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quinta-feira, 19 de outubro de 2023

ESQUERDA SEGUE DIVIDIDA A RESPEITO DO HAMAS

 


Para meus leitores, me desculpo por não ter trazido aqui ao Náufrago, há mais tempo, meu texto com minha opinião sobre a atual guerra de Israel contra o Hamas. 

A nova união popular ecológica e social das esquerdas francesas (Upes) não chegou a uma unanimidade diante do ataque do grupo Hamas a Israel. Uma declaração ambígua de Jean-Luc Mélenchon, do partido La France Insoumise, e um comunicado dos seus deputados na Assembléia Nacional, falando da "ofensiva armada das forças palestinas conduzida pelo Hamas" praticamente rachou a união das esquerdas francesas.

Mélenchon não condenou claramente o ataque do Hamas à população civil israelense, como fizeram os outros partidos de esquerda, chegando a justificá-lo com a frase "toda violência desenfreada contra Israel e à Gaza só prova uma coisa: a violência só produz e reproduz ela mesma" embora apelasse à solução 'dos dois Estados'".

Diante da violência das imagens da tomada de reféns e da execução de civis, principalmente no local do encontro de música rave, onde foram mortos cerca de 260 jovens indefesos, tanto o partido comunista como o socialista tinham condenado os atos terroristas como inaceitáveis e injustificáveis. O partido comunista tinha defendido, há alguns meses, uma resolução qualificando  Israel como um regime de apartheid.


No Brasil, o dirigente do Partido da Causa Operária, Rui Costa Pimenta, não adotou nenhuma posição ambígua com relação ao ataque do Hamas, mas se considerou solidário com o Hamas que "está organizando a resistência do povo palestino".

Por sua vez, o blog Náufrago da Utopia, representativo de uma esquerda independente, publicou um comentário no qual acentua "Não podemos concordar com os métodos do Hamas, de ataque indiscriminado a civis, e nem com sua ideologia de fundamentalismo religioso -inspirado no Irã -, mas não é possível fechar os olhos aos crimes sistemáticos cometidos pelo governo de Israel contra os palestinos." E critica a política sionista e terrorista de Israel com relação aos palestinos de Gaza.

Nada confortável a posição da Suíça, que até hoje não considera oficialmente o Hamas como uma organização terrorista. Por diversas vezes, o Conselho Federal tem explicado não haver base jurídica para isso enquanto a ONU não tomar essa decisão. Foi assim que agiu com relação ao movimentos Al-Qaida e Estado Islâmico, proibidos na Suíça. O mesmo acontecerá com o Hamas, se o Conselho de Segurança das Nações Unidas declarar o Hamas organização terrorista.

O presidente da Federação Suíça das comunidades israelitas denunciou na imprensa que "o Hamas está livre de movimento na Suíça, onde pode coletar dons e gerir suas finanças", mesmo se tratando de um movimento antidemocrático, contrário à dignidade humana e antissemita, que prega a morte dos judeus, evocando o mito de uma conspiração mundial judaica e negando a existência do Estado de Israel.

As pressões dentro do parlamento suiço são também no sentido de serem cortadas as subvenções enviadas aos palestinos de Gaza, para evitar que sejam desviadas pelo Hamas.  

Embora alguns considerem ter sido reforçada a posição do dirigente israelense Benjamin Netanyahu, com o clima de união nacional contra o Hamas, provocado pelo ataque e massacres cometidos, essa situação tende a ser transitória e de curta duração. Apesar do êxito da iniciativa de Netanyahu de reforçar seus poderes e diminuir a competência da Corte Suprema - ação semelhante à que está sendo tentada pela extrema-direita no Senado brasileiro para jugular o STF -, contando com o apoio da extrema direita e dos ultra-ortodoxos israelenses, seu governo não pode explicar a facilidade com que o Hamas invadiu o território israelense, usando mesmo de parapentes, e como recebeu, provavelmente do Irã, a teocracia islâmica aliada, e armazenou tantas armas, munições e obuses sem levantar suspeitas. 

