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domingo, 1 de fevereiro de 2026

"ERA UMA CANÇÃO, UM SÓ CORDÃO E UMA VONTADE DE TOMAR A MÃO DE CADA IRMÃO PELA CIDADE" (Chico Buarque)

Mestre Cartola na Comissão de Frente da Mangueira, em 1977.
"
A Estação Primeira
de Mangueira passa
em ruas largas, passa
por debaixo da avenida
Presidente Vargas"
(Caetano Veloso) 
A origem do carnaval perde-se na poeira dos tempos. 

Há quem tente remontá-la ao culto agrário praticado por povos que existiram 10 mil anos antes de Cristo: homens e mulheres mascarados, com corpos pintados e cobertos de peles ou plumas, saíam em bandos e invadiam as casas, fazendo terríveis algazarras.

Outros autores lembram as festas alegres do paganismo, como a de Ísis e a do Boi Ápis, entre os egípcios; e as bacanais, lupercais e saturnais dos romanos.

Suetônio, historiador da Roma antiga, refere-se às saturnais como desenfreada libertinagem, cínica palhaçada. E diz que, durante esse período todos pareciam enlouquecer. Armavam-se grandes mesas à frente das casas para senhores e escravos comerem à vontade, sem distinções. E os escravos tinham o direito de dizer verdades a seus donos, ridicularizá-los, fazer o que quisessem.

A componente libidinosa do carnaval é inegável em todos os textos antigos. Sabe-se, p. ex., que o termo carnaval deriva do latim carrum novalis, designação de um tipo de carro alegórico da Grécia e Roma antigas. Dezenas de pessoas mascaradas caminhavam a seu lado e ele trazia no bojo mulheres nuas e homens que cantavam canções impudicas.

A Idade Média, com a rígida tutela religiosa sobre a vida social, não poderia trazer acréscimos significativos ao carnaval. Mas, pelo menos, não conseguiu extinguir esses festejos, que continuaram existindo como um contraponto à monótona existência nos feudos.


Contam alguns textos, inclusive, que os padres, depois de pregarem em vão contra o carnaval, acabavam convidando os fiéis a concentrarem as comemorações na praça da igreja, para que tal logradouro não ficasse desvalorizado...

A Renascença viria libertar os europeus da sensação de culpa que a religião procurava insistentemente associar ao prazer e à alegria. Os distantes e etéreos paraísos prometidos nos púlpitos, bem como as dantescas descrições do inferno que esperava os pecadores, tornaram-se insuficientes para afastar o povo da folia. A grande festa pagã renascia em todo o seu esplendor.
.
O MEDONHO ENTRUDO PORTUGUÊS Para nós interessa, sobretudo, o carnaval português, conhecido como entrudo. Isto porque, até fins do século 19, o nosso carnaval teria as mesmas características do medonho entrudo português, porco e brutal a que se referiu uma historiadora, assim descrevendo-o:
Pelas ruas de Lisboa, generalizava-se uma verdadeira luta em que as armas eram os ovos de gema, ou suas cascas contendo farinha ou gesso, cartuchos de pó de goma, cabaças de cera com águas de cheiro, tremoços, tubos de vidro ou de cartão para soprar com violência, milho e feijão que se despejam aos alqueires sobre as cabeças dos transeuntes...
A pesquisadora Eneida, em sua História do Carnaval Carioca, relaciona diversos casos para comprovar que, a exemplo do que ocorria na Roma de Suetônio, o carnaval aqui também se constituía no único período em que os escravos desfrutavam de uma certa liberdade

E conclui: Parece que uma das características do carnaval é dar aos escravos de qualquer época o direito de criticar e zombar de seus senhores.

Os limites da democracia, entretanto, sempre foram muito exíguos no Brasil, então houve também medidas caracteristicamente autoritárias. Em 1857, o chefe de polícia do Rio de Janeiro lançou um edital proibindo o jogo do entrudo dentro do município. Qualquer pessoa que o jogar incorrerá na pena de 4$ a 12$ e não tendo com que satisfazer, sofrerá oito dias de cadeia, caso o seu senhor não o mande castigar no calabouço com cem açoites. Ou seja, multa para os brancos proprietários; xilindró e chicotadas para os escravos. A relatividade vem de longe...

A agressividade igualmente se evidencia em todos os textos da época. Sabe-se, p. ex., que o único objeto de divertimento do carnaval brasileiro era o limão de cheiro, uma imitação de laranja, com invólucro de cera e água fétida por dentro.

O pintor e engenheiro Jean-Baptiste Debret, que aqui veio com a Missão Artística Francesa em 1818, ficou estarrecido com a selvageria explícita: Vi jovens negociantes ingleses passearem, com orgulho e arrogância,  acompanhados por um negro vendedor de limões cujo tabuleiro esvaziavam pouco a pouco, jogando os limões às ventas de pessoas que nem sequer conheciam.

