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sexta-feira, 20 de setembro de 2019

UM CADÁVER DOMINA A SOCIEDADE – O CADÁVER DO TRABALHO (parte 2)

(continuação deste post)
CAPITAL E TRABALHO COMO FACES DE UMA MESMA MOEDA – Passemos agora a analisar aquilo que se constituiu como embate histórico entre o capital e o trabalho, sem que as partes compreendessem que estavam dentro da imanência de uma lógica que as aprisionava como dependentes mútuos.

A luta de classes sociais se restringiu a uma competição de poder político dentro da imanência capitalista, ou seja, dentro do universo da produção de mercadorias, na qual cada contendor buscava sua hegemonia política sem questionar a natureza e a existência (ambos aspectos negativos da vida social) do objeto de base dessa disputa: a forma-valor. 

Capital e trabalho são espécies do gênero valor. Não existe capital sem acumulação de valor, e não existe valor sem trabalho abstrato.

Conservar o trabalho abstrato é, portanto, conservar a célula constitutiva primária do capital: o valor. Então, embora isto nos cause alguma estranheza, temos de considerar a foice e o martelo, que sempre significaram a apologia, afirmação e positivação do trabalho abstrato produtor de valor, não são bandeiras anticapitalistas.

O consenso sobre a existência de um pretenso antagonismo inconciliável entre capital e trabalho levou-nos à concepção equivocada de que a simples eliminação da figura patronal, substituída pela figura estatal, eliminaria os males da acumulação concentrada da riqueza abstrata e propiciaria a sua justa distribuição. Um equívoco histórico.

Quando analisamos as pretensões entre o capital e o trabalho vamos verificar que ambos convergem para um mesmo interesse: a obtenção de mais dinheiro e, obviamente, a sua perpetuação, ainda que tal processo seja absolutamente contraditório.

O patrão capitalista quer eliminar custos de produção com capital variável (trabalho abstrato) para ganhar mais dinheiro; e o trabalhador (muitas vezes representado pelo sindicato) quer melhor salário, que significa mais dinheiro. A guerra de ambos é pelo dinheiro.

Nenhum dos dois polos nega o dinheiro, e é aí que eles se irmanam num mesmo interesse que positiva a forma-valor. O pretenso antagonismo se limita à forma de obtenção do valor, mas não se corporifica no conteúdo. Que as hostes esquerdistas predominantemente passassem batidas por esta identificação indesejada apenas comprova seu desconhecimento da dinâmica autotélica da produção da mercadorias definida por Marx em 1858. 

A ontologização e a positivação da forma-valor por parte dos pretensos críticos do capitalismo que integram os movimentos de esquerda, como no caso dos partidos políticos de oposição e sindicatos, levou as lutas sociais para o campo meramente reivindicatório de direitos, o qual, ao invés de negar a ordem capitalista e seus instrumentos de regulamentação e controle, ratifica-os como se fosse possível tornar tal ordem benéfica psra todos reformando-a, mas sem alterar o seu conteúdo. 
A questão que está colocada não é melhorarmos as condições de trabalho, mas superarmos o próprio trabalho, fonte primária e primeira da constituição do capital.

A verdade é que os marxistas, mesmo os bem intencionados, jamais compreenderam a crítica da economia de Karl Marx, a sua tese mais genial e verdadeiramente científica. Os marxistas oportunistas estatizantes sequer merecem menção nos umbrais e panteões da visão marxiana de mundo. Marx jamais seria stalinista, nem Stalin seria marxista esotérico. 

Ainda que as ilações políticas de Marx não hajam tido a mesma profundidade e consistência do seu legado científico sobre a essência da forma-valor e seus acessórios constitutivos, devemos considerar que ele foi um pensador genial que nos deixou um imenso legado científico a ser desenvolvido, e que sobre os seus ombros deveremos fundamentar as nossas ações para a superação do capitalismo. 
Nos tenebrosos dias atuais, de absurda aceitação de postulados anticivilizatórios por muitos, e da pasmaceira conformista de outros, há, felizmente, alguns sintomas de rebeldia lúcida. Um deles que mais me chamou a atenção satisfatoriamente foi a grandiosa manifestação popular que teve lugar na Avenida Paulista quatro semanas atrás, contestando a devastação explicitamente autorizada pelo governo do Boçalnaro, o ignaro

Ali preponderou a presença espontânea da juventude indignada com a predação ecológica econômico-estatal e a ausência de bandeiras das centrais sindicais e partidos políticos, que continuam mudos diante da conjuntura de depressão econômica perante a qual não têm soluções transcendentes, e por se perderem na inconsistência e contradições de suas posturas imanentes ao capitalismo decadente (sem que disto se deem conta).

