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terça-feira, 15 de agosto de 2023

FILME CRÍTICO AO REGIME TEOCRÁTICO DO IRÃ VENCE FESTIVAL DE LOCARNO


 
O Festival Internacional de Cinema de Locarno anunciou o ganhador do prêmio Leopardo de Ouro com a frase: "filme Zona Crítica, de Ali Ahmadzadeh, um hino à resistência iraniana e à liberdade". Uma mensagem enviada a todas as iranianas e a todos os iranianos que combatem a ditadura teocrática xiita. Mas sentida também, de maneira forte e percutante, por todos que viveram em seus países, o peso e a violência da censura. E o Festival de Locarno confirmou mais uma vez sua vocação de defensor da liberdade e dos direitos humanos.

 No ano passado, o Leopardo de Ouro entregue ao filme libertário de Júlia Murat, Regra 34, era uma mensagem aos reacionários religiosos bolsonaristas, empenhados em acabar com o cinema como expressão de ideias e comportamentos por cineastas livres e independentes. Um filme político, como havia definido o diretor do Festival, assim como é o filme iraniano.

Este ano, o Leopardo de Ouro com suas unhas e dentes desafia a ditadura teocrática xiita iraniana e passa mesmo um sabão na diplomacia alemã por ter negado, há alguns meses, visto de entrada na Alemanha ao realizador do filme, o iraniano Ali Ahmadzadeh. Depois da divulgação da seleção do filme iraniano Zona Crítica para a competição internacional do Festival em meados de julho, Ali Ahmadzadeh passou a ser pressionado pelas autoridades policiais e pelo governo iraniano a fim de retirar seu filme da competição. E foi impedido de sair do Irã para apresentar seu filme em Locarno não podendo, portanto, receber pessoalmente o prêmio, que será entregue ao produtor do filme, Sina Ataeian Dena, seu representante junto à imprensa em Locarno.

O prêmio ao filme iraniano é concedido onze meses depois do assassinato pela polícia iraniana da jovem Masha Amini. Zona Crítica conta os trajetos de um dealerorientado pelo som do seu sempre presente GPS nos arredores de Teerã, dirigindo nas noites escuras seu automóvel pelos túneis das vias expressas das autoestradas periféricas. Embaixo do aeroporto encontra-se com uma jovem vinda de um avião que, com pouco combustível, quase se espatifou porque os russos não queriam autorizar nem pouso e nem fornecer combustível. "Veja onde está o prestígio do nosso país", diz ela, que recebe um pacote de ópio para levar a Amsterdã.

Depois de ter distribuído biscoitos de maconha para velhinhos, atende o pedido de uma mãe desesperada com seu jovem filho numa crise por consumo de drogas. Consome cocaína com uma jovem passageira sem o véu exigido pela teocracia,  assustam-se com o aparecimento de um carro que os persegue, provavelmente da polícia. Livram-se da perseguição, mas a jovem, ainda sob o choque, passa a gritar - "fodam-se, fodam-se", dando a impressão de não mais suportar o regime e as restrições a quem tem de se submeter como mulher.

Abaixo, os principais vencedores do 76. Festival Internacional de Cinema de Locarno:

Leopardo de Ouro: Zona Crítica, d’Ali Ahmadzadeh (Irã e Alemanha)

Prêmio Especial do Júri: Não espere Muito do Fim do Mundo, do realizador romeno Radu Jude.

Prêmio de Melhor Direção: Estepe, da ucraniana Maryna Vroda.

Prêmios de melhor interpretação: Dimitra Vlagopoulou, no filme grego Animal, de Sofia Exarchou; e Renée Soutendijk, no filme holandês Doces Sonhos, de Ena Sendijarević. (por Rui Martins) 


quinta-feira, 10 de agosto de 2023

O CINEMA DIANTE DA CENSURA NO BRASIL E NO IRÃ

 


Funciona um cinema sob uma ditadura? E se essa ditadura for teocrática? Para dar uma resposta correta, o melhor é se basear naquilo que vivemos e conhecemos. E, nesse caso, temos duas respostas. A primeira está relacionada com a ditadura militar, justamente quando o cinema nacional tinha se encontrado com o Cinema Novo e os filmes de Glauber Rocha, Carlos Diegues e Joaquim Pedro de Andrade. Poucos anos antes do Golpe, sob o clima da euforia das Reformas de Base de João Goulart, o cinema brasileiro tem Vidas Secas, de Nelson Pereira dos Santos, Os Fuzis, de Ruy Guerra e chega ao auge com Deus e o Diabo na Terra do Sol, de Glauber Rocha, onde premonitoriamente já se tratava do messianismo.

Com a chegada do golpe militar, o cinema se torna introspectivo e entra na fossa e pessimismo com O Desafio, de Paulo César Sarraceni, e Terra em Transe, outro de Glauber Rocha, personificando as desventuras e desilusões da esquerda.

O cinema brasileiro tinha êxito e reconhecimento no exterior, embora não fosse muito apreciado pela classe média nacional. Os militares não proibiam, mas censuravam. Surgiu o Cinema Marginal com Rogério Sganzerla, Júlio Bressane e Ozualdo Candeias. Nesse clima, Glauber Rocha ganhou em Cannes, em 1969, na categoria de melhor diretor com O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro. Mas o cinema nacional caiu em qualidade com a versão patriota no filme Independência ou Morte, de Carlos Coimbra, e resvalou para a pornochanchada. Era o período em que o cinema para sobreviver tinha de conviver com os militares, se industrializar, trabalhar com os empresários, nem sempre dando resposta. Esse é o primeiro motivo para a queda de qualidade. 

