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domingo, 14 de novembro de 2021

ALGUMAS IDIOTICES ABSOLUTAS – 2

(continuação deste post)
C
ONSIDERAR A CHINA COMO COMUNISTA
 – O comunismo não é uma forma política, mas uma doutrina que propõe um estágio de vida social no qual inexistam classes sociais distintas e as categorias sociais que compõem o universo capitalista, aí incluídos o dinheiro, a mercadoria, o trabalho abstrato (expressões materializadas da abstração valor) e a sustentação política e jurídica destas categorias de base pelo Estado, a esfera de regulação e coerção opressora social. 

Neste sentido, a China, ao fazer a chamada revolução proletária em 1949 e conservar todas as categorias capitalistas de base, tornando o Estado dito comunista (uma contradição até na acepção filosófica do termo) o novo e plenipotenciário patrão, mudou apenas dois aspectos da vida social anterior:
— a propriedade estatal, a partir do confisco dos meios de produção privados dos três setores da economia (agronegócio, indústria e serviços); e
— a forma política centrada no partido único, autodenominado de comunista. 

Acreditavam os marxistas tradicionais que, ao expropriarem os meios de produção dos capitalistas privados (ou dos mandarins feudais) e colocá-los sob o controle de um governo pretensamente proletário, os problemas estariam resolvidos e se caminharia para o objetivo teoricamente almejado. 

Só que, ao se fechar intramuros nas suas extensões territoriais imensas mas preservando todas as categorias capitalistas de base, em que pese a relativa melhora da vida milenarmente empobrecida dos camponeses da China, veio a inevitável necessidade de expansão da lógica capitalista interna, e o surgimento da doutrina de Deng Xiao Ping, de abertura capitalista para o mundo (com as concessões ao capital privado local e mundial) e a busca e aceitação do sistema bancário capaz de financiar a produção industrial crescente, como forma de se alcançar tal expansão. 

Hoje a China pratica o capitalismo mais selvagem do planeta, baseado num endividamento gigantesco (cerca de 300% do PIB, o maior do mundo capitalista); salários de fome, sem direitos trabalhistas; baixo custo fiscal; e controle estatal severo. 

Ou seja, uma ditadura ferrenha e militarmente ameaçadora, que nega todos os postulados que um dia estiveram na cabeça de Karl Marx, o fundador do materialismo dialético e da crítica da economia política. 

A China positiva a lógica do capital; Marx negou-a. 

Mas, essa é a mesma China que hoje já está provando do próprio veneno com o qual pretendeu conviver, o capital, e vê serem solapados, por suas próprias contradições, os fundamentos sob os quais erigiu o seu falso comunismo.

Os fundamentos capitalistas chineses rodam em falso e, num prazo que não podemos prever exatamente qual será, terá de rever os critérios sob quais erigiu o dragão chinês e procurar outra lavagem de roupa (como se diz aqui no Nordeste para quem perdeu o emprego). 

Dizer que a China foi em algum dia comunista é como afirmar que Pelé não passou de um perna-de-pau!
A ACEITAÇÃO DA VOLTA, SEM PEJO E À LUZ DO DIA, DA DOUTRINA NAZISTA  –  O Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães trazia, no seu enunciado, três elementos que explicitavam a contradição doutrinária do seu nome e um quarto, oculto, mas que cedo se evidenciou.
O primeiro elemento: intitular-se
nacional socialista
Ora, o socialismo, enquanto doutrina pretensamente anticapitalista (que também não o é, pois admite a convivência sob a mediação social do capital),e que se pretende internacional, não pode ser, obviamente, ao mesmo tempo nacional e socialista, que são conceitos semantica e doutrinariamente divergentes. 

Se é nacional, não é internacional; se é socialista, é presumivelmente anticapitalista. O nazismo, que queria deter hegemonia ditatorial internacional capitalista, é uma mentira até no seu conceito simbólico.

Como partido que endeusava o trabalho (vide a frase o trabalho liberta nos campos de concentração), o trabalhador alemão ariano e sua capacidade intelectual e física, evidentemente endeusava tal categoria capitalista: o trabalho abstrato produtor de valor

Ao mesmo tempo, protegia os capitalistas alemães de origem ariana segregando os capitalistas e trabalhadores judeus, ou seja, era trabalhista, mas capitalista e racista. 

No fundo, isso não passava de uma farsa doutrinária que encobria uma falácia, cuja única verdade era a pretensão de hegemonia econômica e política mediante a imposição truculenta de uma ordem política-social belicista, ditatorial, racista e escravista, que recorria às práticas mais execráveis para viabilizar todos os retrocessos civilizatórios que haviam sido conquistados mundo afora; o nazismo embutia e sintetizava uma visão estatutária de terrorismo de Estado.

