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segunda-feira, 8 de janeiro de 2024

O QUE OS OUTROS JORNALISTAS NÃO ESCREVERAM SOBRE O ZAGALLO

Para Médici, seria uma saia justa dividir os holofotes
do tri com um comunista. Os cartolas o atenderam...
É irritante a tendência bem brasileira de se passar pano nas facetas menos lisonjeiras de um famoso quando ele morre, postura criticável até mesmo num cidadão comum e simplesmente inaceitável em jornalistas. 

Estes últimos, em especial os da imprensa escrita, deveriam priorizar a verdade, ao invés de vergarem-se às conveniências, fazendo coro às coberturas quase sempre louvaminhas e apologéticas dos meios eletrônicos.

Zagallo foi mais coadjuvante do que protagonista durante a vida inteira, então não havia motivo para estender-me agora sobre ele. Mas, faço questão de lembrar o que tantos outros omitiram:
— como campeão mundial em 1958 e 1962, não passava de um carregador de piano para os jogadores decisivos brilharem. Só atuou porque Vicente Feola e Aymoré Moreira, respectivamente, optaram por um novo esquema tático (o 4-3-3), com Zagallo recuando para auxiliar na marcação e encorpar o meio-de-campo. Se a opção fosse pelo ponta-esquerda convencional do 4-2-4, Pepe teria ficado com a vaga, pois, como atacante, era imensamente superior;
— dirigido por Saldanha, dito João Sem Medo, o escrete deitou e rolou nas eliminatórias do Mundial de 1970, com as então chamadas feras do Saldanha goleando impiedosamente os adversários. Mas, o ditador Médici não queria que a seleção o tivesse como técnico nos gramados do México, por causa de sua notória proximidade com o PCB. Então, os solícitos cartolas armaram uma arapuca para descartá-lo, incitando o técnico flamenguista Yustrich a dar repulsiva declaração à imprensa, na qual fez referência a uma suposta infidelidade da esposa do Saldanha. Este saiu atrás do ofensor para tirar satisfações, dando pretexto para seu afastamento. Quem foi o técnico politicamente confiável que acabou herdando o cargo? O Zagallo.
Quando Médici pediu Dadá Maravilha no escrete, Saldanha
disse: "Ele não escala a seleção, nem eu escalo ministério".
Zagallo obedeceu ao ditador, mas deixou Dario na reserva
— em situações como essa, a cartolagem só derruba um treinador quando já tem outro engatilhado e concorde para assumir a vaga. Embora Yustrich houvesse sido levado a crer que, feito o serviço sujo, seria ele o agraciado, seu autoritarismo no trato com os jogadores era tão acentuado que lhe acarretava forte rejeição. A opção por um treinador mais palatável era pra lá de previsível e isto já deveria estar nos planos dos golpistas;
— a seleção tricampeã mundial foi a que Saldanha moldou nas eliminatórias, quando reergueu a confiança dos brasileiros (abalada pelo fiasco de 1966). A grande novidade foi a formação do chamado quadrado mágico (Gerson, Tostão, Pelé e Rivellino), mas ela não se deveu a Zagallo, que preferia Edu como ponta-esquerda. Os líderes do elenco, contudo, forçaram a escalação do jovem da patada atômica  e o Brasil fez sua Copa mais memorável, dentre todas as que venceu;
— em 1994 Zagallo, qualquer que fosse seu rótulo oficial, não passou do principal auxiliar de Carlos Alberto Parreira e é sabido que sua influência foi grande para que o técnico adotasse posturas excessivamente cautelosas, culminando no horroroso espetáculo que foi a final contra a Itália: 0x0 durante 120 minutos, mais a pífia vitória nos pênaltis; e
— jamais pode ser esquecida a infame expulsão do grande goleiro Barbosa, quando este, já septuagenário, tentou visitar a concentração do escrete em 1994. 

Ele havia sido injustamente estigmatizado e feito bode expiatório do maracanazo  (inclusive por ser afrodescendente, tanto que disseminou-se a partir daí o preconceito de que goleiros negros sempre falhariam nos momentos decisivos). 
"Alegria do povo", Garricha encantou o mundo com
a pureza do seu amor pelo futebol. Não o merecemos.