O valor simbólico dessa invasão, massacres e bombardeios de Israel pelo Hamas é enorme e corresponde a um atestado de incompetência de Netanyahu que mesmo a direita isralense nunca poderá perdoar. A juventude laica e a esquerda israelenses que, desde janeiro enchiam as ruas de Israel contra o plano de plenos poderes de Netanyahou, reforçada agora por muitos israelenses históricos, cobrarão a queda do candidato a ditador.

Ainda hoje, quatro dias depois do ataque do Hamas, a televisão europeia mostra novas cenas de horror, captadas por câmeras de videovigilância no kibbutz de Be´eri, perto de Sderot, a alguns quilômetros da fronteira com Gaza, onde viviam 1200 habitantes. Centenas de homens, mulheres e crianças foram ali mortos e mesmo decapitados e massacrados. Outros foram levados como reféns.

Depois de consultar muito material sobre o 7 de outubro, me lembro de um filme recente visto há dois meses no Festival de Cinema de Locarno. E me lembro do que agora poderia considerar como ingenuidade ou ilusão, tanto do diretor e produtores do filme O Soldado Desaparecido, como de mim mesmo ao participar da entrevista concedida à imprensa pelo diretor Dani Rosenberg. É verdade, apesar da faixa de Gaza não ser uma solução para os palestinos que ali vivem, existia a esperança de que logo haveria a possibilidade de uma colaboração pacífica entre israelenses e palestinos, talvez decorrente de um anunciado próximo acordo de Israel com a Arábia Saudita.

Faltou-me, e também ao realizador franco-israelense Dani Rosenberg, ter lido um documento bem recente da Organização Internacional do Trabalho sob o título A Situação dos Trabalhadores dos Territórios Árabes Ocupados, no qual se revelam tensões existentes e a precariedade laboral nessas áreas. Em tais situações, ser otimista diante de crises não solucionadas equivale à irresponsabilidade de fechar os olhos ou, pior ainda, torcer para que dê certo! 

O filme é irreal! Eu me penitencio pelo meu comentário e puxo as orelhas do realizador Dani Rosenberg, pois vejam qual é a trama: 

 Shlomi, um soldado israelense, deserta, abandona sua tropa em Gaza e corre para ir se encontrar com sua namorada em Jerusalém, para outro tipo de embate... na cama. A conclusão é lógica: se todos os soldados fizessem o mesmo, não haveria mais guerra! Isso só no reino do faz-de-conta!

Mas o realizador do filme, que tem metade de minha idade, não deixou por menos: Dani Rosenberg, o realizador do filme, deplora a obrigatoriedade dos jovens israelenses, na verdade ainda adolescentes, serem obrigados a um amadurecimento prematuro, que significa o fim de uma juventude natural. Numa entrevista publicada pelo jornal do Festival, Rosenberg saúda a criação de um movimento em Israel colocando em questão a obrigatoriedade incontestável de servir o exército.

O que teria dado tanto otimismo a Rosenberg, se antes se preocupava com o risco de Israel ser bombardeado pelo Irã?

Por que esse temor? Porque o Irã,  teocracia islâmica, e o Catar, onde houve a Copa do Mundo, são os dois grandes amigos do Hamas e inimigos de Israel. O Irã, para quem se esqueceu, é o país onde está presa a militante Narges Mohammadi, prêmio Nobel da Paz, e onde foi assassinada pela polícia de costumes a jovem Mahsa Amini, de 23 anos após ter sido por não ter coberto seus cabelos com o véu, vindo a morrer três dias depois por traumatismo craniano. O islamismo restringe a liberdade e os direitos femininos e as obriga a usarem roupas cobrindo todo seu corpo. O Hamas foi criado em 1987 por palestinos islâmicos com o objetivo de criar um estado palestino islâmico e destruir Israel e se contrapõe ao Fatah, criado por Yasser Arafat, que é laico, defende a criação de dois Estados e tem maioria na Cisjordânia. (por Rui Martins) 


sábado, 21 de janeiro de 2023

BOLSONARO DESTRUIU O CINEMA NACIONAL DURANTE QUATRO ANOS DE GOVERNO

 

Berlim e o massacre do cinema por Bolsonaro

Dentro de alguns dias, o 73º Festival Internacional de Cinema de Berlim, um dos mais prestigiosos e importantes festivais do mundo, anunciará os filmes selecionados para a competição internacional, escolhidos a dedo entre as maiores produções para este ano.

