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terça-feira, 27 de julho de 2021

BOULOS EXORTA AS INSTITUIÇÕES E FORÇAS DEMOCRÁTICAS A SE POSICIONAREM CONTRA O GOLPISMO

A FRAUDE DO VOTO IMPRESSO
Noventa vezes. É o número de ocasiões em que Bolsonaro falou sobre fraude eleitoral desde maio, mais de uma por dia. 

A verborragia presidencial é mais do que um simples desvio de foco dos 550 mil mortos e de gente em filas para pegar osso. É parte decisiva de sua estratégia.

Precisamos limpar campo. A questão principal não é o mérito: é legítimo que se discuta o sistema de votação no Brasil, e o voto impresso é uma das alternativas, adotada em outros países. 
Elementar, meu caro Flintstone!

Particularmente, acredito que ela facilite fraudes, em vez de dificultá-las. Mais do que isso, facilita a fotografia do voto pelo próprio eleitor para comprovação que só interessa a quem promove voto de cabresto. 

Mas não é este o debate. Ou alguém acha que Bolsonaro está de fato preocupado com a transparência da democracia brasileira?

A narrativa bolsonarista visa deslegitimar o processo eleitoral. Não por acaso ele intensifica o discurso justamente no momento em que seu governo tem pior aprovação e todas as projeções apontam sua derrota em 2022. 

Na verdade, ele não quer voto impresso, quer um pretexto. Que poderia ser qualquer outro, tanto é que nos EUA —onde o sistema de votação é impresso— ele foi o primeiro a denunciar fraude contra seu amigo Donald Trump.

Bolsonaro segue os passos de Trump, com mais antecipação e maior risco. Denuncia a fraude com um ano e meio de antecedência e prepara seu próprio Capitólio. A narrativa arma seus apoiadores para manter vivo o bolsonarismo mesmo com derrota de Bolsonaro. 

É preciso reconhecer que ele foi capaz de organizar um movimento ideológico de extrema direita, com capilaridade social, que só tem paralelo na história brasileira com os integralistas de Plinio Salgado. É isso o que ele quer preservar.
O cartunista Laerte propõe este aperfeiçoamento na urna
eletrônica, para bozistas receberem comprovante do voto
Mas a aposta é mais alta. Se conseguir trazer para o jogo setores das Forças Armadas e das polícias militares —onde tem inegável influência—, pode provocar um cenário de caos, que colocará o Brasil no caminho do golpe. 

Suponhamos que Bolsonaro chegue até a eleição de 2022 e seja derrotado. E que altos oficiais do Exército e das polícias ponham em xeque o resultado. Como os quartéis reagirão?

Por isso a pressão do general Braga Netto sobre o Congresso e sua nota em defesa do voto impresso são tão graves. A sociedade precisa rechaçar o movimento golpista no nascedouro. As manifestações de rua cumprem importante papel de contraponto. 

O Parlamento tem de convocar o ministro da Defesa para esclarecimentos. Todas as instituições e forças democráticas têm o dever de se posicionarem, sob a pena de cair na vala da covardia histórica. 

Ou desmoralizamos o golpismo ou seremos devorados por ele. (por Guilherme Boulos)

domingo, 9 de maio de 2021

SE TODOS JÁ SABEM QUEM É, POR QUE OS CONGRESSISTAS NÃO VOTAM LOGO O IMPEACHMENT DO ASSASSINO EM CHEFE?

antonio prata
CPI ou O ELEFANTE NO MICROSCÓPIO
P
ois então, beirando meio milhão de mortos, criou-se uma CPI: teria o presidente Jair Bolsonaro alguma responsabilidade no desastre sanitário brasileiro? 

Dada a escassez de dados, será uma investigação de inaudita complexidade, para a qual eu sugeriria Sherlock Holmes, Hercule Poirot ou, na falta dos dois, qualquer pessoa acima de 14 anos minimamente alfabetizada.

Primeiro, será preciso analisar atentamente os inúmeros vídeos do presidente sem máscara, apertando mãos de gente sem máscara durante a pandemia. Depois, peritos poderão comprovar se:
  1. era o presidente? 
  2. ele estava sem máscara? 
  3. ele estava apertando mãos? 
  4. havia uma pandemia?
Indagarão os congressistas: o líder máximo da nação, ao agir de forma diametralmente oposta à recomendada pela ciência, pelo próprio Ministério da Saúde e pela OMS, ao influenciar seus subordinados para que ajam com a mesma deliberada demência, proibindo álcool gel em sua sala e olhando torto para quem usa máscara, tem alguma influência nas 400 mil mortes? 