Episódios deste tipo o marcaram tanto que um de seus desenhos mais famosos, Cena de Carnaval (ao lado), mostra uma negra atacada na rua por um crioulo de cartola, que lhe esfrega no rosto um bocado de goma, enquanto o outro negro ensopa o primeiro com água de uma longa seringa.

Apenas no final daquele século a agressividade foi se atenuando e as bisnagas passaram a conter, ao invés de água suja, líquidos menos repugnantes, como vinagre, groselha e vinho; idem os limões de cheiro, cujas águas fétidas e até urina foram trocadas por inofensivos perfumes.
.
ZÉ PEREIRA! BUM, BUM, BUM! – O personagem mais característico do carnaval brasileiro surgiu em meados do século 19 e logo se tornou uma instituição popular. Trata-se do Zé Pereira, calcado na figura do sapateiro José Nogueira de Azevedo Pereira.

Português de nascimento, ele um dia entretinha-se com outros patrícios, recordando as romarias, estúrdias e estrondos da pátria distante. A saudade era tanta que eles resolveram sair à rua, ao som de zabumbas e tambores alugados às pressas, para fazer uma passeata pela cidade.

Foi um enorme sucesso, logo copiado por dezenas de grupos semelhantes, fazendo com que o Zé Pereira se transformasse num personagem mística, identificado com o próprio carnaval (“E viva o Zé Pereira/ Pois que a ninguém faz mal/ E viva a bebedeira/ Nos dias de carnaval”).

A historiadora Eneida assim avaliou o Zé Pereira:

Foi essencialmente o carnaval do pobre. Tão fácil, no meio da miséria reinante, sair à rua com bumbos e tambores, uma camisa qualquer, uma calça de qualquer espécie e fazer barulho, alegrar com um ritmo efusivo as ruas e os bairros!

Seu desaparecimento, no começo do século passado, é indício de que o carnaval perdia espontaneidade, tornando-se festa opulenta e regulamentada, sem espaço para os improvisos populares.

Mas, a alma do Zé Pereira sobrevive até hoje nos blocos de sujos, que insistem em se formar sem ensaios e mensalidades, para existir num momento e viver intensamente esse momento, na melhor tradição do carnaval.

SAMBA E UMBIGADA  – Até o início do século passado samba e carnaval tiveram trajetórias distintas, que foram convergindo no sentido de uma perfeita complementação. 

O samba remonta à chegada no Brasil de escravos negros, que logo foram introduzindo seus ritmos, danças, cantigas, costumes e crenças. Assim, após o trabalho exaustivo (ou nos raros dias de folga), eles dançavam e batucavam com seus instrumentos rudes, nos terrenos das fazendas, engenhos e canaviais. Alegria sofrida, ritmo de quem esforçava-se por esquecer a tristeza, as privações e os maus tratos.

O batuque tipicamente africano foi caindo em desuso com o desaparecimento dos nativos daquele continente. Uma variação abrasileirada espalhou-se por todo o País, já com a denominação de samba. 

E, na zona rural, o encontro de culturas deu origem a uma derivação pitoresca, os chamados sambas sertanejos, em que homens e mulheres participavam da roda cantando em coro, ao som de instrumentos de percussão e da viola de arame.

Segundo um cronista da época, os dançadores formam roda e, ao compasso de uma viola, move-se o dançador do centro, avança e bate com a barriga de outro da roda, uma pessoa de outro sexo. Não se pode imaginar uma dança mais lasciva do que esta, razão por que tem muitos inimigos, principalmente entre os padres.
.
LENÇO NO PESCOÇO – A fase heroica do samba foi a da pernada carioca, diversão a que se entregavam os remanescentes dos inúmeros grupos de capoeiristas existentes no Rio de Janeiro em fins do século 19.

Tratava-se de uma batucada braba, na base da pernada e cabeçada, regada com doses cavalares de cachaça (Samba de negro/ Não se pode frequentá/ Só tem cachaça/ Pra gente se embriagá).

                      
                                        
Os conflitos eram corriqueiros e a presença da polícia, também, dando origem a verdadeiras batalhas campais, em que instrumentos musicais serviam como armas e algumas cabeças acabavam sempre rachadas (Tava num samba/ Lá no Sarguero/ Veio a polícia/ Me jogou no tintureiro”).

O samba era tido como coisa de pretos, malandros e marginais. A posse de qualquer  instrumento de samba bastava como prova de que o indivíduo era vadio e merecia ser preso. E a brutalidade da polícia Era respondida à altura pelos bambas. Mortes ocorriam de lado a lado.

