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domingo, 20 de novembro de 2022

MUNDIAIS DA FIFA/5 VEZES BRASIL: O MANÉ JOGOU POR ELE E PELO PELÉ

O gol inverossímil que Garrincha marcou contra o Chile... 
"
Vocês vão ver como é
Didi, Garrincha e Pelé
Dando seu baile de bola
Quando eles pegam no couro
Nosso escrete de ouro
Mostra o que é nossa escola

Quando a partida esquentar
E Vavá de calcanhar
Entregar a pelota a Mané
É Mané Garrincha, Didi,
Didi diz 'é por aqui'
Aí vem o gol do Pelé"
(B. Marques/D. Bezerra)
O Brasil era o favorito do Mundial 1962, no Chile, com seu grupo de jogadores que pouco havia mudado desde 1958, quando deslumbrou o Planeta Bola. A principal alteração estava no banco, com o discreto Aymoré Moreira substituindo o adoentado Vicente Feola.

Mas, a contusão de Pelé, logo na segunda partida, foi um balde de água fria no nosso ânimo.

Antes, a Seleção aplicara protocolares 2x0 num México cujo único destaque era o goleiro Carbajal, por haver disputado muitas Copas (acabaria fechando a conta em cinco).

Contra a Checoslováquia, o rei tentou um chute de fora da área, que foi à trave enquanto ele ia ao chão, abatido por uma distensão muscular.

A aplicação tática do adversário fez escassearem nossas oportunidades de gol e os dois melhores arremates brasileiros morreram nos postes. 0x0.
...seus outros 3 e a jogada decisiva contra a Espanha atestam: ele carregou o Brasil nas costas!
A aplicação tática do adversário fez escassearem nossas oportunidades de gol e os dois melhores arremates brasileiros morreram nos postes. 0x0.

Uma vitória contra a Espanha, no jogo seguinte, tornou-se obrigatória para o Brasil seguir adiante na Copa.

Foi um jogo épico, contra um adversário forte e que contava com o mito Puskas (húngaro que, após ser o grande destaque da Copa de 1954, assumira a cidadania espanhola).

Chutando da meia lua, Adelardo colocou a Espanha na frente.

Amarildo, o substituto de Pelé, empatou, aproveitando centro rasteiro de Zagallo.
Substituir Pelé parecia missão impossível. Mas
Amarildo conseguiu marcar tentos providenciais.

Gylmar salvou o Brasil fazendo uma defesa extraordinária, depois de dividir a bola com um avante espanhol na marca do pênalti. O grande Gento pegou o rebote e desferiu um arremate mortal para o gol, com Gylmar caído. Mas o goleiraço, num lance de puro reflexo, conseguiu erguer os braços e espalmar.

Parêntesis 1 – Gento, além de ser um fora de série, tinha muito caráter. Certa vez, incumbido de cobrar um pênalti inexistente para o Real Madrid, chutou na direção da bandeira de escanteio, recusando-se a tirar proveito do erro da arbitragem.

Parêntesis 2 – também errou a arbitragem de Brasil x Espanha ao não assinalar um pênalti cometido por Nilton Santos. Marcou fora da área a falta ocorrida dentro.

O enciclopédia usou de malandragem, dando um passo dissimulado à frente para confundir o juiz, que estava vindo conferir de perto o local da infração.

Parêntesis 3 – então com 11 anos, eu não entendia por que o placar do estádio de Viña del Mar estampava a frase porque nada tenemos, lo haremos todo. Só bem depois vim a saber que um forte terremoto destruíra a infraestrutura futebolística do Chile, a dois anos do Mundial.

Contudo, o grande dirigente Carlos Dittborn conseguiu evitar a mudança de sede, pronunciando então essa frase que motivou sua gente a, com um esforço descomunal, conseguir reerguer tudo em tempo.
Foi uma epopeia: na manhã da partida inaugural, ainda 
eram completados os últimos ajustes no Estádio Nacional. 
Parêntesis 4 – tratou-se da primeira Copa do Mundo cujas partidas foram integralmente exibidas no Brasil, em teipe. Passavam na noite do dia seguinte e, cúmulo da breguice, um locutor daqui agradecia a gentileza do comandante fulano, piloto da Varig, que havia trazido a fita no seu voo.

As duas emissoras que transmitiam futebol, a Record e a Tupi, optaram pelo revezamento: cada equipe se incumbia da locução/comentários de um tempo da partida.