O que mais impressiona é terem, na douta e civilizada Europa (que tanto sofreu com a devastação da 2ª Guerra Mundial provocada pelo pensamento nazista de mãos dadas com seu irmão siamês, o fascismo italiano), ressurgido agora das cinzas tais abominações ultradireitistas, demonstrado a existência coletiva de um perigosa memória amnésica da história política e social mais recente. 

E o pior é que a epidemia de barbárie contagiou também o Brasil, revelando que nossa proverbial cordialidade não é tão cordial assim. 

Temos uma guerra urbana deflagrada pelo crime organizado e por uma variante mafiosa  aqui chamada de milícias (as quais, certas de que permanecerão impunes, cobram proteção, impõem sua justiça e têm, inclusive, a acintosa proteção do clã presidencial!

Que tipo de bestas-feras são aqueles militantes boçalnaristas que foram exibir seus músculos marombados destruindo uma placa de rua que homenageava uma vereadora destemida, digna defensora do seu povo, a qual, por ser de origem humilde, negra, mulher e gay, foi por isso mesmo covardemente, assassinada? Diferem, o mínimo que seja, dos camisas pardas nazistas e dos camisas negras fascistas? 

O que dizer do cidadão Daniel Silveira, integrante emblemático dessa horda, destruidor de placas e desordeiro contumaz, que ousou até trombetear que, caso precisassem de ajuda para fechar o Congresso Nacional, ele estava à disposição? Como pôde tal brutamontes ter sido eleito para representar o povo no na Câmara Federal? (por Dalton Rosado)
(continua neste post)

terça-feira, 3 de abril de 2018

A BOMBA-RELÓGIO DO COLAPSO DO CAPITAL FINANCEIRO JÁ ESTÁ ATIVADA – 2

(continuação deste post)
Cumpre-nos afirmar que tanto o capital financeiro como o capital produtor de mercadorias, sanguessugas sociais, têm idênticas funções, de vez que estão circunscritos ao universo mercantil do vazio fim em si da valorização do valor e, mesmo se constituindo em formas diferenciadas de exploração social, são idênticas no conteúdo, sem tirar nem por.           

Historicamente o capital financeiro faz um pacto com o capital produtor de mercadorias e comercio destas, a chamada economia real, no sentido de alimentar o necessário e crescente investimento deste último setor da atividade econômica em capital constante (máquinas e equipamentos, tecnologia e instalações) para fazer face à concorrência de mercado. É que nele se opera a fratricida busca pela hegemonia do capital, na qual uns crescem na exata medida em que a maioria sucumbe. 

É graças a essa dinâmica inevitável que 82% da riqueza mundial se concentra nas mãos de apenas 1% da população mundial, segundo a ONG Britânica Oxfam, cujo relatório foi apresentado no último Fórum Econômico de Davos, na Suíça.  

O inevitável processo de concentração do capital, que hoje atinge esses níveis insuportáveis, decorre do fato de que quem ganha a concorrência de mercado sobrevive e aniquila os seus concorrentes. Hoje não se pode ser dono de uma pequena unidade fabril ou de uma única farmácia, pois somente subsistem na indústria ou no comércio quem tem capital para a vitória na autofagia capitalista.
A conexão interna entre capital financeiro e capital produtor de mercadorias estabelece um liame indissolúvel, sendo, portanto, ambas pertencentes ao mesmo universo socialmente nocivo da forma-valor. 

Quando à economia real não produz mais-valia necessária para a remuneração do capital financeiro rompe-se a corrente e se prenuncia o começo do fim, como agora está a ocorrer.

SINTOMAS DO FUTURO COLAPSO

O capital financeiro financia o capital produtor de mercadorias; ambos vivem da dinâmica desta última produção, que lhes deve remunerar. 

Entretanto, ao atingir-se o estágio do limite absoluto da capacidade de expansão dessa produção, todo o edifício financeiro tende a ruir como ruiu em pouquíssimo tempo as aparentemente indestrutíveis torres gêmeas do World Trade Center de Nova York. 

Vejamos dois exemplos abrangentes do apocalipse financeiro anunciado:

1) as dívida públicas insolváveis – O sintoma mais visível e previsível do colapso futuro do sistema financeiro pode ser extraído da questão das dívidas públicas insolváveis. 

O sistema mundial de crédito, hoje interligado de modo inseparável, desde há muito deixou de financiar a produção de mercadorias para financiar as finanças públicas dos Estados nacionais, cada vez mais endividados. 