Foi a época do tipo celebrizado por Wilson Batista, com seu andar gingado, chapéu tombado, olhar dormente, fala cheia de gírias, lenço de seda no pescoço (para proteger-se das navalhadas), camisa listrada, calças largas (boca-de-sino) ou balão (bombacha) caídas sobre os sapatos de bico fino com salto carrapeta (mais tarde, tamancos) e, evidentemente, a inseparável navalha.

Os versos do sambista da Lapa o descrevem admiravelmente: Meu chapéu de lado/ Tamanco arrastando/ Lenço no pescoço/ Navalha no bolso/ Eu passo gingando/ Provoco desafio/ Eu tenho orgulho de ser vadio.

Trata-se de uma figura que, como o verdadeiro carnaval, sairia de cena entre as décadas de 1930 e 1940.
.
O PINTO E OS ÍNDIOS – O carnaval era uma pedra no sapato dos autoritários de todos os matizes. Os chefes de polícia, desde meados do século 19, lançaram uma interminável série de editais, ora proibindo, ora regulamentando os festejos.
No carnaval carioca de 1888, entre as muitas determinações draconianas, figurava a de que, sem a autorização do Chefe de Polícia, não podem aparecer críticas, principalmente ao Governo.

Episódios anedóticos ocorreram aos montes. Um delegado carioca chamado Alfredo Pinto, p. ex., notabilizou-se pela perseguição aos foliões. Em 1909, tentou proibir as passeatas e o Zé Pereira, sendo obrigado a voltar atrás por causa dos protestos da população e da imprensa.

Furioso, voltou à carga proibindo as fantasias de índio, sob a alegação de que os tacapes poderiam ser utilizados como armas. Os blocos contra-atacaram com refrãos provocativos que difundiram por toda a cidade, tipo Eu vou beber/ Eu vou me embriagar/ Eu vou sair de índio/ Pra polícia me pegar. Em outros, houve até alusões picarescas ao sobrenome do delegado...
.
DOMESTICAÇÃO E TURISTIFICAÇÃO – Nem a polícia do terrível Filinto Müller, durante a ditadura getulista, conseguiu pôr fim aos festejos de Momo. De repente, entretanto, o povo perdeu seu carnaval, que virou um próspero negócio para as escolas de samba e foi alçado a item prioritário da promoção do turismo.

Comemorações rigorosamente planejadas substituíram as iniciativas espontâneas do povão. Os foliões se tornaram passivos espectadores dos suntuosos e multicoloridos desfiles. Sambistas passaram a competir encarniçadamente por classificações espúrias.

Enfim, a festa do congraçamento cedeu lugar à disputa calculista. O que a polícia não conseguiu com seus cassetetes, conseguiram os negociantes com seus talões de cheque.


Como explicar essa transição negativa? Dizer que, com a industrialização, fecharam-se os espaços para a desordem remanescente da sociedade rural? Que o carnaval morreu ao se institucionalizar? Que nosso povo já não tem humor nem revolta? Explicações podem ser alinhavadas às dezenas. Mas, nenhuma servirá como consolo.

O certo é que uma genuína explosão de vida se tornou ritual de repetição. E o povo se conformou em não inventar mais seus festejos nem improvisar seus itinerários, recebendo como contrapartida lugares confortáveis nas arquibancadas dos sambódromos e o direito à licenciosidade em salões sufocantes.

Enfim, foi expulso das ruas e não se dispõe mais a lutar mais por elas.
Observação: desde que escrevi este artigo, voltou a haver mais carnaval nas ruas, com os blocos de sujos.  Contudo o velho espírito libertário e transgressor, este não voltou. Continua sendo uma festa consentida, com a diferença de que hoje se consente mais em alguns dias para que todos suportem engolir uma quantidade maior de sapos nos outros dias. (por Celso Lungaretti) 

segunda-feira, 12 de fevereiro de 2024

O CARNAVAL FOI OUTRORA UMA FESTA DA IGUALDADE, DA REBELDIA E DO PRAZER. HOJE É APENAS UMA FESTA CONSENTIDA.

Mestre Cartola na comissão de frente da Mangueira, em 1977.
"A Estação Primeira de
 Mangueira em ruas largas, passa por debaixo 
da avenida Presidente Vargas."
(Caetano Veloso) 
A origem do carnaval perde-se na poeira dos tempos. 

Há quem tente remontá-la ao culto agrário praticado por povos que existiram 10 mil anos antes de Cristo: homens e mulheres mascarados, com corpos pintados e cobertos de peles ou plumas, saíam em bandos e invadiam as casas, fazendo terríveis algazarras.

Outros autores lembram as festas alegres do paganismo, como a de Ísis e a do Boi Ápis, entre os egípcios; e as bacanais, lupercais e saturnais dos romanos.

Suetônio, historiador da Roma antiga, refere-se às saturnais como desenfreada libertinagem, cínica palhaçada.  