O pobre Barbosa, após tanto sofrer por causa de uma única decisão errada (adiantou-se para interceptar o provável cruzamento do ponta Ghighia, pois assim nascera o tento de empate dos uruguaios, mas o atacante surpreendeu-o ao arrematar para o gol), ainda foi exposto e humilhado, 44 anos depois (!), como 
pé frio

Os jornalistas que cobriam o dia a dia em Teresópolis garantiram que tal atitude, raríssima num indivíduo cordial como Parreira, teve como forte instigador o Zagallo, que era, sabidamente, um homem supersticioso ao extremo.

É óbvio que Zagallo também teve lá seus méritos. Mas eles já foram desmedidamente exaltados pelos meus colegas, a ponto de um deles pretender que haja sido o segundo jogador mais importante da seleção canarinha em todos os tempos, acima até de Garrincha,  que carregou seu escrete nas costas em 1962 (feito só igualado pelo Maradona em 1986). 

Que enorme disparate! Quanta ingratidão com o genial Mané!

Enfim, faltava mostrar este outro lado do endeusado da vez, para restabelecer o equilíbrio que os textos jornalísticos, mesmo os necrológios, sempre deveriam ter. (por Celso Lungaretti)

terça-feira, 30 de novembro de 2021

A ESTRELA SOLITÁRIA BRILHA DE NOVO NA DIVISÃO DE ELITE DO FUTEBOL BRASILEIRO

dalton rosado
A RESSURREIÇÃO DO BOTAFOGO
Nasci no Rio Comprido, bairro pobre da zona Norte da Cidade Maravilhosa, e lá vivi a primeira infância.

O Rio de Janeiro era a cidade cultural do país e sede do Governo Federal nos anos 50, os chamados anos dourados do pós-guerra. Minha mãe, uma nordestina arretada, falava do Rio como quem fala do paraíso. 

Naquele tempo a maior malandragem era vender o Pão de Açúcar com bondinho e tudo aos caipiras ricos que vinham conhecer a capital federal.

Pré-adolescência em Belo Horizonte e adolescência em Mossoró, Rio Grande do Norte, terra da minha mãe (dos 10 aos 20 anos).
Meu pai era mineiro de Mariana e eu moro há 51 anos em Fortaleza, cidade que me acolheu e na qual construí minha história pessoal já longeva. Sou a síntese da brasilidade de que falou Chico Buarque numa de suas belas canções. 

Aprendi a gostar do Botafogo ainda na adolescência. Eis os ingredientes que me faziam admirá-lo:
— não era um time da elite carioca, nem estava entre os mais ricos; 
— não possuía a maior torcida, mas era muito teimoso no enfrentamento dos poderosos Flamengo, Fluminense e Vasco. 

Sempre tive a mania de ficar do lado dos aparentemente mais fracos e o Botafogo era o mais modesto dentre os quatro maiorais em termos financeiros. 

O Fluminense era o clube da fina flor da sociedade carioca, muito refinado para o meu coração plebeu. Dizem que por lá, após uma derrota, os torcedores ricos iam dançar valsas e polcas e comer quitutes nas Laranjeiras. O apelido de pó de arroz vem daí. 

Acho que o Vasco, por ser o time que mais cedo aceitou jogadores de ascendência africana em seu elenco. seria o segundo na minha simpatia. 
O ataque demolidor de 1962, da esq. p/ a dir.:
Garrincha, Didi, Amarildo, Quarentinha e Zagallo.
Mas, era impossível eu não gostar daquele time de 1962 (quando eu tinha 12 anos): 
— cuja linha era composta por Garrincha, Didi, Quarentinha, Amarildo e Zagalo;
— que na defesa tinha a enciclopédia do futebol que atendia pelo nome de Nilton Santos; 
— e que no contava com a coragem de Manga, o goleiro que defendia os arremates pegando a bola com uma única mão. 

Este último,  grande pernambucano que depois foi campeão brasileiro e brilhou mundo afora, ficou marcado por, como reserva de Gylmar dos Santos Neves na Copa do Mundo de 1966, ter sido o titular logo na partida das oitavas de final que decidiria a vaga (Gylmar atuara na vitória contra a Bulgária e na derrota diante da Hungria). Manga e todo o escrete jogaram mal e os portugueses nos despacharam para casa: 3x1.  