No Festival de Cinema de Locarno, onde estive em agosto, eu já comentava que os filmes brasileiros ali presentes tiveram de ser feitos com o apoio estrangeiro, principalmente da França. Esse retrocesso do cinema brasileiro, provocado por Bolsonaro, cujo governo não tinha praticamente um ministro da Cultura, ocorreu justamente num momento de grande expansão e aceitação internacional.

Haverá filme brasileiro? Nada transpirou até agora e não tenho bola de cristal, mas uma coisa é certa: durante seus quatro anos de governo, Bolsonaro tudo fez para destruir o cinema brasileiro. 

Em setembro, ao propor o orçamento para este ano, Bolsonaro previa o corte da Contribuição para o Desenvolvimento da Indústria Cinematográfica, Condecine, que arrecada o equivalente a 1,2 bilhão de reais anuais. A maior parte desse dinheiro é destinado à Ancine, a Agência Nacional de Cinema, criada em 2000. O apoio ao cinema com arrecadação pública vinha de 1960 com o Instituto Nacional de Cinema e, em 1980, com a Embrafilme incluindo a participação das televisões. 

O plano geral do ministro Paulo Guedes consistia em enxugar as despesas estatais, privatizar e desonerar o capital privado, e isso incluía, a pretexto de gerar mais competividade, zerar as atividades financiadoras de atividades culturais e restringir ao ensino básico as atividades educacionais. Logo no começo do governo, Guedes falou mesmo na privatização das praias! A medicina, paga ao estilo norte-americano, com o fim do SUS, fazia parte de seus planos. “A cultura, a civilização, elas que se danem…” como ironizava Gilberto Gil de maneira premonitória no seu Brasil Tropical

Mas o assassinato do cinema nacional preconizado por Bolsonaro respondia também aos anseios de sua base religiosa fundamentalista evangélica, insatisfeita com a temática pecadora dos filmes. Entretanto, a opção de se utilizar a Ancine para a produção de filmes bíblicos carolas, como gostariam seus pastores apoiadores, deve ter sido logo descartada – os filmes nunca seriam convidados para os festivais internacionais e se tornariam um marcante fracasso de bilheteria dentro do Brasil. 

A hipótese de serem exibidos nas igrejas seria concorrência desleal com os cinemas, exigindo um alvará especial, e, pior que isso, tiraria dos pastores o palco ao qual estão acostumados. A variante já existente, sem o mesmo impacto, é o uso online doméstico de filmes religiosos ou gospel, capazes de reter um público de fiéis idosos, mas olhados com indiferença pelos jovens.

Vamos agora ter esperança com a ministra Margareth Menezes, da Cultura, cujo orçamento total é de 10 bilhões, pois Bolsonaro dera apenas 1,67 bilhão de reais para a Cultura em 2022. O ex-presidente sem formação, inculto e ignorante, não valorizava atividades intelectuais, não entendia e não apreciava as artes, no que se parece com seus seguidores, que destruíram quadros e objetos de arte no ataque às sedes dos três poderes, dia 8 de janeiro em Brasília.

Estarei no Festival Internacional de Cinema de Berlim, do 16 ao 26 de fevereiro, onde retornarei depois de dois anos de ausência, devido à Pandemia, e uns 30 anos de presença. (por Rui Martins

quarta-feira, 17 de agosto de 2022

JÚLIA MURAT GANHA O LEOPARDO DE OURO DO FESTIVAL DE LUCARNO

O
júri da competição internacional do Festival Internacional de Cinema de Locarno, na Suíça, presidido pelo produtor helvético Michel Merkt, concedeu o leopardo de ouro, principal prêmio, ao filme Regra 34, de Júlia Murat.

O prêmio veio acompanhado da seguinte menção do júri :
"Trata-se de um leopardo de ouro importante para uma cinematografia como a do Brasil, que já definiu momentos-chaves da história do cinema mundial. Um cinema que está na linha de frente para defender a ideia de um mundo mais inclusivo e mais livre. 

Regra 34 conduz o cinema brasileiro ao esplendor anárquico do cinema marginal. É uma obra audaciosa e política, destinada a deixar uma marca. O corpo torna-se um objeto político"
Trataou-se, na verdade, de uma espécie de mensagem aos intelectuais e artistas brasileiros, do tipo vocês não estão sós. Isso era frequente durante a ditadura militar.

