quarta-feira, 31 de maio de 2017

A IMPORTÂNCIA DE UMA COMUNICAÇÃO LIVRE DO JUGO DO CAPITAL

"Jornalismo é publicar aquilo que alguém não
quer que se publique. Todo o resto é
publicidade" (George Orwell)
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Disse Marx, nos Grundrisse, que a máquina, ao reduzir o trabalho humano a um mínimo, beneficiária o trabalho emancipado e seria a condição de sua emancipação. 

Assim Marx inseriu, de maneira genérica, os ganhos da tecnologia para a emancipação humana; e nela está inserida a comunicação via satélite, que agora, por meio da internet, liberta (até certo ponto) a informação do jugo do capital.

É difícil para o capital bloquear a circulação da informação eletrônica, uma vez que a vida moderna se rege por tal modo de comunicação sob os mais variados aspectos; e, em termos técnicos, uma coisa dificilmente pode ser separada da outra.

Já estão distantes no tempo as tradicionais (e autoritárias) ações de empastelamento dos jornais que contrariavam os interesses dos governantes a serviço do capital. Mas, jornalistas até hoje continuam sendo assassinados e perseguidos por suas práticas profissionais.

A abrangência instantânea da comunicação via satélite tem propiciado a difusão de conceitos e análises críticas que facilitem ao leitor a compreensão daquilo que oprime os indivíduos sociais, ainda que tais informações sejam monitorados pelos serviços de inteligência do sistema, que se mantêm intactos e atuantes. 

Mas, é cada vez mais difícil para o sistema o controle e a proibição de circulação de textos emancipatórios e de conscientização, pois eles se misturam aos textos e conceitos conservadores sem que se possam censurar uns e não censurar outros.
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A INFORMAÇÃO É LIBERTÁRIA – Quando fui aceito como colaborador do blogue Náufrago da utopia, abriu-se a oportunidade de atingir com meus escritos e ideias um grande público leitor, que àquela época já totalizava mais de 1,5 milhões de acessos, obtidos justamente pelo fato de nele se aceitarem as reflexões dialéticas sobre as razões dos infortúnios sociais que assolam a humanidade, sem preconceitos e sem os condicionamentos próprios de patrocínios comerciais que sempre terminam por censurar o conteúdo de reflexões críticas que contrariem seus interesses mercantis.
Aqui pude explicitar não apenas a falência do capitalismo e sua cada vez maior segregação social, mas, também, a divergência profunda entre um pensar adstrito à crítica radical da economia política e outro pensar de esquerda preso à luta de classes, que mais não é do que uma ação que visa à pretensa justa distribuição do dinheiro, coisa impossível de ocorrer (expliquei as razões pelas quais isso ocorre), ao invés de buscar a superação do próprio dinheiro.

A virada de chave que proporciona a crítica da economia política embasada no Marx esotérico, em contraponto ao Marx exotérico (preso à luta de classes), expressa neste blogue, provoca um impasse colossal tanto da filosofia como na práxis revolucionária, permitindo compreenderem-se os fracassos do chamado socialismo real, que por ter mantido todas as categorias capitalistas no marxismo-leninismo, sem superá-las, terminou tendo que aderir pacificamente, sem um tiro sequer, à economia de mercado que sempre lhe deu ordens fetichistas.
A volta à economia de mercado "sem um tiro sequer"
O domínio sobre a evolução do genial pensamento de Marx e suas contradições, coisa natural de ocorrer em quem busca na ciência a explicação para dúvidas próprias à difícil compreensão daquilo que está na base da opressão social histórica, é o que proporciona uma orientação segura sobre o que fazer. Sobre esse alicerce e com reflexões adicionais é que nós formulamos as nossas proposições. 

O endeusamento do trabalho como categoria ontológica da existência humana e não como categoria histórica, assim considerada pelo marxismo tradicional, exotérico, expresso na foice e no martelo das bandeiras revolucionarias marxista-leninistas e até hoje repetido pelos movimentos de esquerda, somente demonstra o desconhecimento pelos marxistas do movimento operário (ou a omissão consciente, o que seria traição pura) do próprio Marx esotérico, profundo, que contraria a ele mesmo. 

Aqui neste blogue foi possível se estabelecer o debate entre autores e leitores, e entre autores e autores, de forma aberta, sem subterfúgios, dialeticamente, e à luz dos acontecimentos empíricos quando se confrontam a teoria com a prática e se tornam mais compreensíveis contradições entre uma ação imanente ao capital (como, p. ex., pedir mais empregos que não virão e que não devem ser pedidos mesmo) e outra que busca a superação do próprio capital.
Aqui estabelece-se o confronto entre as práticas opressoras do capital, patrocinadas pelos segmentos capitalistas e também por aquelas correntes da esquerda que estão presas à política tradicional e suas peripécias que não levam a nada. Aqui se aceitam dialeticamente posições que defendem a negação do Estado e suas instituições, e a mediação social feita a partir da forma-valor com a explicitação das razões nas quais tais reflexões estão embasadas.      

É com imensa satisfação, pois, que constato o crescimento do acesso de leitores ao blogue, pois sem eles todo o nosso esforço de publicação se tornaria vazio de sentido; afinal, não escrevemos para o vento, mas para a reflexão crítica capaz de formar consciências transformadoras e que seja, principalmente, capaz de promover a superação dos problemas sociais que, afinal, são superáveis.  