E diz que, durante esse período todos pareciam enlouquecer. Armavam-se grandes mesas à frente das casas para senhores e escravos comerem à vontade, sem distinções. E os escravos tinham o direito de dizer verdades a seus donos, ridicularizá-los, fazer o que quisessem.

A componente libidinosa do carnaval é inegável em todos os textos antigos. Sabe-se, p. ex., que o termo carnaval deriva do latim carrum novalis, designação de um tipo de carro alegórico da Grécia e Roma antigas. Dezenas de pessoas mascaradas caminhavam a seu lado e ele trazia no bojo mulheres nuas e homens que cantavam canções impudicas. 

A Idade Média, com a rígida tutela religiosa sobre a vida social, não poderia trazer acréscimos significativos ao carnaval. Mas, pelo menos, não conseguiu extinguir esses festejos, que continuaram existindo como um contraponto à monótona existência nos feudos.

Contam alguns textos, inclusive, que os padres, depois de pregarem em vão contra o carnaval, acabavam convidando os fiéis a concentrarem as comemorações na praça da igreja, para que tal logradouro não ficasse desvalorizado...

A Renascença viria libertar os europeus da sensação de culpa que a religião procurava insistentemente associar ao prazer e à alegria. Os distantes e etéreos paraísos prometidos nos púlpitos, bem como as dantescas descrições do inferno que esperava os pecadores, tornaram-se insuficientes para afastar o povo da folia. A grande festa pagã renascia em todo o seu esplendor.

O MEDONHO ENTRUDO PORTUGUÊS Para nós interessa, sobretudo, o carnaval português, conhecido como entrudo. Isto porque, até fins do século 19, o nosso carnaval teria as mesmas características do medonho entrudo português, porco e brutal, a que se referiu uma historiadora, assim o descrevendo:
Pelas ruas de Lisboa, generalizava-se uma verdadeira luta em que as armas eram os ovos de gema, ou suas cascas contendo farinha ou gesso, cartuchos de pó de goma, cabaças de cera com águas de cheiro, tremoços, tubos de vidro ou de cartão para soprar com violência, milho e feijão que se despejam aos alqueires sobre as cabeças dos transeuntes...
A pesquisadora Eneida, em sua História do Carnaval Carioca, relaciona diversos casos para comprovar que, a exemplo do que ocorria na Roma de Suetônio, o carnaval aqui também se constituía no único período em que os escravos desfrutavam de uma certa liberdade

E conclui: Parece que uma das características do carnaval é dar aos escravos de qualquer época o direito de criticar e zombar de seus senhores.

Os limites da democracia, entretanto, sempre foram ínfimos no Brasil, então houve também medidas caracteristicamente autoritárias. Em 1857, o chefe de polícia do Rio de Janeiro lançou um edital proibindo o jogo do entrudo dentro do município. Qualquer pessoa que o jogar incorrerá na pena de 4$ a 12$ e não tendo com que satisfazer, sofrerá oito dias de cadeia, caso o seu senhor não o mande castigar no calabouço com cem açoites. Ou seja, multa para os brancos proprietários; xilindró e chicotadas para os escravos. A relatividade vem de longe...

A agressividade igualmente se evidencia em todos os textos da época. Sabe-se, p. ex., que o único objeto de divertimento do carnaval brasileiro era o limão de cheiro, uma imitação de laranja, com invólucro de cera e água fétida por dentro.

O pintor e engenheiro Jean-Baptiste Debret, que aqui veio com a Missão Artística Francesa em 1818, ficou estarrecido com a selvageria explícita: Vi jovens negociantes ingleses passearem, com orgulho e arrogância,  acompanhados por um negro vendedor de limões cujo tabuleiro esvaziavam pouco a pouco, jogando os limões às ventas de pessoas que nem sequer conheciam.

Episódios deste tipo o marcaram tanto que um de seus desenhos mais famosos, Cena de Carnaval (ao lado), mostra uma negra atacada na rua por um crioulo de cartola, que lhe esfrega no rosto um bocado de goma, enquanto o outro negro ensopa o primeiro com água de uma longa seringa.

Apenas no final daquele século a agressividade foi se atenuando e as bisnagas passaram a conter, ao invés de água suja, líquidos menos repugnantes, como vinagre, groselha e vinho; idem os limões de cheiro, cujas águas fétidas e até urina foram trocadas por inofensivos perfumes.
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ZÉ PEREIRA! BUM, BUM, BUM! – O personagem mais característico do carnaval brasileiro surgiu em meados do século 19 e logo se tornou uma instituição popular. Trata-se do Zé Pereira, calcado na figura do sapateiro José Nogueira de Azevedo Pereira.