A minha satisfação com a espontaneidade dos jovens (em maior número) e outros jovens há mais tempo (em número bem menor, mas lá estávamos eu e o Celso Lungaretti, aos 69 anos), além de membros do grupo Crítica Radical e tantos outros independentes, decorre da constatação de que algo novo está a surgir.

Esse novo difere das bandeiras sindicais e políticas que estão dentro da imanência capitalista e representam postulações que não indicam o rompimento com o mal em si (o capitalismo, o estado, a política institucional e o trabalho abstrato), mas a busca de direitos que já não podem mais ser atendidos. 

O frescor da juventude nos mostra que nem tudo está perdido. (por Dalton Rosado)
"É a cegueira de deixar/ Um dia de ser peão/  De não dançar mais amarrado/
Pelo pescoço com cordão/ De não ser mais empregado/ E também não ser patrão"

sábado, 5 de maio de 2018

...E A MÚSICA SEGUINTE VAI PARA O ANIVERSARIANTE DO DIA, O SR. CARLOS, QUE HOJE ESTÁ COMPLETANDO 200 ANOS.

"U'a vontade é qui me dá
Tali cuma tentação
Dum dia arresolvê
Infiá os pé pelas mão
Pocá arrôcho pocá cia
Jogá a carga no chão

I rinchá nas ventania
Quebrada dos chapadão
Nunca mais vim num currá
Nunca mais vê rancharia

É a ceguêra de dexá 
Um dia de sê pião
Num dançá mais amarrado
Pru pescoço cum cordão
De num sê mais impregado
E tomém num sê patrão"
(Elomar Figueira Mello)

segunda-feira, 1 de maio de 2017

ESPECIAL DO DIA DO TRABALHADOR NO BLOG DO "NÁUFRAGO": E QUE OS OUTROS 364 DIAS LOGO SEJAM NOSSOS TAMBÉM!

Desde a heroica e sangrenta greve geral de 1917...
Sim, é uma triste verdade: comemoramos o Dia do Trabalhador, mas os dias verdadeiramente não são nossos, continuam pertencendo aos patrões. A sociedade sem explorados nem exploradores, alicerçada sobre a colaboração fraterna dos seres humanos em benefício do bem comum, continua sendo apenas um sonho.

E é para reavivar este sonho, alimentando a esperança de acordarmos o quanto antes do pesadelo capitalista, que o blogue Náufrago da Utopia está publicando está série especial de quatro matérias:
  • ...uni-vos! (incluindo o filme A classe operária vai ao paraíso, que pode ser assistido no blog em versão integral e legendada)
...até as jornadas atuais, a mesma opressão e a mesma luta. 
Com a certeza de que, em futuro não muito distante, não haverá mais comemorações iguais à de hoje, pois os trabalhadores passarão a ter como seus todos os dias!
"É a cegueira de deixar/ um dia de ser peão./ De não comprar nem vender,/ 
roubar, isso também não./ De não ser mais empregado/ e também não ser patrão!"

terça-feira, 21 de março de 2017

MÚSICOS E CANÇÕES QUE ILUMINARAM A MINHA VIDA (parte 2)

(o início desta série do Celso Lungaretti está aqui)
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O compositor, cantor e multi-instrumentista  Egberto Gismonti deu sequência ao trabalho do grande Heitor Villa-Lobos, de fazer uma releitura erudita das raízes musicais brasileiras; com a vantagem de ser também o intérprete de suas criações e de atingir os admiradores de uma MPB mais sofisticada, enquanto o maestro Villa-Lobos ficava mais restrito aos apreciadores da música clássica.

Ambos, inclusive, realizaram magníficos trabalhos com canções indígenas. Em 1978, Gismonti chegou a morar durante algum tempo com os índios Iaualapitis, do Alto Xingu, com os quais dialogava sobretudo através da música, tendo tal vivência marcado profundamente seu álbum Sol do meio-dia.

Ele despontara para o grande público no Festival Internacional da Canção de 1968, com a belíssima "O sonho", interpretada pelos Três Morais. Era, ainda, uma canção com letra, mas Gismonti se voltaria cada vez mais para a música exclusivamente instrumental.