Os embates na década de 1960 com o Santos de Dorval, Mengálvio, Coutinho, Pelé e Pepe, que juntos formavam o ataque da seleção brasileira de então, ficaram na memória futebolística brasileira como espetáculos de rara arte e alegria. Pelé como o rei e Garrincha como a alegria do povo.  

Mesmo antes de ver quatro de seus jogadores se tornarem campeões mundiais nas copas de 1958 e 1962, o Botafogo já tinha história. 
Manga, hoje com 84 anos, foi o primeiro ex-jogador aceito
no Retiro dos Artistas do RJ, para veteranos empobrecidos
 

Fora tetracampeão do Rio de Janeiro de 1932 a 1935, com um time que tinha o brilhante Carvalho Leite e Patesko. 
Depois veio Heleno de Freitas, um fenômeno de elegância e categoria, bem como Paulo Valentim, da estirpe dos craques brasileiros que logo se situariam entre os melhores do mundo. 

[Só que ainda não sabíamos disso e sofríamos com o complexo de vira-latas, expressão cunhada por Nelson Rodrigues e sua sensibilidade arguta.]

Pelé e Garrincha em 1958, com o esquete de ouro, nos colocou no patamar que deveríamos estar perante o mundo (bola para isto já tínhamos há muito tempo). 

Uma nova leva de craques surgiu no final dos anos 60: Jairzinho, Gerson, Rivellino, Rogério, Zequinha, Paulo César Caju. 

[Foi este último que o carrasco Médici quis vetar ainda nas eliminatórias do Mundial Fifa de 1970, talvez porque o apelido caju se devesse à sua admiração pelos panteras negras, movimento revolucionário estadunidense, que o fez tingir seu cabelo de vermelho, algo inusitado na época.

João Saldanha, botafoguense de quatro costados e simpatizante comunista, ousou mantê-lo no escrete, dizendo que não dava palpite quando o presidente escalava seus ministros nem aceitava palpite ao escalar seus jogadores; e que o Paulo César Lima poderia não servir como genro, mas serviria para trazermos definitivamente a Jules Rimet (taça que, adiante, vergonhosamente deixaríamos larápios furtarem da sede da CBF).]  
Na sua última grande exibição pelo Botafogo, em 15/12/1962, Garrincha
foi o herói da decisão carioca: marcou 2 gols e de um centro seu saiu o 3º
Muitos outros sequenciaram a galeria de craques do Botafogo como o prezado amigo Afonsinho, Valtencir, Marinho Chagas, Mendonça, Donizeth Pantera, Túlio Maravilha, Leônidas, Gonçalves, Maurício, etc., etc., etc.  

O Botafogo sempre foi celeiro das vitoriosas seleções brasileiras e alguma coisa me diz que voltaremos a ganhar quando o Botafogo novamente forjar grandes craques nas suas fileiras. 

Ressurgimos das cinzas e o botafogo está embalado, viu? (por Dalton Rosado)
Homenagem ao título do glorioso, com letra e música do Dalton

quinta-feira, 7 de junho de 2018

TRIBUTO ÀS CHUTEIRAS IMORTAIS – 5: O PENTA DA 'FAMÍLIA SCOLARI' (2002)

Em 1998 o Brasil perdeu o Mundial da França por causa da lambança de um enfermeiro, das rixas no seio do elenco e da pusilanimidade do técnico Zagallo.

Não vinha mesmo fazendo campanha brilhante: fora derrotado pela Noruega (1x2) na 1ª fase e necessitara dos pênaltis para despachar a Holanda nas semifinais (1x1 + 4x2).

Pior: a liderança do grupo era disputada por Dunga (apoiado pelos veteranos de 1994) e Bebeto (o preferido dos novatos), com direito a uma cabeçada do brucutu no bebê chorão durante a partida contra o Marrocos.

Poucas horas antes da final contra os anfitriões, Ronaldo Fenômeno recebe uma rotineira infiltração de xilocaína para diminuir as dores no seu joelho. Mal aplicada: atingiu uma veia e espalhou-se na corrente sanguínea, fazendo com que, 10 minutos depois, ele entrasse em convulsão.