"Marx morreu" Ah! Ah! Imbecis!
O que se escreve perdura além da vida de quem escreveu, e o exemplo mais palpável disso está na obra genial de Karl Marx, redigida há mais de 150 anos; tido como morto e sepultado tantas vezes, Marx ressurge com a força de um pensar capaz de contrariar a inconsistência de práticas e argumentos facciosos que se contradizem pela própria inconsistência.

É neste sentido que a marca de 2 milhões de acessos, num blogue com milhares de artigos e comentários, se constitui num acervo literário verdadeiramente imortal, sem necessitar de fardão ou comendas.

Parabéns, Celso Lungaretti! Você é um jornalista que usa a profissão em benefício da liberdade e da emancipação humana, e justamente por essa condição não há nenhum órgão da imprensa poderosa que consiga diminuir a sua importância.

Vida longa ao Náufrago da utopia! (por Dalton Rosado)

A ESQUERDA DA MINHA VIDA

Por Apollo Natali
A marca portentosa de mais de 2 milhões de acessos atingidos pelo Náufrago da Utopia em seus oito anos de vida está a proclamar que esse órgão de comunicação, politicamente de esquerda, não é apenas mais um blogue entre seus semelhantes da extensa rede espalhada pelo Brasil. É algo mais. Com a palavra seus muitos milhares de leitores.

Porém, o que está buscando seu fundador, meu amigo e colega de profissão de longa data, Celso Lungaretti, não é aplauso.

Não! O que Lungaretti espera é uma reflexão crítica: trata-se mesmo o Náufrago de um blogue que defende a justiça social, a liberdade, os direitos humanos e o exercício do pensamento crítico?

Lungaretti considera satisfatório o que tem sido feito mas indaga se seria possível melhorar. Ele confessa suas persistentes tentativas de ser eclético e sonha ir muito além do que já fez.  E quanto fez.

Para saber, enfiem o nariz nos milhares de posts do blogue, antigos e recentes.  Os feitos não cabem neste espaço. E nem competência e nem memória me socorrem para destrinchar a todos. Fucem nas tags.

Hoje, seu desejo é o Náufrago ostentar um mostruário das tendências posicionadas à esquerda do PT. Reconhece, há um bocado de estrada para percorrer. .
Irreverente até com os cartazes da ditadura!

Pessoalmente, agrada-lhe muito tratar de assuntos políticos sem a reverência a que outros articulistas acostumaram o público virtual. Jamais quis ele fazer algo tão provocativo quanto o Charlie Hebdo, que às vezes exagera na dose, e sim recuperar um pouco do espírito zombeteiro de O Pasquim. Ofende seu senso estético dar tratamento exageradamente respeitoso aos anões morais e intelectuais da política brasileira. 

Não é aplauso que Celso Lungaretti está a buscar, mas sim um balanço honesto do caminho percorrido e indicações do que ainda está devendo. 

Afinal, que caminho é esse, a esquerda, pauta fiel do Náufrago?  A resposta culta eu ouço da boca dos estudiosos, dos intelectuais, da Academia. Mas como trocá-la em miúdos, em linguagem simples e direta, para boa parte dos 200 milhões de brasileiros não tão acadêmicos? Para o gasto do dia a dia do mortal que anda de ônibus, qual o significado dessa palavra  incompreendida até para mim?  

Definição acadêmica: os grandes ideólogos do marxismo e do anarquismo, Marx e Proudhon, pregavam a tomada de poder pelos trabalhadores que reformulariam a sociedade no sentido da priorização do bem comum, com as pessoas trabalhando solidariamente para que as atividades produtivas visassem ao pleno atendimento das necessidades humanas em regime de cooperação voluntária e igualdade. 

Lindo. Utópico. Impraticável. Como se tem visto. Que Lungaretti e seus pares de idéias possam perdoar minha visão turvada. Longínquo, incerto é o dia em que a humanidade vai atingir o topo moral necessário a uma vida feliz como essa. Não estaremos aqui para ver, nem nossos descendentes.  Que o digam a História, escrevo sempre com maiúsculo, façam o mesmo, que o digam os infrutíferos sangue e  lágrimas derramados  de Marx a Lênin,  deste, a Stalin, de Fidel a Maduro.

Ingenuidade sofrida, a minha. Gostaria que a esquerda fosse a prática geral da defesa dos fracos e oprimidos. Nada de tomar o poder, com armas ou sem armas, para implantar projetos eivados de crise moral de seus líderes. Olha eu a descambar para o  anarquismo. Utopia.  
"A direita é o forte bater no fraco"

Esquerda falada nos botequins da vida, eis a minha esquerda. Num desses botequins, bato um papo com um que pode ter plantado uma primeira semente da esquerda. Sim, o rei Salomão.  Pregava a ajuda aos pobres, necessitados, oprimidos, injustiçados. Riquíssimo. Mil mulheres. 

Discursava sobre a minha esquerda de botequim do alto de seu mesmíssimo, fatídico, deslumbrante, desastroso, injustíssimo palácio de Versalhes, como fizeram e fazem os poderoso tanto da esquerda como da direita, do centro, do alto, do baixo. 

Não se iludam, não dá certo, o ser humano não presta, seja da esquerda seja da direita, discursava em classe diariamente um meu professor de Direito da USP.  Já proferi essa prédica em algum lugar.  De vez em quando me acalmo acreditando que o mundo está cheio de gente boa, não políticos. 