Português de nascimento, ele um dia entretinha-se com outros patrícios, recordando as romarias, estúrdias e estrondos da pátria distante. A saudade era tanta que eles resolveram sair à rua, ao som de zabumbas e tambores alugados às pressas, para fazer uma passeata pela cidade.

Foi um enorme sucesso, logo copiado por dezenas de grupos semelhantes, fazendo com que o Zé Pereira se transformasse num personagem mística, identificado com o próprio carnaval (E viva o Zé Pereira/ Pois que a ninguém faz mal/ E viva a bebedeira/ Nos dias de carnaval).

A historiadora Eneida assim avaliou o Zé Pereira
:
Foi essencialmente o carnaval do pobre. Tão fácil, no meio da miséria reinante, sair à rua com bumbos e tambores, uma camisa qualquer, uma calça de qualquer espécie e fazer barulho, alegrar com um ritmo efusivo as ruas e os bairros!
Seu desaparecimento, no começo do século passado, é indício de que o carnaval perdia espontaneidade, tornando-se festa opulenta e regulamentada, sem espaço para os improvisos populares.

Mas, a alma do Zé Pereira sobrevive até hoje nos blocos de sujos, que insistem em se formar sem ensaios e mensalidades, para existir num momento e viver intensamente esse momento, na melhor tradição do carnaval.
SAMBA E UMBIGADA  Até o início do século passado samba e carnaval tiveram trajetórias distintas, que foram convergindo no sentido de uma perfeita complementação. 

O samba remonta à chegada no Brasil de escravos negros, que logo foram introduzindo seus ritmos, danças, cantigas, costumes e crenças. Assim, após o trabalho exaustivo (ou nos raros dias de folga), eles dançavam e batucavam com seus instrumentos rudes, nos terrenos das fazendas, engenhos e canaviais. Alegria sofrida, ritmo de quem esforçava-se por esquecer a tristeza, as privações e os maus tratos.

O batuque tipicamente africano foi caindo em desuso com o desaparecimento dos nativos daquele continente. Uma variação abrasileirada espalhou-se por todo o País, já com a denominação de samba. 

E, na zona rural, o encontro de culturas deu origem a uma derivação pitoresca, os chamados sambas sertanejos, em que homens e mulheres participavam da roda cantando em coro, ao som de instrumentos de percussão e da viola de arame.

Segundo um cronista da época, os dançadores formam roda e, ao compasso de uma viola, move-se o dançador do centro, avança e bate com a barriga de outro da roda, uma pessoa de outro sexo. Não se pode imaginar uma dança mais lasciva do que esta, razão por que tem muitos inimigos, principalmente entre os padres.
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LENÇO NO PESCOÇO A fase heroica do samba foi a da pernada carioca, diversão a que se entregavam os remanescentes dos inúmeros grupos de capoeiristas existentes no Rio de Janeiro em fins do século 19.

Tratava-se de uma batucada braba, na base da pernada e cabeçada, regada com doses cavalares de cachaça (Samba de negro/ Não se pode frequentá/ Só tem cachaça/ Pra gente se embriagá).

Os conflitos eram corriqueiros e a presença da polícia, também, dando origem a verdadeiras batalhas campais, em que instrumentos musicais serviam como armas e algumas cabeças acabavam sempre rachadas (
Tava num samba/ Lá no Sarguero/ Veio a polícia/ Me jogou no tintureiro).

O samba era tido como coisa de pretos, malandros e marginais. A posse de um violão ou qualquer outro instrumento de samba bastava como prova de que o indivíduo era vadio e merecia ser preso. E a brutalidade da polícia era respondida à altura pelos bambas. Mortes ocorriam de lado a lado.

Foi a época do tipo celebrizado por Wilson Batista, com seu andar gingado, chapéu tombado, olhar dormente, fala cheia de gírias, lenço de seda no pescoço (para proteger-se das navalhadas), camisa listrada, calças largas (bocas-de-sino) ou balão (bombacha) caídas sobre os sapatos de bico fino com salto carrapeta (mais tarde, tamancos) e, evidentemente, a inseparável navalha.

Os versos do sambista da Lapa o descrevem admiravelmente: Meu chapéu de lado/ Tamanco arrastando/ Lenço no pescoço/ Navalha no bolso/ Eu passo gingando/ Provoco desafio/ Eu tenho orgulho de ser vadio.

Trata-se de uma figura que, como o verdadeiro carnaval, sairia de cena entre as décadas de 1930 e 1940.
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O PINTO E OS ÍNDIOS O carnaval era uma pedra no sapato dos autoritários de todos os matizes. Os chefes de polícia, desde meados do século 19, lançaram uma interminável série de editais, ora proibindo, ora regulamentando os festejos.

No carnaval carioca de 1888, entre as muitas determinações draconianas, figurava a de que, “sem a autorização do Chefe de Polícia, não podem aparecer críticas, principalmente ao Governo”.