Zagallo, acertadamente, pretendeu substitui-lo pelo animal Edmundo. Mas, o inacreditável Ricardo Teixeira, presidente da CBF, impôs uma mudança de escalação na enésima hora, em benefício do garoto-propaganda da Nike, que voltava sonado do tratamento de emergência.

Dunga ainda tentou dar força a Zagallo, para que mantivesse a decisão sensata. Mas, Bebeto usou sua influência no sentido oposto, favorecendo a aceitação do ultimato de Teixeira.


Inexistindo unanimidade no grupo, Zagallo ficou com as mãos livres... para submeter-se ao cartola-mor, como sempre.


Os jogadores levaram para o campo os rancores do vestiário, fazendo exibição das mais apáticas no 1º tempo. Era tudo de que Zidaine precisava para praticamente liquidar o Brasil: 0x2.

Convulsão do Ronaldo convulsionou o vestiário brasileiro...

Quando acordaram, já era tarde. A França resistiu à pressão brasileira, marcou outro gol em contra-ataque e poderia ter feito mais. A goleada por 0x3 saiu barata.


A frustração por haver deixado escapar uma Copa tida como ganha ainda se fazia sentir nas eliminatórias para o Mundial seguinte.


Em suas 18 partidas o Brasil foi dirigido por nada menos do que quatro técnicos: Luxemburgo, Candinho, Leão e Felipão. Acabou por garantir sua vaga apenas na última rodada, ficando 13 pontos atrás da Argentina e só três à frente do Uruguai (repescagem) e da Colômbia (desclassificada).


Luiz Felipe Scolari, técnico de conceitos rústicos e perfil autoritário, era malvisto pela cartolagem, pois não se prostrava diante dela.


Assombrados pelo fantasma da desclassificação, os dirigentes, entretanto, acabaram cedendo à pressão dos torcedores, para quem, depois do fracasso de Luxemburgo, Felipão se tornara unanimidade – como consequência, principalmente, de seu ótimo currículo em mata-matas da Copa Libertadores da América.
A torcida pediu Romário, Felipão negou
Não foi nada além de razoável (três vitórias e três derrotas), mas segurou o rojão num momento crítico, bem de acordo com sua imagem de homem forte.

De quebra indispôs-se com Romário, por suposta ou real má vontade do baixinho para com o escrete. Afastou-o definitivamente, apesar do seu pedido de desculpas público e do lobby de cartolas & imprensa esportiva.

Situação paradoxal: queda de braço entre um técnico que era preferência nacional e um jogador, idem.

Para dar a volta por cima, Felipão fez uma jogada arriscadíssima, contrapondo um mito a outro mito: escolheu Ronaldo Fenômeno como seu artilheiro, embora viesse em maré de fracassos, contusões graves e longos períodos de convalescença, desde a fatídica final contra a França em 1998.

Com seu carisma e habilidade motivacional, aproveitou as críticas à Seleção para fechar o grupo em torno de si. Era a Família Scolari  lutando contra tudo e contra todos.

E a sorte o bafejou: não só Ronaldo renasceu das cinzas na Copa da Coréia do Sul/Japão, como a Seleção teve a tarefa facilitada por enfrentar as galinhas mortas que pediu a Deus.

Treinou contra a China (4x0), Costa Rica (5x2) e desperdiçou duas vezes a oportunidade de golear a incipiente Turquia, vencendo-a apenas por 2x1 na 1ª fase e 1x0 na semifinal (gol de Ronaldo, em bela arrancada pela meia-esquerda).
O adversário mais difícil de superar a caminho do penta foi a Inglaterra

Nas oitavas-de-final, a Bélgica chegou a dar algum trabalho a são Marcos (um dos destaques da campanha), mas Rivaldo e Ronaldo resolveram. 2x0.

O único adversário de verdade foi o das quartas-de-final: a Inglaterra de Beckham, Owen e Campbell, que sobrevivera ao grupo da morte na 1ª fase (vencendo a Argentina e empatando com a Suécia e a Nigéria) e vinha de golear a Dinamarca. Não havia favorito.