Então, era o chatíssimo Walter Abrão quem resmungava, no finalzinho da partida contra a Espanha, quando Garrincha não atava nem desatava na ponta: É muito egoísmo, ficar prendendo a bola numa hora destas, em vez de passá-la a um companheiro!.

Foi a maior queimada de língua que vi na vida. Num único mas decisivo lampejo de gênio, Mané se livrou dos adversários, atraiu toda a marcação (inclusive o goleiro) e deu um centro milimétrico para a cabeçada certeira de Amarildo. O possesso nem precisou pular. 2x1

Apesar do folclore, Garrincha não era nenhum desmiolado em campo. Tanto que, quando Pelé se contundiu, a ficha logo caiu para o Mané: era a ele que competia liderar o ataque brasileiro no restante do Mundial.

Então, às suas jogadas desconcertantes mas nem sempre objetivas, ele acrescentou uma inusitada dose de pragmatismo: passou a priorizar o gol.
Schroiff, melhor goleiro da Copa, falhou em 2 gols da final 

Nas quartas-de-final contra a Inglaterra, fez um cabeceando do meio da área e outro, sensacional, chutando da intermediária, quase uma
folha seca ao estilo de Didi (só que, com a bola rolando, é bem mais difícil!). 3x1.

Na semifinal contra os anfitriões, o inverossímil: pegou um rebote na entrada da área e, com a perna cega que só servia para descer do bonde, acertou um chute perfeito, no ângulo.

De quebra, outro gol de cabeça, quase igual ao da partida anterior. E o Brasil despachou o Chile: 4x2.

Parêntesis 5 – o Mané foi expulso no fim da semifinal, mas o jeitinho brasileiro fez a diferença nos bastidores. O árbitro, providencialmente (seria mais apropriado dizer premeditadamente...) não entregou a súmula em tempo e Garrincha pôde disputar a final.

Assim, com exceção do contundido Pelé, o Brasil levou a campo sua força máxima: Gilmar; Djalma Santos, Mauro, Zózimo e Nilton Santos; Zito e Didi; Garrincha, Vavá, Amarildo e Zagallo.

A Checoslovaquia, com seu bem montado esquema de formiguinhas, foi o adversário – mas a sorte, dessa vez, lhe seria madrasta.
Clique acima para ver os melhores momentos da semifinal 
do Mundial de 1962 ou aqui para assistir à partida completa
Os meio-campistas Masopust (0x1) e Zito (2x1), surgindo como elementos-surpresa, marcaram.

Amarildo, tentando um cruzamento da linha de fundo, viu, com seu espanto transparecendo no olhar, a bola enganar o goleiro Schroiff, que se posicionara para interceptar o centro. Nem ele acreditou no gol  (1x1) que fizera.

E o empolgante Djalma Santos alçou a bola despretensiosamente para a área. O pobre Schroiff, melhor arqueiro da Copa, estava num dia pra lá de infeliz. Ofuscado pelo sol, soltou infantilmente a pelota no pé de Vavá, que não perdoou. 3x1.

Parêntesis final – chefiando a delegação, o empresário paulista Paulo Machado de Carvalho foi fundamental para as conquistas de 1958 e 62. 
O comandante ajudando a carregar
Pelé depois que ele se contundiu

Sob a conturbada liderança dos cartolas cariocas, o Brasil dera vexame em 1950, quando os dirigentes não só embarcaram no já ganhou, como deixaram que ele contagiasse os jogadores.

Chegaram ao cúmulo de recomendarem ao limitado zagueiro Bigode que não abrisse a caixa de ferramentas na final, pois o mundo todo estaria olhando. Com Bigode pisando em ovos, o hábil ponta Gighia fez a festa em cima dele, levando o Uruguai à vitória.

E deu novo vexame em 1954, perdendo não só o jogo, mas também a esportiva, contra a Hungria, que era realmente melhor.

Aí entrou Paulo Machado de Carvalho, com um enfoque mais profissional do futebol e uma habilidade imensa na motivação dos jogadores.

P. ex.: ao ficar sabendo que Didi estava apático e macambúzio porque sentia falta da caninha habitual, o marechal da vitória o levou ao bar e, para surpresa do jogador, chamou duas pingas.

Didi hesitou, mas o velho disse: Comigo você pode. Toma!.

Copo vazio, ele foi além: Beba a minha também!.

Finalmente: Agora, vai à luta e arrebenta! Nós precisamos de você.

