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quarta-feira, 27 de setembro de 2023

O CONGRESSO NACIONAL É O ESGOTO DO BRASIL


 Em praticamente toda sondagem popular feita sobre os poderes da (podre) República brasileira, o Congresso Nacional sempre atinge índices baixíssimos de avaliação. A concorrência é forte, haja visto que demais poderes também não são muito conhecidos por serem bem quistos no país, mas deputados e senadores ganham no quesito ojeriza. 

Tal não vem de hoje, haja visto que a população brasileira rejeitou por duas vezes em plebiscitos a instituição entre nós do parlamentarismo, regime que significaria transformar Arthur Lira no Primeiro Ministro de direito do país, pois de fato ele já é. Em sua sabedoria, o povo preferiu neutralizar a sanha da rataiada congressista opondo-lhe o poder presidencial. Montesquieu ficaria orgulhoso. 

Imagine ele de Primeiro Ministro...

Mas, nos últimos dias, a gangue congressista resolveu aumentar o nível do despudor e da canalhice explícita. Após o STF ter declarado, corretamente, o Marco Temporal inconstitucional, os ruralistas resolveram ignorar tal decisão e avançam normalmente com um projeto para tomar as terras indígenas e mesmo obrigar o governo a indeniza-los pela desapropriação de terras que eles haviam grilado no passado. Estão mesmo obstruindo os trabalhos no Congresso em protesto pelo direito de matar índios e desmatar. O agro é pop!

Já ele acha que a Guerra às
drogas tem sido um sucesso..
Já o presidente do senado, Rodrigo Pacheco, sujeito para quem nenhum adjetivo seria abjeto o suficiente, resolveu propor uma PEC para proibir a legalização das drogas. Sua jenial proposta é acrescentar ao artigo quinto da constituição, que trata dos direitos e garantias fundamentais, um inciso vetando o consumo e venda de drogas. Ou seja, inserir nos direitos fundamentais um artigo que limita esses mesmos direitos!! Nem os militares seriam capazes de tamanha criatividade em seus Atos Institucionais.  

Por fim, a trupe fundamentalista quer impedir o avanço da legalização do aborto pelo STF, seja através de um plebiscito protelatório ou ressuscitando o odiento projeto do Estatuto do Nascituro, em que estupradores passam a ser reconhecidos na figura de pais. 

Abjeto, o Congresso Nacional brasileiro é apenas e tão somente a representação cabal do pior esgoto possível. Apenas as águas da revolução para nos livrar de tal chorume! (por David Emanuel Coelho) 



domingo, 8 de agosto de 2021

SEMIPRESIDENCIALISMO: JÁ IMAGINARAM O ARTHUR LIRA COMO PRIMEIRO MINISTRO?

A imagem que o povão mais associa aos políticos é a dos ratos. Por que será?
Já se falou que muitas crises acabam sendo respondidas de uma perspectiva formalista. 

Álvaro Vieira Pinto, importante filósofo brasileiro, dizia isto a respeito dos problemas da educação, os quais têm uma natureza eminentemente social, mas acabam sendo tratados como sendo questões de metodologia didática.

Algo semelhante podemos ver no caso da discussão em torno do semipresidencialismo, proposta aventada nos últimos tempos como a panaceia capaz de pôr fim à crise política brasileira. Esta é justamente uma forma de transformar um problema formal – o sistema de governo – numa crise socioeconômica.

Um país atravessado pela atrofia do sistema primário, agroexportador, acossado pelo desemprego ou subemprego crônico de milhões e pela galopante miséria, é um lugar onde se vive em crise permanente.
Um risco: Bozo presidente e Lira primeiro-ministro

Nosso sistema político é parte e reflexo desta crise. Criado nos estertores da ditadura, trata-se de um sistema encastelado, oligárquico e profundamente antidemocrático.

Os partidos políticos brasileiros, p. ex., são verdadeiras confederações feudais, reunindo interesses de oligarquias localizadas que se alimentam do dinheiro público drenado a partir de Brasília. 

Mesmo partidos de esquerda, supostamente populares, se tornaram cabides para militantes profissionais, avessos às vozes exteriores.

