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quarta-feira, 4 de janeiro de 2023

VIAJE NO EXPRESSO DO HORROR E DESCUBRA SE SATÃ É UM EXTRATERRESTRE

Por sugestão do carioca Hebert, nosso leitor e comentarista de longa data, disponibilizo 
O expresso do horror (1973), filme que conquistou um grande contingente de apreciadores quando, no século passado, era reprisado à exaustão nas sessões trash da TV brasileira.

Eu o vi ainda no cinema e, confesso, não me entusiasmou. Porque a presença dos dois principais astros da Hammer, Peter Cushing e Christopher Lee, me fez crer que se tratasse de mais um dos títulos dessa notável companhia britânica que reergueu o gênero terror depois que ele praticamente morrera nos EUA. 

Como não tinha o estilo gótico inconfundível da Hammer, fiquei decepcionado. Agora, graças à internet, sei muito mais a seu respeito. Inclusive que deve ter havido mesmo uma intenção de aparentar alguma ligação do filme com a Hammer, que já estava decadente mas era uma marca consagrada.

Tratou-se de um projeto com baixíssimo orçamento e muita criatividade, em que o diretor espanhol Eugenio Marin mostrou ser um bom artesão, capaz de disfarçar a precariedade de recursos e entregar filmes que prendiam a atenção dos espectadores, embora fossem esquecidos logo à saída do cinema.

O sucesso televisivo brasileiro provavelmente se deve ao fato de Telly Savalas, então um mero coadjuvante, pouco depois ter começado a bombar como Kojak, o inspetor careca que sempre chupava pirulito, numa série que se estenderia por por cinco temporadas e 116 episódios. 

Tanto no cinema quanto na TV e no VHS, promovia-se
O expresso do horror como se Savalas tivesse uma participação equivalente às de Peter Cushing e Christopher Lee, o que nem de longe acontecia.

Os interessados em mais detalhes os encontrarão aqui. Trata-se de uma extensa e impecável análise do Rodrigo Carreiro, que tentava ser crítico de cinema e acabou professor da sétima arte na Universidade Federal de Pernambuco. Sua avaliação foi esta:
"...a relativa despretensão do longa-metragem o deixa livre para realizar um coquetel alucinado de gêneros, sem muita preocupação com verossimilhança. 
É daí que vêm os diálogos bem-humorados, as pitadas de ficção científica e a interessante teoria religiosa que permite a interpretação de que Satanás pudesse ser um extraterrestre. 
No todo, o filme acaba funcionando, mesmo que às vezes pareça um samba do crioulo doido e desde que o espectador não espere encontrar uma obra-prima"
 

sábado, 2 de novembro de 2019

O BREXIT VEICULA A UTOPIA REACIONÁRIA DE REBAIXAR OS PADRÕES SOCIAIS E AMBIENTAIS BRITÂNICOS

demétrio magnoli
ESSES LIBERAIS QUE ADORAM O BREXIT
Um Reino Unido atordoado vai às urnas em dezembro. Boris Johnson, o primeiro-ministro conservador, definiu sua campanha como um levante do povo, pelo brexit, contra a elite que impede uma ruptura radical com a União Europeia .

Os liberais britânicos —isto é, a maioria do Partido Conservador e o Partido do Brexit, de Nigel Farage— transformaram-se numa seita anti-Europa. É mais um sintoma da degradação do pensamento liberal.

Os liberais britânicos giraram 180 graus. Entre 1985 e 1994, quando o francês Jacques Delors conduziu as negociações que concluíram a arquitetura do Mercado Único Europeu, eles ocuparam a linha de frente na batalha contra as resistências protecionistas nacionais. Hoje, renegam o que fizeram, entrincheirando-se num nacionalismo de nítida coloração populista.

No Foro da Liberdade, meses atrás, escutei as razões de um fanático do brexit, o economista Andy Duncan. Ele acusava a então primeira-ministra, Theresa May, e o líder opositor Jeremy Corbyn de subserviência à elite europeia. E, desafiando o que sugere o registro histórico, assegurava que Margaret Thatcher teria completado sem demora o serviço do brexit.
"Posso sugerir um paraquedas?" "Grato, mas basta a bandeira"

Tive, então, que recordar à plateia brasileira o primeiro plebiscito sobre o brexit, realizado em 1975, quando a conservadora Thatcher defendeu a adesão à Comunidade Europeia e o trabalhista Corbyn adotou posição contrária.

O economista ultraliberal reproduziu os discursos de campanha de Farage, que classificou como seu herói

Os Estados grandes representariam, invariavelmente, ameaças às liberdades dos cidadãos. A Europa ficaria melhor se fragmentada em microestados como Andorra, Liechtenstein ou Monaco. A UE seria um superestado opressor, uma burocracia globalista determinada a suprimir as liberdades britânicas. 

Duncan situa-se numa franja extrema do espectro partidário, mas seus argumentos esclarecem a gramática política que impulsiona o brexit. A liberdade dos modelares microestados de Duncan é a liberdade de circundar impostos: os três são paraísos fiscais.

O brexit veicula a utopia reacionária de rebaixar os padrões sociais e ambientais britânicos, pela ruptura com as regras comuns europeias. Na sua nova encarnação, os liberais sonham com uma Inglaterra bucaneira: um Chipre com armas nucleares.

Os grandes Estados europeus são diversos e relativamente abertos à imigração. A campanha do brexit concentrou-se na ideia de retomar o controle das fronteiras, abolindo o livre trânsito de cidadãos europeus e erguendo uma muralha frente aos fluxos imigratórios. 
Nigel Farage não deveria ter aberto a boca

A liberdade de Farage e Johnson é a liberdade de definir a nação à base do sangue. O brexit veicula, também, a utopia nativista de um retorno aos tempos dourados de uma Pequena Inglaterra exclusivamente branca e anglicana.

A proteção das liberdades públicas e políticas foi a mola que, lá atrás, quando assentava a poeira da guerra mundial, impulsionou o projeto europeu. Na origem da UE encontram-se os imperativos de evitar o ressurgimento do nacionalismo alemão e de traçar uma fronteira geopolítica diante do bloco soviético.