[Há quem diga que, devido à subnotificação, já passamos de 600 mil mortos, o que nos coloca como o país com mais vítimas por Covid-19 em todo o planeta.]

A CPI exigirá dos senadores uma grande expertise digital: entrar no Youtube e digitar pronunciamento Bolsonaro, Bolsonaro imita falta de ar, Bolsonaro e daí?, Bolsonaro cloroquina. 

Talvez fosse o caso de dar uma olhadinha no Twitter e Facebook, também. Vai que ali, protegido pelo anonimato das redes, Jair defendeu cloroquina, tirou sarro de doentes, menosprezou mortos?

Uma questão cabeluda a ser respondida por PhDs em lógica é se tem algum papel no fato de não termos vacina alguém passar um ano:
— falando mal de vacina? 
— dizendo que não tomaria vacina, que não se responsabilizaria se alguém virasse jacaré por tomar vacina? 
— chamando a vacina do Butantã de vachina?
— dizendo a pressa com a vacina não se justifica e tem idiota nas mídias sociais e na imprensa, né, dizendo ‘vai comprar vacina’: só se for na casa da tua mãe!? 
— recusando onze ofertas (!!!!) de fornecedores de vacina? 

Enfim, será que usar todo seu poder presidencial contra a vacina tem algum papel no fato de não termos vacina, de chegarmos a maio de 2021 com mais de 2.000 mortes por dia e apenas 10,8% da população plenamente vacinada? Será? Será? Hein? Será?

Haver demitido dois ministros da saúde que se negaram a receitar cloroquina em vez de máscara e distanciamento social pode ter tido algum papel na esculhambação brasileira no uso de máscaras e no distanciamento social? 

Pode ter a ver com o Ministério da Saúde ter enviado a Manaus milhares de pílulas de cloroquina, quando havia sido informado de todos os lados que o oxigênio estava acabando?

Vejam a dificuldade desta CPI, meus caros: não é a discussão sobre um vírus, mas um profundo debate epistemológico. 

Indagar se o presidente tem culpa neste desastre por ele presidido desastrosamente equivale a se questionar: são os efeitos produzidos pelas causas? Se eu soltar um copo e ele cair, ter soltado o copo tem alguma relação com a queda? Um mais um é igual a dois?

Sem ironia: é bom que haja uma CPI fazendo perguntas sobre este crime humanitário. 

Uma vez que já sabemos as respostas, contudo, melhor seria que os congressistas tivessem um mínimo de decência e votassem o impeachment do assassino em chefe. (por Antonio Prata)

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2020

EDUARDO BOLSONARO APOIOU-SE NOS OMBROS DE UM PULHA PARA ATINGIR REPÓRTER, DIZ DEMÉTRIO MAGNOLI

Elementar, meu caro Watson: o titereiro que manejava este títere...
demétrio magnoli
REPÓRTER COMETEU O PECADO CAPITAL DE
 EXPOR FÁBRICA DA GUERRA DA INFORMAÇÃO
O governo Bolsonaro odeia o jornalismo profissional. No caso da jornalista Patrícia Campos Mello, porém, o caso é visceral. Na campanha de 2018, Bolsonaro declarou uma guerra à imprensa, dando a senha para uma enxurrada de calúnias e ameaças à repórter que investigava a máquina eleitoral de difusão de fake news.

Agora, na CPMI das Fake News, Eduardo Bolsonaro apoiou-se nos ombros de um pulha para, num exercício de covardia, atingir sua integridade pessoal (*). 

Não é casual: Patrícia cometeu o pecado capital de invadir uma redoma proibida, expondo os contornos da fábrica da guerra da informação. Nesse passo, mostrou o caminho que a imprensa precisa seguir, se pretende sobreviver.
...só pode ser a pessoa que imediatamente saiu em seu apoio.
Fake news são o complexo de notícias falsas, operações de difamação e campanhas de promoção do ódio que ganhou dimensões inéditas com a universalização da internet. O fenômeno novo é a sofisticação do arsenal empregado na guerra virtual da informação.

No início, mais de uma década atrás, tudo se resumia a blogueiros de aluguel recrutados por partidos políticos para o trabalho sujo na rede. A imprensa, ainda soberana, decidiu ignorar o ruído periférico. Hoje, o panorama inverteu-se: a verdade factual sucumbe, soterrada pela difusão globalizada de fake news.