Uma rara falha de Lúcio propiciou gol a Owen, mas o personagem do jogo seria Ronaldinho Gaúcho:

Seaman não conhecia Ronaldinho
  • carregando a bola do meio-de-campo até a entrada da área, serviu Rivaldo livre, para este empatar;
  • cobrando falta da zona morta (na intermediária, junto à lateral), acertou chute primoroso, encobrindo o goleiro David Seaman, que esperava um cruzamento; e
  • foi expulso logo em seguida por causa de uma solada, mas os dez restantes souberam segurar o 2x1.
Depois de fazer a lição de casa contra a Turquia, teve pela frente uma Alemanha que nem sequer cogitava chegar à final: seu objetivo era preparar o time para a Copa seguinte, que iria disputar em casa.

Vitória, com autoridade, do Brasil de Marcos; Cafu, Lúcio, Edmilson, Roque Jr. e Roberto Carlos; Gilberto Silva, Kleberson e Ronaldinho Gaúcho (Juninho Paulista); Rivaldo e Ronaldo (Denilson).


Já criara mais chances no 1º tempo, quando Kleberson acertou o travessão e Oliver Kahn, o melhor goleiro do Mundial, andou fazendo defesas difíceis.


Decidiu no 2º. A tarefa foi facilitada por uma inusitada falha de Khan, que bateu roupa num chute forte mas defensável de Rivaldo, deixando Ronaldo à vontade para abrir o marcador.

A Alemanha saiu para o jogo e, em rápido contra-ataque pela direita, Kleberson cruzou, Rivaldo deixou passar e Ronaldo colocou no canto: 2x0.


Terminou a campanha com estatísticas invejáveis:
O Fenômeno deu a volta por cima, fazendo esquecer 1998
  • só vitórias, como em 1970 (quando um campeão jogava seis vezes, e não as atuais sete);
  • melhor ataque (18 gols);
  • artilheiro (Ronaldo, 8);
  • um dos vice-artilheiros (Rivaldo, 5, na companhia de Miroslav Klose, da Alemanha);
  • uma das melhores defesas (4 gols sofridos, atrás apenas da Alemanha, 3); e
  • melhor saldo de gols (14) de um campeão nos 20 Mundiais jogados até hoje (a Alemanha igualou o saldo 14 em 2014, disputando, contudo, duas prorrogações).
Sem ser um esquadrão dos sonhos como os de 1958, 1970 e 1982, soube fazer valer a experiência e a qualidade técnica do seu elenco.

Na empolgação da conquista, contudo, os brasileiros valorizaram em demasia um treinador que apenas soubera aproveitar bem o elenco superior que tinha nas mãos. 

Do dia para a noite, o Felipão virou estrela de palestras de liderança para empresários, como se fossem de grande valia lições como a do que se deve fazer quando o concorrente esnoba sua empresa. 

Deveriam eles correr atrás dos rivais para agredi-los (como Scolari instigou Paulo Nunes a fazer numa decisão de Campeonato Paulista, aos gritos de "Pega!", "Pega!", "Pega!")? 

Como diziam os antigos, quanto mais alto o coqueiro, maior é o tombo. O Felipão aprenderia isto em 2014.

quarta-feira, 1 de janeiro de 2014

O FANTASMA DE UM NOVO MARACANAZO NOS RONDA

Nasci dois meses e meio após o maracanazo. Cansei de ouvir meu pai rememorando o desânimo que se abateu sobre o povo brasileiro naquele domingo agourento, a ponto de nem mesmo os solteiros saírem na principal rua do bairro para o tradicional footing (ficavam, em grupinhos masculinos e femininos, circulando por dois quarteirões, para engatarem papos e iniciarem namoros). 

E, mesmo não tendo visto o grande goleiro Barbosa jogar, fiquei enojado ao saber como foi hostilizado por nossos imaturos torcedores, que sempre precisam de um bode expiatório para as derrotas mais sofridas.

O que ocorreu, na verdade? O ótimo ponta-direita Ghiggia fazia a festa em cima do limitado e truculento lateral Bigode. De um dos seus centros surgiu o gol de empate uruguaio.

Quando Ghiggia novamente se desvencilhou de Bigode e ameaçava cruzar, o pobre Barbosa deu um passo à frente, pensando em interceptar o centro. 