Uma dessas menções, logo depois do golpe, foi por ocasião do 1º Festival do Teatro Universitário de Nancy, em 1965, quando ganhou a peça Morte e Vida Severina, de João Cabral de Melo Neto, encenada pelo Tuca. 

Dois anos depois foi a vez do glauberiano Terra em Transe, o primeiro filme brasileiro a ganhar o leopardo de ouro do Festival de Locarno.

"GRUPINHOS SE TORTURANDO OU SE FAZENDO MEDO PARA UM GOZO PLENO"  Regra 34 me lembra aquelas bebidas ou remédios com aviso no rótulo: cuidado para não passar da dose prescrita ou tomar em excesso pode ser mortal. 

É como uma espécie de jogo para ser feito a dois, três ou quatro, mas já é outra coisa e vulgarmente se chama
suruba ou orgia.

Ou, como disse Júlia Murat, é coisa para se fazer em clima de confiança, com gente de confiança, nada de numa festinha de aniversário ou na boate dizer para o(a) parceiro(a) vamos dar uma de sadomasô?, porque alguém pode se sair mal e ser socorrido às pressas, ou ficar traumatizado. 

Quem se cansou de fazer papai-mamãe, ou por trás, ou felação, e quiser variar num terreno sujeito a riscos, precisa primeiramente ler a cartailha do BDSM (bondage, disciplina, dominação, submissão, sadomasoquismo)  com o(a) parceiro(a) que tem em mente. Nada de incluir estranho, porque ele pode entrar numa fria.

Na cena final do filme, a personagem Simone aceita jogar uma espécie de tudo ou nada com um de seus amanhtes virtuais. Seria um sadomasô sem regras. Mas felizmente recuou, pois numa dessas –com um estranho, com violência e sem regras– haveria um feminicídio...

Há uma certa contradição em querer dar às mulheres brancas, negras ou louras o must do gozo, brincando com a violência, num país chamado Brasil, onde impera o racismo e o machismo (sendo, portanto, moeda corrente a aplicação nas mulheres  do sadismo unilateral, sem partilha). 

Experiência sadomasoquista com regras BDSM é coisa para grupos fechados, de gente intelectualizada, pra frente. Devem existir muitos grupinhos se torturando e se fazendo medo para um gozo pleno, sem o moralismo e os complexos pregados nas igrejas, segundo os quais a mulher tem de ser vestal ou dar sem receber.

Júlia Murat disse que não conhecia o BSDM antes de fazer o filme e ficou fascinada com tal universo, porque ele produz muito conhecimento. E concluiu:
"Existe também muita literatura sobre as práticas a fazer. Um dos seus conceitos mais importantes é a consensualidade. A ideia é a de que os acordos devem ser feitos previamente. 

Outra coisa, o BDSM faz parte da nossa sociedade e, enquanto parte da sociedade, também estão incluídas as práticas patriarcais machistas e racistas".
MAIS BRASILEIROS AGRACIADOS: UM CURTA-METRAGEM E UM DOCUMENTÁRIO DE CUNHO ECOLÓGICO  O prêmio especial do júri foi para o filme Gigi, a Lei, a vida de um policial numa cidade pacata italiana, uma coprodução da Itália com a França e Bélgica, dirigida por Alessandro Comodin.

O prêmio de melhor direção ficou com a cineasta costarriquenha Valentina Maurel, diretora do filme Tenho Sonhos Elétricos, uma coprodução  da França e Bélgica com Costa Rica. Trata-se de uma história de divórcio e emancipação de filha adolescente que decide ficar com o pai, pouco antes de perder sua virgindade com um amigo do pai.

O prêmio de melhor atriz foi para a jovem costarriquenha Daniela Marin Navarro, a jovem que se emancipa no filme Tenho Sonhos Elétricos.

E o prêmio de melhor ator, para o também costarriquenho Reinaldo Amien Gutierrez, e igualmente por Tenho Sonhos Elétricos. Ele vive um pai que é um tanto poeta e um tanto perdido, sem dinheiro e sem controle de seus nervos.

