No ano da (des)graça de 1973 vivíamos em paz no Brasil: a paz dos cemitérios.
O sonho de nos livrarmos de uma tirania boçal e sanguinária virara pó. Quase ninguém acreditava que a última cartada (a guerrilha do Araguaia) fosse virar o jogo em nosso favor, depois das terríveis derrotas que sofrêramos entre 1970 e 1972.
Até para mantermos o ânimo alto face a uma realidade tão deprimente, procurávamos refúgio em comunidades alternativas, nos loucos sonhos dourados e na arte que marchava na contramão da sociedade fascistizada que os ogros queriam nos impor à base do consumismo, da propaganda e da porrada.
Foi quando o ótimo ator Hugo Carvana estreou na direção com Vai trabalhar, vagabundo, uma lufada de ar fresco, evocando e reverenciando um jeito carioca de ser que já se extinguia, infelizmente.
Mostra o charmoso malandro Secundino Meireles, o Dino (Carvana), deixando a prisão e retomando sua rotina de se deliciar com os prazeres da vida e sustentar-se com golpes inofensivos, usando a lábia e a esperteza ao invés das armas.
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Vem-lhe à mente um projeto bem maior do que os habituais e muito difícil de concretizar: montar a revanche, décadas depois, de uma partida lendária de sinuca, na qual os melhores jogadores da época, o estrategista Babalu (Nelson Xavier) e o intuitivo Russo (Paulo César Peréio), disputaram no pano verde o amor da musa do pedaço, a bela Vitória (Rose Lacreta).
Só que o derrotado Russo está internado num hospício e o vitorioso Babalu se tornou um trabalhador-modelo, que bate ponto e se mantém bem distante da malandragem por exigência da esposa umbandista e moralista.
As peripécias de Dino para recuperar ambos e viabilizar a revanche são hilariantes; o elenco, de primeira, com destaque para figurinhas carimbadas do cast da Embrafilme como Odete Lara, Zezé Motta, Otávio Augusto, Roberto Maia e Wilson Grey, entre outras; e a trilha musical de Chico Buarque, superlativa. Recomendo com entusiasmo!
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