Mostrando postagens com marcador Escola de Chicago. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Escola de Chicago. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 11 de março de 2021

LULA LÁ DE NOVO?

por Rui Martins
F
azer profecia qualquer um faz. Acertar é privilégio de alguns. 

Como, p. ex., do jornalista Ricardo Kotscho, meu colega quando éramos focas no Estadão, ao terminar seu comentário sobre o discurso de Lula no 7 de setembro do ano passado e vaticinar: "Com esse discurso, Lula está de volta ao jogo. Podem escrever". 

Bingo! Acertou em cheio, ali está o ministro Edson Fachin para confirmar.

Kotscho conhecia bem o homem, tinha sido seu secretário de imprensa durante dois anos, isso incluía contatos diários diretos e viagens. Não seriam 19 meses de prisão capazes de quebrar o pernambucano pau-de-arara, como ele mesmo conta, vindo de Abaetés com seus pais pobres retirantes para São Paulo, onde trabalhou na indústria automobilística montada na região do ABC, tornando-se logo conhecido por liderar movimentos grevistas.

Outro conhecedor profundo do líder Lula era o dinâmico e entusiasta publicitário Carlito Maia, um dos fundadores do Partido dos Trabalhadores. Ele acreditava na criação de um partido formado principalmente de gente do povo, de onde sairiam suas lideranças autênticas. Era o caso de Lula e Carlito apostou nisso, uma, duas e três vezes até ver Lula Lá, como dizia seu slogan vitorioso.

Não é preciso se recorrer à mitologia e suas figuras legendárias para se contar ou cantar o eterno retorno do herói, numa comparação com a inesperada volta de Lula. Nossa história não tão distante, relata também o retorno do controvertido ex-ditador Getúlio Vargas. 

Getúlio, também chamado de pai do pobres, era nacionalista e havia sistematizado o direito dos trabalhadores à aposentadoria e imaginado a Petrobras, concretizada por ele em 1953.

Vamos esquecer agora os defeitos de Vargas, que foram muitos, para lembrar, p. ex., que a independência brasileira no setor do petróleo garantiu ao Brasil seu desenvolvimento.

A aposentadoria, por sua vez, deu aos trabalhadores a garantia de uma merecida segurança na velhice, mesmo sendo de valor mínimo para a grande maioria. 

Vargas foi o criador das primeiras garantias sociais à classe trabalhadora, Lula foi o presidente das grandes conquistas sociais.

A decisão do juiz Edson Fachin, do Supremo Tribunal Federal, de anular os processos contra o ex-presidente Lula, tornando-o elegível em 2022, ocorre num momento de grave crise política no Brasil, agravada pela incapacidade do presidente Bolsonaro de enfrentar as consequências sanitárias e sociais do coronavírus.

Um retorno de Lula seria em boa hora. Bolsonaro continua destruindo a estrutura do Estado, aplicando as orientações de privatização da Escola de Chicago, que são as de reduzir ao máximo a máquina estatal e ampliar o campo do capital, ignorando as consequências sobre o povo. Além disso, Bolsonaro não possui nenhuma sensibilidade humana, como tem demonstrado seus últimos pronunciamentos.

O desmonte do Estado brasileiro está avançado e, em pouco tempo, a privatização tornará a economia brasileira semelhante à do Chile. Vendidas nossas riquezas e nossas estatais ao capital internacional, o destino do Brasil como país independente estará comprometido para sempre.

Sobre esse desmonte, Lula declarou:
"Consiste no fatiamento ou venda de instituições centenárias, como o Banco do Brasil, a Caixa Econômica Federal e o BNDES, que estão sendo esquartejadas e fatiadas ou simplesmente vendidas a preço vil. 
Depois de colocar à venda por valores ridículos as reservas do pré-sal, o governo desmantela a Petrobrás. Venderam a distribuidora e os gasodutos foram alienados. As refinarias estão sendo esquartejadas.