A Europa fragmentária idealizada pelos maníacos do brexit é o cenário estratégico perfeito para a Rússia, o maior dos Estados europeus. Em 2014, Farage nomeou Vladimir Putin como “o líder mundial que mais admiro”. Há um claro motivo político para o voto pró-europeu de Thatcher em 1975.

O Reino Unido navega rumo às águas turbulentas do brexit, um ato voluntário de autoagressão poucas vezes visto na história das nações. 

Os liberais convertidos ao nacionalismo xenófobo pilotam o navio, mas partilham a responsabilidade com os trabalhistas, que se recusaram a tentar mudar o curso. É que Corbyn, o líder esquerdista do partido, votou pelo brexit em 1975 por enxergar o projeto europeu como uma monstruosidade inventada pelos liberais... (por Demétrio Magnoli)
É tão bizarra a fascinação dos britânicos pelo abismo que me lembrei deste 
filme da Hammer britânica, o último da série clássica do Drácula, que
vale sobretudo pela presença dos atores emblemáticos da
franquia, Christopher Lee e  Peter Cushing. 

Mostra o vampirão-mor cansado de sua existência e inconscientemente
desejando a morte, só que, megalomaníaco ao extremo, quer levar 
a humanidade inteira consigo, espalhando um vírus mortal. 

Os malucos do brexit sucumbem ao fascínio da miséria e ainda tentam
arrastar o Reino Unido inteiro junto com eles para a penúria...  

terça-feira, 2 de maio de 2017

OS FILMES DE TERROR ATRAVÉS DOS TEMPOS... E O QUE ESTÁ POR TRÁS DELES!

Invocado pelas novas gerações, o sobrenatural se alastrou por vídeos e telas. Que 
sortilégios o rejuvenesceram? Por que os possuídos e assombrados passaram
a ser os jovens? Trata-se de enigmas que só desvendaremos 
se reconstituirmos sua trajetória maligna...
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Tão imensa quanto o King Kong...
O sobrenatural, através dos tempos, sempre deu expressão a facetas da índole humana que não são admitidas pela sociedade e pela própria personalidade consciente do indivíduo.

Possessões demoníacas, p. ex., eram a reação extrema contra a repressão sexual vigente à época em que as energias corporais tinham de ser, tanto quanto possível, poupadas para o árduo e exaustivo trabalho braçal.

As proibições inculcadas desde cedo constituíam obstáculos de tal forma intransponível que, para ceder aos instintos, as mulheres precisavam criar fantasias em que se supunham vítimas de íncubos (demônios tentadores).

A lenda do vampiro, que forneceu a Bram Stocker a matéria-prima para o clássico Drácula, é uma variante dessas crenças. O canino que cresce para invadir jugulares tem óbvias características fálicas, tanto que, inclusive, perpetua a espécie, ao contaminar outras pessoas com o vírus do vampirismo.
...seria a volúpia de Fay Wray.
Nos clássicos do gênero, por sinal, a simbologia é riquíssima.

A dualidade instintiva, os conflitos entre o eu aparente e os impulsos inconscientes (entre o ego e o id, na terminologia freudiana) constituem o motivo secreto do fascínio de O Médico e o Monstro e O Retrato de Dorian Gray, novelas em que eventos fortuitos acabam por revelar a personalidade real dos personagens, até então inibidas pelas convenções sociais.

E o sentimento difuso de que a ciência estivesse causando danos irreparáveis à natureza e à humanidade explica o fascínio de Frankenstein, em que os cientistas são mostrados como fabricantes de monstros.

Na transição para o cinema, a carga erótica implícita em várias novelas de terror foi atenuada. Afinal, dificilmente o rançoso moralismo dominante em Hollywood permitiria, p. ex., uma expressão mais ousada do lesbianismo latente no clássico Carmilla, de Sheridan Le Fannu.

E a própria penetração dos caninos de Drácula nos alvos pescocinhos das heroínas era convenientemente encoberta pela do vampiro, que neste momento estratégico erguia o braço para ocultar a cena dos espectadores.
Sensualidade latente no Drácula de 1931

Apesar disto, a imagem filmada conseguia sugerir muito e o clássico Drácula (1932), de Ted Browing, deveu grande parte do seu impacto à perturbadora aura sensual do personagem interpretado por Bela Lugosi.

E uma das principais criações do próprio cinema (não da literatura) – King Kong (1933), de Ernest B. Schoedaksack e Merian C. Cooper – foi por alguns analistas decifrado como uma gigantesca idealização da volúpia que fervia no corpo daquela mocinha tão pura e ingênua protagonizada por Fay Wray.
GRANDE DEPRESSÃO x ESCAPISMO
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O apogeu do terror na década de 1930, obviamente, tem tudo a ver com a grande depressão estadunidense. O cinema assume nessa época características eminentemente escapistas, levando os espectadores, em voos de imaginação, para longe de uma realidade insuportável, ao mesmo tempo que fornece fantasias compensatórias.
Frankenstein fazia esquecer a penúria
Assim, o homem comum na platéia se identificava com o herói que derrotava lobisomens, vampiros e múmias, e isto servia de alento para a batalha que ele próprio travava contra o desemprego e a miséria.

Ademais, segundo a dialética dos instintos proposta por Freud, a repressão de Eros leva a balança a pender para Thanatos. As dificuldades materiais e consequente prostração acarretam quase sempre esfriamento da libido e, como decorrência disto, o indivíduo se vê impregnado de morte, que se volta contra ele na forma de melancolia ou é descarregada para o exterior por meio da agressividade.

Assim, durante a depressão, as fitas de terror cumpriam exatamente o papel de permitir a projeção (para a tela) e catarse do instinto de morte que as pessoas carregavam dentro de si.

A morte aparecia como ameaça aterrorizante, colhia vítimas aqui e ali, mas acabava derrotada. Aos espectadores restava a sensação de terem estado (magicamente) próximos do perigo, mas escapado.
HORRORES NUCLEARES x CATARSE
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O surto de fitas de monstros dos anos 50, quando dezenas de criaturas disformes e ameaçadores povoaram os pesadelos dos espectadores, é uma consequência do impacto que teve sobre a humanidade a barbárie e violência da 2ª Guerra Mundial.
Godzila: menos aterrorizante que a bomba de Hiroshima.

