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domingo, 1 de setembro de 2024

NÃO EXISTEM HERÓIS NA BRIGA MUSK X MORAES

 

Alexandre de Moraes determinou nesta sexta-feira, 30/08, a suspensão do twitter no Brasil após Elon Musk, o bilionário proprietário da rede, ter desobedecido ordens de exclusão de perfis e não ter apontado um representante legal no país. Essa história é a exemplificação, ao mesmo tempo, da batalha em nível global dentro da própria burguesia entre a ala neofascista e a direita liberal e do colapso da internet enquanto espaço democrático e livre. 

Quando surgiu, o twitter representou as melhores potencialidades da internet. Livre, fora do controle e da manipulação da mídia corporativa, era uma rede social dinâmica em que as pessoas podiam se expressar de forma ampla. Foi mesmo importante nas mobilizações populares que explodiram na década passada, da Primavera Árabe às Jornadas de Junho de 2013, além de ter sido o canal de inúmeros movimentos políticos revolucionários e anticapitalistas, a exemplo do Anonymous e do Wikileaks. Ou seja, era a marca maior da época heróica da internet, quando a rede mundial de computadores possuía natureza horizontal e se fundava no trabalho hercúleo de milhões de voluntários. 

Mas tal era acabou. Ao longo dos anos 2010 as corporações começaram a se apoderar da internet, transformando cada serviço e cada pedaço do ciberespaço em uma grama de mercadoria. Os compartilhamentos de vídeos foram sendo substituídos pelas plataformas de vídeo, as redes sociais passaram a ser dominadas pelos algoritmos em que apenas os pagantes atingiam um público maior, a espionagem, a venda de informações pessoais e outras coisas se espalharam, a mídia corporativa retomou as rédeas sufocando blogs e páginas independentes nas buscas do Google, etc. Quando Musk compra o twitter, a mutação dessa rede já tinha avançado imensamente, tendo ela se tornado uma rentosa fonte de negócios. Foi nesse contexto que as redes passaram a ser inundadas de informações falsas e manipuladoras, em uma espécie de reverso da moeda do período libertador de antes. 

Não é possível pensar tais ações manipulatórias  sem o investimento maciço de grandes grupos empresariais e sem o apoio das corporações que dominam a internet. Enquanto, por exemplo, no Facebook, páginas de esquerda eram ou derrubadas ou ostracizadas, páginas de mentira, de discurso de extrema direita, permaneciam ativas e ganhavam visibilidade. Claramente tais ações expressavam a ascensão da extrema direita em nível mundial, catapultada por vastos setores do grande capital. Em oposição, a direita liberal lança uma contraofensiva política e jurídica, pressionando as empresas por regulações.

É a velha vontade política, que na realidade é pura impotência: acreditar que regulando o mercado se domará a selvageria do capitalismo. E quem melhor para encarnar isso que um Juiz, alçado à qualidade de xerife? Xandão, assim, entra de sola no processo de suspender contas e cassar postagens nas redes sociais daqueles ligados ao bolsonarismo ou que de alguma forma questionem sua autoridade. Dentro do hermético inquérito das fake news - em que ele é vítima, acusador, julgador e executor -, se pode tudo e cabe tudo. 

Não é preciso muito português para determinar as ações de Moraes pelo que são, pura e simples censura, mas supostamente uma censura do bem. Nada disso, porém, deve ser surpreendente porque na sociedade de classes a liberdade de expressão é sempre tolerada pela burguesia até certos limites e mesmo nos EUA é possível sair às ruas trajando uma suástica, mas os Panteras Negras eram impiedosamente caçados pelo FBI. 

Contudo, as ações de Moraes não tornam Musk um herói da liberdade de expressão. Muito pelo contrário! O bilionário, hoje um dos maiores promotores da extrema direita mundial, está nessa batalha apenas em defesa do bolsonarismo, fato comprovado por seu aceite às censuras impostas pelos governos neofascistas da Índia e da Turquia, além da suspensão de inúmeras contas de ativistas da causa da Palestina em sua rede. O burguesão também sabe censurar quando isso lhe convém. 

Cabe aos revolucionários não firmar posição entre Xandão e Musk, mas nega-los em bloco! (por David Coelho)

A música que melhor expressa quem é Elon Musk.


sábado, 4 de abril de 2020

ELE FINGE QUE CONTINUA PRESIDINDO O BRASIL E OS QUE REALMENTE GOVERNAM FINGEM LEVAR A SÉRIO SUAS HISTRIONICES

hélio schwartsman
BOLSONARO VIROU
 O BOBO DA CORTE
Jair Messias Bolsonaro tornou-se um bobo da corte, com uma diferença importante: bobos da corte costumavam dizer verdades.

