China inaugura milhares de quilômetros de trens e cria um sol artificial, o Brasil se avacalha, com generais semialfabetizados sendo utilizados como dublês de ministros. 

Longe de fazer uma louvação acrítica do desenvolvimento capitalista chinês, pretendo apenas mostrar o quanto opções distintas feitas há mais de meio século levaram os dois países a condições radicalmente opostas no presente. 

Lamentável pela perda de empregos e de renda, bem como pela falência da cadeia de insumos, o fechamento da Ford é apenas mais uma comprovação da essência do capitalismo e de como as opções nefastas do regime de 1964, mantidas na redemocratização, conduziram o Brasil ao abismo. (por David Emanuel de Souza Coelho

domingo, 3 de dezembro de 2017

JÁ ESTAMOS TESTEMUNHANDO O INÍCIO DOS ESTERTORES DO CAPITALISMO

DESSUBSTANCIALIZAÇÃO DO VALOR: O PRINCÍPIO DO FIM.

As mutações sociais históricas se processam de modo diferenciado com relação ao tempo médio de vida dos seres humanos; é por isto que as ações humanas muitas vezes não têm os seus reflexos vivenciados pelos que as causaram.

As verdadeiras revoluções comportamentais sociais correspondem às construções centenárias nas quais cada tijolo se soma aos milhões de tijolos acrescentados ao longo dos tempos por incontáveis gerações.

Cada passo dado, por mais imperceptível que seja em termos de significado social histórico, é uma contribuição silenciosa e definitiva para o avanço da roda da história (ainda que existam solavancos e retrocessos momentâneos, que fazem parte do itinerário humano). 

Neste sentido, uma descoberta científica, ainda que impulsionada por uma motivação econômica qualquer e, portanto, imanente à lógica da mediação social sob a forma valor, é também um passo dado no sentido da morte futura do capitalismo.  

A forma-valor se iniciou formalmente há cerca de 2.700 anos na Grécia, com a primeira mercadoria eleita como referência para a aquisição de todas as outras mercadorias no processo de troca quantificada, escambo, embrião do valor (que é diferente da troca do simples excedente de produção, sem quantificação de valor), tal qual um ser humano quando nasce, iniciou ali a sua caminhada para a morte, na razão direta de ser tal mediação social um fato histórico, não ontológico da nossa existência.   
Adam Smith: o egoísmo como motor do progresso.
Adam Smith, tido como o pai da economia moderna, entendeu, equivocadamente, a criação da mediação social sob a forma-valor como um dado ontológico da vida social, a ponto de considerar o trabalho produtor de valor tão indispensável para o ser humano como a satisfação das necessidades biológicas; e até mesmo como um ato de dignificação da condição humana! 

Não o é, absolutamente.  Pelo contrário, não passa de uma forma de escravização! 

Coube a Karl Marx, um século depois, desmistificar tal conceito, embora a teoria da crítica da economia política de Marx tenha soado para muitos (e ainda hoje soe, embora venha sendo ressuscitada atualmente) como um disparate.

A História praticamente se repetiu. Galileu Galilei, quando proclamou a heresia de que a Terra era redonda e girava em torno do sol, foi obrigado a renegar as suas afirmações para não morrer no fogo da nada Santa Inquisição

Marx, pelo menos, jamais teve de recuar de suas posições corretas, mas não escapou da estigmatização e satanização por parte daqueles que acreditavam e acreditam ser eterno, indispensável e único o modo de produção capitalista
O veredito da História  está sendo dado agora

Embora o avanço tecnológico que nos proporcionou as melhoras coletivas de vida tenha sido impulsionado pela guerra de mercado, trata-se, paradoxalmente, de um benefício advindo de uma negatividade intrínseca (que é a própria essência do sistema produtor de mercadorias e do mercado). Das guerras também decorrem avanços tecnológicos...

É no mercado que as mercadorias se digladiam em busca da própria hegemonia, com uma mercadoria ganhando vida em detrimento das outras que morrem, num exemplo micro-celular da essência belicista do capitalismo, a qual tem provocado o maior genocídio desde que se iniciou o itinerário humano sobre a face da Terra.

Trata-se de uma contradição  das mais emblemáticas:
— de um lado, o avanço tecnológico aplicado à produção de mercadorias implica um novo nível de produtividade, capaz de tornar o trabalho produtor de valor (trabalho abstrato) apenas marginal na produção de mercadorias; 
— de outro, como o valor das mercadorias nada mais é do que trabalho abstrato nelas cristalizado, objetivado, isto significa dizer que a eliminação do trabalho abstrato equivale à inviabilização da produção de um volume de valor global suficiente para irrigar o organismo social, retirando oxigênio dos dois maiores parasitas do capitalismo, o Estado (seu guardião) e, principalmente, o capital fictício (que vive de cobrar juros pelo empréstimo da mercadoria dinheiro, apostando nos lucros futuros da economia real). 
Quem encontrar um ser humano nesta foto receberá um livro do Adam Smith como brinde...
Resumo da ópera: o avanço tecnológico da robotização da microeletrônica, que dispensa custos com trabalho necessário (aquele remunerado ao trabalhador), representa a dessubstancialização do valor das mercadorias e, com ela, o emperramento de toda a engrenagem social erigida sob sua lógica destrutiva e autodestrutiva. Este é o paradoxo entre o bem e mal dos ganhos do saber tecnológico sob a égide do capital.
  