Episódios anedóticos ocorreram aos montes. Um delegado carioca chamado Alfredo Pinto, p. ex., notabilizou-se pela perseguição aos foliões. Em 1909, tentou proibir as passeatas e o Zé Pereira, sendo obrigado a voltar atrás por causa dos protestos da população e da imprensa.

Furioso, voltou à carga proibindo as fantasias de índio, sob a alegação de que os tacapes poderiam ser utilizados como armas. Os blocos contra-atacaram com refrãos provocativos que difundiram por toda a cidade, tipo Eu vou beber/ Eu vou me embriagar/ Eu vou sair de índio/ Pra polícia me pegar. Em outros, houve até alusões picarescas ao sobrenome do delegado...
.
DOMESTICAÇÃO E TURISTIFICAÇÃO Nem a polícia do terrível Filinto Müller, durante A ditadura getulista, conseguiu pôr fim aos festejos de Momo. De repente, entretanto, o povo perdeu seu carnaval, que virou um próspero negócio para as escolas de samba e foi alçado a item prioritário da promoção do turismo.

Comemorações rigorosamente planejadas substituíram as iniciativas espontâneas do povão. Os foliões se tornaram passivos espectadores dos suntuosos e multicoloridos desfiles. Sambistas passaram a competir encarniçadamente por classificações espúrias.


Enfim, a festa do congraçamento cedeu lugar à disputa calculista. O que a polícia não conseguiu com seus cassetetes, conseguiram os negociantes com seus talões de cheque.

Como explicar essa transição negativa? Dizer que, com a industrialização, fecharam-se os espaços para a desordem remanescente da sociedade rural? Que o carnaval morreu ao se institucionalizar? Que nosso povo já não tem humor nem revolta? Explicações podem ser alinhavadas às dezenas. Mas, nenhuma servirá como consolo.

O certo é que uma genuína explosão de vida se tornou ritual de repetição. E o povo se conformou em não inventar mais seus festejos nem improvisar seus itinerários, recebendo como contrapartida lugares confortáveis nas arquibancadas dos sambódromos e o direito à licenciosidade em salões sufocantes.

Enfim, foi expulso das ruas e não se dispõe mais a lutar mais por elas. 
Neste século, a essência do carnaval está viva somente na blocos de sujos, mas do 
 o velho espírito libertário e transgressor pouco restou. 

Continua sendo uma festa consentidacom a diferença de que hoje se consente mais em alguns dias para que todos suportem engolir uma quantidade maior de sapos nos outros dias(por Celso Lungaretti) 

terça-feira, 7 de maio de 2019

DESCONSTRUÍDO POR OLAVO DE CARVALHO, O GOVERNO BOLSONARO PODE DURAR MENOS AINDA QUE O DE JÂNIO – 1

josias de souza
CRISE ENTRE BOLSONARO E
 OS MILITARES SE
APROFUNDOU
A autocrise que Jair Bolsonaro criou com os militares está longe de terminar. Agravou-se na noite passada. 

Em conversas presenciais e telefônicas —uma delas avançou até o início da madrugada desta terça (7)— integrantes da banda fardada do governo concluíram que o presidente sinaliza à opinião pública um sentimento de "desprezo" em relação às Forças Armadas. Faz isso ao endossar os ataques de seu ideólogo Olavo de Carvalho contra os militares. 

A avaliação é de que o endosso de Bolsonaro se manifesta de duas formas: na "ausência de resposta" e na "reprodução das críticas" de Olavo nas suas próprias redes sociais. Estabeleceu-se um consenso entre os militares: o problema se chama Jair Bolsonaro, não Olavo de Carvalho. 

Essa impressão é compartilhada com oficiais da ativa das três forças armadas. O sentimento dos militares em relação ao presidente oscila entre a "irritação" e a "decepção". 

Esperava-se que Bolsonaro modificasse seu comportamento depois que o general Eduardo Villas Bôas, ex-comandante do Exército, reagiu em termos ácidos contra os ataques que Olavo de Carvalho dirigiu ao também general Carlos Alberto Santos Cruz, ministro-chefe da Secretaria de Governo. Entretanto, além de dar de ombros para Villas Bôas, o presidente praticamente culpou Santos Cruz pelo novo capítulo da crise. 
Leitura indispensável para os Bolsonaros
A encrenca ressurgiu no final de semana. Utilizou-se como matéria-prima da discórdia uma entrevista concedida por Santos Cruz há um mês. Indagado sobre o uso das redes sociais pelo governo, o general respondeu que a utilização teria de ser cuidadosa, para evitar distorções de segmentos radicais. Defendeu o diálogo. E manifestou-se a favor do aprimoramento da legislação para coibir abusos. 