Os sinais de que o presidente da República deixou de ser levado a sério são numerosos e inequívocos. Prefeitos e governadores, alguns dos quais eleitos na mesma onda conservadora que impulsionou Bolsonaro, fazem exatamente o contrário do que ele recomenda —e não hesitam em explicitar isso.

Até ministros de Estado, que foram por ele escolhidos e são demissíveis ad nutum, se articulam para fazer o by-pass do chefe. Além de Mandetta, Moro e Guedes já disseram, ainda que tentando esboçar alguma diplomacia, que apoiam as medidas de isolamento social que Bolsonaro renega. 

Há notícias de que o núcleo militar tenta enquadrá-lo, mas a persuasão, quando surte efeito, é transitória. Só dura até a próxima declaração ou postagem, quase sempre uma combinação de mentiras com delírios.

É bastante sintomático que empresas de mídia social como Twitter e Instagram tenham decidido censurar manifestações de Bolsonaro, por julgar que se tratam de falsidades que colocam pessoas em risco.
No Congresso o clima não é muito diferente. Parlamentares já desistiram de esperar que Bolsonaro exerça a liderança que caberia ao presidente num momento como este e estão cuidando de elaborar por conta própria medidas para atenuar a crise. 

Se o Legislativo estivesse operando em condições de normalidade, estaríamos possivelmente iniciando procedimentos de impeachment.

O isolamento de Bolsonaro é internacional. Se, até uma ou duas semanas atrás, ainda havia líderes populistas apostando no negacionismo, como o mexicano Andrés Manuel López Obrador e o próprio Donald Trump, eles vislumbraram o tamanho da encrenca e adotaram uma posição mais responsável. Bolsonaro ficou praticamente sozinho.

Só não dá para rir da piada que Bolsonaro se tornou porque ela poderá custar vidas. (por Hélio Schwartsman)

segunda-feira, 29 de julho de 2019

ANTI-INTELECTUALISMO, A DOENÇA SENIL DO CAPITALISMO AGÔNICO

Num interessante artigo do último domingo (28/07), o filósofo e jornalista Helio Schwartsman atribuiu o atual "anti-intelectualismo cada vez mais exacerbado e do qual as pessoas têm cada vez menos vergonha" ao fato de que muitos cidadãos recebem agora uma "profusão de narrativas sobre tudo", sem que estejam aptos a decidir sobre boa parte desses temas.

Daí a hipótese formulada por Schwartsman, de que, nestas condições, "as pessoas estejam simplesmente desistindo da ideia (...) de que suas crenças —ou pelo menos parte delas— devam estar amparadas por fatos verificáveis e raciocínios lógicos e estejam optando por adotar a opinião que mais lhes dá prazer", mesmo que seja a de que a Terra é plana, a de que os estadunidenses não pisaram na Lua ou de que Adão e Eva realmente existiram. 

Tentarei lançar mais algumas luzes sobre os motivos do gritante retrocesso civilizatório atual, igualmente sem a pretensão de esgotar o assunto.

A transição do sociedade patriarcal para a de massas correspondeu à evolução do capitalismo industrial para o pós-industrial, em que as máquinas trabalham e os seres humanos se ocupam predominantemente de atividades financeiras, burocráticas e de serviços. 
Uma das consequências de o capitalismo haver concluído sua etapa ascendente, entrando em crise cada vez mais acentuada e vergando sob o peso de suas contradições, foi terem se tornado desnecessários ou bem menos necessários os titãs do passado, que lideravam conquistas e avanços. Diluiu-se, portanto, a autoridade dos expoentes nos quais a sociedade patriarcal se mirava. 

Líderes empresariais e associativos, governantes, cientistas, pensadores, professores, engenheiros, médicos, juízes, etc., deixaram de ser vistos como exemplos a serem imitados e como pessoas cuja opinião devesse merecer especial respeito. A integridade, o saber ou a competência passaram a pesar muito menos que a riqueza e a fama.

A ênfase da sociedade de consumo é toda no cliente: ela se organiza para proporcionar a cada consumidor em potencial tudo aquilo que ele tiver grana para bancar. Endinheirados serão sempre tratados como príncipes, mesmo que não passem de repulsivos sapos.
E, existindo mercado, surgirá inevitavelmente quem ultrapasse quaisquer limites para explorá-lo, nem que seja proporcionando drogas pesadas, pedofilia, snuff ou mesmo pessoas para serem pessoalmente torturadas pelo tarado (a Operação Bandeirantes foi uma das pioneiras neste nicho), partes do corpo para transplante extraídas de gente viva, etc. O freguês tem sempre razão.