E a direita, o que é? Definição acadêmica constante do Náufrago: é o partido da ordem que defende os interesses do capital e o estado de Direito. Partido esse que não passa, segundo Lungaretti, da moldura institucional para a dominação capitalista. E há a direita autoritária, hoje personificada por Jair Bolsonaro.

A direita, que não é a minha querida, afigura-se-me como fascismo. Minha definição querida: a direita, o fascismo, é o forte bater no fraco. Simples assim. 

O BLOGUE "NÁUFRAGO DA UTOPIA" ATINGE A MARCA DE 2 MILHÕES DE ACESSOS. COM AS PRÓPRIAS FORÇAS E SEM VENDER SUA ALMA.

Por Celso Lungaretti
As visualizações de página do blogue Náufrago da Utopia acabam de chegar à casa de 2 milhões. Não sei dimensionar a importância deste total em termos de blogosfera, mas eis alguns dados para os leitores poderem aquilatar por si mesmos:
— o blogue existe desde 8 de agosto de 2008; 
— tem 3.900 posts publicados; 
— conta com 620 seguidores; 
— vem mantendo nos últimos meses uma média de 1.600 acessos diários; 
— tais acessos provêm principalmente do Brasil (91,4%), EUA (3,7%), Portugal (1,4%) e França (0,5%).
Sejam ou não significativos tais números, a sensação que eles trazem a esta diminuta equipe (eu e os colaboradores permanentes Apollo Natali e Dalton Rosado) é de dever cumprido.

No meu caso e no do Apollo, o de continuarmos sendo jornalistas, fiéis à nossa missão de disponibilizarmos a verdade aos cidadãos comuns para que os poderosos não imponham tão facilmente as versões e análises que lhes convêm; e sendo jornalistas independentemente de tais poderosos decretarem nossa morte profissional, a pretexto da idade mas, muito mais, por não gostarem das convicções expressas em nossos textos.

No do Dalton, o de difundir uma interpretação do marxismo ainda pouco conhecida, mas que pode desempenhar um papel importante na renovação teórica da esquerda, ainda mais agora que as estratégias e táticas adotadas desde 2003 foram colocadas dramaticamente em xeque pelo impeachment de Dilma Rousseff e pelas circunstâncias nas quais ocorreu.

Também vejo este blogue como uma continuação da luta que outrora iniciei para livrar a comunicação de massa da tutela absoluta dos barões da mídia. Vale a pena explicar melhor.

Após minha participação na luta armada ter-me deixado em frangalhos, fui juntar os cacos numa comunidade alternativa, que era também uma forma de manter vivo meu sonho, ainda que a abrangência fosse bem menor.

Já não se tratava de desbravar um caminho para o povo, pois aprendera da forma mais sofrida a levar sempre em conta a correlação de forças, que naquele momento era totalmente desfavorável a quaisquer projetos ousados de nossa parte.

Mas ao menos podíamos, nós mesmos, praticar em recinto fechado um estilo solidário de vida, ajudando-nos uns aos outros e dividindo o trabalho e seus frutos igualitariamente. Foi o que pensamos e, por alguns meses, conseguimos levar à prática

Era, contudo, difícil mantermos algo assim  em meio ao terrorismo de estado que grassava lá fora, com suas atrocidades, injustiças e intolerância. E, como no conto antológico do Poe, a peste invadiu o castelo no qual acreditávamos estar a salvo dela.

Quando a nossa comuna se desintegrou, só me restou voltar à vida insípida de quem batalha apenas para garantir a sobrevivência pessoal. Como o jornalismo era uma vocação que se manifestara desde que  comecei a fazer jornais no curso médio para fins de conscientização política, foi o nicho que encontrei na divindade suprema do capitalismo, o deus mercado.

Mas, inconformado em ser apenas uma correia de transmissão de valores nocivos, usava minhas horas de folga para prover o antidoto, em publicações precárias que produzia com companheiros igualmente dados à escrita. 

Eram bancadas por nós mesmos, na esperança de que vendendo para amigos, conhecidos e para o público de nossas palestras e festas, arrecadássemos o suficiente para recuperar o que gastáramos. Nunca aconteceu.

Sabíamos que éramos pulgas tentando contrabalançar o estrago produzido pelos mamutes da indústria cultural, essa portentosa máquina de moldar a consciência dos cidadãos, tangendo-os para o conformismo e o consumismo.

Mas, tentávamos. Por mais que os resultados ficassem aquém de nossas expectativas, nunca desanimávamos. Era o que podíamos fazer e o fazíamos com enorme carinho. Cruzar os braços, jamais!

E é o que o Náufrago hoje faz. Lembrando os versos daquela comovente canção que Sérgio Ricardo compôs nos anos de chumbo, "cada verso é uma semente/ no deserto do meu tempo".

Aqui plantamos as sementes de uma esquerda que reassuma, como prioridade máxima e como sua razão de ser, a organização do povo para o combate sem trégua à exploração do homem pelo homem, até a vitória final.

Trata-se do que mais precisa ser feito neste momento e também do mais difícil de se fazer, pois já estão arraigados em nossas fileiras os vícios, a desmobilização e a acomodação resultantes da opção pelas urnas em detrimento das ruas. 
É mais fácil domesticar-se os bravos do que incutir bravura nos domesticados. Ainda mais depois de tantas e tantas décadas desperdiçadas em vãs tentativas de humanizar o capitalismo por dentro, rezando pela cartilha da democracia burguesa (que não passa do arcabouço institucional da dominação capitalista)!

