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domingo, 8 de março de 2026

EM 1845 MARX JÁ IMPLODIA AS PREMISSAS TEÓRICAS DO IDENTITARISMO

Companheiros que eu respeito sentiram-se incomodados com meu post deste sábado (7), intitulado O estupro é abominável, mas bem pior é a exploração do homem pelo homem

Em termos práticos, minha ojeriza pelas premissas do identitarismo vêm desde 1975, quando eu participava do Grupo Cacimba e o Movimento Negro alugou um grande salão próximo à nossa área de atuação. 

Como havia espaço sobrando, propusemos que cedessem um cantinho para nós, o que retribuiríamos de várias formas. Somar forças beneficiaria ambas as partes, mas recusaram porque queriam combater apenas o racismo. 

Durante minha trajetória posterior continuei ajudando o movimento negro em tudo que podia, principalmente na denúncia da vandalização de seus templos pelos truculentos evangélicos. Mas sempre me incomodou o fato de que eles não lutavam ao nosso lado contra o capitalismo. 

Quanto ao movimento feminista, eu o acompanho à distância desde que começou a repercutir mais no Brasil, a partir da década de 1960.

Li e gostei de cartilhas faministas como O Segundo Sexo, de Simone de Beauvoir; A Mulher Eunuco, de Germaine Greer; e A Liberdade É Uma Luta Constante. da Angela Davis.

São autoras que foram muito além do combate simplório ao machismo, uma bandeira que pode ser facilmente atendida pelo capitalismo (e, mais dia, menos dia, acabará o sendo), sem que isto altere sua natureza essencial, qual seja a exploração do homem pelo homem.
 
Depois, em 2010, quando outros identitários, agindo como 
aprendizes de censores, tentaram impedir a utilização de Caçadas de Pedrinho, do Monteiro Lobato, na rede estadual de ensino de SP, senti-me obrigado a defender o escritor que tanto contribuíra, com seus sensíveis livros infanto-juvenis, para moldar minha visão rebelde da sociedade. 

Na polêmica então travada, ressaltei que a visão marxista era a postura mais compatível com estes tristes tempos presentes e tinha sido explicitada por Marx em 1845, de forma irrefutável, nas Teses sobre Feuerbach. Ei-la:

A doutrina materialista de que os seres humanos são produtos das circunstâncias e da educação, de que seres humanos transformados são, portanto, produtos de outras circunstâncias e de uma educação mudada, esquece que as circunstâncias são transformadas precisamente pelos seres humanos e que o educador tem ele próprio de ser educado. 
Ela acaba, por isso, necessariamente, por separar a sociedade em duas partes, uma das quais fica elevada acima da sociedade.

A consciência do mudar das circunstâncias e da atividade humana só pode ser tomada e racionalmente entendida como praxis revolucionária. (3ª tese)
 
Os filósofos têm apenas interpretado o mundo de maneiras diferentes; a questão, porém, é transformá-lo. (11ª tese)

Ou seja, os educadores que se arrogam o direito de decidir o que crianças (ou a sociedade como um todo) podem ou não ler, e com quais ressalvas, lhes devem ser permitidas tais leituras, têm, eles próprios, de ser educados.
Pois não basta a adoção de outras palavras para eliminar-se a carga de preconceitos com que as pessoas as impregnaram, nem fazer triagem de obras artísticas para extirparem-se os comportamentos condenáveis nela retratados.

Somente livrando a humanidade do pesadelo capitalista conseguiremos dar um fim a todas as formas de discriminação, pois uma das molas mestras da sociedade atual é exatamente a busca da diferenciação, do privilégio, do status, da superioridade.

Enquanto os seres humanos forem compelidos a lutarem com todas as suas forças para se colocarem acima de outros seres humanos, será ilusório pretendermos tangê-los ao respeito mútuo por meio de besteirinhas cosméticas.

É desprezando os iguais que eles adquirem forças para a disputa insana que travam, pisando até no pescoço da mãe para alçarem-se a um patamar superior na hierarquia social.

Então, a verdadeira tarefa continua sendo a transformação do mundo, para que não haja mais hierarquia e sim a priorização do bem comum, com cada um contribuindo no limite de suas possibilidades para que sejam atendidas as necessidades de todos.

Enquanto nos iludirmos com esses pequenos retoques na fachada do edifício capitalista, estaremos perdendo tempo: seus alicerces estão podres, para além de qualquer restauração. 