Assim era o homem. Então, não foi surpresa que, depois de criticadíssimo pela equipe esportiva da rádio Bandeirantes (SP) ao longo de toda a campanha, ele desse o troco quando um pouco perspicaz repórter da emissora o foi entrevistar no vestiário festivo da conquista do bi.
"Engoliu mais essa?"

Ele só disparou uma frase:
Engoliu mais essa, Pedro Luís?

O veterano locutor discursou durante minutos, criticando a mesquinhez de quem aproveitava um momento de júbilo nacional para vinganças pessoais.

Em vão: tinha ido a nocaute e, como os pugilistas sonados, não se dera conta. (por Celso Lungaretti)
Melhores momentos da final; para assisti-la completa, clique aqui 

terça-feira, 30 de novembro de 2021

A ESTRELA SOLITÁRIA BRILHA DE NOVO NA DIVISÃO DE ELITE DO FUTEBOL BRASILEIRO

dalton rosado
A RESSURREIÇÃO DO BOTAFOGO
Nasci no Rio Comprido, bairro pobre da zona Norte da Cidade Maravilhosa, e lá vivi a primeira infância.

O Rio de Janeiro era a cidade cultural do país e sede do Governo Federal nos anos 50, os chamados anos dourados do pós-guerra. Minha mãe, uma nordestina arretada, falava do Rio como quem fala do paraíso. 

Naquele tempo a maior malandragem era vender o Pão de Açúcar com bondinho e tudo aos caipiras ricos que vinham conhecer a capital federal.

Pré-adolescência em Belo Horizonte e adolescência em Mossoró, Rio Grande do Norte, terra da minha mãe (dos 10 aos 20 anos).
Meu pai era mineiro de Mariana e eu moro há 51 anos em Fortaleza, cidade que me acolheu e na qual construí minha história pessoal já longeva. Sou a síntese da brasilidade de que falou Chico Buarque numa de suas belas canções. 

Aprendi a gostar do Botafogo ainda na adolescência. Eis os ingredientes que me faziam admirá-lo:
— não era um time da elite carioca, nem estava entre os mais ricos; 
— não possuía a maior torcida, mas era muito teimoso no enfrentamento dos poderosos Flamengo, Fluminense e Vasco. 

Sempre tive a mania de ficar do lado dos aparentemente mais fracos e o Botafogo era o mais modesto dentre os quatro maiorais em termos financeiros. 

O Fluminense era o clube da fina flor da sociedade carioca, muito refinado para o meu coração plebeu. Dizem que por lá, após uma derrota, os torcedores ricos iam dançar valsas e polcas e comer quitutes nas Laranjeiras. O apelido de pó de arroz vem daí. 

Acho que o Vasco, por ser o time que mais cedo aceitou jogadores de ascendência africana em seu elenco. seria o segundo na minha simpatia. 
O ataque demolidor de 1962, da esq. p/ a dir.:
Garrincha, Didi, Amarildo, Quarentinha e Zagallo.
Mas, era impossível eu não gostar daquele time de 1962 (quando eu tinha 12 anos): 
— cuja linha era composta por Garrincha, Didi, Quarentinha, Amarildo e Zagalo;
— que na defesa tinha a enciclopédia do futebol que atendia pelo nome de Nilton Santos; 
— e que no contava com a coragem de Manga, o goleiro que defendia os arremates pegando a bola com uma única mão. 

Este último,  grande pernambucano que depois foi campeão brasileiro e brilhou mundo afora, ficou marcado por, como reserva de Gylmar dos Santos Neves na Copa do Mundo de 1966, ter sido o titular logo na partida das oitavas de final que decidiria a vaga (Gylmar atuara na vitória contra a Bulgária e na derrota diante da Hungria). Manga e todo o escrete jogaram mal e os portugueses nos despacharam para casa: 3x1.  

Os embates na década de 1960 com o Santos de Dorval, Mengálvio, Coutinho, Pelé e Pepe, que juntos formavam o ataque da seleção brasileira de então, ficaram na memória futebolística brasileira como espetáculos de rara arte e alegria. Pelé como o rei e Garrincha como a alegria do povo.  