Criou-se um abismo entre a realidade cotidiana da esmagadora maioria do povo brasileiro e o sistema político alienado e autocentrado. As manifestações de junho de 2013 são o momento de eclosão definitiva dessa disparidade. A partir dali, o sistema político brasileiro entra em colapso, fato acentuado graças à Operação Lava Jato.

A eleição de Jair Bolsonaro à presidência só pode ser corretamente compreendida se estes aspectos forem levados em conta. O atual presidente apresentou-se enquanto um outsider, um antissistema, inimigo mortal dos políticos tradicionais e das negociatas habituais.

Não podemos nos enganar a respeito deste ponto: a população elegeu Bolsonaro para que ele explodisse o sistema político. 

A truculência e a falta de modos do então candidato eram vistos como algo positivo diante de um regime dominado pelos artifícios de salão e o bom mocismo fingido. 
Em sua imensa sabedoria, o povo brasileiro
decidiu não dar plenos poderes ao Congresso

O que não era esperado era que a destruição acabaria se voltando contra o povo, enquanto o futuro presidente acabaria por entender-se com o regime supostamente odiado.

O efeito Bolsonaro, contudo, levou muitos a questionarem o atual sistema de governo, afinal é muito problemático não apenas o nível de poder acumulado nas mãos de um sujeito incapaz, mas também a grande dificuldade em tirá-lo da cadeira. E é neste contexto que ressurge a ideia do semipresidencialismo.

No entanto, esta é uma resposta falsa para um problema falso. Tal proposta nem de longe toca nas questões essenciais do país e de seu sistema político falido. Não toca sequer na questão da origem de Bolsonaro, de como, afinal, foi possível existir tal tipo de político e, mais, chegar ao posto mais alto da República.

Na realidade, o semipresidencialismo é uma solução confortável para radicalizar o poder das forças politicas fisiológicas, hoje ainda embaraçadas pelo controle presidencial da máquina pública. Com esta forma de regime, o fisiologismo brasileiro poderá aumentar ainda mais seu poder de barganha, inviabilizando qualquer governo que não aceite se curvar. 

Melhor, só o parlamentarismo puro, onde o fisiologismo seria soberano, não tendo de prestar contas a ninguém.

A sabedoria política do povo brasileiro costuma ser muito subestimada. O presidencialismo por aqui não é mera importação de modelo exógeno, mas a marca de um arraigado instinto de desconfiança frente ao sistema político, especificamente ao Congresso Nacional.

Confluência das representações oligárquicas do país, o Congresso é uma instituição profundamente impopular. Profundamente opaca aos interesses populares, a dita casa do povo raramente ouve os clamores das ruas, pautando-se mais contra elas. 

Por isso, a população brasileira pensou por bem limitar os poderes do legislativo, instituindo na figura do presidente da República um polo de tensão com este poder. Justamente por ser eleito de forma majoritária e ter suas ações sempre analisadas à luz do dia, o presidente aparece enquanto síntese material única da vontade popular e, portanto, enquanto um antagonista ao conchavo disperso e camuflado do exército dos parlamentares.

É por isso que o Brasil preferiu o sistema presidencialista e é por isso que vai preferir de novo caso seja instado a decidir por uma terceira vez. Não à toa, o relator da PEC em torno do semipresidencialismo não deseja uma consulta popular sobre o tema. Afinal, democracia boa é a democracia sem povo.

O Congresso Nacional funciona há três décadas basicamente para descontruir os direitos adquiridos na Carta Constitucional de 1988, tornando o regime político mais fechado e distante do indivíduo comum. Tudo isto é feito através de Propostas de Emenda à Constituição que jamais foram submetidas ao crivo popular. 

Certamente, o semipresidencialismo é mais passo neste processo de enclausuramento e enrijecimento do sistema. No entanto, por ser a solução errada para um problema erroneamente colocado, poderá apenas ser mais um passo na agudização da crise brasileira, já por demais aguda. (por David Emanuel Coelho)

domingo, 26 de maio de 2019

A BALBÚRDIA DOMINICAL DOS FEIOS, SUJOS E MALVADOS DEU CHABU

Bolsonaro fez o de sempre: piorou o que já estava ruim. 

Tentou obscurecer a imagem das belas manifestações dos estudantes contra o destruição da Educação lavada a cabo pelos sinistros ministros olavetes mas acabou por reavivá-las, o mais desfavoravelmente possível para si. Fracassou rotundamente.

