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quarta-feira, 7 de abril de 2021

BRASIL PASSA DE 4 MIL MORTES DIÁRIAS E CADA UM OLHA PRO PRÓPRIO UMBIGO

N
esta 3ª feira, 6 de abril, o Brasil ultrapassou a sinistra marca de 4 mil mortes por covid num único dia. 

Não é preciso gastar latim para o que já foi suficientemente abordado neste blog a respeito das responsabilidades neste processo, incluindo aí a corresponsabilidade da dita oposição.

Resultado direto das ações genocidas de Bolsonaro, Paulo Guedes e da elite econômica nacional, a mortandade desenfreada só tende a crescer mês adentro. 

Gostaria de focar em outro elemento condutor da presente crise: o ensimesmamento sistêmico dos atores políticos e sociais do país. Dito de outro modo, no fato de cada um olhar apenas para o próprio umbigo e não para a totalidade social.  
Ao final de um clássico da nouvelle vague francesa, O bando à parte, Goddard coloca na boca de um dos personagens a constatação de que a sociedade parecia ser uma série de indivíduos separados, os quais jamais chegavam a formar uma totalidade.

O genial diretor usa esta frase, que justifica o título do filme, para mostrar a realidade social de uma França capitalista já plenamente desenvolvida, onde o senso de coletividade tornava-se uma relíquia do passado. 

O Brasil de 2021 está vários passos à frente desta situação do período representado pelo filme. Nunca tendo chegado a formar um senso robusto de coletividade tal qual a francesa, o país caí no poço do selvagem cada um por si, no qual a mortandade pela Covid é vista como parte da paisagem. 

Cada grupo social, força politica ou instituição busca apenas alavancar ou preservar os próprios interesses. 

A elite econômica quer apenas aprovar reformas, aprofundar a superexploração dos trabalhadores e empilhar cada vez mais dinheiro em paraísos fiscais. 

O Congresso Nacional esforça-se para satisfazer os desejos da elite e salvar o próprio pescoço. 

A mídia fiscaliza se o teto de gastos está sendo respeitado pelo Orçamento ou não. 

Os militares tentam e não conseguem encontrar um denominador comum entre a preservação de suas boquinhas governamentais e a preservação da imagem das Forças Armadas. 

A oposição se preocupa com a corrida eleitoral. 

Os juízes do STF ocupam-se de atender os pedidos de seus padrinhos. 
Governadores e prefeitos fazem o possível para contemplar os interesses de comerciantes e donos de escolas particulares.

O PGR mira uma vaga no STF. 

Vereadores se empenham em agradar pastores.

Acadêmicos sonham com a multiplicação das bolsas e das verbas. 

A esquerda se preocupa com o BBB. 

E assim vão morrendo milhares por dia, com alguns resmungos ali, lamentações acolá, mas nenhuma iniciativa concreta. Ação efetiva apenas em busca dos interesses localizados. 

Paulo Arantes já falava há anos, quando a pandemia era apenas uma possibilidade teórica, que os vínculos sociais no Brasil hoje são mediados apenas pelo dinheiro. Evangélicos, eruditos, burgueses, trabalhadores, desempregados, católicos, políticos, etc., não se enxergam mais como parte de um país. O outro só lhes aparece enquanto um intermediador do fluxo de dinheiro. 

Isto certamente explica o que vivencíamos hoje e a lógica ensimesmada de cada agrupamento social e político. No fundo, cada qual destes grupos apenas entra na arena social para reivindicar a sua parte

A chamada carta dos economistas ja deixou isto bem claro: só haverá consternação quando a matança interferir no ganho. Enquanto morrer de Covid for financeiramente neutro, cada grupo social permanecerá indiferente. No máximo, uma nota de repúdio. 

Diante disto, é necessário nos perguntarmos: ainda existe um país chamado Brasil ou todos seremos tão somente partes de um junta-junta arbitrário? (por David Emanuel Coelho)

quinta-feira, 25 de março de 2021

OS DONOS DO PIB ESTÃO DANDO UMA ENQUADRADA NO GENOCIDA DESVAIRADO/1

dalton rosado
A VOZ PRAGMÁTICA (E UTILITÁRIA) DA ECONOMIA
"
Onde há grande propriedade, há grande desigualdade.
 Para um muito rico há, no mínimo, 500 pobres, e a
 riqueza de poucos presume a indigência
de muitos"(Adam Smith)
Também eu tenho algo a dizer sobre a chamada carta dos economistas, já analisada nos artigos do David Emanuel Coelho (este) e do William Waack (este).