Como melhor curta-metragem de autor, outro prêmio para o Brasil: Big Bang, do Carlos Segundo, em coprodução com a França, sobre um limpador de fornos que exerce tal profissão por ser pequeno de tamanho.

E foi também um documentário brasileiro que recebeu menção honrosa por sua defesa do meio ambiente: É Noite na Américadirigido por Ana Vaz, que mostra o desespero dos animais  com as invasões das florestas, a ponto de procurarem refúgio nas cidades. (por Rui Martins, que cobre anualmente o Festival de Lucarno)

quinta-feira, 8 de agosto de 2019

O FESTIVAL DE CINEMA DE LOCARNO, NA SUÍÇA, TAMBÉM FOI PALCO DE PROTESTO CONTRA AS BOLSONARICES INCULTURAIS

O nosso Rui, imprescindível...
Eis ao lado nosso bravo guerreiro Rui Martins protestando contra as bolsonarices inculturais no Locarno International Film Festival, que está sendo realizado na Suíça, onde ele mora desde que deixou o Brasil na iminência de ser preso pela repressão política durante os anos Médici

O Rui foi um dos convidados à exibição para a crítica do único longa-metragem brasileiro participante do festival helvético, o metafórico A febre, de Maya Da-Rin, sobre um brasileiro de origem indígena que começa a ter alucinações com um animal monstruoso.

Antes da sessão começar, brasileiros realizaram este protesto contra as iniciativas do Desgoverno Bolsonaro no sentido de direcionar os incentivos da Agência Nacional de Cinema apenas para produções afinadas com os bizarros valores ultradireitistas  da horda no poder ou que não tenham (reais ou supostos) vieses ideológicos.

O termo censura, no caso, é uma simplificação para os leigos e gringos entenderem mais facilmente a questão. A censura da ditadura militar vedava drasticamente a exibição de, ou exigia que se fizessem cortes em, todos e quaisquer filmes, nacionais e estrangeiros,  que desagradassem aos usurpadores do poder, tendo ou não recebido estímulos do Estado brasileiro. 

A real semelhança das intervenções na Ancine é com a leva de filmes financiados pelo regime depois que Independência ou morte (1972) correspondeu bem ao seu objetivo de insuflar patriotismo ufanista como ingrediente da comemoração dos 150 anos da declaração da independência. 

...como o filósofo francês Jean-Paul Sartre...
Reproduzindo diretrizes de institutos e agências de propaganda política de governos autoritários, foram custeados com a grana dos pagadores de impostos vários filmes apologéticos e medíocres que exaltavam os personagens da História Oficial

Tudo leva a crer que seja para uma repetição daquela prática que estejam encaminhando a Ancine, ao mesmo tempo que dificultarão em muito a viabilização de produções não afinadas com o retrocesso civilizatório em curso. 

Afora estarem também existindo pressões veladas sobre os circuitos para não exibirem obras que estão na contramão das devoções dos boçais ignaros, como Marighella, de Wagner Moura. Mas, proibição pura e simples ou cortes impostos na marra não existem, nem parecem ser a intenção das otoridades.

Segundo o Rui, o cinema brasileiro sofrerá forte abalo, à medida que se jogará "no lixo praticamente todos os roteiros de filmes em fase de análise atual pela Ancine, provocando o fechamento quase imediato de dezenas ou mesmo centenas de pequenas e médias empresas de produção audiovisual, e causando o desemprego para milhares de pessoas integradas no setor".

...e o matemático inglês Bertrand Russell.
Ele acrescenta que "grandes produtores, como a Globo, não sairão ilesos desse massacre, cuja consequência será uma maior invasão dos cinemas, canais de televisão e celulares por filmes estadunidenses".

A foto do octogenário Rui defendendo firmemente suas convicções me trouxe à lembrança o septuagenário Jean-Paul Sartre, no final da vida, vendendo jornais do movimento estudantil nas ruas de Paris; e o nonagenário Bertrand Russell presidindo, com impressionante lucidez, o tribunal de crimes de guerra cometidos pelos EUA no Vietnã (que ele e o próprio Sartre organizaram). 

O Rui, que estava por aqui e participou das manifestações de rua contra o Bolsonaro durante a última campanha presidencial, pertence, como eles, à estirpe dos imprescindíveis. (por Celso Lungaretti) 
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