Tal fenômeno, cada vez mais agressivo, significa que o motor da História ganhou velocidade, com cada ano hoje vivido correspondendo a milhares de tijolos colocados imediatamente no tempo da construção histórica da transformação social. Já estamos, portanto, presenciando o início dos estertores do capitalismo.
  
O dito herege Marx, o esotérico, antimarxista, estudando o núcleo essencial da forma-valor, pôde desvendar a contradição essencial da dinâmica capitalista, vaticinando, há cerca de 160 anos, o seu fim irremediável por suas próprias contradições. 
160 anos depois, previsões de Marx começam a se confirmar
Desmentiu, portanto, o sábio Adam Smith, ao afirmar (*) que: 
"... Caso se conseguisse, com pouco trabalho, transformar carvão em diamante, o valor deste poderia cair abaixo do dos tijolos. Genericamente, quanto maior for a força produtiva de trabalho, tanto menor o tempo de trabalho exigido para a produção de um artigo; tanto menos for a massa de trabalho nele cristalizada, tanto menor o seu valor. 
Inversamente, quanto menor for a força produtiva de trabalho, tanto maior o tempo de trabalho necessário para a produção de um artigo, tanto maior o seu valor. A grandeza do valor de uma mercadoria muda na razão direta do quantum e na razão inversa da força produtiva do trabalho que nele se realiza..." 
OS GIGANTES TÊM PÉS DE BARRO

No início de 2008 –antes, portanto, da crise do subprime (aquela das bolhas do sistema financeiro, que eclodiria nos Estados Unidos, com reflexos mundiais, no semestre seguinte)–, foi publicado no jornal O Povo, de Fortaleza um artigo no qual demonstrei a insustentabilidade do aparentemente forte poderio do capital em face do processo autodestrutivo do próprio capital, que agora volta a se intensificar.
"Estourei a banca!"

Vale a pena reproduzir, na íntegra, aquele artigo, até para confrontá-lo com os acontecimentos seguintes:

"Os sintomas de debacle mundial do sistema produtor de mercadorias são evidentes, prenunciando uma crise que já atinge os Estados Nacionais e deverá provocar uma hecatombe no sistema financeiro internacional. A crise da produção industrial de mercadorias, atividade produtora de valor e mais valia, arrasta gravemente o Estado e o capital financeiro. 

Os sintomas mais evidentes desse quadro são os resultados financeiros de grandes e tradicionais impérios industriais mundiais que apresentam consideráveis prejuízos nos exercícios financeiros mais recentes. Vejamos os exemplos:

 a General Motors, nascida há exatos 100 anos nos Estados Unidos e difusora do way of life automobilístico mundial, apresentou no exercício de 2005 um prejuízo de cerca de US$ 5 bilhões, algo bastante significativo se levarmos em consideração que o valor de mercado do grupo está orçado em US$ 10,6 bilhões. A empresa ameaçou falir, simplesmente, e com isto arrastaria um universo de atividades econômicas, financeiras e industriais que lhe são atreladas;

 a Ford apresentou o seu pior resultado em 103 anos de existência, com prejuízo no exercício de 2006 da ordem de US$ 13 bilhões, demissões em massa e o fechamento de fábricas nos Estados Unidos;
"consideráveis prejuízos nos exercícios financeiros recentes"
 a Mitsubishi japonesa apresentou prejuízo de US$ 4,4 bilhões no exercício de 2004 e a Volkswagen alemã, em meio a denúncias de corrupção, também teve um desemprenho bisonho em 2005. 

O avanço das empresas asiáticas no setor e o crescimento industrial chinês, antes de representar vigor capitalista, significam a dessubstancialização do valor, com produção de alta tecnologia (ou não) sempre com mão-de-obra barata, além de ser insubsistente, porque dependente de um mercado externo cujo limite está previamente estabelecido. É o chamado crescimento para baixo, como se fora rabo de cavalo. 

A forma material concreta da produção mercantil entra em contradição flagrante com o limite de sua lógica abstrata. 
         
A consistência de uma teoria crítica afirma-se quando não se tem de corrigi-la a qualquer tempo e, mais consistentemente, quando ela se afirma com mais substância ao longo do tempo. A teoria critica da economia política de Karl Marx, que orienta os nossos escritos e avaliações, tem esta força argumentativa, ainda que ela contrarie interesses mesquinhos ou dogmáticos". (por Dalton Rosado)

* Karl Marx, O Capital – Crítica da Economia Política, Livro 1º, 4ª edição, 1890.
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