"Controlar a internet, Santos Cruz?", indagou Olavo de Carvalho. "Controlar a sua boca, seu merda." A repercussão baseada numa fake-interpretação das palavras do general estendeu-se às redes sociais do vereador carioca Carlos Bolsonaro e do deputado federal Eduardo Bolsonaro. O próprio Jair Bolsonaro anotou na internet que seu governo não patrocinaria o controle das mídias, incluindo as sociais. E insinuou que deveria mudar para Cuba ou para a Coreia do Norte quem pensasse diferente. 

Nesta 2ª feira, questionado pelos repórteres sobre os ataques a Santos Cruz, Bolsonaro declarou: "De acordo com a origem do problema, a melhor resposta é ficar quieto. É essa orientação que eu tenho falado porque temos coisa muito, mas muito mais para discutir no Brasil. Aqueles que porventura não tenham tato político estão pagando um preço junto à mídia".

Os repórteres interpretaram a recomendação de silêncio de Bolsonaro como uma tentativa de jogar água fria na fervura. Os militares enxergaram a frase como um jato de gasolina na fogueira. Avaliaram que Bolsonaro quis dizer que Santos Cruz não deveria ter dado entrevista. Muito menos falar de redes sociais. Para os auxiliares fardados do governo foi como se o capitão dissesse que o general Santos Cruz, seu amigo de três décadas, mereceu as pauladas virtuais que tomou. 
"capacidade ilimitada de fabricar crises no próprio quintal"

Na mesma entrevista, Bolsonaro tentou negar o inegável. "Não existe grupo de militares nem grupo de olavos aqui. Tudo é um time só". 

Perguntou-se objetivamente ao presidente se cogita defender Santos Cruz dos ataques. E ele: "Estamos numa guerra. Eles, melhor do que vocês, estão preparados para uma guerra". A frase aprofundou o fosso que se abriu entre Bolsonaro e os militares que ele recrutou para o seu ministério. 

Na expressão de um dos ministros, os militares que integram o primeiro escalão do governo se enxergam como "oficiais da reserva convocados para colocar a serviço da pátria toda a experiência adquirida na ativa e a formação custeada pelo contribuinte brasileiro". Não imaginavam que essa convocação envolveria a participação numa "guerra de fabricação doméstica". 

Numa evidência de que a capacidade do governo de fabricar crises no seu quintal é ilimitada, alguns dos auxiliares de Bolsonaro acompanharam em tempo real as novas diatribes despejadas por Olavo de Carvalho nas redes sociais desde os Estados Unidos. Começaram à tarde. Estenderam-se pela noite. Invadiram a madrugada. O guru de Bolsonaro respondeu à manifestação do general Villas Bôas com a virulência e o calão rasteiro que lhe são peculiares. 
Até a saúde frágil de Villas Bôas foi mencionada

Olavo de Carvalho levou ao ar uma pilha de postagens. Duas foram especialmente ofensivas. Numa, o ideólogo dia família Bolsonaro referiu-se ao ânus do general. ~

Noutra realçou a saúde frágil de Villas Bôas para estender a desqualificação aos colegas de farda que ele defendeu. Olavo escreveu que não esperava ver "altos oficiais" acossados "escondendo-se por trás de um doente preso a uma cadeira de rodas." Acrescentou: "Nem o Lula seria capaz de tamanha baixeza.".

Villas Bôas é um dos oficiais mais respeitados das Forças Armadas. Comandou o Exército sob Michel Temer. Hoje, está lotado na assessoria do general Augusto Heleno, ministro-chefe do Gabinete de Segurança Institucional. Ou seja, dá expediente no 4º andar do Planalto, a um lance de escada do gabinete presidencial. Na resposta que irritou Olavo de Carvalho, Villas Bôas foi duro. Mas não não desceu ao nível do autoproclamado filósofo que os Bolsonaro idolatram. 

O general escreveu num trecho do seu texto: 
"Mais uma vez o senhor Olavo de Carvalho, a partir de seu vazio existencial, derrama seus ataques aos militares e às Forças Armadas, demonstrando total falta de princípios básicos de educação, de respeito e de um mínimo de humildade e modéstia. 
Cala a boca, Etelvina!
Verdadeiro Trotski de direita, não compreende que, substituindo uma ideologia pela outra, não contribui para a elaboração de uma base de pensamento que promova soluções concretas para os problemas brasileiros. 
Por outro lado, age no sentido de acentuar as divergências nacionais no momento em que a sociedade brasileira necessita recuperar a coesão e estruturar um projeto para o país".

terça-feira, 24 de julho de 2018

OS PEQUENOS E MÉDIOS EMPRESÁRIOS SOFREM; OS TRABALHADORES MORREM – 2

Empresas de segurança: mais um custo que se tornou inescapável
(continuação deste post)
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Isto ocorre porque não é você quem dá ordens ao capitalismo, mas sim o capitalismo que dá ordens ditatoriais de comportamento para você. E, como a desobediência à sua lógica insensível lhe acarretará a falência  e o fim das suas atividades empresariais, você obedece:  
— vai temer a corrupção no poder Judiciário, que pode numa canetada destruir todos os seus sonhos empresariais, bem como a ineficiência e morosidade quando precisar dos seus serviços judiciais;   
— terá de contratar uma empresa de segurança, pois os assaltos são cada dia mais frequentes, bem como pagar seguros cada vez mais caros contra roubos, danos, incêndios, etc.; 
— verá que os grandes empresários se fundem em empresas monopolistas de mercado com as quais você não pode concorrer.