Um mundo que supostamente caminharia a passos largos para o progresso e a civilização, foi surpreendido pela regressão à selvageria em sua forma mais brutal.

O espanto e a perplexidade das pessoas precisavam ser expressos e expurgados de alguma manteira, daí o surgimento desses filmes em que os terrores primitivos irrompiam inopinadamente diante dos homens, corporificando-se nas figuras de seres pré-históricos e de animais que nos são temíveis ou repugnantes (insetos, polvos, aranhas, etc.), tornados gigantescos devido a qualquer incidente.

Na sua trajetória destrutiva, os monstros realizavam tudo aquilo que os espectadores mais temiam – e, morbidamente, desejavam – , para, afinal, serem exterminados e a ameaça, afastada.

Por meio da morte de cada criatura dessas, exorcizavam-se simbolicamente os receios de uma nova guerra.
Postêres ingênuos, mas muito impactantes.
Isto fica ainda mais claro nas películas japonesas, em que os monstros eram engendrados ou despertavam de uma milenar hibernação a partir, quase sempre, de explosões atômicas.

Os horrores reais de Hiroshima e Nagasaki, demasiadamente latentes na lembrança dos nipônicos, encontravam aí uma expressão atenuada –  pois, afinal, nenhum Godzilla imaginário poderia causar terror remotamente equiparável ao dos artefatos nucleares.

Outra característica significativa é a apresentação dos monstros como descomunais, evocação óbvia da idade em que o mundo nos parece ameaçador e povoado de seres gigantescos e muito mais poderosos do que nós: a infância.

Indo ao encontro dos temores primitivos e inconscientes dos homens, as fitas de monstros reconstituíram a situação de dependência das crianças –  tão impotentes face aos adultos, animais e ao meio ambiente quanto as multidões mesmerizadas desses filmes o eram em relação às tarântulas escorpiões gigantes que atacavam cidades.
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A ÚLTIMA CENTELHA DO TERROR CLÁSSICO
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Christopher Lee, o melhor de todos os Dráculas.
A partir de 1957, estendendo-se pelos anos 60, o terror clássico tem novo e derradeiro apogeu, com os estúdios britânicos Hammer e Amicus revivendo os velhos mitos das telas (Drácula, Frankenstein, o lobisomem, a múmia, Dr. Jeckill/Mr. Hide, o fantasma da ópera, etc.), sob a direção competente dos artesãos Terence Fisher, Freddie Francis, Roy Ward Baker e Jimmy Sangster, dentre outros.

Foi, também, a revelação dos dois últimos grandes atores referenciais do gênero: Peter Cushing e Christopher Lee.

Enquanto isto, nos EUA, o genial fabricante em série de filmes B, Roger Corman, transpunha em ritmo frenético para as telas os contos de Edgar Allan Poe, com elencos de veteranos ilustres (Vincent Price, Boris Karloff, Peter Lorre, Basil Rathbone, John Carradine, Ray Milland) e uma jovem promessa (Jack Nicholson).

Este  revival  terrorístico foi por alguns avaliado como uma reação à vida insípida e sedentárias das metrópoles modernas e ao cipoal burocrático no qual o cidadão comum sente-se enredado e tolhido.

A complexidade das relações sociais em nossa época é tamanha que desperta no homem a nostalgia por desafios simples, inimigos concretos que se pudesse vencer numa luta corpo-a-corpo.
Um clássico absoluto: O corvo.

No cotidiano, trabalhamos em companhias das quais só conhecemos os escalões intermediários, enquanto a cúpula está longe, inatingível, como o senhor do castelo kafkiano. Somos obrigados a cumprir decisões de que não participamos, nem sabemos como foram tomadas.

E tratamos com outras organizações impessoais, como bancos, imobiliárias, repartições públicas, universidades, das quais só conhecemos funcionários, mas jamais atingimos o  todo, o  cérebro.

Quando temos queixar a fazer, acabamos perdidos no labirinto das várias burocracias arrogantes. Se nos sentimos oprimidos ou logrados, dificilmente conseguimos identificar o que vai mal em nossas vidas.

Não seria mais fácil lidar com alguma corporificação do Mal, um ente definido, tangível, poderoso, mas também vulnerável? Não seria preferível combater Drácula do que o demônio do vestibular, os ogros dos testes de admissão, o fantasma do desemprego, a esfinge das dificuldades de ascensão econômica e social?

Não seria mais simples queimar o laboratório do barão Frankenstein do que livrarmo-nos dos cientistas loucos do governo que nos impõem políticas econômicas monstruosas?.

O SANGUINOLENTO TERROR ZOOLÓGICO
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Na década seguinte, veio a voga do terror zoológico, desencadeada em 1975 por Tubarão, de Steven Spielberg. Desta vez, o homem se via confrontado por animais de dimensões comuns (cobras, abelhas, aranhas, cães, polvos, baleias, piranhas). Mas que, por conta dos desvarios ecológicos ou de experiências científicas malogradas, voltavam-se contra ele.
Roy Scheider e sua pescaria complicada

São filmes em que se percebe certo complexo de culpa pelos danos causados à natureza e às espécies animais, mas, ao mesmo tempo, aprofunda-se o fosso entre o homem e a vida selvagem. Ou seja, parecem reforçar o condicionamento dos urbanoides que subsistiam em oposição ao habitat natural, reconfigurando-o ao invés de harmonizar-se com ele.

Além disto, a crueza com que são mostrados os ataques de animais contra seres humanos denunciam uma enorme carga de agressividade reprimida nas plateias, que vibravam ao verem gente sendo estraçalhada..
A FÚRIA DAS CRIANÇAS MIMADAS
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A morbidez se manteve nos anos 80, com dilacerações explícitas salpicando de sangue os espectadores. O psiquiatra Thomas Radecki disse certa vez que existiam mais de mil estudos científicos e reportagens sobre a violência desmedida nos filmes, sendo que 75% deles concluíram que havia um sensível aumento de atitudes anti-sociais e violentas depois de as pessoas assistirem a tais fitas.