As avaliações da mídia são quase todas no sentido de que a balbúrdia dominical dos feios, sujos e malvados no máximo igualou numericamente os protestos estudantis. 

Mas, seu espectro era muito mais amplo e tinha o próprio presidente da República fazendo proselitismo descarado. Igualar, nessas condições, equivale a perder de goleada.

De resto: 
— expôs fraturas significativas nas forças de apoio ao bolsonarismo; 
— fez soar os mais estridentes alarmes no Congresso Nacional e no STF, que tendem a doravante colocar cada vez mais pedras no caminho de quem já vinha colecionando derrotas aos montes; 
— impulsionou um aumento expressivo das dúvidas nos círculos decisórios (até quando o poder econômico continuará pacientemente aguardando a entrega da contrapartida que exigiu de Bolsonaro para conduzi-lo poder?); e
— reforçou a convicção, esposada por contingentes cada vez maiores de brasileiros, de que o verdadeiro objetivo desse caótico governo é golpista, na linha da fracassada tentativa de Jânio Quadros em 1961, quando tentou esvaziar os outros Poderes e acabou sendo por eles esvaziado.

O sucesso dos direitistas nas ruas durante a campanha pelo impeachment de Dilma Rousseff se deveu, basicamente, à desastrosa política econômica por ela adotada, causadora de uma aguda recessão; e ao antipetismo insuflado dia e noite pela indústria cultural. 

Fora Dilma! era uma palavra de ordem simples, clara e agregadora, pois vinha ao encontro de um sentimento compartilhado por muitos.

Já a micareta deste domingo atirava em direções demais (a favor da reforma da Previdência e do pacote anti-crime do Sérgio Moro; defendendo o indefensável governo do pior presidente brasileiro de todos os tempos; tentando intimidar a imprensa; atacando ministros do Supremo; hostilizando estudantes, professores, a intelligentsia como um todo e toda e qualquer manifestação de vida inteligente; satanizando o Rodrigo Maia; descendo o pau no MBL, etc.) .

Errou todos os alvos, menos o pé do Bolsonaro, que deve estar com mais furos do que uma peneira...
Há algumas semanas coloquei em questão se o homem da arminha conseguiria manter-se à testa do governo durante, pelo menos, os 200 dias que o homem da vassoura aguentou antes de despencar; foi, contudo, mais como zombaria e sarcasmo, pois não consigo levar a sério isso que está aí. 

Começo agora a crer que a profecia poderá tornar-se realidade. (por Celso Lungaretti)

terça-feira, 21 de maio de 2019

ELE NOS CAUSARIA MUITOS PROBLEMAS SE FOSSE O MICKEY. SORTE QUE É SÓ O PATETA!

hélio schwartsman
SALVOS PELA INCOMPETÊNCIA
Não duvido de que Jair Bolsonaro fantasie com a ideia de, amparado nos braços do povo, passar o rodo em instituições que ele vê como corruptas (como o Congresso Nacional e o Supremo Tribunal Federal) e, a partir daí, governar sem embaraços. Mas fantasias frequentemente não passam de fantasias.

É verdade que tudo o que não é proibido pelas leis da física é possível, mas nem tudo o que é possível é provável. A esta altura, parece-me ser maior a chance de Bolsonaro não concluir seu mandato do que a de ele congregar forças para desferir algum tipo de golpe de Estado.

O motivo principal para isso é sua própria incompetência. Ele assumiu o cargo em condições razoavelmente boas. Tudo o que precisava fazer era manter em alta a confiança da população e correr com a reforma da Previdência, seguida pela tributária. Se obedecesse a esse roteiro, eram grandes as chances de o país assistir à volta do crescimento.

O que vimos, porém, foi um presidente que, através de omissões e declarações, operou para sabotar a reforma que seria a chave para o sucesso de seu governo.

Errou desde o primeiro dia, quando optou por iniciar do zero os trâmites da proposta de emenda constitucional, em vez de modificar a de Temer, que estava pronta para ser votada em plenário. Perdeu preciosos seis meses.

Mesmo se o plano de Bolsonaro fosse, desde sempre, passar por cima das instituições, ele fez tudo errado. 