O dinheiro carreado pelo sistema bancário via aplicações financeiras de entes públicos, pessoas jurídicas e físicas, são atualmente aplicados, em maior parte, na compra de títulos públicos. Assim, os bancos ganham um spread (uma percentagem de juros nessa intermediação) sem aparentemente correrem nenhum risco de insolvência. 

Ocorre, entretanto, que os Estados nacionais, enquanto devedores desse colossal débito para com os bancos (os quais, por sua vez, são devedores dos aplicadores privados), não têm a menor condição de saldar as suas dívidas acaso seus credores exigirem a devolução dos valores aplicados ao invés de o reaplicarem.      

Mas, mesmo que os credores privados não exijam simultaneamente o seu dinheirinho de volta, o crescimento constante de tal dívida, como resultado da incompatibilidade entre a arrecadação de impostos e o suprimento das demandas sociais e manutenção da máquina estatal, aponta para uma insolvabilidade até dos serviços da dívida (ou seja, dos juros correspondentes).   

Uma dívida insolvável é, portanto, capital fictício que aposta numa extração de mais-valia e de um lucro advindo da atividade produtora de mercadorias que não virá. A constatação da insolvabilidade da dívida pública e privada estratosférica, impagável, prova, ipso facto, a falência de todo o sistema de crédito, ainda que continue apresentando lucros contábeis (sem substância) nunca antes registrados. 
Na prática o sistema financeiro mundial está falido, apenas esperando a hora da decretação dessa falência. Até lá, contudo, continuará sacrificando os empobrecidos do mundo inteiro com a cobrança dos juros escorchantes que lhe permitem alongar sua agonia. 

Tais empobrecidos se situam exatamente nos países periféricos do capitalismo, que são obrigados ao pagamento desses juros com taxas insuportáveis. 

Paralelamente, os países donos do PIB mundial, como os da União Européia, os EUA, Japão e China, maiores devedores em termos relativos (percentagem da dívida em relação ao PIB) e absolutos (valores de suas dívidas), conseguem obter taxas de juros baixas, ou até mesmo nulas.

Os grandes credores mundiais, situados exatamente nesses países, preferiam manter suas dinheiramas em aplicações dos ditos países por questão de segurança; agora já estão botando as suas barbas de molho e procurando ativos pretensamente mais seguros.  

O Brasil, p. ex., pagou no exercício fiscal de 2016, um montante de R$ 407 bilhões em juros, que corresponde a cerca de 8% do PIB nacional (R$ 6,6 trilhões, um pibinho relativamente à sua população e extensão territorial, bem como na comparação com os países do chamado 1º mundo). 

Os juros pagos anualmente pelo Brasil, que tem uma dívida pública de pouco mais de 70% em relação ao PIB (bem menor, proporcionalmente, à dívida pública dos países donos do PIB mundial), correspondem a quase duas vezes todo o capital contábil da Petrobrás (R$ 205 bilhões). 

Trata-se de uma corrupção ainda maior do que aquela perpetrada pelos ladrões dessa estatal. E o vilão é inalcançável por parte de nossas cruzadas contra a corrupção, pois foi praticada pelo sistema financeiro mundial, em detrimento de todo o povo brasileiro. 

A agiotagem financeira que sacrifica o Brasil é a mesma que fustiga mais de uma centena de países mundo afora. Esta é a verdadeira face do capitalismo mundial.

As agências de rating jamais fazem a avaliação crítica aqui exposta; não devem, portanto, ser tidas como analistas sérias e isentas, embora os noticiosos burgueses assim as considerem. 

Somos pobres do ponto de vista da riqueza abstrata; temos níveis absurdos de concentração de renda; e, ainda por cima, sofremos a extorsão do capital financeiro mundial. Resta-nos o consolo de sermos um dos países mais ricos do mundo em riquezas materiais, as quais, no entanto, hoje são inacessíveis ao povo brasileiro. 

No dia em que o capitalismo falir e se estabelecer uma nova forma de relação social mundial, solidária e distributiva, o Brasil deixará de ser o país do futuro para ser apenas uma região que compartilha a sua riqueza material abundante com os demais povos do planeta, numa relação mundial fraterna de reciprocidade de tratamento. É o que eu espero e acredito. 

Salta aos olhos que a colossal dívida pública e privada mundial não pode ser saldada pela economia real, produtora de mercadorias, única capaz de produzir valor válido sob os critérios capitalistas. A bomba-relógio do colapso financeiro mundial já está, portanto, ativada.