O público-alvo desse terror de base sadomasoquista era o juvenil e adolescente. Praticamente desde o início da década de 1980, nas salas de exibição a predominância passou a ser dos menores de 18 anos, daí a produção ter sido cada vez mais direcionadas para estas faixas etárias. E, com a disseminação do VHS e do DVD, o terror para jovens virou verdadeira mania.
6ª feira 13: Jason Voorhees punindo o sexo adolescente.

Tratava-se de um filão em que o sobrenatural tinha como adversários não mais os amadurecidos mestres em ocultismo, mas sim garotos e rapazes; as carnificinas alternavam-se com alívios cômicos; e a trilha sonora era de  heavy metal.

A extrema agressividade implícita nos jovens consumidores dessas fitas advinha do narcisismo exacerbado que as crianças desenvolvem na sociedade de consumo. Mimadas e paparicadas à exaustão, sentem como um crime de lesa-majestade os golpes que a realidade vai desferindo contra suas ilusões de onipotência, daí a agressividade que acumulam e para qual esses filmes ofereciam projeção e catarse.

Além disto, após o período dourado da juventude vem o ingresso na sociedade extremamente competitiva dos dias atuais, a começar pela guilhotina do vestibular. Os filmes em que jovens derrotam vampiros e monstros são simbolizações dos ritos de passagem, servindo magicamente para revigorar a confiança dos adolescentes quanto a enfrentar com êxito os desafios que marcarão sua transição para o mundo dos adultos.

E a liberação sexual que vinha num crescendo desde a os anos 60 não era isenta de castigos (simbólicos). Grande parte desses filmes, e a série Sexta-feira 13 em especial, insistia em mostrar, ad nauseam, jovens namorados sendo trucidados por entes malignos logo após terem mantido relações sexuais...
Jovens ameaçados por Freddy Krueger o enfrentam na dimensão onírica em A hora do pesadelo 3
O outro personagem emblemático do final do século passado foi Freddy Krueger, um fantasma que assombrava os sonhos da moçada da rua em que ele havia sido linchado, podendo até causar a morte de quem não acordasse depressa. 

O ponto de partida – um embaralhamento dos limites entre sonho e realidade – foi ótimo, mas a série se estendeu até a saturação. Vale pelos dois filmes que o criativo Wes Craven  dirigiu: o inicial A hora do pesadelo (1984) e  O novo pesadelo: o retorno de Freddy Krueger (1994), no qual a entidade, aproveitando as filmagens de um novo título da franquia, consegue sair da dimensão onírica e interagir com realizadores e atores (estes assumindo dois papéis, o de seus personagens e o deles próprios).
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CANIBALISMO, EPIDEMIAS E APOCALIPSE ZUMBI.
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Hannibal Lecter, o canibal carismático...
Finalmente, no século 21 está havendo um verdadeiro boom de filmes de terror de baixo orçamento, com pouco rock e pouco humor, tendo como elenco meros catados de ilustres desconhecidos em busca da fama, com argumentos sempre centrados em grupos de adolescentes e seus hormônios, interesses e tecnologias (por mais indigesta que seja a mistura da modernidade de celulares e internet com o primitivismo do sobrenatural).

Podem ser, de forma meio esquemática, divididos em quatro grupos.

Há os filhotes de A bruxa de Blair (d. Daniel Myrick e Eduardo Sánchez, 1999), os falsos documentários, com suas imagens tremidas que chegam a desaparecer por momentos, como se se tratasse de algo verdadeiro filmado pelos envolvidos na ação com seus telefones celulares. Os enredos costumam ser mais toscos ainda do que o visual.

Os filhotes de O massacre da serra elétrica (d. Tobe Hopper, 1974), A montanha dos canibais (d. Sergio Martino, 1978), Holocausto canibal (d. Ruggero Deodato, 1980) e O silêncio dos inocentes (d. Jonathan Demme, 1991),  explorando de forma doentia a repulsa que a antropofagia desperta nas pessoas comuns.

Os filhotes da novela I'm the legend, do genial escritor de sci-fi Richard Matheson, que deu origem aos filmes Mortos que matam (1964), A última esperança da Terra (1971, disparado o melhor dos três) e Eu sou a lenda (2007), além de todo o mundaréu de títulos sobre epidemias que dizimam a espécie humana.
Apocalipse zumbi: o ápice do besteirol cinematográfico.
E os filhotes de A noite dos mortos-vivos, com que George A. Romero atualizou e revitalizou em 1968 o tema dos zumbis, já não mais mostrados como vítimas individuais dos feiticeiros do vudu haitiano, mas sim como cadáveres que algum tipo de contaminação no cemitério (química, radiativa, etc.) faz saírem em massa das tumbas para trucidarem e/ou devorarem os vivos.

Os dois últimos conjuntos, o do contágio e o do apocalipse zumbi, denotam um paradoxal medo da morte por parte dos jovens, que não deveriam estar nem aí para isto. Por trás de sua aparente insensibilidade, eles se mostram atraídos por produções que giram em torno dos últimos dias de (nossa) Pompéia

É difícil identificarmos o motivo inconsciente de tal fascínio, até porque nem sequer catarse tais filmes fornecem: são distopias que acabam muito mal, com os raros sobreviventes geralmente condenados ou sem grandes esperanças. 

Será apenas porque as fatalidades deixam de nos aterrorizar tanto quando nos acostumamos à ideia?

sexta-feira, 30 de outubro de 2015

CLÁSSICO DA HAMMER É A ATRAÇÃO DO DIA DAS BRUXAS: "ASILO DO TERROR".

Os europeus sempre primaram por deitarem e rolarem em cima do cinema estadunidense em termos de qualidade, embora nunca tenham podido competir com ele no terreno dos investimentos e do marketing. 

Até mesmo o western, o filão made in USA por excelência, os italianos reinventaram. E os melhores policiais são os franceses; as melhores comédias, as italianas; e o melhor terror, disparado, o britânico das companhias Hammer e Amicus, no período que começa no final da década de 1950 e se estende pelos anos '60 e '70 adentro.