Deixou para desenhar o cenário de enfrentamento num momento em que sua popularidade é declinante —ele já parece ter perdido uma boa fatia dos eleitores mais moderados que o apoiaram contra o PT— e, mais importante, conseguiu se indispor até mesmo com os militares, que, em situações de impasse institucional, costumam ser os fiéis da balança.

Temos aqui a inépcia como um fator moderador. Se é ela que impede o governo Bolsonaro de nadar de braçada, também é ela que nos protege de uma investida autoritária. (por Hélio Schwartsman)

segunda-feira, 20 de maio de 2019

O MOVIMENTO EM TORNO DO CAPITÃO REGRIDE À CÉLULA-MÃE: PARANOIA, DESPREPARO E FANATISMO.

vinicius mota
DEMOCRACIA JÁ EMPAREDOU O AUTORITARISMO
As instituições democráticas, como previsto, estão vencendo. 

Elas rapidamente obrigaram o ingrediente autoritário que emergiu das eleições de outubro, misturado a interesses legítimos da sociedade, a se separar da maçaroca.

Em menos de cinco meses, o bolsonarismo vê-se isolado e depurado. 

Nenhuma organização relevante o apoia mais, nem sequer os principais rebentos da nova direita nascidos dos protestos de 2013.

Na burocracia federal, talvez apenas o nicho vingador de juízes, policiais e procuradores ainda resista na associação, mas as investigações no Rio contra o primogênito do clã deverão esgarçar depressa até mesmo essa solidariedade. 

Sob o sol, o movimento em torno do capitão regride à célula-mãe. Paranoia, despreparo e fanatismo.
Emparedada, a seita aposta numa manifestação no domingo (26), em que só lhe restará atiçar o golpismo. Contra o Supremo, contra o Congresso, contra o oficialato militar. Pregará no deserto.

Apesar da destruição econômica que a catarse acarreta, há um valor positivo em encararmos esse contraste radical —aquilo que não queremos ser. Isso promove o autoconhecimento e relativiza antinomias que outrora pareciam insolúveis.

Delineia-se, na reação ao Cérbero populista, o Partido Institucionalista. Lideranças e organizações que se esbofetearam nos últimos anos, como se combatessem o inimigo mortal, redescobrem sua filiação comum aos pactos fundamentais do civismo.

A face horrenda do monstro também favorece a autocrítica. O desejo de eliminar o adversário, a imoderação, a ojeriza à derrota política e econômica estiveram, como sempre estão, dentro de nós mesmos. 

Não foram domados e por isso produziram uma sequência de desgraças que nos deixaram mais pobres e rudes.

Jair Bolsonaro, reduzido a seu átomo original, talvez faça bem ao Brasil. Vai depender de como evoluirá o grande consenso que se esboça contra isso daí.
(por Vinicius Mota)

sexta-feira, 19 de agosto de 2016

SERÁ QUE O LULA ESPERA MESMO QUE OS PICARETAS E OS JUDAS SALVEM A DILMA?!

Se existe alguém que sabe escolher as palavras certas para conquistar a simpatia daqueles que lhe poderão ser úteis, este alguém é o Lula.

Em 1993, afirmou que havia no Congresso "uma maioria de uns 300 picaretas que defendem apenas seus próprios interesses".

Agora, diz que a Dilma, quando for ao Senado fazer uma derradeira tentativa de salvar seu mandato, "corajosamente vai se colocar diante de seus acusadores para que o Judas Iscariotes possa acusá-la na frente dela".

Tenho a ligeira impressão de que os picaretas e os Judas farão todo o necessário para que a Dilma seja crucificada, nem que seja só para o Lula parar de confundir frase de efeito com falta de jeito...

Frase do dia: o peixe morre pela boca.

sábado, 5 de março de 2016

A HISTÓRIA CONTADA POR UM IDIOTA ESTÁ CHEGANDO AO PREVISÍVEL, INEVITÁVEL E DEPRIMENTE FINAL.

"A vida é uma história 
contada por um idiota,
uma tempestade 
de som e fúria 
significando nada"
(William Shakespeare)

Quem acompanha meu trabalho sabe que há muito considero Dilma Rousseff condenada ao afastamento do poder: voluntário, imposto ou por meio de uma barganha com as forças de centro e direita que a mantenha fazendo figuração enquanto outros governam no seu lugar. 