Diante disso e impelido pela concorrência que sonega impostos, você será impelido à sonegação. 

Ufa! Se depois de tudo isso você continuar vivo como empresário médio (de cada dez novos negócios que se abrem, apenas um sobrevive, conforme estatísticas oficiais), você estará com os nervos esfrangalhados pelo estresse e dificilmente vai ser um rico sadio do corpo e da alma.

Se falir e depender da previdência social na velhice você estará ferrado.
"Se depender do INSS, você estará ferrado"

Observe-se que o Estado moderno, republicano, cuja função precípua é a defesa institucional do capital, agora se volta contra o próprio capital pela via da cobrança de impostos de uma população economicamente exaurida e que tem no empresariado um agente de intermediação dessa cobrança. 

Assim, é o próprio empresariado médio e pequeno quem mais sofre, também, o achaque estatal. Trata-se de mais uma contradição da dinâmica do capital em seus estertores.
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A VIDA DOS TRABALHADORES DE BAIXA RENDA (A GRANDE MAIORIA) – Por outro lado, se você for um trabalhador assalariado de baixa renda, vai viver no inferno: 
 terá de enfrentar diariamente ônibus lotados de casa para o trabalho e vice-versa;
— vai cai comer mal e ficar gordo por ingestão de alimentos inadequados (tipo pão com salsichas ou mortadelas baratas, mais refrigerante espoca-buchoque, ao invés de lhe fortificar, apenas inflam o seu estômago;
— temerá ser despejado da sua casa na favela por não ter pagado o aluguel ou a prestação da minha casa, minha dívida;
— vai ter de rezar para não ser achado por uma bala perdida;
— vai ter de enfrentar a fila do SUS se ficar doente, e ter dor de dente, pois serviços odontológicos são caros;
"Seu filho concluirá que ser trabalhador honesto é coisa de otário"
— vai ver seu filho desdenhar o exemplo de vida que você lhe dá, pois concluirá que ser trabalhador honesto é coisa de otário;
— vai ver seu filho ter uma educação deficitária em razão de uma escola pública precária, tornando-se mais um analfabeto funcional;
— vai temer que o seu filho descambe para o crime diante das ofertas de ganhos pretensamente fáceis que lhe permitam as regalias que ele vê na TV e tanto sonha em obter. 

Para o trabalhador, se o salário é ruim, pior é o desemprego que já atinge alguns dos seus vizinhos por anos a fio, pois isto significa o desespero e a morte. 

Além dessa flagrante disfunção entre capital/trabalho e a decomposição institucional, há os efeitos colaterais que afligem toda a sociedade, como:
"a locomoção tão lenta quanto no tempo das carroças"
— o aquecimento global; 
— a poluição de rios, lagoas e oceanos; 
— os congestionamentos insuportáveis de veículos, tornando a locomoção tão lenta quanto no tempo das carroças; 
—a violência urbana bárbara (são 21 mil assassinatos registrados nos cinco primeiros meses de 2018, fora os não registrados, que correspondem a números de guerra);  
— a perplexidade no semblante da maioria da população, oprimida por condições de uma vida aflitiva, entre outras tantas mazelas sociais que poderiam ser evitadas.

Isso é o capitalismo no seu estágio de limite interno absoluto.

Mas será que, mesmo diante de tantas evidências de saturação de um contrato social que se tornou anacrônico e ameaça a vida humana, nós não seremos capazes de sequer discutir uma mediação social fora dos padrões da forma-valor? Afinal, esta última não é nenhum dado social a-histórico, ontológico, imutável...

Onde está a capacidade do cérebro humano, tão pródigo em descobertas científicas antes inimagináveis, mas que agora não se mostra capaz de tomar consciência dos mecanismos que estão na base de todas as nossas mazelas sociais e superá-los?
Por Dalton Rosado

Que força dominadora fetichista é essa que nos impede de adquirirmos consciência do que somos e tomarmos nas mãos o nosso destino?

Será que seremos sempre obrigados a seguir celeremente rumo ao abismo, tal qual gado no estouro da boiada? 
85 anos depois, continuamos vendo "quem trabalha andar no miserê"
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