É também aqui que tentamos ressuscitar valores como o da generosa solidariedade revolucionária, cada vez mais trocada pela postura egoísta de apoiar-se apenas o próprio partido ou a própria facção, lixando-se para as desgraças de outras forças do campo da esquerda e inclusive para os infortúnios de antagonistas pertencentes à mesma facção.

Há, ainda, que restaurarmos a própria moral revolucionária, a nossa, que infelizmente está ficando cada vez mais indistinguível da deles, nestes tristes tempos em que tantos trocam a dialética pelo mais rasteiro utilitarismo.

Aqui plantamos, ademais, a semente do respeito incondicional aos direitos humanos e à preservação do meio ambiente, pois nada, absolutamente nada, justifica os atentados à dignidade dos indivíduos e à sua existência (gravemente ameaçada pela devastação do nosso habitat). 

São tudo menos herdeiros de Marx e Proudhon os que se norteiam pela realpolitik, justificando atrocidades e massacres quando perpetrados pelos bons bárbaros contra os maus bárbaros; quem existe para conduzir a humanidade a um estágio superior de civilização jamais pode transigir com a barbárie, assim como a um religioso é vedado pactuar com o demônio.

E aqui tentamos exercitar o pensamento crítico, não deixando jamais de refletir sobre as práticas da esquerda, no sentido de aprimorá-las e de prevenir erros que poderão evidenciar-se desastrosos adiante. Quando a intolerância no relacionamento com as tendências minoritárias se dissemina cada vez mais entre nós, é fundamental restabelecermos o respeito entre companheiros e uma atitude positiva face aos questionamentos válidos. 

Até porque erros terríveis foram cometidos nos últimos tempos pelos detentores da hegemonia, os quais quase sempre fecharam os ouvidos às advertências daqueles que se encontravam em minoria... mas estavam com a razão!
De resto, somos os primeiros a reconhecer que as sementes por nós espalhadas frutificarão ou não graças a fatores que vão muito além de nosso idealismo, do nosso tirocínio e dos nossos esforços. 

Neste momento da vida só podemos apontar caminhos e dar exemplos, na esperança de que novos combatentes, com o vigor de que já não dispomos, inspirem-se nestas leituras ao decidirem suas linhas de ação.

Aos leitores que respeitam nossos esforços, peço: ajudem-nos a divulgar este blogue de resistência, que ninguém patrocina e tão poucos organizados apoiam, mas que prova ser possível sobreviver com as próprias forças (e desnecessário, portanto, vender a alma); e difundam estes textos impregnados de toda nossa experiência de vida e de todas as esperanças que ainda mantemos no futuro da humanidade, para que eles possam atingir seus objetivos...e nós também!

A luta continua.

E SE O BRASIL ESTIVER EM ENTROPIA, A CAMINHO DA DEVASTAÇÃO COMPLETA?

Por Igor Gielow
AUSÊNCIA DE ALTERNATIVAS VISÍVEIS É A NOVIDADE SOMBRIA DA CRISE DE 2017
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O aspecto mais angustiante da crise entrópica do governo Michel Temer não é só seu prolongamento, pela musculatura ainda relevante do Planalto, mas o fato de que ela carrega uma novidade fundamental em relação a outras experimentadas no passado.

Trata-se da ausência de alternativas. Sem juízo algum de mérito sobre o que veio depois, todas as crises institucionais sérias do país na história republicana mais ou menos recente traziam alguém, ou algum grupo, na fila. Fossem os tucanos pós-Collor ou o condomínio que assumiu após a queda do PT, para ficar em exemplos próximos, sempre havia alguma alternativa à mão.

Agora, para espanto de qualquer observador externo, não existem opções claras para o caso de derretimento final de Temer. Se parece altamente improvável que ele dure até 2018, essa ausência pode configurar a arte trevosa a operar o milagre de manter o peemedebista no cargo.

Esse vácuo tem a ver com o desmonte geracional provocado pela Operação Lava Jato, algo inédito para nosso padrão insolvente de ética pública. Há outros fatores, como a máxima de Ulysses Guimarães segundo a qual a próxima legislatura sempre será pior do que atual, por pior que esta seja.

E a percepção, quando são perfilados os nomes de destaque das duas Casas do Parlamento, é de que chegamos no fundo no poço: ou falamos de enrolados com a Justiça, ou de medíocres ineptos, ou das duas coisas juntas. Há exceções, claro, mas são gotas em oceanos.

Essa é uma consideração dentro do marco constitucional, de eleições indiretas caso Temer caia, cassado pelo TSE ou abatido por eventuais novas revelações na investigação contra si na Lava Jato. A opção pelas diretas, bonita filosoficamente, é impraticável hoje.

Mesmo nelas, as diretas, a ideia de que são rejeitadas só porque Lula ganharia facilmente constitui cegueira, dada sua rejeição e a quantidade de passivos jurídicos que carrega.

O maior perigo aparente é o do surgimento de alguma opção populista, no campo conservador ou mesmo à esquerda, com soluções fáceis. É isso que a ideia de rasgar o livrinho e mudar as regras tem de mais nefasto.

Um importante ator da crise (...) lamentava que, hoje, nenhuma das soluções no mercado emerge como consensual. É disso que se trata a entropia, o conjunto de forças destruidoras num sistema de troca de energia que inexoravelmente marcha para a devastação completa.

MÚSICOS E CANÇÕES QUE ILUMINARAM A MINHA VIDA (parte 4)

(os posts anteriores desta série do Celso Lungaretti estão aquiaqui e aqui)
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A Orquestra Armorial entra como representante do movimento armorial, que, na década de 1970, buscou criar uma arte erudita a partir de elementos da cultura popular do Nordeste brasileiro. 