Os jornais converteram-se em anões na terra dos gigantes da internet. Nos EUA, entre 2007 e 2016, a renda publicitária obtida pelos jornais tombou de US$ 45,4 bilhões para US$ 18,3 bilhões. Em 2016, o Google abocanhava cerca de quatro vezes mais em publicidade que toda a imprensa impressa americana —e isso sem produzir uma única linha de conteúdo jornalístico original.

O novo sistema, baseado na elevada rentabilidade da fraude, descortinou o caminho para a abolição da verdade factual na esfera do debate público.

A fabricação de fake news tornou-se parte crucial das estratégias de Estados, governos, organizações terroristas e supremacistas. A China, que prioriza o público interno, e a Rússia, que se dirige principalmente à opinião pública europeia e americana, são atores centrais nesse palco.

Foi a campanha presidencial mais sórdida da nossa História
Graças ao Facebook, as forças armadas de Mianmar deflagraram uma eficiente campanha de limpeza étnica contra a minoria rohingya e o governo nacionalista indiano consegue inflamar a xenofobia contra os muçulmanos de Assam.

Perde-se no passado o esforço amador do PT para criar um Pensador Coletivo por meio de núcleos de militantes treinados no que o responsável pelo setor classificou como guerra de guerrilha da internet.

Atualmente, no mundo todo, governos e partidos populistas, na direita e na esquerda, empregam aparatos especializados na difusão massiva de fake news. 

O governo Bolsonaro estabeleceu, com verba pública, dentro do Planalto, um gabinete do ódio destinado a coordenar sua guerra da informação. 

No fim, o que está em jogo é o funcionamento da democracia, como explica o jornalista Eugênio Bucci no livro Existe Democracia sem Verdade Factual?.

A imprensa também está em perigo, junto com a democracia. Se, no plano dos fatos, verdade e falsidade tornam-se narrativas indistinguíveis, o jornalismo profissional perde seu objeto. Daí, emerge uma nova missão jornalística: pautar as fake news, como se pautam políticas públicas, eleições, debates parlamentares, guerras reais, inundações.

A checagem ritual de notícias falsas, iniciativa útil, é totalmente insuficiente. No campo analítico, trata-se de iluminar os sentidos políticos das campanhas de fake news, evidenciando suas estruturas de linguagem, seus alvos imediatos e suas metas estratégicas. 

Ser atacada pelos Hans e Eduardos é  um atestado de integridade
No campo investigativo, é preciso descerrar o véu que cobre as engrenagens de fabricação das fake news, expondo os atores políticos e empresariais envolvidos na guerra contra a verdade. 

Patrícia engajou-se nisso —e, por isto, virou alvo. (por Demétrio Magnoli)

* Ao depor como testemunha na CPI das Fake News, Hans River do Nascimento, funcionário de uma empresa que efetuou disparos em massa de WhatsApp durante as eleições, voltou atrás das afirmações que fizera em 2018 à repórter e ainda a acusou de ter-lhe oferecido "sexo em troca de informações". Recebeu de imediato o apoio de Eduardo Bolsonaro nas redes sociais. 

Mas Patrícia, repórter experiente, conservara registros e teve como provar cabalmente que havia várias mentiras na retratação de Hans. A relatora da CPI, deputada Lídice da Mata, encaminhou representação ao Ministério Público Federal contra o caluniador. O presidente da Câmara Federal, Rodrigo Maia, ressaltou que "dar falso testemunho numa Comissão do Congresso é crime". (o editor)

sábado, 27 de janeiro de 2018

GLEISI HOFFMANN VAI À GUERRA: "TOLERÂNCIA ZERO COM O PIXULECO!".

Quando Gleisi Hoffmann, a presidente nacional do PT, disse que morreria gente caso fossem prender o Lula, o Brasil desabou na cabeça dela. 

Gata escaldada, ela já não usa a imagem forte de sangue sobre o asfalto em suas frases de efeito alarmistas; contenta-se com borracha sobre o asfalto.

É que, numa reunião fechada da Executiva Nacional do partido, Gleisi e outros dirigentes petistas descobriram o único e transcendental motivo das desgraças recentes do Lula: a popularidade do Pixuleco. Nem Sherlock Holmes decifraria o enigma com tanta rapidez e tamanha clarividência!