Completaram esse tão admirável quanto detestável mundo novo:
1. uma desrepressão sexual quase ilimitada (mas acompanhada de uma desvinculação do amor, a ponto de muitas pessoas praticarem o Kama Sutra inteiro com parceiros catados ao léu, mas rejeitarem peremptoriamente envolvimento sentimental e, como as prostitutas de outrora, não beijarem...); e, claro,
2. as redes insociáveis nas quais qualquer boçal ignaro emite opiniões sobre assuntos dos quais não entende bulhufas, sempre encontrando boçais ignaros que o aplaudem. Antes, para difundir suas opiniões, os indivíduos precisavam ter como colocá-las em livros, jornais, revistas, obras de arte, microfones, palanques, etc. Agora basta tuitar.

Como cantaram Carlos Gardel e Caetano Veloso, 
"¡Todo es igual! / ¡Nada es mejor! / Lo mismo un burro / que un gran profesor. / No hay aplazaos ni escalafón, / los ignorantes nos han igualao..."  

Então, não deve nos espantar que a idiotia religiosa, da qual a humanidade vinha aos poucos se libertando desde o iluminismo, tenha voltado com tudo exatamente a partir da segunda metade do século passado.

E que agora, à medida que a crise capitalista se agudiza e as pessoas se tornam cada vez mais miseráveis e desesperadas, recrudesça um populismo de extrema-direita tão grosseiro e turbulento que chega a nos lembrar os nefandos tempos do nazifascismo. 

Tal pesadelo, no Brasil, já conduziu à Presidência da República um sujeito que é quase um analfabeto funcional, mas consegue tuitar seus zurros e encontrar os que com ele se identificam, para juntos tentarem destruir uma civilização que, mesmo com tantos defeitos e mazelas, eles jamais teriam sido capazes de construir. (por Celso Lungaretti) 

quarta-feira, 19 de junho de 2019

O PAPEL DO TWITTER NA GESTAÇÃO DE UMA DEMOCRACIA ILIBERAL, QUE NÃO PRIORIZA A LIBERDADE NEM O PROCESSO LEGAL

Por Celso Lungaretti
Como os leitores habituais deste blog sabem, considero e jamais deixarei de considerar Delfim Netto como um dos principais responsáveis pelo festival de horrores desembestado pelo AI-5, que deu à repressão ditatorial a certeza de que poderia executar, torturar, estuprar e barbarizar à vontade. Da assinatura de Delfim Netto no maldito decreto de 13/12/1968 escorreu muito sangue.

Mas, condenação eterna é coisa de fanáticos religiosos e só teme contágio quem não tem certeza de suas convicções. Jamais privo os leitores de textos inteligentes e oportunos em função do detestável ad hominem, até porque são poucos os encontrados hoje em dia, em meio à enxurrada de besteirol e de mais do mesmo.
delfim netto
TUITERCRACIA
A verdadeira república democrática deve garantir a todos os seus membros: 1º) o pleno direito à vivência de sua cidadania, sem distinções identitárias; e 2º) a igualdade de oportunidades apoiada em políticas públicas que nivelam a capacidade cognitiva de todos, independentemente da história e da geografia de seus progenitores. 

Todo cidadão sairá para a vida com os mesmos instrumentos para compreender o mundo. O ponto de chegada de cada um dependerá do seu esforço combinado com a sua sorte, e não mais das condições prevalecentes na partida!

Por que não se conseguiu, até agora, realizá-la? 

Porque o homem costuma recusar, sem nenhuma razão objetiva, o conhecimento empírico quando este nega suas crenças pré-concebidas! 

Por que uma mãe caridosa recusa para seu filho uma transfusão de sangue quando evidências empíricas de seus efeitos benéficos acumulam-se há pelo menos um século? 

Por que um evangélico se recusa a aceitar o fato empiricamente comprovado de que a identidade sexual não é zero ou uma, mas todas as possibilidades e, por isso, quer curar o normal LGBT? 

Todos utilizam o Twitter: líderes políticos, jornalistas, jovens e velhos, ricos e pobres

O governo Bolsonaro não quer aceitar que não há a forma de se construir uma sociedade civilizada sem políticas públicas focadas e apoiadas na evidência empírica, que obedece à metodologia científica universalmente aceita.

Como é evidente, a viabilidade da república república democrática depende da construção de um consenso de tolerância entre seus membros com relação a todas as diferenças identitárias, o que exige um contrato social: uma Constituição —uma lei à qual todos se submeterão— sob o controle do Supremo Tribunal Federal, ele mesmo submetido a ela. 

Esse processo circular pode apresentar problemas lógicos insuspeitados quando há eventos dramáticos. 