Sem as maldições dos efeitos especiais e da obrigatoriedade de mimar o público-alvo adolescente, que mataram boa parte da vida inteligente no gênero, o forte eram as histórias muito bem boladas, o clima tenso e a sempre correta interpretação de atores característicos como Christopher Lee e Peter Cushing, os melhores Drácula e Van Helsing de todos os tempos.

Asilo do terror (1972), o filme que escolhi para marcar o transcurso do dia das bruxas, é um dos melhores exemplares desse filão: 
  • pela direção sempre marcante de Roy Ward Baker, cineasta que mostrou sua excelência em Somente Deus por testemunha (1958) e tinha o mérito de não desdenhar os projetos menores que assumia para garantir o pão nosso de cada dia, imprimindo também neles sua marca pessoal (casos de Uma sepultura na eternidade, de 1967, e O conde Drácula, 1970, excelentes!); 
  • por se basear em histórias criadas pelo ótimo escritor e roteirista Robert Bloch (do clássico Psicose, de Alfred Hitchcock); 
  • graças ao carisma de Cushing --o cast inclui Britt Ekland, Charlotte Rampling, Herbert Lom e Patrick Magee; 

  • e em função da trilha musical fortíssima de Douglas Gamley, outra figurinha carimbada do terror britânico das décadas de 1960 e 1970.
Jovem médico é submetido a um teste que definirá se está ou não apto para se tornar o diretor de um hospício: precisa identificar o antigo diretor, que teria enlouquecido e se tornado outro dos pacientes.

Vai inquirindo um a um sobre seus casos (cada relato é um dos episódios que compõem o filme). No final, tem uma desagradável surpresa.

sexta-feira, 12 de junho de 2015

O BLOGUE HOMENAGEIA CHRISTOPHER LEE: EM CARTAZ, "O SORO MALDITO".

Após quase sete décadas de carreira, tendo atuado em mais de 200 filmes, Christopher Lee morreu aos 93 anos, levando desvantagem em relação a seu personagem mais famoso: não será, como Drácula, ressuscitado por algum discípulo conhecedor do ritual correto de magia negra.

Mas, vai continuar vivendo na lembrança dos aficionados dos filmes de terror como um dos maiores atores característicos do gênero em todos os tempos. É nas produções das companhias britânicas Hammer e Amicus que ele teve seus melhores momentos, não como vilão do 007, do Senhor dos Anéis ou de Guerra nas Estrelas.

Lembro-me da fascinação que me provocaram os anúncios de jornal de O vampiro da noite (d. Terence Fiscer, 1958), sua primeira interpretação do conde vampiro concebido por Bram Stoker. Chegava a recortá-los, para colar em cartazes que eu criava, na ingenuidade dos meus sete anos.

Não tive a sorte de o filme ser exibido no pulgueiro mais próximo de casa, que me deixava entrar em sessões proibidas para minha idade, nem de assisti-lo em alguma reprise dos anos seguintes.

Então, só viria a conhecer o trabalho de Christopher Lee como Drácula no segundo filme da série da Hammer, Drácula, o príncipe das trevas (d. Terence Fisher, 1966). E, com o tempo, acabaria vendo todos os sete, no cinema ou na TV.

Lee parecia ser exatamente o que Stoker tinha em mente ao conceber seu personagem (assim como Sean Connery caiu como uma luva no papel de James Bond). Nunca consegui ver o baixote Bela Lugosi como o imponente nobre da Transilvânia que deveria personificar, afora considerar sua performance meio canastrônica. O inglês era mais contido e melhor ator do que o húngaro.

É pena que não haja no Youtube um filme mais marcante para eu homenagear Lee do que este O soro maldito (d. Stephen Weeks, 1971), mais uma variação da história do médico e o monstro. Vale pelo tour de force interpretativo de Lee e pela presença de Peter Cushing, o igualmente inesquecível Van Helsing da Hammer. 



De quebra, eis um excelente documentário de 1996, dirigido por Colin Webb, no qual Christopher Lee discorre sobre sua carreira:

quarta-feira, 3 de setembro de 2014

HOMENAGEM TARDIA, MAS MERECIDA, AO INESQUECÍVEL PETER CUSHING.

Cushing como Van Helsing em O vampiro da noite...
Passei batido pelo 20º aniversário da morte de Peter Cushing, o eterno professor Van Helsing e barão Frankenstein dos filmes da Hammer, que faleceu em 11/01/1994, aos 81 anos. Como diriam Os Mutantes, ando meio desligado, por favor, não me levem a mal...

Enfim, antes tarde do que nunca, faço o registro e disponibilizo outro de seus filmes, à guisa de homenagem.

No post sobre As profecias do dr. Terror (vide aqui), já discorri sobre os filmes britânicos dos estúdios Hammer e Amicus que reuniam, com um fio condutor qualquer, os bons contos macabros que então eram lançados em profusão.

O asilo do terror (1972), o filme para ver no blogue desta 4ª feira, é um dos melhores exemplares desse filão: 
...e como o pai tentando ressuscitar o filho, n'O asilo do terror
  • pela direção sempre marcante de Roy Ward Baker, cineasta que mostrou sua excelência em Somente Deus por testemunha (1958) e tinha o mérito de não desdenhar os projetos menores que assumia para garantir o pão nosso de cada dia, imprimindo também neles sua marca pessoal (casos de Uma sepultura na eternidade, de 1967, e O conde Drácula, 1970, excelentes!); 
  • por se basear em histórias criadas pelo ótimo escritor e roteirista Robert Bloch (do clássico Psicose, de Alfred Hitchcock); 
  • graças ao carisma de Cushing --o cast inclui Britt Ekland, Charlotte Rampling, Herbert Lom e Patrick Magee; 
  • e em função da trilha musical fortíssima de Douglas Gamley, outra figurinha carimbada do terror britânico das décadas de 1960 e 1970.
Jovem médico é submetido a um teste que definirá se está ou não apto para se tornar o diretor de um hospício: precisa identificar o antigo diretor, que teria enlouquecido e se tornado mais um dos pacientes. Vai inquirindo um a um sobre seus casos (cada relato é um dos episódios que compõem o filme). No final, tem uma desagradável surpresa.