Mesmo antes de ver quatro de seus jogadores se tornarem campeões mundiais nas copas de 1958 e 1962, o Botafogo já tinha história. 
Manga, hoje com 84 anos, foi o primeiro ex-jogador aceito
no Retiro dos Artistas do RJ, para veteranos empobrecidos
 

Fora tetracampeão do Rio de Janeiro de 1932 a 1935, com um time que tinha o brilhante Carvalho Leite e Patesko. 
Depois veio Heleno de Freitas, um fenômeno de elegância e categoria, bem como Paulo Valentim, da estirpe dos craques brasileiros que logo se situariam entre os melhores do mundo. 

[Só que ainda não sabíamos disso e sofríamos com o complexo de vira-latas, expressão cunhada por Nelson Rodrigues e sua sensibilidade arguta.]

Pelé e Garrincha em 1958, com o esquete de ouro, nos colocou no patamar que deveríamos estar perante o mundo (bola para isto já tínhamos há muito tempo). 

Uma nova leva de craques surgiu no final dos anos 60: Jairzinho, Gerson, Rivellino, Rogério, Zequinha, Paulo César Caju. 

[Foi este último que o carrasco Médici quis vetar ainda nas eliminatórias do Mundial Fifa de 1970, talvez porque o apelido caju se devesse à sua admiração pelos panteras negras, movimento revolucionário estadunidense, que o fez tingir seu cabelo de vermelho, algo inusitado na época.

João Saldanha, botafoguense de quatro costados e simpatizante comunista, ousou mantê-lo no escrete, dizendo que não dava palpite quando o presidente escalava seus ministros nem aceitava palpite ao escalar seus jogadores; e que o Paulo César Lima poderia não servir como genro, mas serviria para trazermos definitivamente a Jules Rimet (taça que, adiante, vergonhosamente deixaríamos larápios furtarem da sede da CBF).]  
Na sua última grande exibição pelo Botafogo, em 15/12/1962, Garrincha
foi o herói da decisão carioca: marcou 2 gols e de um centro seu saiu o 3º
Muitos outros sequenciaram a galeria de craques do Botafogo como o prezado amigo Afonsinho, Valtencir, Marinho Chagas, Mendonça, Donizeth Pantera, Túlio Maravilha, Leônidas, Gonçalves, Maurício, etc., etc., etc.  

O Botafogo sempre foi celeiro das vitoriosas seleções brasileiras e alguma coisa me diz que voltaremos a ganhar quando o Botafogo novamente forjar grandes craques nas suas fileiras. 

Ressurgimos das cinzas e o botafogo está embalado, viu? (por Dalton Rosado)
Homenagem ao título do glorioso, com letra e música do Dalton

sábado, 3 de julho de 2021

BOLSONARO DESEJA QUE OS BRASILEIROS SE AJOELHEM E PEÇAM CLEMÊNCIA

Está certíssimo o Mário Sérgio Conti, no artigo abaixo, quanto às motivações do Bozo. Mas, o
cartunista Amarildo também está: apesar de tudo, o Bozo se encontra acuado e logo cairá!
 
O
que Bostonaro ganharia se o esquema das vacinas superfaturadas vingasse? A pergunta não é retórica. Alertado, ele se empenhou para que a mamata fosse em frente.

Impediu investigações, deu carta branca a larápios, açulou seu títere na Câmara, metido na negociata até a testa.

O seu prontuário indica que os ganhos seriam pecuniários. Em 37 anos de deputado, nos quais aprovou dois projetos porcos, ele encheu as burras. Com seus pimpolhos, que nunca pregaram um prego na vida, amealhou 13 imóveis, cinco carros, poupanças polpudas, moto e até jet ski. A força das rachadinhas lhe garantiu o ócio.

A marmelada das vacinas também aumentaria o capital que ele vê se esvair, a sustentação parlamentar. Ao engordar víboras e lagartos do pântano –vulgo centrão– incrementa o escambo de maracutaias em troca de votos. As patranhas aumentam sua força.

O que leva a outra pergunta substantiva. Por que precisa da força se, ao exercê-la, produz uma hecatombe? São 520 mil mortos; desemprego abissal; aviltamento dos salários, da educação, do meio ambiente e da civilidade. O Brasil está em frangalhos e se esgarça dia a dia.

Num ensaio sobre a Ilíada, Simone Weil dá pistas para uma resposta. A escritora francesa diz que o verdadeiro tema do poema de Homero é a força. Escreve: "Quando se exerce a força até o fim, ela faz do homem uma coisa no sentido mais literal, pois o transforma num cadáver".