Durante algum tempo a Emi-Odeon lhe garantia o lançamento de pelo menos um álbum por ano, mas a fonte foi secando, ao mesmo tempo em que gravadoras jazzísticas europeias lhe davam guarida, tanto para realizar discos solos como para projetos conjuntos com outros artistas de vanguarda de vários países. 

Daí resultou, p. ex., o pungente álbum Mágico (1979), cuja melancolia parece refletir o próprio clima gelado de Oslo, onde foi gravado – mas, claro, se deve em maior parte à performance superlativa do saxofonista norueguês Jan Garbarek (o baixista estadunidense Charlie Haden completou o trio).

A faixa "Bailarina" é a melhor do álbum, na minha opinião.
  
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Mal alcançando o microfone aos 11 anos...
Elis Regina teve seu grande momento na era dos festivais. Nascida em 1945 na capital gaúcha, começou a cantar aos 11 anos num programa de rádio para crianças, gravou seu primeiro LP aos 16 (na linha do rock água-com-açúcar de Celly Campello) e passou em 1964 a ser atração das boates do Beco das Garrafas, no Rio de Janeiro, famoso reduto da bossa-nova.

Sua interpretação visceral de "Arrastão", no Festival da Excelsior de 1965, escancarou-lhe as portas do sucesso, tendo sua condição de apresentadora e atração maior do principal programa de TV dedicado ao gênero (O fino da bossa) feito dela o grande nome da MPB na segunda metade dos anos 60.
...e já no tempo do furacão Elis.

Após a assinatura do AI-5, quando a intimidação e a censura esvaziaram aquele movimento musical, Elis aprimorou-se na técnica do seu ofício, fez belos álbuns, conseguiu emplacar mais de 1.200 apresentações com seu show Falso brilhante... mas nunca voltou a emocionar tanto aos que a tínhamos visto despontar para o estrelato. Até porque a emoção havia sido praticamente suprimida da arte e da vida dos brasileiros.

Sua morte como consequência de overdose em 1982 lembrou muito a tragédia de grandes roqueiros (Janis Joplin, Jim Morrison, Jimi Hendrix, etc.) que pareceram sair do palco da vida quando já não conseguiam igualar seus fulgurantes desempenhos anteriores e arrancavam os cabelos por isto.

Eis o que aficionados conseguiram reconstituir da atuação que transformou Elis numa estrela:
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Elomar Figueira Melo é um compositor, cantor e violonista baiano que se tornou conhecido por um público mais amplo a partir do festival MPB 80 da Rede Globo, no qual Dércio Marques defendeu sua "O peão (ou pinhão) na amarração". 

Nascido e criado no sertão, conseguiu formar-se arquiteto em 1964, lançou seu primeiro compacto em 1968 e o primeiro LP em 1972. Encarava a música como sua principal ocupação, buscando na arquitetura apenas um "suporte financeiro". 

Caracterizava-se por manter o visual sertanejo na carreira artística e por utilizar o jargão regional nas suas letras, que mostravam o cotidiano sofrido dos nordestinos e questionavam as injustiças sociais (algo como um Vandré dizendo as mesmas coisas no linguajar do povão).  

Ao mesmo tempo, partia para experimentos musicais sofisticados, compondo óperas e gravando discos com expoentes eruditos como Arthur Moreira Lima. É o caso desta versão mais sofisticada de "O peão na amarração":
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O cearense Fagner é, como Alceu Valença, outro compositor e cantor talhado para voos altos, que foi capaz de criar verdadeiras obras-primas na década de 1970 e início da seguinte, mas não tentou manter a qualidade do seu trabalho quando deixaram de existir consumidores em número suficiente no nicho da MPB sofisticada. 

Prostrou-se ao mercado e, aderindo ao som banal que a indústria fonográfica martela dia e noite na cabeça de suas vítimas, tornou-se mais um dentre tantos e tantos fabricantes de ruídos populares (como disse Paulo Francis a respeito de Caetano Veloso). Antes era artista e era único.

