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sexta-feira, 29 de maio de 2020

LÁ VEM O BRASIL, DESCENDO A LADEIRA... (um artigo de Dalton Rosado) – 1

"Tem a questão do coronavírus também que, no meu entender, está superdimensionado o poder destruidor desse vírus. Então,
talvez esteja sendo potencializado até por questão econômica, mas acredito que o Brasil, não é que vai dar certo, já deu certo" (Bolsonaro, 2 meses antes de aqui virar epicentro da pandemia)
A música interpretada por Moraes Moreira (que recentemente nos deixou e já desperta muita saudade), tinha uma letra (de Antônio Pires) que dizia: "Quem desce do moro não morre no asfalto, lá vem o Brasil descendo a ladeira".  

Tinha o sentido de mostrar a capacidade do povo brasileiro, da favela, em resistir à segregação a que é submetido e fazer coisas belas, mesmo sendo tantos os condicionantes em contrário. 

A música que empresta nome a este artigo nunca foi tão atual, pois a tal ladeira está cada vez mais íngreme, a descida mais rápida e a subida mais difícil. Confio, contudo, que haveremos de superar todas as escaladas que se nos impõem. 

Mas como faremos isto?

Acabo de ouvir de um jornalista a pergunta que se faz aos economistas, aos políticos e analistas políticos: quais são as perspectivas no futuro imediato?

As respostas ficam amiúde circunscritas ao uso pretensamente eficaz dos manuais da economia, sejam eles pessimistas ou otimistas, e aí reside seu grande erro. 

Não há saída sustentável dentro dos critérios das relações sociais mercantis em decomposição. Ou criamos critérios diferenciados de sociabilidade ou naufragaremos na intensificação da barbárie já existente (o coronavírus, vale frisar, não é causa, mas consequência da decomposição de um modo de sociabilidade).

Quando não se consegue colocar o ovo em pé, há que se quebrar a sua base para fazê-lo, como nos ensinou Cristóvão Colombo num episódio célebre; ou seja, não havendo soluções à vista, todas as opções de um pensar fora da caixa devem ser testadas. 

Vivemos um momento desses, a requerer de nós mente aberta face às possibilidades fora do critérios estabelecidos. 

O mundo capitalista está em depressão e até a Alemanha, detentora dos melhores níveis planetários de produtividade tecnológica de mercadorias, amarga uma recessão de 2%. 

Será hercúlea a tarefa de invertermos o rumo, voltando a subir a ladeira, apesar de:
— o cenário mundial nos ser acentuadamente adverso, com o agravante de que nosso governo nos granjeia enorme antipatia internacional, por seu primarismo e incivilidade exacerbada; e
— a paradeira na economia nos levar à incapacidade financeira de pagamento dos pesados juros da dívida externa.

É o que dissecaremos nos tópicos seguintes:
1. ameaça de suspensão do crédito internacional ao Brasil – a lei que libera R$ 120 bilhões de socorro aos Estados membros da Federação e a prefeituras que já estavam falidos(as) antes mesmo da crise sanitária, e que agora estão ameaçados(as) de não poderem arcar nem sequer com a folha salarial do funcionalismo estadual e municipal, embutiu no seu texto a possibilidade de suspensão do pagamento dos juros da dívida externa (pagamento que seria obrigatoriamente suprido pelos cofres do Tesouro Nacional). 

O ministro Paulo Guedes pede ao presidente Boçalnaro, o ignaro que vete este artigo da lei aprovada pelo Congresso Nacional, com os organismos financeiros internacionais ameaçando de, caso não fossem atendidos, cortarem os créditos bancários que vêm concedendo ao Brasil. 

A ameaça é séria para a já combalida economia nacional, que paga juros diferentes dos cobrados aos países ricos, cujas dívidas são nominal e (com relação aos seus PIBs) nominalmente muito superiores à dívida do Brasil. 

A obediência de Guedes aos ditames da agiotagem internacional demonstra a completa submissão brasileira e esses regramentos do capital bancário internacional, que usa dois pesos e duas medidas nas suas relações com os países da periferia capitalista, como é o nosso caso. 

A verdade é que, se as nações da periferia capitalista deixarem de pagar os escorchantes juros das suas dívidas, todo o sistema bancário internacional terá finalmente de decretar a falência que vem sendo adiada com a sacrifício da imensa maioria da população mundial. 