Tendo como seus principais idealizadores o escritor Ariano Suassuna e o maestro Cussy de Almeida, o movimento influenciou várias expressões artísticas, como a música, a dança, a literatura, as artes plásticas, o teatro, o cinema e a arquitetura.

No primeiro caso, os destaques são o Quinteto Armorial e a Orquestra Armorial. Esta última, quando estreou em outubro de 1970, incluía no seu nome o complemento de Câmara, mas preferiu simplificar as coisas quando começou a gravar discos, para não afugentar o público menos simpático à música erudita...
Cussy de Almeida

Ambos faziam uma abordagem sofisticada das raízes nordestinas, mas, depois de uns 20 minutos de música instrumental sempre com o mesmo jeitão, o ouvinte começava a ficar entediado ou a mantê-la como sonoridade de fundo, tipo muzak. 

Exceções são, nos discos lançados em 1975 pela Orquestra Armorial, "Kyrie", que tem forte presença de coral, fugindo do ramerrão; e, principalmente, "Côco praieiro", estilização de um desafio de repentistas, com versos de Marcus Accioly. 

Trata-se de um contraponto à rústica Peleja do Cego Aderaldo com Zé Pretinho, baseada num clássico da literatura de cordal, que consta do disco do Show Opinião, na voz de Nara Leão. E é uma pérola que jamais poderia faltar aqui!
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Paulo César Pinheiro talvez tenha ficado mais conhecido do grande público como o então marido da cantora Clara Nunes, vitimada em 1983 por reação rara a uma anestesia, do que como o extraordinário cantor e poeta brasileiro que ele é, autor de mais de 2 mil músicas, a metade das quais gravada. 
É carioca e compõe desde os 15 anos, inicialmente tendo João de Aquino como parceiro. Mas, foi a colaboração com o violonista Baden Powell, principiada aos 16, que o colocou no repertório de artistas famosos como Elis Regina e Taiguara, aos quais seguiram-se dezenas de outros. 

Embora geralmente se apresente interpretando sambas, a qualidade poética de Pinheiro se evidencia mais em projetos ambiciosos nos quais incursionou por outros ritmos brasileiros, como o espetáculo O importante é que a nossa emoção sobreviva (1974), reunindo ele, Eduardo Gudin e a cantora Márcia, que gerou um disco gravado ao vivo durante a longa temporada no teatro Oficina e outro, de estúdio, dois anos depois.

E é simplesmente notável sua letra de "Matita Perê", que faz parte da trilha sonora do ótimo filme Sagarana, o duelo (assista-o aqui), criada por Antônio Carlos Jobim. Mas, como a incorporação da melhor versão, com o dueto dele com Jobim em 1980, foi bloqueada pelo Youtube, o jeito é contentarmo-nos com o poema "Cautela" + a música "Mordaça", fusão que abre o LP a três vozes de 1974.
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Paulo Vanzolini, outro poeta extraordinário, nos deixou até hoje lamentando sua opção de ser principalmente zoólogo e dedicar-se à música nas horas vagas. Que desperdício de talento! [Desculpem-me os zoólogos, mas é minha opinião sincera...]

Assisti-o certa noite, lá pelos meus 16 anos, sendo entrevistado pelo Silveira Sampaio (cujo talk show botava o do Jô Soares no chinelo...). 

Depois do papo, Luís Carlos Paraná foi chamado para interpretar músicas do Vanzolini, inclusive "Capoeira do Arnaldo", que me encantou instantaneamente.

Ambos eram parceiros de noitadas e desafios musicais na boate Jogral, de propriedade do Paraná, na verdade um ponto de encontro de amigos ligadões na MPB. Foi lá que o amigo Arnaldo duvidou que Vanzolini fosse capaz de compor uma música em jargão nordestino e ele, de estalo, criou a capoeira, dedicando-a ao dito cujo. Para minha decepção, o Vanzolini disse que esta música não seria gravada, porque ele a fizera só para o Arnaldo. 

Fiquei radiante quando, quase 10 anos depois, caminhava pelo centrão velho de São Paulo e a ouvi sendo tocada num sebo. Afinal, o Paraná a acabara gravando num compacto simples! Comprei correndo, emocionado.

Mas Vanzolini, o outro sambista genial que São Paulo produziu além de Adoniran Barbosa, foi também autor de "Volta por cima", uma das maiores composições brasileiras de todos os tempos; da maravilhosa "Boca da noite", sobre uma noite de amor sem futuro, "gente da nossa estampa/ não pede juras nem faz/ ama e parte e não demonstra/ sua guerra e sua paz"; de "Ronda", aclamadíssima; e tantas preciosidades mais. Ah, se ele priorizasse a música...
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Meu alheamento com relação a Raul Seixas, quando ele começou a se tornar nacionalmente conhecido, me deveria valer um troféu de homem sem visão! Em setembro de 1972, passei batido pela sua marcante performance no VII FIC da Globo, interpretando "Let me sing, let me sing" e acompanhei, sem dar muita importância, o sucesso de "Ouro de tolo", lançado em compacto no mês de maio de 1973 e dois meses depois incluída no LP Krig-ha, bandolo!.

É que vinha de duas decepções consecutivas, a derrocada da luta armada (que quase me destruiu) e o fim da comunidade alternativa na qual, depois de libertado, fora lamber as feridas e juntar os cacos. E, de repente, voltara à estaca zero.