2) a explosiva economia chinesa – A China tem atualmente um PIB de USD 12,1 trilhões e cresce 6,7% ao ano. O crescimento chinês se baseou no endividamento público e privado que, hoje, alcança 270% do seu PIB. 

Ou seja, acumulou uma dívida colossal de USD 30 trilhões, que é impagável sem produção de mercadorias em proporções gigantescas. Necessita extrair mais-valia e obter lucros suficientes para saldá-la e, ainda, fazer frente aos juros correspondentes.   

Conforme afirmou o FMI “as enormes dívidas pública e privada da China estão num caminho perigoso, implicando o risco de uma desaceleração de crescimento econômico”.

Ora, a China está esbarrando no limite interno da expansão capitalista, cujo extraordinário crescimento somente lhe foi possível graças à sua pequena participação anterior no comercio exterior e ao baixo nível dos salários dos seus trabalhadores, trazidos do campo para a cidade como servos miseráveis do trabalho abstrato.  

Na medida em que a China afetou a concorrência internacional capitalista abocanhando grande fatia do mercado mundial (que tem limite de consumo pré-estabelecido), o Tio Sam, antes ferrenho defensor do livre mercado, agora está impondo-lhe barreiras alfandegárias protecionistas de mercado.

Entretanto, as barreiras alfandegárias contra a China podem torná-la insolvente de sua colossal dívida para com o sistema financeiro mundial. Com isto, vai abrir-se uma fissura do tamanho da muralha da China no já combalido sistema financeiro internacional. 

O capitalismo está numa sinuca de bico. Ou, lembrando outra expressão popular, se correr o bicho pega, se ficar o bicho come(por Dalton Rosado)

segunda-feira, 2 de abril de 2018

A BOMBA-RELÓGIO DO COLAPSO DO CAPITAL FINANCEIRO JÁ ESTÁ ATIVADA – 1

Sobre a crise do sub-prime em 2009: que queimada de língua!
Costuma-se demonizar o capital financeiro, aquele que tenta crescer a partir da fórmula dinheiro que rende juros, ao mesmo tempo em que se valoriza o capital destinado à produção de mercadorias, como se este último fosse algo bom e saudável. 

A falsa dicotomia entre o capital financeiro e o capital industrial ou comercial resulta da incompreensão sobre a essência dos dois, igualmente nocivos à vida social. 

Desde quando surgiram na Grécia antiga, há cerca de 3 mil anos, as primeiras manifestações da troca quantificada (o escambo), gênese da forma-valor, que substituiu a partilha comunitária, e a troca não quantificada (doação de excedentes de produção) e que impôs a necessidade de existência de um equivalente geral que as facilitasse (uma mercadoria por todos aceita), tem-se a ideia (equivocada) de que a mercadoria dinheiro é apenas um mero instrumento de facilitação civilizatória da vida social, tanto quanto os grãos de trigo que se transformam em pão. 

Nos séculos 18 e 19, quando pipocavam as primeiras manifestações contrárias ao capitalismo, surgiram as falsas ideias:
— de que pode haver justa distribuição do dinheiro;
— de que há o capital bom, saudável, que impulsiona a produção; e
— de que existe também o capital parasitário, que se aproveita do suor daqueles que produzem mercadorias.
Frase que acolhia os infelizes em Auschwitz: O trabalho liberta.
Os nazistas tinham como bandeira o combate à usura, ao mesmo tempo em que glorificavam o trabalho abstrato (daí a célebre frase de apologia ao trabalho na entrada do campos de concentração), daí a perseguição aos judeus como se esses fossem a fonte de todo o mal.

A esquerda também incorreu e incorre nesse equívoco histórico, daí não só ter mantido a exploração patrocinada pelo capital via trabalho abstrato nos países que fizeram a revolução marxista exotérica em nome do proletariado, como endeusou dita categoria capitalista colocando nas suas bandeiras a foice e o martelo, símbolos da continuidade da exploração pelo trabalho, substância primária do valor como forma de mediação social.    

Todo capital é acumulação de valor, seja sob a forma dinheiro (mercadoria especial, a única que não tem valor de uso por si só, funcionando como o equivalente geral, mercadoria insensível, a abstração em si) ou sob a forma mercadoria, (sensível, capaz de satisfazer necessidades de consumo) advêm da mesma fonte: a apropriação indébita do valor produzido pelo trabalho abstrato e não pago ao trabalhador. 

Os capitais têm todos a mesma origem, posto que são decorrentes dessa apropriação indébita do valor produzido pelo trabalho abstrato que promove a segregação social e demais males próprios à sua constituição contraditória. 