Ressalte-se que nós pagamos de juros cerca de R$ 400 bilhões anuais, correspondentes ao dobro do nosso déficit previdenciário anual.  
2. nepotismo e despotismo  – o desastrado governo do capitão Boçalnaro não tem o menor pejo em incorrer nas práticas de nepotismo e despotismo.

Assim é que quis emplacar o filho Eduardo Boçalnaro, zero à esquerda, como embaixador do Brasil nos Estados Unidos, quebrando a tradição de escolha meritória pelo Itamaraty, com anuência da Presidência da República, para preenchimento do mais importante cargo da nossa diplomacia no exterior.

Mas a repulsa nacional a esta decisão aberrante, que deve ter causado estranheza até mesmo ao presidente Destrumpelhado, impediu a consumação de tal ato de nepotismo explícito. 

Serviu, no entanto, para evidenciar o espírito de déspota que norteia as ações do Boçalnaro quando ele tenta manipular as instituições republicanas ao sabor de seus interesses particulares.

Assim é que são escolhidos reitores fora das listas tríplices; policiais federais pelo critério de se demonstrarem afins com os postulados conservadores e bélicos do governo; e ministros para os tribunais superiores que estejam ou pareçam dispostos  a se prostrarem aos interesses governamentais.

A escolha do procurador geral da República (a quem cabe defender a sociedade no tocante à observância dos princípios constitucionais vigentes e das leis ordinárias penais, e para o qual a isenção corporativa é um requisito fundamental) teve a sua tradição quebrada quando Boçalnaro negou aos três nomes indicados pelo parquet a confirmação de um deles para a vaga. 

Preferiu optar por um quarto integrante do Ministério Público, que, por não ter constado de nenhuma lista anterior, assumiu o cargo sob suspeição generalizada. (por Dalton Rosado)
(continua neste post)

segunda-feira, 1 de outubro de 2018

SEJA QUEM FOR O ELEITO, TEREMOS DE CONTINUAR RESISTINDO: SÓ EXISTE VIDA SAUDÁVEL FORA DA BOLHA CAPITALISTA!

dalton rosado
CAPITALISMO INSUSTENTÁVEL E
 INGOVERNABILIDADE POLÍTICA
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"Marx sublinhou, com razão, que uma transformação verdadeiramente revolucionária apenas progride na medida em que os seus começos
e fases de transição são criticados sem dó nem piedade, para os
superar e para repelir as suas meias-verdades, falácias
aberrações" (Robert Kurz, no seu artigo 
Não há revolução em lado nenhum)
Estamos diante da impossibilidade de o capitalismo se manter operacional sob quaisquer que sejam as condições político-eleitorais que estão dadas.  

Como na história do ovo de Colombo, há uma certa semelhança da presente situação social mundial com aquele desafio colocado para o navegante genovês como impossível de ser realizado: nós também precisamos colocar o ovo social em pé. 

Mas, como daquela vez, isto só seria possível a partir de pressupostos diferentes daqueles que nos estão sendo colocados. Assim, temos de fazer como Colombo, que amassou a ponta do ovo para formar a base que o sustentaria na posição vertical. 

O capitalismo já não é capaz de se manter de pé e suprir minimamente as relações sociais de consumo; isto ocorre por força da contradição inerente à dinâmica de sua lógica reprodutiva irracional, que agora atinge seu limite interno absoluto de expansão. 

Apesar das evidências, os seres humanos, submetidos à sua coerção tácita ou veladamente explícita, reproduzem-lhe a lógica e seguem irrefletidamente na direção do abismo.

Diante de tal impasse social histórico, embora devêssemos pensar fora da caixa, como fez Colombo, infelizmente somos induzidos a levar em conta apenas duas vertentes de posicionamentos, que se circunscrevem dentro do espectro capitalista formando uma falsa dicotomia. São elas:
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— há os que querem mantê-lo em pé a partir dos mesmos pressupostos, ainda que para isso tenham de recorrer à força militar; e
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— há o bloco dos que desejam mantê-lo em pé mas com uma ilusória feição humana, a partir de um modelo pretensamente anticapitalista que, contudo, é moldado com as mesmíssimas ferramentas capitalistas. São os ingênuos ou apenas oportunistas fisiológicos que sabem que o ovo, sem amassá-lo na base, sempre tombará de lado.  
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O primeiro bloco, reacionário às transformações sociais que se processam contra sua vontade, embora contribuam involuntariamente para essas transformações com suas práticas (como dizia Marx, o capitalismo cava a sua própria sepultura), quer manter o capitalismo pela força, ou seja, quer que o pé caiba dentro do sapato independentemente do tamanho de um e de outro.