O segundo motivo é relacionado com os últimos quatro anos de Bolsonaro, nos quais se acabou com o Ministério da Cultura, se desvirtuou e esvaziou a Ancine, querendo que o cinema sem subvenções fosse obrigado a se vender, focasse suas produções em temas  heróicos ou inspirados em narrativas bíblicas evangélicas, longe das questão de gênero, do feminismo e de sexo, contando baboseiras.

Felizmente não tivemos um segundo governo Bolsonaro, no qual provavelmente a cultura ficaria sob o controle religioso e o cinema teria de se adaptar às exigências de uma teocracia cristã evangélica. No momento, o cinema brasileiro está em convalescença, mas espera-se que logo reapareça com força nos festivais internacionais e nos cinemas nacionais.

O Brasil escapou por pouco de uma nova ditadura, na qual a cultura em geral, o ensino e cinema poderiam ficar sob o controle de uma teocracia evangélica. Vamos focar agora o cinema iraniano, cuja qualidade e sucesso nos festivais nos lembra os anos faustos do cinema brasileiro.

Com o fim da monarquia do Xá Reza Pahlevi, a revolta popular acabou ficando sob o controle religioso do aiatolá Khomeini, criando-se uma censura geral que inclui mesmo uma maneira rigorosa e puritana de se vestir para as mulheres. Em síntese, instaurou-se uma exigente teocracia. Isso complicava nas filmagens, mas as divergências dentro do regime khomeinista no que se referia à cultura e ao sucesso do cinema iraniano no exterior permitiram uma certa ambivalência ou tolerância do governo com relação ao cinema, enquanto os cineastas procuravam - como faziam os cineastas brasileiros durante a ditadura militar - driblar as exigências baseadas na religião islâmica.

Isso incluía a fase da escritura ou roteiro do filme, as roupas das atrizes mesmo fora das filmagens e as palavras e entrevistas do cineasta ao apresentar seu filme nos festivais fora do Irã. Mas, sabendo se insinuar nos meandros das proibições e tocando de leve nos temas mais caros aos governantes, como o nacionalismo e a modernização da islamização, os cineastas iranianos conseguiram manter vivo o prolífico cinema dentro do país com grande sucesso no estrangeiro.

A tal ponto que o cinema iraniano vinha sendo o principal elemento de ligação do Irã com o Ocidente, com presença marcante nos festivais, capaz de garantir uma certa publicidade positiva do país. Os cineastas iranianos se tornaram mestres na arte de driblar a censura local e de jogar com a imaginação do público naquilo que é sugerido pelos filmes.

Entretanto, os líderes religiosos xiitas se radicalizaram. As recentes proibições e prisões de cineastas, agravadas com os assassinatos de manifestantes, entre eles o da jovem Jina Mahsa Amini, morta por ter colocado mal o véu, podem ter criado o clima de ruptura de uma parte da população, formada por muitas jovens, que não aceita mais continuar a se submeter ao regime teocrático iraniano, no poder há 43 anos.

O cinema independente iraniano está integrado no movimento Mulher, Vida e Liberdade, palavras de ordem repetidas nas manifestações que prenunciam uma revolução feminista contra um sistema milenar de dominação masculina. Alguns filmes feitos por cineastas independentes não mostram mais mulheres com o véu, porém não são exibidos dentro do Irã.

Acabou o tempo da coabitação de cineastas com o regime xiita teocrata, como foi o caso dos filmes de Abbas Kiarostami. Embora o cineasta Jafar Panahi tenha sido libertado e se refugiado na França, outros foram presos por alguns meses, como Mohammad Rasoulof, Urso de Ouro no Festival de Berlim de 2020, e Mostafa Al-Ahmad, por ativismo antirrevolucionário.

O Festival Internacional de Cinema de Locarno mostrará o filme iraniano Zona Crítica, mas seu realizador, Ali Ahmadzadeh, foi proibido de sair do Irã e não poderá apresentar seu filme e nem conceder entrevistas. Desde o anúncio do seu filme ter sido selecionado para a competição internacional em Locarno, o cineasta vem sendo alvo de pressões do governo iraniano para retirar seu filme do festival. Para o cineasta, que foi convocado pelo Ministério de Segurança iraniano, o filme "é uma reflexão artística sobre a cólera e a raiva da jovem geração iraniana". O filme foi feito sem a autorização das autoridades, antes das recentes manifestações contra o governo em Teerã.

O representante da Luxbox Paris e Sina Ataeian Dena, produtores do filme, receberam mensagens com ameaças exigindo a retirada do filme do festival. Recusando esse tipo de pressão, Dena afirmou que divulgar essa situação é uma forma de proteger o cineasta e mostrar que o filme é a parte mais importante da luta contra a censura.

O filme de Ali Ahmadzadeh mostra o personagem principal, Amir, sendo guiado pela voz de seu GPS e circulando pelos distritos do submundo de Teerã para confortar as almas perturbadas da noite. O realizador iraniano resume seu filme: "em vez de atores, trabalhei com pessoas reais. Na maioria das situações, tivemos que esconder a câmera ou encontrar truques complicados para contornar as proibições. Fazer este filme foi uma grande rebelião. Mostrá-lo no Festival de Locarno significa uma vitória ainda maior para nós". (Rui Martins) 




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