Enfurnei-me numa quitinete com a companheira que me restara e me limitei durante certo tempo a curtir o amor, os livros e os discos, distanciando-me o máximo possível da realidade exterior. Trabalhava como zumbi em agências de comunicação empresarial, sonhando com o momento de voltar para o meu canto. E curtia o rock de melhores tempos, de preferência à MPB que me parecia ter sido esvaziada pela ditadura.

Ainda assim, Raul Seixas me alcançou. Foi em 1978, quando, cansado do isolamento de ermitão, saí da toca: retomei o curso de Jornalismo na ECA-USP para ter condições legais de trabalhar nas redações ao invés de ficar me escondendo dos fiscais em empresas de RP; e comecei a colaborar em revistas de música e cinema.

Aí me caiu nas mãos o álbum duplo O banquete dos mendigos, com registros de um espetáculo comemorativo dos 25 anos da Declaração Universal dos Direitos Humanos, proibido pela censura em 1973 e liberado em 1979. Só então, com seis anos de atraso, fiquei conhecendo "Cachorro urubu", a canção do Rauzito alusiva à primavera parisiense de 1968! 

"Todo jornal que eu leio/ me diz que a gente já era/ que já não é mais primavera./ Oh, baby, a gente ainda nem começou!" Fiquei todo arrepiado. E aí me interessei em conhecer suas outras canções, encontrando algumas que vinham totalmente ao encontro de minha visão de mundo, como "Metamorfose ambulante", "Sociedade alternativa" e "Tente outra vez".

Coincidentemente, ocorreu a primeira coletiva do Raul em Sampa após ele ser contratado pela CBS. Foi convencional, desinteressante.

Quando já me preparava para sair, o divulgador, que gostava dos meus textos, convidou-me para almoçar com ele, o Raul e a Kika num restaurante chinês próximo. 

Aí o Raul, turbinado pelo saquê da casa e pelo uísque que trazia consigo numa garrafinha metálica, se soltou. E a coisa se tornou bem pitoresca.

Resolvi, no meu texto, liquidar a coletiva em cinco linhas e utilizar umas 35 para relatar as maluquices do almoço; inclusive, contei como me lavou a alma ouvir os versos de "Cachorro urubu" em meio ao marasmo de 1979.

Para minha surpresa, logo depois de a revista sair, ele me ligou na redação, cumprimentando-me pelo texto e convidando-me para um happy hour da CBS. Papeamos um pouco, bebemos muito. Tive depois de transportá-lo para seu hotel, pois estava quase desmaiando.

Devo ter ido umas duas ou três vezes visitá-lo em sua casa no bairro de Pinheiros, sempre a convite dele, para conversar sobre o 1968 que passara em nossas vidas e o que acontecera depois. Contou-me muita coisa que os porres apagaram da minha mente, inclusive sobre os livros de bruxos famosos que ele e o Paulo Coelho eram obrigados a traduzir parágrafo por parágrafo para seus estudos esotéricos, pois não existiam edições em idiomas facilmente compreensíveis.

A amizade foi fugaz, mas nunca deixei de reconhecer nele um talento superlativo e o artista mais fiel ao espírito de 1968 dentre todos que conheci em cinco anos de jornalismo musical..
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Sérgio Ricardo merece ser lembrado como um dos maiores nomes da MPB engajada no protesto político e social; autor de trilhas sonoras impecáveis para cinema e TV; diretor de um curta e três longa metragens marcantes, com destaque para o criativo musical A noite do espantalho; e até como um raro exemplo de artista tão fiel à sua ideologia que optou por morar junto com o povo explorado, na favela do Vidigal (RJ).  Não pelo folclórico episódio do II Festival da Record, quando, inconformado com as vaias que lhe impediam de cantar sua "Beto bom de bola", quebrou o violão e arremessou-o contra o público.
Paulista de Marília, mudou aos 18 anos de idade para o Rio de Janeiro, onde foi locutor de rádio e tocava piano em casas noturnas. Ao longo dos anos 50 chegou até a trabalhar como ator de teleteatro, além de gravar alguns compactos e um LP de bossa-nova, mas sua carreira decolou mesmo foi no início da década seguinte, quando partiu para as músicas com temática social, começando pelo clássico "Zelão".

Em 1963 uniu-se ao Centro Popular de Cultura da UNE, entrando em contato com o pessoal do cinema novo. Como consequência, dirigiu seu primeiro longa, Esse mundo é meu, cuja canção-tema fez algum sucesso na voz de Elis Regina, e foi convidado por Glauber Rocha para compor e interpretar, ao estilo de cantador nordestino, as músicas de Deus e o diabo na terra do sol. O cineasta baiano teve até de ofendê-lo ("Canta como homem, porra!") para arrancar dele uma interpretação rude, ao invés do balanço característico da bossa-nova, mas compensou: parte do sucesso dessa obra-prima se deve à sua impactante trilha.

Atravessou a época áurea da MPB como um artista consistente e respeitado pela crítica, mas que nunca obteve sucesso popular à altura do seu talento. E nunca se saiu bem nos festivais, embora apresentasse trabalhos inovadores como o uso de versos concretistas em "Girassol" e "Canto do amor armado".