Atualmente este bloco é representado mundo afora por ultradireitistas autoritários (legitimados pelo voto ou pelas baionetas) que implementam a perda dos direitos sociais e civilizatórios conquistados na fase de ascensão capitalista, mas que agora são negados pela imposição de uma lógica reificada que lhes dá ordens e que, como dissemos, encontrou o seu limite existencial expansionista. 

O segundo bloco, da esquerda legalista, ou é ingênuo ou oportunista fisiológico. Os ingênuos bem-intencionados de esquerda, por desconhecimento teórico, acreditam que as instituições do Estado estão acima ou equidistantes das relações sociais hoje existentes (que consideram imutáveis, mas passíveis de serem beneficamente reformáveis), implementadas naturalmente pela vontade pretensamente soberana dos indivíduos sociais, e que, como tais, podem servir ao bem ou ao mal, dependendo das ações humanas dos que as compõem. 
A esquerda legalista, um leão que mia...
Não compreendem que as instituições políticas do Estado, os poderes executivo, legislativo e judiciário, estão a serviço do capital e da mediação social que por ele foi e é estabelecida ditatorialmente (ou seja, pela força das armas, desde seu surgimento evolutivo em contraponto ao feudalismo, continuando até hoje a serem por ela tutelados); e que é impossível mudar os seus comportamentos, vez que estão submetidas ao objeto teleológico reificado da forma-valor (dinheiro e mercadorias). 

Os oportunistas fisiológicos de esquerda (em maior número nesse campo e composto por dirigentes político-partidários) querem um Estado forte, concentrador de riquezas abstratas (o capital), para administrá-las em seus interesses burocráticos, ainda que sob um discurso de proteção social dos explorados pelo capitalismo. 

Querem, em poucas palavras, mitigar o sofrimento dos explorados sociais pelo capitalismo, mas a partir dos seus comandos privilegiados sob a forma de capitalismo de Estado. Para esses, quando se fala em abolir o capital ao invés de administrá-lo, parece que se está dizendo uma heresia que deve ser rebatida de pronto; é quando se desmascaram, identificando-se com aqueles dos quais dizem ser o oposto.    

Mas, para infelicidade desses blocos que representam uma falsa dicotomia teleológica, o capitalismo vive momentos de uma insustentabilidade funcional que provoca a impossibilidade de manutenção dos seus projetos políticos, tudo caminhando para a evidência empírica de uma realidade revolucionária capaz de se contrapor seus interesses inconfessáveis.  

É graças a isso que vemos, nas diferentes unidades da federação brasileira, acordos políticos tão díspares como o que ocorre no Ceará, onde o governador do PT à reeleição, é, de fato, do PFG (Partido dos Ferreira Gomes), que apoia Ciro Gomes, que é do PDT de mentirinha, e numa coligação na qual um dos seus candidatos a senador é Eunício Oliveira, que é do MDB, partido que faz oposição federal ao candidato Ciro Gomes, e por aí vai. 

Tal aparente confusão decorre do fato de que tudo no processo eleitoral se circunscreve a um único desiderato: a detenção do poder burguês do Estado para a manutenção dos privilégios proporcionados por esse mesmo poder e para a manutenção dos benefícios aos que o administram. Tudo, por fim, tem um norte fundamental: a manutenção da lógica do capital, ainda que esta esteja caindo de podre e promovendo o agravamento da miséria social mundo afora. 

Neste sentido, é uma mentira ideológico-eleitoral o uso (tanto pelo PT, como pelo PC do B e outros partidos de esquerda) da estrela vermelha, que representou o sonho de uma sociedade emancipada do jugo capitalista e que em nome da qual tantos companheiros valorosos tombaram heroicamente.   
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A eleição presidencial e o futuro político brasileiro – o cenário político-eleitoral está praticamente definido. No 1º turno devem prevalecer o Boçalnaro ignaro, como representante do totalitarismo capitalista, de um lado; e do outro lado Fernando Haddad, o postiço (de poste e de governante por procuração), legítimo representante do segundo bloco político, do fisiologismo oportunista de Estado.
"Cada vez que abre a boca, evidencia seu despreparo"
Diante deste quadro, estamos fritos? Prefiro acreditar na tese de que as crises são a gestação do novo. Portanto, podemos amassar a base do ovo e colocá-lo em pé, como fez Colombo.