Quem quiser saber quão grande ele foi um dia, deve escutar o álbum que gravou em 1981 na Espanha, Traduzir-se, com a participação de monstros sagrados do flamenco como Joan Manoel Serrat e Camarón de la Isla;  e seu superlativo LP de 1975, Ave noturna, trazendo pérolas como "Astro vagabundo", "Beco dos baleiros", "Estrada de Santana" e esta dilacerante "Última mentira".
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Ela era assim em 1967...
Quando, entre outubro e novembro de 1968, a TV Record realizou seu 4º Festival da Música Popular Brasileira, o céu carregado indicava a iminência de uma tempestade. Algumas semanas antes, no dia 15 de setembro, acontecera a célebre eliminatória paulista do 3º FIC, na qual a "Questão de Ordem" de Gilberto Gil fora desclassificada e Caetano Veloso, após fazer um discurso inesquecível, retirou sua "É proibido proibir" em protesto contra as vaias que recebia. 

Gatos escaldados, ambos não quiseram mais expor-se à imbecilidade ululante. Então, para surpresa geral, quem apareceu para defender a composição que ambos haviam inscrito, "Divino maravilhoso", foi uma desconhecida com visual agressivo e cabelos desgrenhados, introduzida como Gal Costa

Passada a surpresa, espalhou-se a notícia de que se tratava de uma transfiguração da meiga e tímida Maria da Graça Costa Penna Burgos, que ainda no ano anterior estreara em LP dividindo com Caetano Veloso os vocais de canções suaves, com arranjos acústicos.
...e ficou assim no ano seguinte.

Surpreendentemente, ela não só tinha voz potente, como desandou a usá-la até quando não deveria. Sua fase tropicalista é marcada por interpretações gritadas (quase arrebentava nossos tímpanos em "Meu nome é Gal"!), como se tentasse ser a Janis Joplin brasileira. Não passou nem perto, mas, sem dúvida, deixou uma forte marca na MPB.

Uma das canções que melhor se adequaram ao estilo que ela estava tentando adotar foi "Vapor barato", um clássico de Jards Macalé e Wally Salomão.
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"O que foi que fizeram com ele? Não sei.
A música de Geraldo Vandré entrou na minha vida em 1966, quando dava os primeiros passos nas trilhas revolucionárias. 

Cantores/compositores correndo na faixa do protesto político e social havia outros, como Sérgio Ricardo e Gilberto Gil; eu percebia, contudo, algo diferente na forma como Vandré dizia praticamente as mesmas coisas: a emoção. 

Seu canto passava a impressão de que ele acreditava profundamente na mensagem transmitida em cada verso. 

Caso do grito que ele solta no meio da "Canção nordestina", começando lá embaixo e subindo até nos arrepiar até o fundo da alma ("E essa dor no coração/ aaaaaaAAAAAAIIIIIIIII, QUANDO É QUE VAI SE ACABAR?!"). Não se faziam tais coisas na música popular daquele tempo.

Também suas canções de amor sofrido são tocantes ao extremo. "Pequeno concerto que ficou canção" é um arraso: "Ah, eu vou voltar pra mim,/ seguir sozinho assim,/ até me consumir ou consumir toda essa dor,/ até sentir de novo o coração capaz de amor!".

Ele era o único dos compositores revolucionários que se colocava invariavelmente como personagem de suas músicas, o que lhes aumentava muito o impacto. Mas, não percebia o perigo embutido em versos como "Se um dia eu lhe enfrentar,/ não se assuste, capitão:/ só atiro pra matar/ e nunca maltrato, não": o de os ouvintes passarem a ver mesmo nele um guerrilheiro e dele cobrar uma postura de guerrilheiro. Noblesse oblige, Vandré até tentou corresponder a tais expectativas.
"Só sei que esse trapo, esse homem foi um rei" (Benito Di Paula)

Como no tempestuoso 1968, quando ele ousou o que nenhum outro ousara nem ousaria: atirar uma estrofe na fuça dos milicos, lançando-lhes um desafio altaneiro: "Há soldados armados, amados ou não,/ quase todos perdidos de armas na mão./ Nos quartéis lhes ensinam antigas lições,/ de viver pela pátria e morrer sem razões".

Teve de deixar o País e, no exílio, percebeu como lhe fazia falta a firmeza ideológica de um autêntico revolucionário. Era um artista dos melhores, mas, ainda assim, apenas um artista. E não aguentou a barra de ser estranho em terra estranha, com a saúde debilitada e cheio de problemas psicológicos, amplificados pelas drogas.

Tomou a decisão desastrosa de negociar com os militares a volta ao Brasil, tendo, na chegada, sido praticamente sequestrado e confinado durante 58 dias numa clínica carioca. Não tenho a mais remota dúvida de que sofreu uma lavagem cerebral e reprogramação mental. O resultado é que nunca mais foi o mesmo. 