Ou o demolimos e tratamos de erguer novo edifício em bases sólidas, ou ele ruirá sobre nós É simples assim. (por Celso Lungaretti)

sexta-feira, 19 de novembro de 2021

MÚSICA DE LUNGARETTI E DALTON LEMBRA JUNHO DE 2013 ("A CIDADE ESTAVA POR UM FIO, DOIS BABACAS ACENDERAM O PAVIO")

Policiais cegando jornalistas com balas de borracha e black blocs reagindo à violência com
vandalismo: foi fácil para a mídia transmitir à opinião pública uma imagem devastadora.
.
PARA TURISTA ACIDENTAL, FALTAVA-ME A GRANA
E A GANA. MAS POETA ACIDENTAL, POR QUE NÃO?
J
á escrevi sobre minhas fases de crítico acidental de cinema (vide aqui) e de música (vide aqui), pois duraram meia década cada e renderam centenas de textos publicados, ainda que não o fossem na grande imprensa. 

Também posso me considerar um poeta acidental, embora a repercussão fosse menor ainda. Mas, como mensurar um sonho? 

O importante, bem disse o Paulo César Pinheiro, é que a nossa emoção sobreviva. Talvez sirva de inspiração para os que virão depois de mim e siga por algum tempo produzindo alguns dos efeitos que eu tentei causar...
    
Faço poesias desde os meus 13, 14 anos, por aí. Sempre que qualquer inspiração surgia, eu a colocava no papel. 

Comecei fazendo-as quilométricas e palavrosas, mas, com o tempo, fui para o extremo oposto, tentando dizer o máximo com o mínimo de palavras.

No inferno do DOI-Codi, em maio ou junho de 1970, cheguei a ter como companheiro de cela o major Joaquim Cerveira (vide aqui), anos depois assassinado pela Operação Condor.  Estávamos em cinco. Para tentarmos pairar por alguns momentos acima das nossas dores e dramas, ele cantava seus sambas e eu recitava minhas poesias, ambos de memória.
Colega na poesia, Rubens Lemos me pediu para
travar uma luta dramática; a vitória caiu do céu

Quando morava numa comunidade alternativa, em 1972, escrevia versos a esmo em meio às nossas viagens de LSD. 

Houve vezes em que depois encontrei matéria-prima poética em meio àquela algaravia toda. Aproveitava o aproveitável, dando um trato e acrescentando complementos,  e jogava o resto fora.

Em meados daquela década, participava dos espetáculos de poesia e música do Grupo Cacimba e era um dos autores das coletâneas independentes produzidos com a grana resultante. 

O Rubens Lemos, radialista de esquerda e veterano quadro do partidão, era outro dos poetas. Foi graças a isto que, quando o filho dele mais três companheiros presos, os chamados quatro de Salvador, estavam prestes a iniciar uma greve de fome em 1986, ele pediu minha ajuda para fazê-la repercutir e, com muito esforço e um bocado de sorte, encontrei o caminho de uma vitória que parecia impossível (vide aqui).   

Na década de 1990 resolvi tentar a sorte nos concursos de poesia anunciados na internet. Peguei todas as poesias que considerava pelo menos razoáveis e fiz um livro resumindo as etapas da minha trajetória de vida e as poesias criadas em cada uma delas. 

Não ganhei nada, mas tinha carinho por aquele trabalho. Aí uma pane do computador e um técnico trapalhão que o reformatou sem cuidado fez meu livro virar pó. Foi quando perdi boa parte do meu entusiasmo pela coisa.

Guardo como melhor lembrança a poesia que dediquei à moça que tentava conquistar e acabou se tornando a mãe da minha filha mais velha.

Muitas poesias que faço têm um ritmo musical e são facílimas de adaptar para letras de canções. Aqui e ali alguns o fizeram, inclusive sem que eu jamais ouvisse o resultado (isto antes da internet, claro!).

Minha última poesia foi Junho Indignado, por causa do forte impacto que as manifestações de 2013 tiveram sobre mim. Lamentei que a bestialidade das polícias estaduais e a insensatez (ou provocações deliberadas, sabe-se lá, Anselmos sempre há...) dos black blocs acabassem ofuscando o ingrediente revolucionário daqueles protestos. 
Quis dizer isto em versos, mais ou menos na linha da chamada
vanguarda paulistana do período 1979/1985, aquela do Arrigo Barnabé e Itamar Assumpção. Por quê? Sei lá, foi como imaginava a canção na qual aqueles versos caberiam, quando os estava criando. 

Esta poesia derradeira foi agora musicada pelo Dalton e deu origem ao vídeo abaixo, na voz do Gomes Brasil. 

Se calhar, a parceria com o bom Dalton poderá render outros frutos, caso a musa de outrora decida me visitar de novo. O certo é que não pretendo utilizar com tal objetivo as poesias que sobraram do apagão do computador (eis algumas aqui). 

Marcam outras épocas e eu encaro a vida como movimento e mudança. Enquanto não me faltarem as forças, estarei tentando escrever novas páginas.  A História jamais tem fim para os revolucionários. (CL) 
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