Bostonaro visa exatamente isso. Ele não quer o bem-estar nem suavizar o convívio social. Quer paralisar as pessoas por meio do medo. Quer que se ajoelhem e peçam clemência. Quer aniquilar os inimigos e subjugar os fracos. Quer que a gente perca a vontade, sejamos coisas.

Assim, a Bolsonaríada resultou em mais de meio milhão de cadáveres. Ele inoculou o vírus da peste no pulmão das pessoas “com a naturalidade com que se cortam flores para um túmulo”, conforme diz Simone Weil. Tudo para que ele, o fortão, refocile na força.

Ele cevou a força propriamente dita. Se antes fazia rapapés a milicianos, meganhas e cadetes, agora conta, além deles, com 334 mil milicos na ativa e 1,6 milhão na reserva. Distribuiu escrivaninhas, soldos e pijamas de seda à tigrada que lhe bate continência roboticamente.

Foram civis os que fizeram a força triunfar. Em 2018, o Darth Vader verde-oliva tuitou: o Supremo estava proibido de conceder um habeas corpus a Lula, que se continuasse solto teria condições de vencer Bostonaro nas urnas. O STF se acoelhou.

Os juízes derrotados tinham bons argumentos jurídicos. Mas tinham, mais que isso, um princípio pétreo: o Supremo, poder civil soberano, não poderia, sob pena de se esculhambar, acatar o
diktat vindo do lado obscuro da força – do general Villas Bôas, morubixaba dos azeitonas.

Já os vencedores fizeram contorcionismos bisonhos para se sujeitarem à força fardada. Foram eles: Weber, Fachin, Moraes, Barroso, Cármen e Fux. Nos termos de Simone Weil, viraram coisas que vagam entre a vida e a morte, à mercê da força. Estão aí até hoje.

Estão aí também os papalvos que, faça chuva ou faça sol, puxam palmas para a força. Não são só o véio da Havan, o véio Silvio Santos, o véio Wizard, o véio Madero ou os véio na fase anal, moto-pervertidos de escapamento aberto.

Estão aí, ainda, alinhados com a bostoforça, o véio Abílio Diniz do Carrefour, o véio cervejeiro Jorge Paulo Lemann, o véio André Esteves do BTG, os véios carniceiros da JBS.

A força torpe está entranhada na alma do presidente. Com ele, é tudo na base da cavalice, dos impropérios e da grossura. Ele não fala, relincha. Acuado, escoiceia. Não deixará o poder de fininho.

Apelará para a força bruta e terá amparo no Congresso, no Supremo, na milicada e no lumpesinato que gravita em torno dele. Terá de ser destituído por um povo que, hélas, só pode contar consigo mesmo.

Contra a força, Simone Weil opõe outros valores da antiguidade grega –o senso de justiça, a temperança, a firmeza e o amor ao próximo, que estreita os laços sociais. Condensa tudo isso num termo: a graça.

No Brasil de hoje, essa graça implica atenuar o individualismo. Implica, a partir de uma tomada de consciência tanto moral quanto política, criar uma força coletiva irresistível.

Uma força formada por sujeitos autônomos que, ao abandonarem suas bolhas, se engajem na derrubada daquele que nos transforma em coisas, que enterra nossos cadáveres em covas rasas.

Utopia? Talvez. Mas toda nação livre nasceu assim, na luta. (por Mário Sérgio Conti)

Até o Raulzito já sabia: VAI CAIR!

segunda-feira, 21 de maio de 2018

TRIBUTO ÀS CHUTEIRAS IMORTAIS – 2: O HERÓI IMPROVÁVEL QUE SALVOU O BRASIL, CARREGANDO O ESCRETE NAS COSTAS (1962)

"Vocês vão ver como é
Didi, Garrincha e Pelé
Dando seu baile de bola
Quando eles pegam no couro
Nosso escrete de ouro
Mostra o que é nossa escola

Quando a partida esquentar
E Vavá de calcanhar
Entregar a pelota a Mané
É Mané Garrincha, Didi,
Didi diz 'é por aqui'
Aí vem o gol do Pelé"
(B. Marques/D. Bezerra)


O Brasil era o favorito do Mundial 1962, no Chile, com seu grupo de jogadores que pouco havia mudado desde 1958, quando deslumbrou o Planeta Bola. A principal alteração estava no banco, com o discreto Aymoré Moreira substituindo o adoentado Vicente Feola.