O furor privatista do governo pretende vender a maior empresa de geração de energia da América Latina, a Eletrobrás, uma gigante com 164 usinas — duas delas termonucleares — responsável por quase 40% da energia consumida no Brasil. 
A demolição das universidades, da educação e o desmonte das instituições de apoio à ciência e à tecnologia, promovidos pelo governo, são ameaça real e concreta à nossa soberania. Artistas e intelectuais clamam pela salvação da Casa de Ruy Barbosa, da Funarte, da Ancine".
A decisão do juiz Fachin, ao que tudo indica, visou evitar um mal maior nas estruturas institucionais do país, vista a odiosa campanha desfechada pelos gabinetes do ódio dos apoiadores de Bolsonaro contra o Supremo Tribunal Federal e seus membros, dentro do objetivo maior de provocar um golpe militar. O discurso belicista do deputado federal Daniel Silveira, atualmente preso, foi bastante revelador.

Os atuais desacertos, imprudências e mesmo idiotices do presidente Bolsonaro, ao qual se pode acrescentar o epíteto de
coveiro da Nação, assustam. Tanto que o presidente do Partido Democrático Trabalhista, Carlos Lupi, acaba de entregar ao procurador-geral da República, Augusto Aras, um pedido de interdição do presidente Bolsonaro por insanidade mental, em lugar de um impeachment.

Tudo isso mais a explosão da crise sanitária afugentam capitais estrangeiros e provocam uma constante desvalorização do real, criando um clima de instabilidade econômica detestado pelos grandes capitais, já não mais dispostos a continuar apoiando o despreparado e imprevisível Bolsonaro. A denúncia da Organização Mundial da Saúde quanto ao risco sanitário representado pelo Brasil completa, em termos internacionais, esse quadro negativo e desqualifica Bolsonaro como presidente.

Outro fator importante foi a derrota de Donald Trump nas eleições norte-americanas. Bolsonaro e seus filhos estavam atrelados ao governo e à política dos EUA, situação denunciada por Lula. A essa dependência política se juntava uma gradativa submissão econômica.

Derrotado nas eleições, o ex-presidente Trump continua desafiando as leis de seu país repetindo a mentira de ter havido fraude nos resultados eleitorais, tendo mesmo fomentado um ataque ao Capitólio, numa tentativa frustrada de golpe alimentada por fake news e gabinetes do ódio

Fiel ao seu mestre, Bolsonaro se elegeu e vem se mantendo graças a ambos, espalhando teorias de conspiração e mentiras contra as vacinas, no mesmo estilo do grupo complotista estadunidense QAnon de extrema-direita. Esses gabinetes de ódio estão ativos contra Lula e já estão atacando o juiz Edson Fachin.

Resta citar o movimento evangélico, hoje uma bem azeitada máquina eleitoral com cerca de 30% do eleitorado, como coluna de apoio de Bolsonaro e ponta-de-lança contra Lula. Sob o manto da pregação da doutrina cristã, utilizam o pretexto do combate à corrupção e amedrontam o eleitorado evangélico com o risco do comunismo para transformá-lo num instrumento de apoio ao liberalismo estadunidense, capaz de levar à destruição do Estado e à entrega de nossas riquezas, pela privatização, aos grupos econômicos estrangeiros.

Os evangélicos se revelaram um eleitorado dócil e ingênuo, numa versão moderna do eleitorado de cabresto. Se, hoje, a Igreja Católica tem retomado a linguagem do Evangelho dos Pobres, cometeu praticamente uma autodestruição ao ter abandonado, durante as últimas décadas, o Evangelho Social, deixando assim um flanco aberto para a penetração do populismo evangélico no Brasil. A doutrina evangélica atual ilude seus seguidores com uma espécie de adaptação da mensagem cristã ao sistema capitalista de investimentos, com o engodo do Evangelho da prosperidade.