Por último, um lembrete: o talento de Peter Cushing pode ser apreciado em mais dois filmes para ver no blogueA górgona  e As profecias do dr. Terror

sábado, 9 de agosto de 2014

CONHEÇA UM EXEMPLAR MARCANTE DO TERROR CLÁSSICO BRITÂNICO

Os europeus sempre primaram por deitarem e rolarem em cima do cinema estadunidense em termos de qualidade, embora nunca tenham podido competir com ele no terreno dos investimentos e do marketing. 

Até mesmo o western, o filão made in USA por excelência, os italianos reinventaram. E os melhores policiais são os franceses; as melhores comédias, as italianas; e o melhor terror, disparado, o britânico das companhias Hammer e Amicus, no período que começa no final da década de 1950 e se estende pelos anos '60 e '70 adentro.

Sem as maldições dos efeitos especiais e da obrigatoriedade de mimar o público-alvo adolescente, que mataram boa parte da vida inteligente no gênero, o forte eram as histórias muito bem boladas, o clima tenso e a sempre correta interpretação de atores característicos como Christopher Lee e Peter Cushing, os melhores Drácula e Van Helsing de todos os tempos.

Ambos estavam no auge quando atuaram em As profecias do dr. Terror (d. Freddie Francis, 1965), o filme para ver no blogue que vocês podem apreciar na janelinha abaixo, com legendas em português.

Lee e Cushing, os grandes astros da Hammer.
Deve ter sido o primeiro longa da época a reunir vários contos macabros com um fio condutor qualquer. Neste caso, um sinistro leitor de tarô (Peter Cushing) que, numa viagem de trem, vai revelando o que parece ser o futuro dos seus companheiros de vagão, dentre eles Christopher Lee e um Donald Sutherland ainda meio travado, bem no início de sua cinquentenária carreira.

Na mesma linha, o artesão Freddie Francis dirigiria depois As torturas do dr. Diabolo (1967), Contos do além (1972) e Testemunha da loucura (1973); o ótimo Roy Ward Baker, cujos voos mais altos incluem a melhor versão cinematográfica da tragédia do Titanic (Somente Deus por testemunha, 1958), assinou O asilo do terror (1972) e A cripta dos sonhos (1973); o mediano Peter Dufell foi incumbido de A casa que pingava sangue (1971), cujo destaque são os criativos enredos do roteirista Robert Bloch; e o também mediano Kevin Connor, em momento inspirado, fecharia o ciclo com o surpreendente Vozes do além (1974). O principal diretor da Hammer, Terence Fisher, parece ter sido preservado para projetos mais ambiciosos em termos comerciais.

sexta-feira, 25 de outubro de 2013

UMA OBRA-PRIMA DO INESQUECÍVEL TERROR GÓTICO BRITÂNICO

Os europeus devem estar sempre se perguntando como conseguiram ser economicamente ultrapassados por sua ex colônia, inferior a eles em quase tudo.

Talvez seja porque os EUA compensam com sua excelência no marketing e na manipulação do homem comum o que lhes falta em inventividade, criatividade, genialidade, originalidade, integridade, inteligência, cultura, sensibilidade artística, espírito de justiça... etcetera ao infinito.   

Não são melhores em quase nada, vão laçar alhures seus cérebros e talentos mais vistosos, a cada momento se comprovam terrivelmente limitados e caipiras... mas dominam o mundo. Se queres um monumento ao capitalismo, aí está: é o sistema que coloca os ganhadores de dinheiro em vantagem sobre todos os seres humanos realmente dignos deste nome.

Resta ao europeus vingarem-se provando ser infinitamente melhores do que os estadunidenses em algumas das áreas que lhes são mais caras.

Os EUA criaram o rock'n roll, mas vieram os britânicos e ocuparam totalmente o território, com os Beatles e os Rolling Stones à frente. 

Os bangue-bangues estadunidenses viraram pó de traque quando os italianos mostraram como era possível introduzir realismo, inteligência e arte nos westerns. Quem vê Sergio Leone nem se lembra mais que John Ford existiu.

Os melhores policiais da história do cinema são os franceses das décadas de 1960 e 1970, estrelados por Alain Delon, Jean-Paul Belmondo, Jean-Louis Trintignant, o veterano Jean Gabin, etc.

Os badalados musicais da Metro, juntos, não valem o pior filme do ciclo flamenco do espanhol Carlos Saura.

E o ápice dos filmes de terror nem de longe se deu nos estúdios de Hollywood, mas sim nos (comparativamente) pobres Hammer e Amicus, responsáveis por obras-primas britânicas como este A górgona (1964), que reúne os três principais nomes do gênero no final dos '50 e ao longo das décadas de 1960 e 1970: o diretor Terence Fisher, mais os atores Christopher Lee e Peter Cushing. 

Como trio, eles são responsáveis por clássicos absolutos como O vampiro da noite (1958), A múmia (1959) e O cão dos Baskervilles (1959). Ademais, Cushing e/ou Lee marcam presença em quase todos os filmes  do apogeu do  british way of terror. Sem pelo menos um deles, o fracasso era praticamente certo.

A górgona, mantendo as inconfundíveis características do terror gótico da Hammer, foi extremamente feliz ao transportar para o século 19 o mito grego das irmãs que tinham o poder de transformar em pedra aqueles que as encarassem, assim como a receita para matar a Medusa que Perseu utilizou na narrativa mitológica.

Confiram (ou descubram). E aproveitem para refletir sobre as vantagens e desvantagens dos efeitos especiais, que hoje atingem o perfeccionismo na criação de ilusões, mas acabam por tornar praticamente irrelevantes o enredo, roteiro, clima, diálogos, interpretação, trilha musical... enfim, tudo aquilo que outrora considerávamos fundamental na arte cinematográfica.


Obs.: os interessados no assunto encontrarão aqui uma digressão sobre o terror cinematográfico através dos tempos.

quinta-feira, 23 de junho de 2011

BAÚ DO CELSÃO: O FANTÁSTICO E O SOBRENATURAL NO DIVÃ

Invocado pelas novas gerações, o sobrenatural se alastra por vídeos e telas. Que 
sortilégios o rejuvenescram? Por que os possuídos e assombrados são 
agora os jovens? Trata-se de enigmas que só desvendaremos 
se reconstituírmos sua trajetória maligna...