Ou seja, as opções à sua escolha são: 
  • renunciar; 
  • ser impedida pelo Congresso Nacional; 
  • ter sua chapa cassada pela Justiça Eleitoral; ou
  • tornar-se uma rainha da Inglaterra. 
Ele é a última esperança de o PT dar a volta por cima... 
Descarto a do suicídio, pois não enxergo nela a fibra de um Vargas. 

E minha preferência é pelo xeque-mate aplicado pelo Tribunal Superior Eleitoral, por implicar a realização de novo pleito, livrando-nos do pesadelo Temer.

Para mim, as únicas dúvidas são quando chegaremos a uma dessas soluções e qual delas prevalecerá.

O que me dá tanta certeza? O fato de que, enquanto prosseguem as escaramuças na Praça dos Três Poderes, a penúria não cessa de aumentar. 

Se dependesse dos canastrões que, em Brasília, encenam uma tempestade de som e fúria significando nada, a paralisia governamental talvez perdurasse por meses e meses, com um sem-número de marchas e contra-marchas. 

Mas, as lições históricas são todas no sentido de que há, sim, um fim da linha: no Brasil, quando as recessões começam a causar desespero e convulsão social, a classe dominante concerta uma solução qualquer, pois tem como prioridade máxima manter-se dominante.

...após a queda de Dilma.
Chegaremos a tal estágio lá pelo meio do ano. Os últimos acontecimentos, contudo, indicam que a desconstrução de Dilma e Lula ganha velocidade e pode tornar-se fulminante, por força de novas e contundentes delações premiadas.

Trata-se de um espetáculo que, além de previsível, é deprimente ao extremo. Caberia melhor na página policial do que na editoria de Política. 

Só escrevo sobre ele porque assumi o compromisso de manter meu público informado. Preferiria estar comentando futebol ou disponibilizando mais filmes para a apreciação dos leitores.

segunda-feira, 21 de dezembro de 2015

DEMOCRA$$IA À BRASILEIRA

Por Gregório Duvivier
FESTA ESTRANHA,
GENTE ESQUISITA
Você também já deve ter se perguntado: "Por que o Congresso brasileiro é tão conservador?". Eduardo Cunha costuma responder pra você e pra quem quiser ouvir que o Congresso foi eleito pelo povo, logo o conservadorismo do Congresso reflete o conservadorismo do povo. Imagino que ele só tenha enviado milhões não declarados para a Suíça porque é isso que todo brasileiro faz. A culpa é do povo, sempre.

Cunha: tira o povo dessa roubada. Se tem alguém que não está presente no Congresso nacional (além dos deputados que, de modo geral, preferem trabalhar de casa) é o povo brasileiro.

As mulheres são quase 52% da população. No entanto, você consegue encontrar mais mulheres jogando rúgbi do que na Câmara dos Deputados. O povo brasileiro se declara, em sua maioria, negro ou pardo (53%). O Senado brasileiro tem menos negros que o Senado da Suécia (não é uma expressão, é um fato). Quanto aos jovens, melhor procurar num jogo de bocha. Jovens com até 34 anos são 39% do eleitorado e 10% do Congresso.

O mesmo vale para os gays: apenas um deputado entre os 513 se declara gay. Já os transexuais e a população indígena não tem a mesma sorte. Nenhuma das duas minorias tem sequer um deputado federal ou senador. Em compensação, os empresários, apenas 4% da população, são 43% dos deputados. Sim: proporcionalmente, a Câmara dos Deputados tem dez vezes mais empresários do que o Brasil.

Muito se fala sobre a tal festa da democracia. Que festa estranha com gente esquisita!

O Congresso brasileiro está mais para o salão de jogos do Country Club: uma versão mais masculina, mais branca, mais hétero, mais velha e mais empresária do Brasil. Mas, por quê? Será que o brasileiro só confia em homem branco hétero velho empresário?

Uma rápida pesquisa revela que eleger um deputado custa, em média, R$ 6 milhões. Uma rápida pesquisa revela que quem tem R$ 6 milhões no Brasil é homem branco hétero velho empresário. O Congresso brasileiro não é a cara do Brasil. Ele é a cara da elite do Brasil. Não é o povo brasileiro que é conservador. É o dinheiro brasileiro que é conservador.