Ato contínuo, declararam guerra ao boneco inflável gigante. "Agora é tolerância zero com o Pixuleco", esbravejou Gleisi, dando a senha para os aloprados do partido balearem esfaquearem, queimarem, triturarem ou jogarem bosta no pobre boneco.

Ou seja, se antes a senadora Hoffman parecia o cabo Anselmo fazendo provocações para botar fogo no circo, agora está mais para o soldado Dentinho (das tiras do Recruta Zero) dizendo disparates que provocam gargalhadas nas pessoas equilibradas. 

quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

SAMBA DOS PODERES DOIDOS: O SENADO PROTEGE PECULATÁRIO E O STF SE CURVA A CONVENIÊNCIA POLÍTICA.

Segundo um dicionário jurídico, peculato é "crime cometido pelo funcionário público contra a Administração Pública em geral", que se configura "quando o funcionário apropria-se de dinheiro, valor ou qualquer outro bem móvel, público ou particular, de que tem a posse em razão da função, ou o desvia em proveito próprio ou alheio".

No último dia 1º, por 8 votos contra 3, o pleno do Supremo Tribunal Federal considerou existirem motivos suficientes para o cidadão José Renan Vasconcelos Calheiros responder a processo por tal crime. 

A acusação: Calheiros era senador e destinou parte da verba indenizatória do Senado (destinada a despesas de gabinete) a uma locadora de veículos que, segundo a Procuradoria Geral da República, não prestou os serviços alegados. Tal locadora (Costa Dourada Veículos) era, como ele, alagoana. Os pagamentos foram feitos entre janeiro e julho de 2005. Em fevereiro de 2005 Calheiros se tornou presidente do Senado. Em agosto recebeu da Costa Dourado um empréstimo de R$ 178,1 mil.

Trata-se, contudo, de uma gota d'água no oceano, pois a trajetória de Calheiros é marcada por denúncias a granel, que se arrasta(ra)m por uma eternidade enquanto ele, belo e lampeiro, continua(va) ocupando altos cargos na República. Eis algumas dessas denúncias, segundo o valente Congresso em Foco:
  • utilização de documentos falsos para forjar uma renda com venda de gado em Alagoas e, assim, justificar gastos pessoais;
  • terceirização do pagamento de pensão à sua amante Mônica Veloso (relativa à filha resultante da relação), de R$ 16,5 mil mensais, que era efetuado pela empreiteira Mendes Júnior, a qual, por coincidência, recebeu R$ 13,2 milhões em emendas parlamentares de Calheiros, destinadas a uma obra no porto de Maceió;
  • pavimentação ilegal de uma estrada de 700 metros na estação ecológica Murici, no município alagoano de Flexeiras (Calheiros é proprietário da Agropecuária que, para facilitar o transporte de gado, contratou a obra);
  • tráfico de influência no Ministério das Comunicações, em fato relacionado com a compra de emissoras de rádios em nome de laranjas;
  • uso de sua cota de passagens aéreas do Senado em viagem de três personagens acusados de atuarem como seus laranjas em empresas de comunicação e na de um agricultor suspeito de fraudar venda de gado em seu benefício;
  • ter-se hospedado juntamente com a esposa, às custas do Senado, num spa de Gramado (RS)  que é considerado um dos melhores do mundo e cobrou R$ 22,2 mil pelo pacote anti-estresse; e
  • 12 investigações por corrupção ora em curso, oito das quais no âmbito da Operação Lava-Jato.
O Senado nos expôs a ridículo mundial quando, em 2007, aceitou que um senador flagrado em relações tão ilícitas e promíscuas com uma empreiteira pudesse safar-se apenas abrindo mão da presidência da casa, ou seja, entregando o anel para conservar o dedo (o mandato).

Humilhou-nos mais ainda em 2013, ao torná-lo novamente presidente.

E nos avacalhou de vez nesta semana, quando um ministro do STF honrou a toga e determinou seu afastamento da presidência. O Senado não só cerrou fileiras em defesa de um peculatário, como violou as leis brasileiras ao descumprir uma decisão judicial, que poderia ser contestada, mas nunca ignorada.

O pleno do Supremo, por sua vez, fez política em vez de Justiça: face ao temor de que o substituto de Calheiros, petista, utilizasse artifícios regimentais para protelar a segunda votação da chamada PEC do teto dos gastos públicos (cuja aprovação é tida pelo governo federal como essencial  para nossa economia voltar a crescer), insultou a inteligência de todos nós ao decidir-se por um contorcionismo jurídico, um mero jeitinho brasileiro, cuja verdadeira razão de ser foi manter Calheiros no cargo até dar a contribuição que dele se espera para o austericídio.