Tão imensa quanto King Kong...
O sobrenatural, através dos tempos, sempre deu expressão a facetas da índole humana que não são admitidas pela sociedade e pela própria personalidade consciente do indivíduo.

Possessões demoníacas, p. ex., eram a reação extrema contra a repressão sexual vigente à época em que as energias corporais tinham de ser, tanto quanto possível, poupadas para o trabalho braçal.

As proibições inculcadas desde cedo constituíam obstáculos de tal forma intransponível que, para ceder aos instintos, as mulheres precisavam criar fantasias em que se supunham vítimas de íncubos (demônios tentadores).

...seria a volúpia de Fay Wray.
A lenda do vampiro, que forneceu a Bram Stocker a matéria-prima para o clássico Drácula, é uma variante dessas crenças. O canino que cresce para invadir jugulares tem óbvias características fálicas, tanto que, inclusive, perpetua a espécie, ao contaminar outras pessoas com o vírus do vampirismo.

Nos clássicos do gênero, por sinal, a simbologia é riquíssima.

A dualidade instintiva, os conflitos entre o eu aparente e os ímpulsos inconscientes (entre o ego e o id, na terminologia freudiana) constituem o motivo secreto do fascínio de O Médico e o Monstro e O Retrato de Dorian Gray, novelas em que eventos fortuitos acabam por revelar a personalidade real dos personagens, até então inibidas pelas convenções sociais.

E o sentimento difuso de que a ciência estivesse causando danos irreparáveis à natureza e à humanidade explica o fascínio de Frankenstein, em que os cientistas são apresentados como fabricantes de monstros.

Sensualidade latente no Drácula de 1931
Na transição para o cinema, a carga erótica implícita em várias novelas de terror foi atenuada. Afinal, dificilmente o moralismo dominante em Hollywood permitiria, p. ex., uma expressão mais ousada do lesbianismo latente no clássico Carmilla, de Sheridan Le Fannu.

E a própria penetração dos caninos de Drácula nos alvos pescocinhos das heroínas era convenientemente encoberta pela do vampiro, que neste momento estratégico erguia o braço para ocultar a cena dos espectadores.

Apesar disto, a imagem filmada conseguia sugerir muito e o clássico Drácula (1932), de Ted Browing, deveu grande parte do seu impacto à perturbadora aura sensual do personagem interpretado por Bela Lugosi.

E uma das principais criações do próprio cinema (não da literatura) -- King Kong (1933), de Ernest B. Schoedaksack e Merian C. Cooper -- foi por alguns analistas decifrado como uma gigantesca idealização da volúpia que fervia dentro daquela mocinha tão pura e ingênua protagonizada por Fay Wray.

GRANDE DEPRESSÃO x ESCAPISMO

O apogeu do terror na década de 1930, obviamente, tem tudo a ver com a grande depressão estadunidense. O cinema assume nessa época características eminentemente escapistas, levando os espectadores, em voos de imaginação, para longe de uma realidade insuportável, ao mesmo tempo que fornece fantasias compensatórias.

Frankenstein fazia esquecer a penúria
Assim, o homem comum na platéia se identificava com o herói que derrotava lobisomens, vampiros e múmias, e isto servia de alento para a batalha que ele próprio travava contra o desemprego e a miséria.

Ademais, segundo a dialética dos instintos proposta por Freud, a repressão de Eros leva a balança a pender para Thanatos. As dificuldades materiais e consequente prostração acarretam quase sempre esfriamento da libido e, como decorrência disto, o indivíduo se vê impregnado de morte, que se volta contra ele na forma de melancolia ou é descarregada para o exterior por meio da agressividade.

Assim, durante a depressão, as fitas de terror cumpriam exatamente o papel de permitir a projeção (para a tela) e catarse do instinto de morte que as pessoas carregavam dentro de si.

A morte aparecia como ameaça aterrorizante, colhia vítimas aqui e ali, mas acabava derrotada. Aos espectadores restava a sensação de terem estado (magicamente) próximos do perigo, mas escapado.

HORRORES NUCLEARES x CATARSE

O surto de fitas de monstros dos anos 50, quando dezenas de criaturas disformes e ameaçadores povoaram os pesadelos dos espectadores, é uma consequência do impacto que teve sobre a humanidade a barbárie e violência da 2ª Guerra Mundial.

Um mundo que supostamente caminharia a passos largos para o progresso e a civilização, foi surpreendido pela regressão à selvageria em sua forma mais brutal.

Godzilla: menos aterrorizante do que Hiroshima
O espanto e a perplexidade das pessoas precisavam ser expressos e expurgados de alguma manteira, daí o surgimento desses filmes em que os terrores primitivos irrompiam inopinadamente diante dos homens, corporificando-se nas figuras de seres pré-históricos e de animais que nos são temíveis ou repugnantes (insetos, polvos, aranhas, etc.), tornados gigantescos devido a qualquer incidente.

Na sua trajetória destrutiva, os monstros realizavam tudo aquilo que os espectadores mais temiam -- e, morbidamente, desejavam --, para, afinal, serem exterminados e a ameaça, afastada.

Por meio da morte de cada criatura dessas, exorcizavam-se simbolicamente os receios de uma nova guerra.

Isto fica ainda mais claro nas películas japonesas, em que os monstros eram engendrados ou despertavam de uma milenar hibernação a partir, quase sempre, de explosões atômicas.

Postêres ingênuos, mas muito impactantes
Os horrores reais de Hiroshima e Nagasaki, demasiadamente latentes na lembrança dos nipônicos, encontravam aí uma expressão atenuada -- pois, afinal, nenhum Godzilla imaginário poderia causar terror remotamente equiparável ao dos artefatos nucleares.

Outra característica significativa é a apresentação dos monstros como descomunais, evocação óbvia da idade em que o mundo nos parece ameaçador e povoado de seres gigantescos e muito mais poderosos do que nós: a infância.

Indo ao encontro dos temores primitivos e inconscientes dos homens, as fitas de monstros reconstituíram a situação de dependência das crianças -- tão impotentes face aos adultos, animais e ao meio ambiente quanto as multidões mesmerizadas desses filmes o eram em relação às tarântulas escorpiões gigantes que atacavam cidades.