Mas, a contusão de Pelé, logo na segunda partida, foi um balde de água fria no nosso ânimo. 
Antes, a Seleção aplicara protocolares 2x0 num México cujo único destaque era o goleiro Carbajal, por já estar disputando seu quarto Mundial consecutivo (acabaria fechando a conta em cinco).

Contra a Tchecoslováquia, o rei tentou um chute de fora da área, que foi à trave enquanto ele ia ao chão, abatido por um estiramento muscular.

A aplicação tática do adversário fez escassearem nossas oportunidades de gol e os dois melhores arremates brasileiros morreram nos postes. 0x0.


O Brasil entrou em campo no jogo seguinte, contra a Espanha, seriamente ameaçado: uma derrota provavelmente o desclassificaria e um empate o faria enfrentar um adversário pior na fase seguinte.
Pelé deixa o campo contundido, ainda no 1º tempo.

Foi um jogo épico, contra um adversário muito forte e que contava com o mito Puskas (húngaro que, após ser o grande destaque da Copa de 1954, assumira a cidadania espanhola).

Chutando da meia lua, Adelardo colocou a Espanha na frente.

Amarildo, o substituto de Pelé, empatou, aproveitando centro rasteiro de Zagallo.


Gylmar salvou o Brasil fazendo uma defesa extraordinária, depois de rebater um cruzamento, dividindo a bola com um avante espanhol. O grande Gento pegou o rebote dentro da área e desferiu um arremate mortal para o gol, com Gylmar caído. Mas o goleiraço, num lance de puro reflexo, conseguiu erguer os braços e espalmar.


Parêntesis 1: Gento, além de ser um fora de série, tinha muito caráter. Certa vez, incumbido de cobrar um pênalti inexistente para o Real Madrid, chutou na direção da bandeira de escanteio, recusando-se a tirar proveito do erro da arbitragem.

Parêntesis 2: também errou a arbitragem de Brasil x Espanha, ao não assinalar um pênalti cometido por Nilton Santos. Marcou fora da área a falta ocorrida dentro.
Imagens restauradas de Brasil x Espanha: jogaço!

O chamado enciclopédia do futebol usou de malandragem, dando um passo dissimulado à frente para confundir o juiz, que estava vindo conferir de perto o local da infração.

A Espanha reclamou outro pênalti, num lance que naquele tempo os árbitros consideravam bola na mão e não mão na bola (a penalidade máxima só se caracterizava quando o toque havia sido intencional). E, no finalzinho da partida, houve mais um, claríssimo, em favor do Brasil, também ignorado.

Parêntesis 3: então com 11 anos, eu não entendia por que o placar do estádio de Viña del Mar estampava a frase porque nada tenemos, lo haremos todo.

Só bem mais tarde vim a saber que um forte terremoto destruíra a infraestrutura futebolística do Chile, dois anos antes do Mundial, mas o grande dirigente Carlos Dittborn conseguira evitar a mudança de sede, pronunciando então tal frase, que motivou sua gente a, com um esforço descomunal, conseguir reerguer tudo em tempo hábil.
Brasil 3x1 Inglaterra, com narração do saudoso Fiori Giglioti (1º tempo)

Parêntesis 4: tratou-se da primeira Copa do Mundo cujas partidas foram integralmente exibidas no Brasil, em teipe. Passavam na noite do dia seguinte e um locutor agradecia a gentileza do comandante fulano, piloto da Varig, que havia trazido a fita no seu voo.
Pelé fora, Garrincha chamou a responsabilidade para si

As duas emissoras que transmitiam futebol, a Record e a Tupi, optaram pelo revezamento: cada equipe se incumbia da locução e comentários de um tempo da partida.

Então, era o chatíssimo Walter Abrão quem resmungava, no finalzinho da partida contra a Espanha, quando Garrincha não atava nem desatava na ponta: “É muito egoísmo, ficar prendendo a bola numa hora destas, em vez de servir um companheiro!”.

Foi a maior queimada de língua que vi na vida. Em mais uma jogada genial daquele que vinha sendo desde o início o melhor atacante brasileiro, Mané se livrou dos adversários, atraiu toda a marcação (inclusive o goleiro) e deu um centro milimétrico em direção à segunda trave, onde Amarildo, desmarcado, esperava para cabecear. O possesso nem precisou pular. 2x1

Apesar do folclore, Garrincha era simplório, mas estava longe de ser um desmiolado. Tanto que, quando Pelé se contundiu, a ficha logo caiu para o Mané: era a ele que competia liderar o ataque brasileiro no restante do Mundial.