Incorreu num erro histórico a esquerda quando, interpretando equivocadamente (ou apenas de modo oportunista e cômodo) a crítica da economia política de Karl Marx, entendeu que a acumulação do capital patrocinada por um Estado pretensamente proletário poderia dar à forma-valor um sentido humano e socialmente justo. 
Capitalismo devora a si próprio, "tal qual um enorme dragão"

O que se constatou, também historicamente, é que Marx tinha razão quando afirmou que a dinâmica autotélica de reprodução do capital tem regras próprias que exigem crescimento constante, de forma que, quando não consegue mais expandir-se, morre (tal qual um enorme dragão que, quanto mais cresce, mais precisa comer aquilo que produziu, numa escala crescente, até atingir um limite existencial). 

Assim, a mediação social feita sob seus critérios jamais poderia promover o bem estar social coletivo, caminhando para um impasse intransponível sob seus critérios acanhados.

Isto porque o capital tende a promover a acumulação ad infinitum, enquanto o consumo possui limites pré-estabelecidos e que se reduzem ao longo do tempo por força da própria exclusão social que gera, ainda que, ao mesmo tempo, proporcione luxo e conforto aos seus administradores (capitalistas privados ou estatais), que assim, como súditos fieis e obedientes que são, recebem a paga pelos seus satânicos serviços. 

Para cada riqueza suntuosa corresponde a miséria de grandes contingentes humanos segregados, pois a riqueza abstrata acumulada carrega sempre as manchas do sangue e do suor daqueles que a construíram com seus sacrifícios. 

É por não o compreenderem que os países que fizeram a revolução marxista do movimento operário experimentaram a mesma segregação social (ou até pior em alguns casos, tanto que caíram em descrédito popular) existente nos países que praticam o liberalismo de mercado e a malfadada democracia burguesa.
"A China agora defende a economia de mercado...
A lógica de reprodução do capital é comum aos países ditos marxistas ou liberais, estando a prova disto estampada na aparentemente contraditória postura da China, que agora defende a economia de mercado, enquanto os EUA intensificam o protecionismo de mercado. Cada um age dentro das circunstâncias momentâneas da lógica fetichista do sistema produtor de mercadorias e ambos têm o mesmo fim socialmente destrutivo e formalmente autodestrutivo. 

Nesse sentido, um dos mais evidentes sintomas de que estamos no começo do fim da mediação social patrocinada pela forma-valor (dinheiro e mercadorias) se corporifica na explosiva insustentabilidade do sistema financeiro de crédito mundial, cujos valores estratosféricos prenunciam sua transformação, ora em curso, em mero capital fictício sem substância, prestes a virar fumaça (como riqueza abstrata que é).   
   
O capital que rende juros (ou seja, o capital financeiro) é uma mercadoria que necessita do mercado para se auto-reproduzir da mesma maneira que o capital industrial ou comercial. Ambos vão, portanto, buscar a sua seiva vivificadora na atividade mercantil, que mais não é do que o sistema produtor de mercadorias. 

É graças a essa identidade de objetivos teleológicos que os capitais se identificam, ainda que em processos diferenciados. O capital financeiro opera na formula dinheiro que, vendido sob a forma de empréstimo, volta a ser dinheiro, aumentado (D-D’); o capital industrial e comercial opera na fórmula dinheiro aplicado na produção e comércio de mercadorias que, vendidas, voltam a ser dinheiro, aumentado (D-M-D’).  
...enquanto os EUA intensificam o protecionismo de mercado"

A sacralização do capital que opera na atividade produtora de mercadorias se deve ao fato de que ela produz emprego, o qual, ao invés de ser considerado uma forma de exploração do trabalhador, é positivado como fonte de sustentação do próprio trabalhador, mesmo que este seja subtraído na sua função de produtor de valor e tenha uma vida miserável em razão disso.

A demonização do capital financeiro decorre do fato de que ele parece ao vulgo popular como um sanguessuga da (pretensamente boa) atividade produtora de mercadoria. 

Direita e esquerda costumam considerar a atividade produtora de mercadorias como um dado ontológico da vida social e jamais questionam a sua existência (ainda que a esquerda critique a extração de mais-valia, fazendo-o, contudo, tão somente quando operada pelos capitalistas privados, pois aceita-a quando operada pelo capitalista chamado Estado). 

É deplorável que grande parte da esquerda, apesar de vir se comportando assim através do último século, continue se proclamando marxista! Alguns o fazem por ignorância do sentido geral da obra mais madura de Marx, outros por oportunismo vil. (por Dalton Rosado)
(continua neste post)
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