Considero-o um caso similar aos de Garcia Lorca e Victor Jara, que foram abatidos como cães pelos fascistas; a Vandré causaram a morte espiritual, que talvez seja pior ainda.

O LP que gravou em 1973 na França, Das terras de benvirá, é com certeza o mais doloroso que escutei na vida – e, ainda, assim, de cristalina beleza. Ouçam a faixa-título e saibam por quê.
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Com os Mutantes, em 1967: "Domingo no parque".
No contato profissional que tive com ele certa vez, Gilberto Gil me causou ótima impressão. Boa gente como costumam ser os baianos da gema, brincalhão, aberto para abordar qualquer tema. 

No final da maratona (eu colhia informações para escrever uma revista inteira sobre ele), a coisa parecia mais uma conversa de velhos amigos do que uma entrevista propriamente dita.

Por ele ser a simpatia em pessoa, até evitei mais tarde criticá-lo por haver aceitado ser ministro da Cultura sem real disposição para lutar contra os poderosos interesses que avassalavam o setor e o reduziam à inocuidade e mediocridade. 

Sei que é ingenuidade, mas sempre sonho com músicos fazendo o que pregam nas suas letras. O Gil, com certeza, não cumprirá aquilo a que se propunha meio século atrás, lá no comecinho de sua trajetória: "Ainda viro este mundo/ em festa, trabalho e pão!". 
Exílio londrino em 1971: o preço da coerência.

São também da esquecida canção "Viramundo" estes versos que me inspiram até hoje: "Prefiro ter toda a vida/ a vida como inimiga/ a ter na morte da vida/ minha sorte decidida". Parece que eu acredito mais neles do que o autor.

Enfim, como ninguém é perfeito, mais vale lembrarmos a coragem que Gil teve para peitar a ditadura em 1968, lançando contra ela uma contestação global (política, ideológica, estética, moral, sexual, o escambau...); sua enorme contribuição para que os brasileiros nos percebêssemos como realmente somos, eternos explorados e irmãos siameses de outros explorados como os povos africanos, por mais que vivamos com a cabeça em Hollywood e Miami; e os muitos biscoitos finos que saíram do seu forno ao longo das décadas, inspirando-nos sonhos, ideias e ações.

Como esta sensível e nostálgica "A rua" (tomara que ele tenha mesmo voltado para matar a saudade!).  
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O bruxo Hermeto Pascoal é outro dos grandes nomes brasileiros da música instrumental, misturando no seu caldeirão sonoridades da natureza, ruídos que extrai de utensílios caseiros ou instrumentos exóticos por ele inventados, raízes nordestinas, influências jazzísticas, etc. 

O resultado é a alternância de passagens brilhantes e outras nem tanto. 

Sua originalidade artística e figura bizarra o tornaram arroz de festa de festivais internacionais, principalmente o de Montreux, na Suíça. Mas, às vezes fica a impressão de que todas as suas esquisitices são mais pirotecnias para disfarçar uma falta de espinha dorsal nas suas músicas.

Como esta "Gaio da roseira", que começa e acaba com o mesmo refrão nordestino, tendo muito experimentalismo musical no meio (fórmula que até o rock já utilizou largamente, começando por "In-A-Gadda-Da-Vida", do Iron Buterfly, em 1968). Enfim, é interessante e chega a ser bem agradável em certos trechos, então vale a pena conhecermos, mas sem expectativas exageradas. 
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Itamar Assumpção entra aqui como representante dos artistas de vanguarda da capital paulista que, entre 1979 e 1986, se uniram num movimento para alavancar a produção independente e sacudir o monopólio das grandes gravadoras, tendo o teatro Lira Paulistana como seu quartel general. Também estavam nesta jogada o Arrigo Barnabé, Tetê Espíndola, Grupo Rumo, Premeditando o Breque e Língua de Trapo, entre outros.

O Arrigo Barnabé era o mais aclamado da turma, mas sempre me pareceu um genérico nacional do Frank Zappa & The Mothers of Invention. 

Já o Itamar foi mais autêntico, com sua mistura de rock, funk e gafieira. "Nego Dito", auto-louvação de um marginal pé de chinelo, é uma graça.
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O cantor, pianista e compositor Ivan Lins se tornou conhecido a partir do 2º lugar que obteve no decadente Festival Internacional da Canção de outubro de 1970, com "O amor é meu país". Ele e o Gonzaguinha foram as únicas revelações, cabendo  a vitória à intragável "BR-3".