O que já era difícil antes do Twitter ficou muito pior. Todos o usam: líderes políticos, jornalistas, jovens e velhos, ricos e pobres. 

Vivemos uma espécie de tuitercracia, que produz ondas de contágio que podem ter graves consequências, uma vez que estimulam as diferenças identitárias. 

Sua voz é flutuante, inconstante e costuma trocar de sinal quase instantaneamente, o que desmoraliza e destrói as instituições que ainda restam da democracia liberal. Esta que está sendo substituída, lentamente, pela iliberal, que não prioriza a liberdade nem o devido processo legal. 

Não vai terminar bem. (por Delfim Netto)

quinta-feira, 15 de novembro de 2018

AS REDES SOCIAIS TORNARAM-SE GRANDES DIFUSORAS DE MISTÉRIOS E ESCURIDÃO

Toque do editor
Nunca fui preconceituoso com relação à proveniência de textos consistentes e esclarecedores. Avalio o que está escrito, não quem o escreveu. A postura contrária não passa de uma repetição do macartismo e suas listas negras, pouco importando se a prática estiver sendo hoje adotada por pessoas ditas de esquerda.

Neste feriado chocho, o que de melhor encontrei em termos de política nacional foi o editorial abaixo da Folha de S. Paulo, por dar mais detalhes de como as redes sociais foram utilizadas para fabricarem um monstro, no pior estelionato eleitoral brasileiro de todos os tempos.

Estou descrente de que a Justiça Eleitoral ouse tomar a única decisão cabível face à enormidade da manipulação operada: a cassação da chapa vencedora da eleição presidencial de 2018.

É importante, contudo, sabermos o máximo possível sobre Goebbels update, para não sermos surpreendidos de novo, não só nas eleições, como noutras situações em que os poderosos necessitarem impingir sua visão aos incautos.

Se desta vez o jornal da ditabranda, paradoxalmente, está prestando um bom serviço aos leitores, ótimo! Como dizia o título brasileiro do clássico Shane (com Alan Ladd),  os brutos também amam... (por Celso Lungaretti)
REDES DE ESCURIDÃO
Não surpreende a resposta protocolar ao Tribunal Superior Eleitoral, quase insultuosa de tão cínica, dos conglomerados que dominam as chamadas redes sociais sobre a atuação de empresas no impulsionamento de mensagens eleitorais.

Desdenhar autoridades investidas do poder legítimo tem sido o padrão desses oligopólios. Dobram-se diante de ditaduras, mas sentem-se à vontade para contornar duros questionamentos em democracias onde atuam.

A solicitação do ministro Luís Roberto Barroso a Google, Facebook, Twitter, Instagram e WhatsApp foi objetiva: deveriam identificar "a contratação de impulsionamento de conteúdos na rede mundial de computadores em favor do candidato eleito à Presidência da República, senhor Jair Messias Bolsonaro", e informar detalhes como data e valor dos contratos.

Está longe de satisfazer à indagação responder, como Twitter e Facebook, que a campanha do PSL não contratou o serviço. É preciso saber se outras pessoas, físicas ou jurídicas, agiram para catalisar mensagens em prol da chapa.

Em setembro o TSE multou um empresário por ter feito exatamente isso, mas nem sequer esse fato notório o Facebook reportou.

Reportagem da Folha em outubro revelou que empresários apoiadores de Jair Bolsonaro contrataram agências para impulsionar, no WhatsApp, conteúdo desfavorável ao seu adversário no 2º turno, Fernando Haddad.

Como a plataforma de troca de mensagens não aceita impulsionamento pago, o subterfúgio utilizado é a mobilização em massa de números telefônicos, fora do país inclusive, para que o disparo múltiplo atinja grupos de pessoas que se comunicam pela ferramenta.

Essa ação na surdina não é feita diretamente pela campanha nem pelos empresários contratantes, mas por operadores intermediários. O WhatsApp, porém, tem como detectar o movimento atípico e chegar aos seus perpetradores.
Tanto tem que, logo após a publicação da reportagem, suspendeu as contas de quatro agências mencionadas. Por que não informa ao TSE quantas contas associadas a esses intermediários baniu? Ou a lista dos números detectados em atividades suspeitas? Ou os dados do tráfego anômalo de conteúdo ao longo da campanha eleitoral?

O WhatsApp, que pertence ao Facebook, não faz isso porque está acostumado a se valer das virtudes da democracia, como o devido processo legal, para dissimular os males que o uso indiscriminado dos seus dispositivos está provocando nas sociedades abertas.

As redes sociais tornaram-se grandes difusoras de mistérios e escuridão. Derrotar a sua petulância e lançar luz sobre as suas práticas daninhas é uma tarefa inadiável do poder legalmente constituído.
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