Na expectativa da capitalização de sua fé nas bolsas de valores das promessas bíblicas desvirtuadas pelos pastores, os fiéis se tornam submissos, abrem mão de seus direitos sociais e abandonam a luta pelas conquistas sociais. Acreditam piamente que o reconhecimento de seus direitos virá só depois da morte. Será o eleitorado de cabresto contra Lula. A pretexto de combate ao pecado, os evangélicos anatematizam a cultura brasileira e, em especial o samba, em favor do gospel estadunidense.

Embora existam, no momento, diversas candidaturas, Lula é o único líder capaz de reunir com o PT as diversas tendências da esquerda. Seus dois mandatos de centro-esquerda, mesclados de centro-direita, durante os quais manteve seus compromissos econômicos com a direita, não assustam. Em compensação, o despreparo de Bolsonaro tem gerado e aumentado inquietações. 

A imprensa europeia reconfortada, comentando a elegibilidade de Lula, considerava-o favorito nas próximas eleições, citando a queda de Bolsonaro nas últimas sondagens feitas no Brasil. (por Rui Martins, no Observatório da Imprensa)

sábado, 17 de outubro de 2020

UM ALERTA: QUANDO PASSA DO LIMITE, A INDIGNAÇÃO POPULAR NÃO TEM FREIO – 1

dalton rosado
A IDIOSSINCRACIA E O OPORTUNISMO GOVERNAMENTAL
Em geral, os governos têm uma identidade de propósitos  a nortear as suas ações. 

Isto se dá mesmo que estas estejam circunscritas e limitadas a uma superestrutura que envolve regras constitucionais; instituições; costumes; forma de relação social de produção dos bens e serviços necessários à satisfação do consumo; subvenção da manutenção governamental; direito; valores morais e éticos, etc., etc., etc. 

A identidade de propósitos define o caráter ideológico do exercício do poder vertical, mesmo que este seja exercido dentro de parâmetros constitucionais preestabelecidos. Mas, não raro, o oportunismo e o desejo de perpetuação no poder provocam mudanças de rumo, sempre conservadoras e imanentes ao dito cujo.

Sou contra o poder vertical porque ele é, invariavelmente, uma falsa representação da vontade coletiva, apenas reproduzindo a hierarquia de uma ordem social opressora e dividida em classes sociais ao longo dos tempos.

Sou contra as ideologias justamente porque elas representam uma camisa-de-força a impedir o processo dialético histórico de caminhar no sentido da incorporação e adequação dos melhores procedimentos criados pela coletividade; é como se as ideologias representassem a verdade absoluta (coisa que não existe, já que a verdade, por estar condicionada às mutações da vida social, é sempre relativa e ocasional).

A atual idiossincrasia governamental brasileira, contudo, representa a completa falta de referência norteadora, como se estivéssemos num barco à deriva, levado pela correnteza rumo ao abismo. É esta sensação que tenho com relação ao governo do
capitão Boçalnaro, o ignaro

Única bússola da ação governamental, a obsessão pela manutenção e ampliação (a qualquer preço) do poder de que dispõe é a grande responsável pela idiossincrasia governamental. 

O rótulo ideológico mais apropriado para o malfadado governo atual é realmente o de idiossincrático, correspondente à contradição de conceitos que se auto-anulam. Vejamos os sintomas. 
.
SOBRE O AUTOPROCLAMADO LIBERALISMO – durante toda a campanha presidencial de 2018, o candidato ultradireitista admitia não dominar os conceitos da ciência econômica (aliás, ele pouco sabe de quase tudo, só se destacando na disciplina oportunismo político, da qual é PhD), mas, apesar de se fazer passar por outsider, defendia as proposições capitalistas do liberalismo econômico professadas por aquele que já escolhera para czar da economia, Paulo Guedes.

Era ao logo apelidado de posto Ipiranga que deveriam ser dirigidas as perguntas sobre a tal Escola de Chicago, a menina dos olhos do Guedes. Tendo como principal expoente Milton Friedman, a dita cuja preconiza o estado mínimo, incumbido de cumprir funções estratégicas de controle monetário e regulamentação protetora da exploração capitalista.