Pense no lado bom: talvez o Brasil não seja um país intrinsecamente corrupto ou reacionário. Ou talvez seja. Isso a gente ainda não sabe. Pra isso seria preciso uma coisa inédita: democracia. Por enquanto, pra participar da festa, só com pulseirinha VIP de R$ 6 milhões (mas relaxa que tem consumação). 

terça-feira, 21 de julho de 2015

MARK TWAIN VIA O CONGRESSO COMO A "CLASSE CRIMINOSA NATIVA". ALGUÉM DISCORDA?

"...mal começou a legislatura e temos um Congresso com 10% de seus deputados investigados, lutando
desesperadamente para se salvarem. Ele mais parece um sindicato de indiciados por crime, comandado por um indiciado por crime.

É neste ambiente que o País viu feitos congressuais notáveis, como:
  • o aumento do fundo partidário em plena situação de crise econômica;
  • a votação de uma lei que desmantela por completo os direitos trabalhistas;
  • deputados evangélicos votando a redução da maioridade penal e dando uma grande mostra de sua leitura peculiar de amor cristão; 
  • além da criação de uma reforma política que visa garantir as condições para a perpetuação da casta de políticos que temos. 
Tudo isto capitaneado pelo senhor Cunha. O Brasil agradece por seus feitos notáveis." (Vladimir Safatle, filósofo)

sábado, 7 de março de 2015

A REPÚBLICA ESTÁ EM FRANGALHOS E A PRIORIDADE DO PT É EVITAR O IMPEACHMENT.

O que mais me choca no petismo é como um movimento com aspirações tão amplas e bandeiras tão generosas se desvirtuou a ponto de ter hoje praticamente uma só aspiração e uma só bandeira: conservar-se no poder. 

E, o que é pior, no poder pelo poder, pois o exerce de forma cada vez menos idealista e mais fisiológica, tornando-se indistinguível dos partidos e forças convencionais.

Assim, lutou com unhas, dentes, jogo sujo, demagogia, desinformação, chutes na virilha, rasteiras traiçoeiras e facadas pelas costas para assegurar-se um quarto mandato presidencial já sem ter mais nada de importante para propor à sociedade, nem nenhuma receita de esquerda para responder a crise econômica que suas gestões anteriores incubaram. Dilma Rousseff se reelegeu para nos empurrar Joaquim Levy goela adentro.

Agora, obcecado única e exclusivamente em evitar o impeachment da presidenta, sua rede virtual espoca champanhes para celebrar a avacalhação do Congresso Nacional, com os presidentes das duas casas legislativas sob suspeita de envolvimento no maior escândalo de corrupção de todos os tempos. [Aliás, é bom dizer, as boas práticas republicanas impõem que se afastem ou sejam afastados imediatamente de uma posição que lhes confere enorme poder; é cedo para falarmos de cassação de mandato, mas presidentes da Câmara e do Senado eles não podem continuar sendo enquanto estiverem sob forte suspeita de desonestidade).

Serão os petistas tão obtusos a ponto de não perceberem que, se a insatisfação popular se tornar incontrolável nestes tempos bicudos de recessão, um Congresso com credibilidade reduzida a zero realmente não terá moral para aprovar o impedimento de Dilma, mas também nenhuma outra saída civilizada para a crise?!

A desmoralização das instituições como um todo (o Judiciário, embora menos desgastado aos olhos do cidadão comum, também não inspira a confiança de outrora, por saltar aos olhos que suas decisões frequentemente têm motivações espúrias) só serve a quem pretende criar um cenário para golpe de estado. O verdadeiro, com tanques nas ruas.

Estarão os horrores dos períodos 1930/1945 e 1964/1985 já esquecidos, a ponto de ninguém perceber que este é o nosso pior pesadelo e o fantasma que devemos exorcizar com todas as nossas forças?

Se o Brasil permanecer uma democracia, nada impedirá que Dilma seja impedida ou renuncie em 2015 e Lula ganhe a eleição presidencial de 2018. E há outras possibilidades, como a articulação de um governo de união nacional ou a convocação de um gabinete de crise, com gente de peso e de personalidade, para fazer o que os 39 (quase todos incompetentes, inapetentes, inadequados ou sinistros) ministros estão fazendo.