É claro que o combate à pandemia é urgente em razão do seu significado humano e da incrivelmente negativa condução dada a ela pelo governo atual, responsável por torná-la o maior desastre sanitário e administrativo do Brasil nas últimas décadas. Nisto temos opiniões convergentes.

Os donos do PIB já sentiram que o seu representante político no governo é incompetente em termos administrativos e ideologicamente contraditório; não sabe ser neoliberal e não tem competência administrativa para ser nacionalista estatizante. 

A trupe de ministros moldados ao seu feitio e por ele montada (os mais qualificados, ou foram demitidos ou se desencantaram como os rumos do governo e saíram) bem demonstra os critérios pelos quais foram escolhidos. 

O governo do capitão Boçalnaro, o ignaro, consegue ser muito pior do que os governos militares (por ele tão elogiados) que entregaram o Brasil com a economia estagnada e sem saberem mais o que fazer: dívida externa multiplicada, inflação altíssima, concentração de renda elitista e estatais deficitárias, etc. 

Isto sem falar no sistemático desrespeito aos direitos, civis conspurcados com prisões arbitrárias, assassinatos de presos políticos indefesos, demissões de funcionários públicos por meras suspeitas, nepotismo causador de privilégios indevidos, etc., etc., etc. 

Em relação aos militares de 1964/1985, ele tem o demérito de acrescentar, aos números pífios da economia, a condição de ecocida em termos ambientais e de genocida no trato da mais grave crise humanitária do pós-guerra. 

Os embandeirados verde-amarelos que se reuniam em torno do pato da Fiesp percebem agora quão equivocados estavam ao erigirem em mito um indivíduo de sanidade mental duvidosa, formação cultural medíocre e que, alçado ao poder numa eleição desfigurada pela avalanche de fake news disparada ilegalmente e pelo extremo abuso de poder econômico, acabou nele se destacando apenas nos quesitos incompetência crassa e total insensibilidade face ao sofrimento dos governados.

Mas o capital é pragmático, e quando a labareda começa a queimar-lhe os interesses, seus devotos são os primeiros a acionar os extintores de emergência. Defenestrar o Boçalnaro  já está na ordem do dia das elites, seja por interdição mental, pelo impeachment ou por um processo eleitoral que reintroduza alguém palatável e confiável como Lula (um pretenso socialista que, tendo já demonstrado sua docilidade diante dos que realmente mandam, pode servir-lhes de quebra-galho caso não encontrem nas próprias fileiras alguém mais do seu agrado).

A carta das elites econômicas e seus executivos, objeto deste artigo, é a certidão de abandono do 
Boçalnaro  por parte daqueles o apoiaram no período pós-Dilma Rousseff, diante do descalabro administrativo que agora salta aos olhos e clama aos céus. 

A coisa chegou a tal ponto acintoso que eles se propõem a cuidar da questão sanitária primordialmente, como forma de salvar uma pretendida recuperação econômica. 

A preocupação não se dá por um repentino sentimento humanista, mas porque são as pessoas que movimentam a economia e não as máquinas (que não produzem valor, mas apenas reduzem custos e concentram lucros para alguns vitoriosos na fratricida corrida concorrencial de mercado). 

Defendem a vacinação em massa por constatarem que a propagação infecciosa e as mortes dela decorrentes são incompatíveis com a funcionalidade da vida mercantil que lhes dá sustentação segregacionista. Se só morressem os desempregados talvez eles não sentissem tanto, mas a ceifadora também atinge pessoas inseridas no processo produtivo de valor e até gente graúda das hostes desses poderosos. 

O vírus da covid19 não é seletivo como a vida social democrático-burguesa.  

Como o governo que aí está não compreendeu que o isolamento social é medida de combate à paralisia econômica menos prejudicial do que a chamada fuga para a frente das relações de produção de mercadorias e comercialização como se não houvesse a pandemia, eles tomaram a inciativa de chamar o feito à ordem, ou seja, estão dando uma enquadrada no genocida desvairado. (por Dalton Rosado) 
(continua neste post)

PROFECIA ANTIGA SOBRE O DESGOVERNO BRASILEIRO DESTA DÉCADA: "AOS 300 MIL MORTOS CHEGARÁS, EM SEGUIDA CAIRÁS"

william waack
 
ELITES REVOLTADAS
Essa barca já foi, diz empresário de peso, engajado em política, sobre o apoio de colegas ao presidente Jair Bolsonaro. 