Mês e meio depois, a Globo lançava o programa semanal Som Livre Exportação, comandado por Ivan Lins e Elis Regina, que durou quase nove meses, tendo projetado, p. ex., Tim Maia, Aldir Blanc e César Costa Filho.

Músico cujas influências principais eram a bossa-nova, o jazz e o soul, destacava-se pelas performances empolgadas, sem ser particularmente original nem brilhante. Tinha como principal parceiro Vitor Martins, cujas letras muitas vezes eram de esquerda soft

"Começar de novo", contudo, é uma bela canção da dupla que não poderia faltar aqui – até porque, nestes tristes trópicos, somos eternos Sísifos, obrigados a sempre recomeçar, sem que jamais a pedra se mantenha no topo da montanha.

domingo, 5 de março de 2017

A NECESSIDADE INADIÁVEL DO PENSAR E DO FAZER FORA DO MERCADO

"A fome é a expressão biológica 
de males sociológicos" 
(Josué de Castro) 
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Sob o primado do capital, toda produção de bens e serviços tem um pressuposto limitador das ações humanas: o mercado. Nada se faz sem que antes se avalie a viabilidade econômica desse fazer. 

Destarte, no que tange à produção de bens e serviços destinados ao mercado, somente o que consegue altos níveis de produtividade se mantem sustentável, motivo pelo qual grandes contingentes humanos urbanos e rurais estão marginalizados, pois indústrias são fechadas e grandes extensões de terras se tornaram improdutivas. 

Trata-se de uma contradição fundamental dentre as muitas contradições do capitalismo em seu momento de limite interno de expansão, condição que está a inviabilizá-lo como modo de mediação social. 

No nordeste brasileiro, p. ex., observa-se o abandono de extensas áreas rurais que se tornaram desabitadas e com casas em ruínas, tornando inócua a pretensão capitalista de produção de mercadorias (ainda que sob a via equivocada da reforma agrária sob a égide do mercado) nessa região, por absoluta inviabilidade econômica de produção. 
É por causa da concorrência de mercado aplicada à produção de alimentos (ainda que haja subsídios fiscais e financeiros estatais em muitos lugares, inclusive no Brasil) que se constata o aumento da fome em escala mundial, conforme relatório estatístico da FAO/ONU.

Diante disto, as experiências de produção voltadas para a distribuição de bens e serviços fora da lógica do mercado têm de ser socialmente experimentadas o quanto antes! A disseminação de um critério de produção voltado apenas para a satisfação das necessidades humanas, pari passu a um comportamento solidário no qual todos se sintam contributivos, será fator de construção da emancipação humana e, principalmente, da construção de uma nova e elevada moral social.  

Dentro de um sistema de produção fora da lógica de mercado deixa de prevalecer a tal da viabilidade econômica, uma vez que, por mais que a atividade produtiva solidária (que não é trabalho do ponto de vista econômico, categoria capitalista) possa vir a demandar grande esforço de produção de bens e serviços em lugares diversos e situações diversas, ela será sempre viável sob as circunstâncias de necessidade de consumo imediato e localizado.

Neste sentido, o saber tecnológico, aplicado tanto na agricultura como na indústria e serviços, contribuirá para que se obtenha uma capacidade de produção capaz de satisfazer com abundância as necessidades de consumo.

Entretanto, a produção de bens e serviços fora do mercado, que mais do que nunca é necessidade imperiosa e inadiável para uma vida social sustentável e em contraponto ao atual estágio suicida da lógica capitalista, esbarra no interesse privado e estatal mercantil avesso ao interesse popular.

Respaldado pela institucionalidade protetora desta mesma lógica, o dito cujo tudo faz para inviabilizar a produção fora do mercado, exercendo contra ela uma ferrenha oposição sistêmica (fiscal e belicista, respaldada juridicamente pela Constituição e demais leis ordinárias).  

São poucos os que admitem se livrar da matriz fetichista introjetada nas nossas mentes e que nos foi imposta secularmente, por mais cruel e genocida que ela seja (é incrível como, na maioria das vezes, a prática do óbvio parece impossível!).   