E se manteve sempre corajoso, ousando reverenciar o mártir guerrilheiro na canção "Che Guevara não morreu" e produzir o verdadeiro libelo contra a censura que foi "Calabouço".
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O carioca Theo de Barros é um cantor, compositor, violonista e arranjador que jamais ascendeu ao estrelato porque lhe falta carisma remotamente à altura da qualidade do seu trabalho. A vida, às vezes, é muito injusta.
Estudou violão desde os 11 anos e tinha 19 quando Alaíde Costa gravou sua "Natureza e igrejinha". Em 1963 já mostrou a que veio com seu compacto de estréia, trazendo a contundente "Vim de Santana" ("Quando a gente passa fome/ fica homem/ mal acaba de aprender a andar").

Ano novo, novo clássico da MPB: "Menino das laranjas", que Geraldo Vandré gravou de imediato e Elis Regina depois. 

O ápice de sua carreira foi o 1º lugar de "Disparada", música dele e letra de Geraldo Vandré, no 2º Festival da RecordDepois, integrou o Quarteto Novo (ao lado de Airto Moreira, Heraldo do Monte, Hermeto Pascoal), conjunto instrumental que acompanhava Vandré em gravações e excursões. 

Participou de várias produções do Teatro de Arena, com destaque para a direção musical de uma das melhores peças do grupo, Arena conta Tiradentes, que incluía a enérgica canção "Espanto", gravada por Maria Odette E compôs as músicas do filme Quelé do Pajeú.

Uma de suas canções para festivais que merecia melhor sorte é esta "Oxalá".
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Tim Maia era um dos 18 filhos de um casal pobre do bairro carioca da Tijuca. Começou a compor aos oito anos de idade e aos 14 iniciou sua carreira artística, como baterista do grupo Tijucanos do Ritmo. Depois, em 1957, formou o grupo vocal Os Sputniks, com a participação, entre outros, de Roberto Carlos.

Viveu nos Estados Unidos a partir de 1959, o que se refletiria no seu estilo musical, uma mistura de samba e ritmos nordestinos com soul music e funk. Mas, teve de voltar para o Brasil em 1964, deportado por posse de maconha.

Estourou nas paradas cariocas com o LP de estréia, que levava seu nome e emplacou principalmente graças à irreverência de "Coroné Antônio Bento" e ao romantismo de "Primavera (vai chuva)" e "Azul da cor do mar".

Sua carreira foi prejudicada por problemas com as drogas e o álcool, além da insistência em divulgar a seita Universo em desencanto, que não lhe inspirou boas músicas. 

Mas, musicalidade ele tinha de sobra, daí ter legado um sem-número de canções marcantes. Eu destacaria, além das já citadas, "Cristina", "Canário do reino", "Eu amo você", "Gostava tanto de você", "Réu confesso", "Você" e esta pungente "Me dê motivo".
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Baiano de Irará, Tom Zé era visto na era dos festivais como uma espécie de primo pobre dos ídolos tropicalistas. Eu considerava isto um tanto injusto, pois naquilo a que se propunha – detonar o sistema com sátiras e deboche –, era bem melhor do que o Gilberto Gil de "A luta contra a lata", p. ex. Tão hilários quanto ele só conseguiam ser Os Mutantes, mais dados, contudo, ao humor em si, sem alvo determinado. Já Tom Zé fazia dele uma arma contra a caretice e intolerância da sociedade burguesa.
Enturmado com Caetano, Gil, Bethânia e Gal desde o início dos anos 60, participou de espetáculos da futura brigada tropicalista, como Nós, por exemplo, Nova bossa velha, velha bossa nova e Arena canta Bahia

Depois, em 1968, foi um dos artistas incluídos no LP-manifesto Tropicália ou panis et circensis, que definiu as bases do movimento desencadeado no ano anterior por Caetano e Gil, mas não em posição de destaque: foi aproveitada uma única composição sua ("Parque industrial") e ele nem sequer a interpretou sozinho...

Quando Caetano e Gil decidiram não defender a composição por eles inscrita no Festival da Record do mesmo ano, quem saiu no lucro foi Tom Zé: escolheram Gal interpretar "Diviho, maravilhoso", mas o 1º lugar na avaliação do júri especial coube a "São São Paulo, meu amor", do Tom Zé, enquanto Chico Buarque era consagrado pelo júri popular.

Acabou se distanciando do tropicalismo e sendo muito bem sucedido; contou, claro, com uma pequena ajuda do músico David Byrne, dos Talking Heads, que ouviu um LP dele por acaso, considerou-o genial e introduziu Tom Zé no mercado internacional.

A lista de canções que eu destacaria do Tom Zé não cabe neste espaço. Fiquemos apenas com a minha favorita, que relata uma situação que eu também cheguei a presenciar, na estação em que os nordestinos desembarcam na cidade de São Paulo e dela partem. 
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Nunca morri de amores pela bossa-nova de Antônio Carlos Jobim, João Gilberto e Vinícius de Moraes, pois aquela rotina preguiçosa de amor, sorriso, flor, barquinho a deslizar e garota de Ipanema a rebolar nada tinha a ver com minha realidade de filho de operário com os bolsos vazios, morando num feio bairro industrial.

Aí, uma alternativa mais politizada e menos frívola afirmou-se na minha cidade, graças aos programas e festivais da TV Record. E bem no instante em que começava a me interessar pela política!

Alinhei-me naturalmente com a vertente que Elis Regina chamava de moderna música popular brasileira, na disputa de espaço com a bossa-nova carioca. E, claro, fiquei com alguma antipatia de Vinícius de Moraes, que era tido como o inspirador do jogo sujo do grupo de lá para impedir que os artistas de cá invadissem aquela praia fechada. 