O que não dá é para Dilma e o PT continuarem a brincar com fogo, colocando todos os brasileiros sob o risco de uma nova ditadura por não admitirem, em hipótese nenhuma, abdicar momentaneamente do poder ou dividi-lo durante a crise, embora até as pedras das ruas percebam que não estão sabendo o que fazer com ele. 

quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

VITÓRIA DE PIRRO NA CALADA DA MADRUGADA

O horário avançado não é desculpa: faltou aos parlamentares a iluminação da consciência.
O que mais me choca no governo do PT é seu pragmatismo tosco e obtuso. Desde a reviravolta na campanha presidencial de 2014 provocada pela morte de Eduardo Campos, o partido aboliu o pensamento estratégico e passou a ser movido pelo imediatismo dos apetites. Principalmente, sua fome avassaladora de poder.

Fez campanha sórdida e falaciosa contra Marina Silva, tornando-a para sempre inimiga. Reforçou, assim, a própria dependência dos apoios que necessita comprar, seja com cargos, seja com liberação de verbas, seja em espécie por debaixo do pano. 

Não dialoga com as forças afins, prefere discutir preço com os que antes eram inimigos e o continuariam sendo se tivessem caráter para tanto. Só que, identificando-se cada vez mais com as práticas podres da política oficial, cava a cova na qual acabará sendo enterrado.

O que começou mal só poderia mesmo acabar pior...
Fez campanha sórdida e falaciosa contra Aécio Neves, como se a esquerda tivesse o direito de ganhar eleições utilizando as mentiras e os abusos de poder característicos da direita. 

Não tem. Pois a esquerda almeja muito mais do que as meras vitórias eleitorais; existe para impulsionar uma transformação profunda da sociedade.  E só conseguirá concretizá-la incutindo esperanças nos explorados e organizando-os para a defesa dos seus direitos, não tangendo-os bovinizados para as cabines de votação.

Voltamos aos tempos em que se ganhavam eleições distorcendo as falas e intenções dos adversários, como em 1945, quando o brigadeiro Eduardo Gomes jamais disse que não precisava dos votos dos marmiteiros, mas a mentira mil vezes martelada acabou passando por verdade, à maneira de Goebbels.

Quase sete décadas depois, foi com mentiras tipo Marina Silva come na mão de uma banqueira e Aécio vai extinguir o bolsa-família que se desqualificaram os principais adversários. Continuamos sendo o país do eterno retorno.

Pior ainda foi o passa-moleque aplicado na esquerda independente (aquela que não oscila na órbita palaciana nem se deixa seduzir por boquinhas), aliciada pela candidatura governamental a golpes de alarmismo.

Vox populi, vox Dei (1)
Reais ou supostos intelectuais parecem ter acreditado candidamente que Marina e Aécio seguiriam o figurino neoliberal na condução da política econômica, enquanto Dilma jamais se avassalaria ao grande capital. 

Ledo engano. O Ministério anunciado para o segundo mandato, em termos ideológicos, arrancaria aplausos entusiásticos de Margaret Thatcher e Ronald Reagan; se alguma restrição houvesse, seria apenas quanto à insignificância pessoal e profissional dos novos titulares. 

Ainda na categoria estelionato eleitoral, era dado como favas contadas que os dois vilões-mores, e apenas eles, entregariam as Pastas da área econômica a representantes de bancos, grandes indústrias e agronegócio. Gente como Joaquim Levy, Armando Monteiro e Kátia Abreu. Só rindo pra não chorar...

Vitórias a qualquer preço, conquistadas por diferença mínima em países nos quais a posse e mau uso da máquina governamental têm influência máxima, possuem o inconveniente de desunirem tais nações. É praticamente inevitável que os derrotados, quando acreditam não terem sido licitamente vencidos, tentem reverter o quadro.

Se, ademais, são eles que predominam nos estados pujantes, a encrenca é maior ainda. Como Marx cansou de demonstrar, são os países e/ou regiões com forças produtivas mais desenvolvidas que determinam o rumo que todos acabarão por seguir, não os grotões.

Vox populi, vox Dei (2)
De um jeito ou de outro, o poder econômico, nos países capitalistas, acaba se impondo ao poder político. A alternativa? Em médio e longo prazos, só existe uma: a revolução. No curto prazo, o PT esfalfa-se para retardar o inexorável --sem, contudo, ousar romper o pacto mefistofélico que firmou em 2002, quando se domesticou para que lhe permitissem governar. 