O capitalismo, ainda que esteja se mostrando inviável sob seus próprios fundamentos e ameaçando a existência humana na Terra, não quer permitir que nenhum bem, ou serviço, venha a ser produzido sem que tal produção se dê pela criação de valor econômico, pois é daí que retira a exploração segregacionista (mais-valia) e a sustentação do Estado (seu serviçal institucional) por meio dos impostos.
Contudo, as contradições da sociedade capitalista mediada pela forma-valor (que, para a quase totalidade das pessoas, é um dado imutável e ontológico da existência humana) explicitam-se de tal modo que paira no ar a pergunta que não quer calar: como viabilizar a vida diante da tragédia humana que se avoluma mundialmente como consequência das agressões ecológicas ao planeta (no solo e na atmosfera), que se constituem em gravíssimos crimes sócio-ambientais?

A questão da inviabilidade social sob o capitalismo se estende também à administração pública, tanto que o noticiário está repleto de denúncias sobre a péssima prestação de serviços públicos nos principais setores de incumbência governamental:
– na área da saúde é comum a superlotação dos hospitais, com macas nos corredores e gente morrendo ou fazendo partos de emergência na porta de entrada; 
– na segurança pública o Estado perdeu a capacidade de julgar e prender, dado o elevado índice de criminalidade e a caríssima estrutura necessária para a combater (hoje um preso é mais caro um professor!); 
– na área da educação se observa um índice alarmante de analfabetos crônicos e funcionais, repetências e desistências, que se soma a um baixo nível de aprendizado básico e técnico, com professores migrando para outras atividades por causa dos baixos salários. Isto sem falarmos no conteúdo curricular que positiva a negatividade sistêmica, confundindo os jovens injustiçados sociais. 
O Estado já não consegue sequer prover a infra-estrutura voltada para a produção capitalista (energia, estradas, aeroportos, ferrovias, portos marítimos e fluviais), 
uma das principais funções de sua incumbência. 

Já não dá conta nem mesmo da saúde, segurança pública e educação, que servem como cortina para a cada vez mais escorchante cobrança dos impostos.

Tal realidade é comum a todos os países periféricos do capitalismo e hoje já está atingindo até países anteriormente prósperos.

Serão todos os governantes incompetentes (corrupção aí incluída) ou haverá algo mais profundo na base deste empobrecimento generalizado? 

Mesmo se considerando que o cancro da corrupção agrava os problemas da vida mercantil, não se pode atribuir apenas à corrupção, conjugada com a incompetência pessoal de um ou outro governante, a culpa pelas mazelas de que somos vítimas. 
A democracia republicana induz à prática da corrupção, pois está baseada na representação popular, deturpada pela histórica interação de levar vantagem entre eleitores e eleitos e pelos custos proibitivos de uma campanha bem sucedida, que compelem os candidatos a buscarem formas de financiamento escusas. 

A corrupção com o dinheiro público não é, entretanto, o mal principal, mas apenas um vetor contributivo para o caos atual. Na verdade, estamos submetidos a um modelo social que, se nunca foi bom, agora se mostra insuportável. 

Qualquer cidadão que se debruce sobre as contas públicas verá que mesmo se considerando que mais de um terço do PIB é destinado para a arrecadação de impostos, estes são insuficientes para o atendimento das demandas sociais, a cobertura do déficit previdenciário e o pagamento dos juros da impagável dívida pública.  
Não podemos fugir da análise e compreensão do fenômeno representado pela inviabilidade da reprodução, no nível necessário, da substância valor-dinheiro, que é o instrumento de mediação social e combustível único da vida social mercantil.

Vivemos o ciclo do colapso da forma-valor e do seu sistema produtor de mercadorias. Precisamos, portanto, ter consciência de que a questão não é de gerenciamento governamental, de falta de qualificação técnica ou de extirpar a corrupção (fatores agravantes), mas de exaustão de um modelo social a ser superado.

Então, por que não nos libertarmos das amarras do mercado (teatro de operação do capital representado por suas categorias fundantes principais, trabalho abstrato e mercadoria) e produzirmos apenas para consumir? 

Por mais que pareça estranha a ideia de passarmos a produzir para distribuir equitativamente e não para vender e comprar, este deve ser o estuário natural de forma e conteúdo da produção a ser configurado. 

Tudo nos impele a esta solução fora da lógica do mercado, ainda que não o queiram os senhores do capital, da guerra e da fome. (por Dalton Rosado)

"É a cegueira de deixar / Um dia de ser peão/ De não comprar nem vender / 
Roubar, isso também não! / De não ser mais empregado / E também não ser patrão" 
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