A acusação ganhou verossimilhança quando a medíocre "Saveiros" foi a finalista nacional do 1º FIC da TV Globo (1966), com "O cavaleiro", de Geraldo Vandré, sendo flagrantemente injustiçada, ao ficar apenas com o 2ª lugar. [Dois anos depois a farsa se repetiria, com a "Caminhando".]

Isto tudo posto, não serei injusto a ponto de desprezar algumas ótimas canções cujas letras foram criadas pelo poeta-diplomata, como "Berimbau", "Canto de Ossanha", "Chega de saudade", "Dia da criação", "Eu sei que vou te amar", "A felicidade", "Gente humilde", "Marcha de 4ª feira de cinzas",  "Rosa de Hiroshima" e a minha preferida, o "Samba da benção".
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Quando comecei a gostar da MPB, lá por 1966, um dos poucos programas radiofônicos a ela dedicados era o Marcando bossa, na pequenina rádio Marconi.

Um jovem apresentador, com voz sumida, introduzia as canções fazendo jogos poéticos com seus versos. Tinha como bordão "pouca fala e muita música nossa". Chamava-se Walter Franco.

No final de 1968, deu uma guinada: o esteta bem comportado vestiu farda de guerrilheiro. Inscreveu no Festival Universitário da TV Tupi uma louvação a Che Guevara, "Não se queima um sonho", que Geraldo Vandré interpretou. 

Em 1972, nova guinada: no VII FIC da Globo apresentou "Cabeça", uma algazarra de música progressiva à Frank Zappa, com várias vozes dizendo ao mesmo tempo, mas desemparelhadas, a frase "O que é que você tem nessa cabeça, irmão? Saiba que ela pode explodir ou não!", além de variações tipo "Cabeça explode! Cabeça explode!".

Foi nesta linha o LP de estréia, Ou não, que a vanguarda amou e o resto detestou. Mas, não entendam mal: tinha muita coisa interessante, misturada com os excessos. Valia a pena ouvir.

Os seguintes foram mais na linha do misticismo hindu. Ele trocou o pátio dos loucos pela paz interior. Tanto que, enquanto era vaiado no Festival Abertura da Globo (1973), sentou no chão e jogou uma partida de dados imaginária com o maestro Júlio Medaglia.

Finalmente, num festival de 1979 da TV Tupi, ele apresentou aquele que talvez seja o melhor rock-blues brasileiro de todos os tempos: "Canalha".

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O carioca Wilson Simonal foi um dos melhores cantores brasileiros da década de 1960. Decolou para o sucesso em 1963, aos 25 anos, com "Balanço Zona Sul", uma das músicas mais características do modo ipanemense de ser. No ano seguinte, mais dois grandes êxitos: "Lobo bobo" e "Nanã".

Sua carreira não parou de crescer, graças à simpatia e ao swing que o tornavam um dos ídolos mais populares da MPB. Era, basicamente, o que os defensores de uma MPB engajada nas lutas sociais e na resistência artística à ditadura chamavam de alienado. Coerentemente, no tiroteio entre os engajados e os tropicalistas emergentes, alinhou-se com os últimos.
Antes...

Da noite para o dia virou ovelha negra, em 1971, quando estourou o escândalo que o desgraçaria para sempre: acreditando-se roubado pelo contador que despedira e lhe movia ação trabalhista, pediu a ajuda de policiais do Dops, os quais, utilizando até torturas, arrancaram do dito cujo uma confissão de desfalque.

A mulher do contador, desesperada com seu sumiço, queixou-se à polícia e a notícia se propagou. Resultado: espalhou-se o boato de que Simonal não só era dedo-duro, como havia alertado a repressão para o plano de músicos famosos que queriam aproveitar o VI FIC da TV Globo para protestarem ao vivo contra a ditadura e a censura.

As portas se fecharam para ele e sua carreira virou pó. Eu sempre suspeitei de que ele tenha sido vítima de sua ingenuidade (e também do maucaratismo que mostrou ao encomendar uma prensa no seu contador). No entanto, quem a deu foram subalternos do Dops, aparentemente em caráter particular, sem conhecimento dos superiores. Isto me parece nunca ter sido levado em conta pelos que passaram a boicotá-lo de todas as formas.

Pode-se pensar que Simonal, depois de ter sido chamado para depor certa vez por causa do que seria um detalhe subversivo num de seus shows, tenha ficado amigo desses pés-de-chinelo, até por interesse mútuo: eles poderiam servir-lhe de leões de chácara e Simonal arrumar-lhes fãzocas para farras.
...e depois.

Mas, ele próprio deu depoimento confessando que era informante; é no que se baseou a estigmatização. 

E se, contudo, não passasse de uma versão criada para justificar o serviço escuso que os investigadores lhe haviam prestado? Afinal, estavam ameaçados de perder o emprego e até a liberdade.

À distância, não dá para condená-lo nem absolvê-lo. Apenas estranho que se tenha aceitado como incontestável uma versão tão cheia de furos; que ele tenha levado a fama de delatar o plano dos músicos por mera suposição, sem evidência nenhuma; e por aí vai. Havia paranoias demais no ar durante os anos de chumbo e se cometiam grandes injustiças.

Não gosto de pensar que ele possa ter sofrido toda discriminação que sofreu sem ter culpas maiores além das de ter escolhido mal os companheiros de orgias e lhes haver pedido um favor escroto... 
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