O ÚLTIMO APOGEU  DO TERROR CLÁSSICO

Christopher Lee, o melhor Drácula
A partir de 1957, estendendo-se pelos anos 60, o terror clássico tem novo e derradeiro apogeu, com os estúdios britânicos Hammer e Amicus revivendo os velhos mitos das telas (Drácula, Frankenstein, o lobisomem, a múmia, Dr. Jeckill/Mr. Hide, o fantasma da ópera, etc.), sob a direção competente dos artesãos Terence Fisher, Freddie Francis, Roy Ward Baker e Jimmy Sangster, dentre outros.

Foi, também, a revelação dos dois últimos grandes atores referenciais do gênero: Peter Cushing e Christopher Lee.

Enquanto isto, nos EUA, o genial fabricante em série de filmes B, Roger Corman, transpunha em ritmo frenético para as telas os contos de Edgar Allan Poe, com elencos de veteranos ilustres (Vincent Price, Boris Karloff, Peter Lorre, Basil Rathbone, John Carradine, Ray Milland) e uma jovem promessa (Jack Nicholson).

Este  revival  terrorístico foi por alguns avaliado como uma reação à vida insípida e sedentárias das metrópoles modernas e ao cipoal burocrático no qual o cidadâo comum sente-se enredado e tolhido.

A complexidade das relações sociais em nossa época é tamanha que desperta no homem a nostalgia por desafios simples, inimigos concretos que se pudesse vencer numa luta corpo-a-corpo.

Clássico de Corman: O Corvo
No cotidiano, trabalhamos em companhias das quais só conhecemos os escalões intermediários, enquanto a cúpula está longe, inatingível, como o senhor do castelo kafkiano. Somos obrigados a cumprir decisões de que não participamos, nem sabemos como foram tomadas.

E tratamos com outras organizações impressoais, como bancos, imobiliárias, repartições públicas, universidades, das quais só conhecemos funcionários, mas jamais atingimos o  todo, o  cérebro.

Quando temos queixar a fazer, acabamos perdidos no labirinto das várias burocracias arrogantes. Se nos sentimos oprimidos ou logrados,
dificilmente conseguimos identificar o que vai mal em nossas vidas.

Não seria mais fácil lidar com o Mal, um ente definido, poderoso, poderoso, mas também vulnerável? Não seria preferível combater Drácula do que o demônio do vesbibular, os ogros dos testes de admissão, o fantasma do desemprego, a esfinge das dificuldades de ascensão econômica e social?

Não seria mais simples queimar o laboratório do barão Frankenstein do que livrarmo-nos dos cientistas loucos do governo que nos impõem políticas econômicas monstruosas?

O SANGUINOLENTO TERROR ZOOLÓGICO

Na década seguinte, veio a voga do terror zoológico, desencadeada em 1975 por Tubarão, de Steven Spielberg. Desta vez, o homem se via confrontado por animais de dimensões comuns (cobras, abelhas, aranhas, cães, polvos, baleias, piranhas). Mas que, por conta dos desvarios ecológicos ou de experiências científicas malogradas, voltavam-se contra ele.

Roy Scheider e sua pescaria complicada...
São filmes em que se percebe certo complexo de culpa pelos danos causados à natureza e às espécies animais, mas, ao mesmo tempo, aprofunda-se o fosso entre o homem e a vida selvagem. Ou seja, parecem reforçar o condicionamento dos urbanóides que subsistiam em oposição ao habitat natural, reconfigurando-o ao invés de harmonizar-se com ele.

Além disto, a crueza com que são mostrados os ataques de animais contra seres humanos denunciam uma enorme carga de agressividade reprimida nas platéias, que vibravam ao verem gente sendo estraçalhada.

A FÚRIA DAS CRIANÇAS MIMADAS

A morbidez se manteve nos anos 80, com dilacerações explícitas salpicando de sangue os espectadores. Segundo o psiquiatra Thomas Radecki, existem aproximadamente mil estudos e científicos e reportagens sobre a violência desmedida nos filmes, sendo que 75% deles concluem que há um sensível aumento de atitudes anti-sociais e violentas depois que as pessoas assistem a tais fitas.

O público-alvo desse terror de base sadomasoquista é o infanto-juvenil. Praticamente desde o início da década, nas salas de exibição a predominância é dos menores de 18 anos, daí a produção ter sido cada vez mais direcionadas para estas faixas etárias. E, com a disseminação do VHS e do DVD, o terror roqueiro virou verdadeira mania.

Trata-se de um filão em que o sobrenatural tem como adversários não mais os amadurecidos mestres em ocultismo, mas sim garotos e adolescentes; as carnificinas alternam-se com alívios cômicos; e a trilha sonora é de  heavy metal.

Jason: punição para o sexo adolescente?
A extrema agressividade implícita nos jovens consumidores dessas fitas advém do narcisismo exacerbado que as crianças desenvolvem na sociedade de consumo. Mimadas e paparicadas à exaustão, sentem como um crime de lesa-majestade os golpes que a realidade vai desferindo contra suas ilusões de onipotência, daí a agressividade que acumulam e para qual estes filmes oferecem projeção e catarse.

Além disto, após o período dourado da juventude vem o ingresso na sociedade extremamente competitiva dos dias atuais, a começar pela guilhotina do vestibular. Estes filmes em que jovens derrotam vampiros e monstros são simbolizações dosritos de passagem, servindo magicamente para revigorar a confiança dos adolescentes quanto a enfrentar com êxito os desafios que marcarão sua transição para o mundo dos adultos.

Finalmente, a liberação sexual das últimas décadas não é isenta de castigos (simbólicos). Grande parte desses filmes, e a série  Sexta-feira 13 em especial, insiste em mostrar,  ad nauseam, jovens namorados sendo trucidados por entes malígnos logo após terem mantido relações sexuais...
Obs.:  escrevi este artigo em 1980, para a revista  Fiesta Cinema, com o título de O que há por trás das histórias e filmes de terror?. Depois, várias vezes o atualizei, para outras publicações.
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