No quadro eleitoral atual tende a dar Haddad, o postiço, no 2º turno, até porque com os falantes e imprudentes aliados que tem o Boçalnaro, o ignaro, ele não precisa de inimigos. 

Aliás, cada vez que ele mesmo abre a boca (como na entrevista ao Datena) evidencia o seu despreparo para a difícil missão que o ilusório processo eleitoral democrático-burguês quer lhe conferir a partir de setores conservadores de um capitalismo decadente.

A evidência do seu despreparo tende a se tornar ainda mais acentuada nos debates do 2º turno e isso será fatal para a sua derrota prenunciada.  

O Estado capitalista atual, principalmente na periferia do capitalismo, somente pode ser mantido pela redução drástica das demandas sociais e da adequação dos direitos econômicos ainda existentes à realidade de falência do erário público, que vive a penúria decorrente da depressão capitalista.

Que os burgueses defendam o seu Estado acima de qualquer coisa (como na frase do Boçalnaro, o ignaro, segundo a qual o Brasil deve estar acima de tudo, imitando o slogan trumpiano America First), ou seja, que o Estado prevaleça sobre quaisquer interesses dos cidadãos, já é postura esperada  e à qual devemos nos opor contundentemente.

Mas também não é admissível o propósito da esquerda, pretensamente anticapitalista, de querer administrar essa falência estatal, decorrente da impraticabilidade de cobrança de impostos nos níveis financeiros necessários; pois não há mais o que arrancar de um povo economicamente exaurido pela extração de mais-valia (a qual, contudo, é cada vez mais reduzida, seja individualmente ou no seu volume global) e levado ao desespero pela depressão econômica irreversível. 

A esquerda, em tal cenário, comete uma traição aos interesses populares por ela historicamente defendidos e difundidos.  

A proposição de administração do Estado burguês pela esquerda é claramente oportunista, fisiológica e capitalista na sua essência mais profunda, terminando sempre por descredenciá-la perante o povo pela não realização dos seus demagógicos postulados (que induzem as pessoas comuns a acreditarem que seja possível dar ao Estado burguês, seja politicamente liberal ou ditatorial, uma função coadunada com o interesse popular). 

Mas, independentemente de quem seja o eleito, teremos de continuar resistindo e demonstrando que só pode haver vida saudável fora da bolha capitalista; isto significa negarmos todas as categorias econômicas e políticas que lhe dão sustentação.

Às turbulências que inevitavelmente virão, qualquer que seja o resultado eleitoral, devemos responder nas ruas com ações concretas que demonstrem a imensa força popular da conscientização.

Todas as nossas ações teóricas e empíricas de práticas sociais devem ter um norte emancipacionista, ou seja, de defesa de um modo de produção social (bens e serviços) fora da lógica da mercadoria e de uma organização social horizontalizada e departamentalizada na qual os indivíduos sociais, despidos das carcaças de cidadãos burgueses que lhes são impostas, possam vestir os mantos revolucionários da emancipação humana. (por Dalton Rosado)    

terça-feira, 7 de abril de 2015

UN NAVEGANTE ATREVIDO SALIÓ DE PALOS UN DIA...


TÊMPERA

São três cascas de nozes
que o vento empurra,
as ondas carregam.

Quem vai a bordo
apostou seu sonho
contra todos os medos.

Perdido no mundo,
foi perder-se de vez
ou descobrir novo mundo.


No semblante, só certezas.
No íntimo, só dúvidas.
Que terrível solidão!

Ouvirá gritarem

um dia “terra à vista”?

Pisará chão firme

outra vez nesta vida?

Será água seu caixão,

espuma sua mortalha?

Atingirá o objetivo
antes da completa loucura?


De todos o mais inteiro,
de todos o mais dividido:
Cristóvão Colombo.

Que riquezas e glórias

o levam a perseverar,
indo ao inferno, e além?

Provar sua convicção?

Conquistar um reinado?
Ter o nome na História?

Nada vê além do azul,
nada ouve além das ondas,
nada sente além do frio.

(e no entanto, já poderia avistar

ao longe, muito ao longe, as aves)

(e no entanto, mais feliz

está agora com suas esperanças)

(e no entanto, a benção

poderá revelar-se maldição)

(e no entanto, jamais, jamais

reconheceremos o que fez por nós)
.
Filme completo: a saga de Colombo na visão de Ridley Scott
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