Salta aos olhos que há um grande esquema político sendo montado para impedir a presidenta Dilma Rousseff pela via constitucional. Só falta a definição de qual será o motivo alegado no pedido de impeachment.

O PT acaba de travar batalha insana para evitar que o descumprimento de diretrizes orçamentárias pudesse ser tal motivo. Mas, o vergonhoso resultado da refrega consagrou um casuísmo escandaloso, o efeito retroativo que jamais poderia servir como tábua de salvação para quem não fez a lição de casa no momento certo. Algo tão estapafúrdio que me fez lembrar o causo contado por Sebastião Nery, o nosso grande nome do folclore político. 

O todo poderoso coronel de um cafundó nordestino assistia a um jogo de futebol disputadíssimo e, no apagar das luzes, acontece um pênalti a favor dos visitantes. Os atletas da casa se revoltam, o campo é invadido, o coronel acaba tendo de decidir a questão. E dá o veredito: "O pênalti tem de ser cobrado, sim! Só que a nosso favor..."

Preocupado apenas com as aparências e formalismos legais, o governo não se dá conta dos estragos que a batota fiscal produziu em sua imagem.

Vox populi, vox Dei (3)
Nem percebe que os partidários do impeachment não desistirão, apenas vão escolher outro motivo. Gilmar Mendes tenta prover um, o petrolão oferece infinitas possibilidades. Mas dia, menos dia, esse bloco sairá à rua. Não vai dar pra segurar.

Estancar o processo de impeachment no nascedouro, evitando que ele tramite no Congresso, será a pior solução possível, pois vai tanger os opositores para a via verdadeiramente golpista. Bateriam de imediato na porta dos quartéis.

O melhor será a batalha se travar no terreno da legalidade democrática, ou seja: 
  • que o impeachment vingue e se dê posse a Michel Temer (argh!), como manda a Constituição;
  • ou que o impeachment seja apreciado, votado e rejeitado, o que dará à Dilma a credibilidade para governar que não tem neste momento.
É esta a batalha que o PT deveria travar, ao invés de perseguir sofregamente vitórias de Pirro na calada da madrugada.

terça-feira, 2 de dezembro de 2014

BARRACO PARLAMENTAR? É COISA NOSSA!

Jornalisticamente, o barraco parlamentar desta 3ª feira (2) pode ser descrito como o fez a Folha OnLine:

Foi adiada a sessão do Congresso Nacional para votar a manobra fiscal a que o governo recorreu para tentar fechar as contas deste ano. Houve troca de socos, empurra-empurra e muita gritaria.

A sessão já começou tumultuada, em meio a xingamentos de manifestantes e gritos de "PT roubou" e "vá para Cuba".

Diante do cenário, o presidente do Congresso, senador Renan Calheiros, mandou esvaziar as galerias do plenário, mas congressistas da oposição fizeram um cordão de isolamento para tentar impedir a retirada dos manifestantes pela Polícia Legislativa.

Diante do impasse, a sessão foi suspensa. A confusão começou logo após discurso da senadora Vanessa Grazziotin (PCdoB-AM). Ela disse ter sido xingada de "vagabunda" pelos manifestantes.

Os ânimos se exaltaram, e deputados e senadores trocaram insultos e agressões. O deputado Amauri Teixeira (PT - BA) chegou a chamar seu colega Domingos Sávio (PSDB - MG) de "seu merda".

Com a aproximação dos seguranças, manifestantes partiram para cima, e houve grande embate. Entre os manifestantes, estava uma senhora de 79 anos, que levou uma gravata de um segurança.

A proposta, que autoriza o governo a abandonar a meta de poupança para pagamento dos juros da dívida, o chamado superavit primário, nem chegou a ser analisada em Plenário...

Prefiro a versão artística, que nem vale a pena chamarmos de premonitória ou de obra de antecipação, embora remonte a 1968. 

É que o Brasil continua o mesmo desde Cabral até hoje, daí terem sido sempre válidos e pertinentes estes versos de Torquato Neto ("Marginália II"), os que melhor nos definem:

"Conheço bem minha história, 
começa na lua cheia 
e termina antes do fim. 

Aqui é o fim do mundo! 
Aqui é o fim do mundo! 
Aqui é o fim do mundo!"

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