Uma parte relevante da elite industrial, do setor financeiro, serviços e até varejo considera inútil esperar mudanças de conduta de Bolsonaro em relação ao combate à pandemia e à economia. 

Essa postura ficou escancarada com a adesão desses setores, com destaque para o financeiro, a um manifesto político batizado de carta dos economistas (leia-a aqui).

Para onde vão com a barca, que é conduzida por grupos informais de WhatsApp, ainda é uma incógnita. Neste momento, quem se disporiam a apoiar é um porto desconhecido para os próprios empresários, integrantes de uma elite que abraçou entusiasmada a derrocada do PT e a eleição de Bolsonaro em 2018 e hoje se considera profundamente decepcionada. 

Esse estado de espírito está se propagando e já chegou a setores do agronegócio – lembrando que a candidatura de Bolsonaro cresceu no arco próspero produtor de grãos e proteínas antes de se transformar em fenômeno em grandes centros urbanos.

Demos a ele 75% dos votos aqui em Santa Catarina, afirma dirigente de entidade representativa de produtores rurais naquele Estado. Hoje a gente se pergunta para que fizemos isso
A despedida em relação ao governo Bolsonaro de relevantes segmentos da economia, incluindo os famosos
Faria Limers [yuppies do quadrilátero que concentra umas 2.600 empresas importantes na florescente av. Faria Lima, em São Paulo], vem um pouco depois do desembarque das elites acadêmicas e das profissões liberais não necessariamente identificadas com o que se possa chamar de esquerdas

Antes mesmo da vitória de Bolsonaro, estas últimas alertavam para o componente corporativista, populista, extremista e ideologizado que –e o diagnóstico revelou-se certeiro– se imporia sobre qualquer projeto de agenda liberal na economia.

Há um componente na visão de mundo populista de Bolsonaro perfeitamente em linha com fenômenos comparáveis na Europa, Ásia e EUA. É o desprezo pelas elites em sua acepção mais ampla, incluindo cientistas, especialistas e experts. 

Bolsonaro se julga detentor de um tipo de sabedoria popular que não é outra coisa senão a celebração da ignorância, do preconceito e de propostas aparentemente simples e geniais que só contribuem para agravar os problemas, como ficou patente no caso da resistência às medidas restritivas para combater a pandemia e a promoção de medicamentos ineficazes ou até perigosos.

Um fator recente que contribuiu para o divórcio de segmentos relevantes do empresariado em relação ao presidente é a convicção de que Bolsonaro, além de incorrigível corporativista e intervencionista, é um péssimo operador político. 

Consolida-se, na análise que empresários fazem do governo, a noção de que a vulnerabilidade política do chefe do Executivo aumenta a cada passo em falso –o empresariado e o
Centrão não gostam de se alinhar a perdedores. 

O mais recente foi a ação, assinada pelo próprio presidente, para obter no Supremo a proibição de medidas restritivas adotadas pelos governadores do DF, Bahia e Rio Grande do Sul, descrita pelo ministro-relator da matéria no STF como erro grosseiro.

Esses mesmos setores da economia se convenceram, ainda que tardiamente, da inexistência de jogadas brilhantes na gaveta à espera da janela de oportunidade da qual tanto fala Paulo Guedes, em quem penduraram suas esperanças e agora ouvem com mal disfarçada incredulidade (a voz mais respeitada hoje é a do presidente do Banco Central, para desgosto de Bolsonaro). 

Preferem tratar diretamente com os presidentes do Judiciário, do Senado e da Câmara, como acabou de acontecer, para tratar do combate à pandemia e recuperação da economia.

Dois foram os resultados imediatos desse desembarque, golpe que Bolsonaro acusou e chamou de movimento contra seu governo:
1. Correndo atrás dos fatos, anunciou a criação de um comitê com Judiciário, Legislativo e alguns governadores, que é evidente demonstração da sua perda de capacidade de coordenação e da diluição de seus poderes. 
2
. Acuado pelo número crescente de mortos, fez um raro pronunciamento concentrado apenas na questão da vacina, o grande foco de todas as atenções e esperanças. 

Quanto às elites econômicas revoltadas diante de um desastre que ajudaram a criar, aparentemente não lhes falta autocrítica. Um dos autores da já citada carta dos economistas resumiu: A gente tem tradição em apoiar governos amalucados. (por William Waack)
Como o Raulzito havia nascido 10 mil anos atrás e não havia nada neste
mundo que não soubesse demais, ele também avisou: o Bozo vai cair! 
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