Então, às suas jogadas desconcertantes mas nem sempre objetivas, ele acrescentou uma inusitada dose de pragmatismo: passou a priorizar o gol.
Brasil 3x1 Inglaterra, com narração de Fiori Giglioti (2º tempo)

Nas quartas-de-final contra a Inglaterra, fez um cabeceando do meio da área e outro, sensacional, chutando da intermediária, quase uma folha seca ao estilo de Didi (só que, com a bola rolando, é bem mais difícil!). 3x1.

Na semifinal contra os anfitriões, o inverossímil: pegou um rebote na entrada da área e com a perna esquerda, que geralmente só lhe servia de apoio, acertou um chute perfeito, no ângulo. [Ele fazia suas diabruras com a perna direita, seis centímetros mais curta!]

De quebra, outro gol de cabeça, quase igual ao da partida anterior. E o Brasil despachou o Chile: 4x2.


Parêntesis 5: o Mané foi expulso no fim da semifinal, mas o jeitinho brasileiro fez a diferença nos bastidores. O árbitro, providencialmente (ou premeditadamente?) não entregou a súmula em tempo e Garrincha pôde disputar a final.
Brasil 4x2 Chile: imagens restauradas dos gols.

Assim, o Brasil levou a campo sua força máxima, com exceção do contundido Pelé: Gilmar; Djalma Santos, Mauro, Zózimo e Nilton Santos; Zito e Didi; Garrincha, Vavá, Amarildo e Zagallo.

A Tchecoslováquia, com seu bem 
montado esquema de formiguinhas, foi o adversário – mas a sorte, desta vez, lhe seria madrasta.

Os meio-campistas Masopust (0x1) e Zito (2x1), surgindo como elementos-surpresa, marcaram.

Amarildo, tentando um cruzamento da linha de fundo, viu, com seu espanto transparecendo no olhar, a bola enganar o goleiro Schroiff, que se posicionara para interceptar o centro. Nem ele acreditou no gol  (1x1) que fizera.
E o empolgante Djalma Santos alçou a bola despretensiosamente para a área. O pobre Schroiff, melhor arqueiro da Copa, estava num dia pra lá de infeliz. Ofuscado pelo sol, soltou infantilmente a pelota no pé de Vavá, que não perdoou. 3x1.

Parêntesis 6: chefiando a delegação, o empresário paulista Paulo Machado de Carvalho foi fundamental para as conquistas de 1958 e 62.

Sob a conturbada liderança dos cartolas cariocas, o Brasil dera vexame em 1950, quando os dirigentes não só entraram no clima do já ganhou!, como deixaram que ele contagiasse os jogadores. 

Chegaram ao cúmulo de recomendarem ao limitado e faltoso zagueiro Bigode que não abrisse a caixa de ferramentas na final, pois o mundo inteiro estaria olhando. Com Bigode domesticado, o hábil ponta Gighia fez a festa, levando o Uruguai à vitória.

E deu novo vexame em 1954, perdendo não só o jogo, mas também a esportiva, contra a Hungria, que era realmente melhor.

Aí assumiu Paulo Machado de Carvalho, com um enfoque mais profissional do futebol e uma habilidade imensa no quesito motivação dos jogadores.
O marechal: um raro dirigente estimado pelos jogadores

P. ex.: ao ficar sabendo que Didi estava apático e macambúzio porque sentia falta da caninha habitual, o marechal o levou ao bar e, para surpresa do jogador, pediu duas pingas.

Didi hesitou, mas o velho disse: “Comigo você pode. Toma!”.

Copo vazio, ele foi além: “Beba a minha também!”.

Finalmente: “Agora, vá à luta e arrebenta! Nós precisamos de você”. Assim era o homem.

Então, não foi surpresa que, depois de criticadíssimo pela equipe esportiva da rádio Bandeirantes (SP) ao longo de toda a campanha, ele desse o troco quando um pouco perspicaz repórter da emissora o foi entrevistar no vestiário festivo da conquista do bi.

O comandante vitorioso só disparou uma frase: “Engoliu mais essa, Pedro Luís?”

O veterano locutor discursou durante minutos, criticando a mesquinhez de quem aproveitava um momento de júbilo nacional para vinganças pessoais.

Em vão: tinha ido a nocaute e, como os pugilistas sonados, não se dera conta.
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