O liberalismo clássico data do século 19, baseado na doutrina do
laissez faire, laissez aller, laissez passer (deixai fazer, deixai ir, deixai passar), que nada mais é do que a função meramente estratégica estatal de indução ao desenvolvimento capitalista, tendo como premissa a livre concorrência de mercado como pretenso fator de equilíbrio da produção e consumo, e relegando o atendimento das demandas sociais a uma pretensa melhora do poder aquisitivo da população.

Entretanto, jamais promoveu, em quase dois anos de governo, qualquer privatização de peso, o que levou a pessoa encarregada dessa agenda (o ex-secretário especial para a Desestatização e Privatização, Salim Mattar) a se demitir por absoluta falta do que fazer. 

É que, apesar de ser militar indisciplinado e infenso à hierarquia, o que lhe valeu uma aposentadoria remunerada precoce, ele gosta do poder estatal forte, nacionalista, como qualquer militar em qualquer lugar no mundo e na história (vale lembrar que os governos militares de 1964 a 1985, estatizaram mais do que preconizavam as pretensas reformas de base do combatido governo João Goulart). A contradição com o liberalismo clássico salta aos olhos. 

Mas, como ele não entendia mesmo nada de economia, fez uma mistureba indigesta entre o nacionalismo patriótico (sob a bandeira verde-amarela de combate a um comunismo inexistente) e a proposta liberal do estado mínimo, sem que os seus fanáticos eleitores percebessem a contradição flagrante.

Faltava-lhe, claro, consistência política e histórica, dado o seu primarismo intelectual; mas, sobrava-lhe esperto oportunismo político eleitoral. 

Foi, ademais, bafejado por uma suspeita facada, cuja intensidade ou mesmo veracidade permanecem na penumbra, mas que terminou por lhe ser oportuna, ao poupá-lo da continuidade dos debates eleitorais que vinham comprovando e escancariam ainda mais a sua mediocridade. 

Assim, graças a um triste acaso ou a um crime eleitoral impune, pôde passar desapercebida a contradição contida nesse enunciado nacional-liberal.

Os gastos militares do governo em 2019, foram maiores do que os gastos com educação, p. ex., evidenciando a falácia do projeto liberal do estado mínimo: a prometida redução do orçamento público em relação ao PIB, foi colocada de lado, num ano em que a economia já estava combalida mas ainda não sofria o impacto negativo da pandemia do coronavírus.

Ressalte-se que o PIB do primeiro ano do governo do Boçalnaro foi inferior ao de 2018, sob o presidente Temerário. Agora, já se comemora como grande conquista a previsão de que o PIB fechará 2020 com uma queda de apenas 5,8%! 
E o desastre só não será maior porque o governo, contrariando a ortodoxia liberal, abriu os cofres; ou melhor, botou a gráfica da Casa da Noeda para trabalhar, endividando-se e promovendo farta distribuição de dinheiro sem valor. Caso contrário esse governo dificilmente conseguiria evitar uma convulsão social de grandes proporções, nem se sustentaria em pé por muito tempo. 

A distribuição de dinheiro sem valor, embora seja providência emergencial necessária, já está causando inflação de alimentos. E, caso seja oficializada em função de interesses eleitorais evidentes, deverá causar danos graves à economia. 

Mas, se o tal auxílio emergencial, sob qualquer nome que se invente, vier a ser suprimido, a convulsão social entrará na ordem do dia. 

No capitalismo é assim, se ficar o bicho pega, se correr o bicho come (e se autodevora).  

Destarte, Boçalnaro jogou pro alto todos os conceitos de ajuste fiscal orçamentário, desmoralizando a orientação liberal do Guedes. 

Mas este, cumprindo orientação do capital financeiro (que hoje é internacional por excelência) do qual sempre foi caudatário, prefere engolir sapos em profusão, tentar justificar o injustificável e permanecer no governo. (por Dalton Rosado)  
(continua neste post)
Related Posts with Thumbnails