O presidente do Senado é o segundo nome da linha sucessória, caso a Presidência da República fique vaga. O próprio STF decidiu que um cidadão processado não pode permanecer na linha sucessória. Então, qualquer primeiranista de Direito percebe quão descabida é a gambiarra do Supremo: Calheiros ser excluído da linha sucessória, mas manter a presidência do Senado. 

Isto só faria se ele estivesse na linha sucessória como cidadão; mas ele lá está como presidente do Senado. Então, tendo se tornado inapto para cumprir uma das principais atribuições do cargo, tem de ser substituído por um senador sem tal limitação. 

Tais regras são institucionais e, portanto, não podem ser adequadas a situações pessoais, como o STF acaba de fazer.  

É algo tão elementar que, desta vez, até o caro Watson consegue chegar sozinho à conclusão, dispensando as explicações do Sherlock Holmes...
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segunda-feira, 11 de agosto de 2014

O SHERLOCK HOLMES CAPUCHINHO FICOU BEM MELHOR NAS TELAS

Os schoolars subirão nas paredes mas ouso dizer que O nome da rosa (d. Jean-Jacques Anaud, 1986) funciona muito melhor como filme do que como livro. 

A obra de Umberto Eco é uma das mais intragáveis exibições de erudição maçante que eu conheço. Parece coisa de catedrático enveredando por um gênero tido como menos respeitável e que fica o tempo todo enxertando doutas lições à guisa de álibi por, no fundo, ter apelado para as fórmulas da novela policial a fim de conquistar leitores fora do ambiente acadêmico.

Quando o li, pulando trechos e mais trechos desnecessários, fiquei pensando que um copy desk competente reduziria aquela maçaroca de mais de 500 intermináveis páginas a empolgantes 200. Foi exatamente o que o bom roteirista Andrew Birkin fez, para alívio dos espectadores, que puderam assistir em 130 minutos o que exigiria uns 400 se fosse mantido o formato original.

Eco nada mais fez do que uma pernóstica transposição dos enredos de Conan Doyle para a Idade Média. Para que ninguém o acusasse de plagiário, deu ao personagem principal o nome de William de Baskerville, assim todos nós, obtusos mortais, ficaríamos sabendo que a semelhança com Sherlock Holmes era intencional e assumida, não uma tentativa de enganar incautos. 

Só que, na minha humilde opinião, expôs-se a uma comparação extremamente desfavorável para ele: O cão dos Baskervilles é um livro muito melhor do que O nome da rosa. O primeiro tem a centelha do gênio que desbrava novos caminhos, o segundo aquele jeitão de reciclagem de muita coisa que já havíamos lido (assim como, p. ex., Stephen King sempre nos faz lembrar Poe, Lovecraft, Stoker, Shelley, Le Fanu, Stevenson e que tais...).

O filme vale exatamente por não ter pretensões exageradas, daí eu ter decidido inclui-lo no cineminha cá do blogue. Mostra um monge dado ao raciocínio lógico e com bons conhecimentos científicos (Sean Connery, magistral!) investigando uma sucessão de crimes num monastério italiano. O parceiro ingênuo para quem ele explica tintim por tintim como chegou a suas brilhantes conclusões não é um médico bonachão, mas sim o noviço que o acompanha na condição de discípulo e serviçal (Christian Slater, bem no início da carreira). E, como contraponto às suas deduções racionais, há um feroz inquisidor (F. Murray Abraham) sentindo cheiro de enxofre em tudo. 

Reduzida ao que realmente importa (mérito também do bom diretor Annaud, de Preto e branco em cores e A guerra do fogo), trata-se de um filme agradável, que prende a atenção e dá uma boa ideia de quão nocivos eram o fanatismo e obscurantismo religiosos. Minhas únicas ressalvas são estas:
  • é verossímil que alguém tivesse personalidade similar à de Sherlock Holmes em 1327? 
  • tudo bem que o caçador de bruxas fosse histérico e sanguinário, mas precisava ser composto de forma tão caricata? Lembrou-me aqueles bangue-bangues antigos nos quais o vilão se vestia de preto e ficava alisando a ponta do bigode antes de fazer suas maldades...



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