Mas o adversário não era bobo e aproveitou o vãozinho que se abriu entre o arqueiro e a trave para colocar a bola diretamente nas redes. Que goleiro nunca sofreu um gol desses?!

A infame estigmatização abalou tanto Barbosa que ele permaneceu deprimido e inseguro até 1953, quando quebrou a perna e a torcida do Botafogo foi, em peso, visitá-lo no hospital. Só então conseguiu dar a volta por cima. 

O que não impediu o supersticioso Zagallo de, como técnico da Seleção Brasileira durante as eliminatórias do Mundial de 1998, proibir que Barbosa pusesse os pés na concentração para uma visita, afirmando que o goleiro era pé frio. Quanta pequenez!

Enfim, é isto o que me veio à mente ao iniciar, já sexagenário, o ano do segundo Mundial a ser disputado no Brasil.

A nova oportunidade demorou tanto! E eu temo que novamente a desperdiçaremos, pois é estratosférica a inferioridade do sargentão Felipão em relação aos técnicos de ponta do futebol atual. 

Hoje, mais do que nunca, organização tática e competência estratégica ganham jogos. Os melhores adversários terão nos bancos verdadeiros enxadristas, a manejar seus efetivos como se fossem peões, cavalos, torres, bispos e rainhas. E nós, um mero jogador de damas, ajudado por um palpiteiro (Parreira) que copia esquemas alheios mas não cria nenhum.

Também já vai longe o tempo em que contávamos com craques capazes de fazer a diferença. Alemanha e Espanha nos superam nitidamente quanto à qualidade média do elenco.

Então, um olhar realista nos coloca atrás de ambas, no terceiro lugar da relação dos favoritos, ao lado da Argentina: dois escretes que dependerão exageradamente do desempenho de seu único fora-de-série. Tanto Messi poderá carregar a Argentina nas costas como Neymar compensar sozinho as deficiências do ultrapassado comandante. 

Repetiriam o que Maradona fez em 1986 e Garrincha em 1962, as duas Copas mais nitidamente conquistadas graças ao brilho de estrelas solitárias.

O que Neymar nunca conseguirá fazer é impedir que sintamos ganas de vomitar cada vez que o filhote da ditadura José Maria Marin for focalizado pelas tevês do mundo inteiro como o dirigente máximo do futebol brasileiro.

A obrigação de evitar tamanho opróbrio era, em primeiro lugar, do ministro dos Esportes Aldo Rebelo. 

Sua omissão foi pior, muito pior, do que o baile que o Bigode levou em 1950 e o gol que o Barbosa aceitou...

ISTO É FELIPÃO

"Felipão foi aplaudido quando elogiou a devoção de Daniel Alves à seleção e ao país, por não ter cumprimentado seus companheiros de Barcelona, na final da Copa das Confederações.

Parece até que um atleta, para jogar bem, com garra e comprometimento com a seleção, precisa ser mal-educado e tratar os adversários como inimigos."

Palavras de Tostão, que foi craque como jogador e é craque como comentarista.

Mais ainda por se conservar um humanista e um brasileiro cordial, resistindo ao clima de belicosidade tribal que Marin e Felipão tenta insuflar na torcida brasileira, bem ao estilo das Copas disputadas durante as ditaduras militares.

Ainda em suas ponderações sobre a entrevista dada por Scolari no encontro de fim de ano dos treinadores, Tostão veio ao encontro de outra de minhas avaliações, ao destacar que ele recorre muito à "tática de faltas para parar os lances". E deu, de graça, mais uma lição de esportividade a Felipão (a qual, provavelmente, entrará por um ouvido e sairá pelo outro):
"As grandes equipes não precisam fazer isso para desarmar, vencer e brilhar"

quarta-feira, 18 de abril de 2012

O SER E O NADA

Desculpem-me o erro na proporção:
não achei foto menor do 2º personagem
Como jogador, Mário Lobo Zagallo foi bicampeão mundial de futebol pela Seleção Brasileira (1958 e 1962).

Como técnico, campeão em 1970.

Como auxiliar técnico, ajudou Carlos Alberto Parreira a vencer o Mundial de 1994.

Ou seja, participou de quatro das cinco maiores conquistas do nosso futebol em todos os tempos.

Quer ser vice-presidente da região Sudeste da Confederação Brasileira de Futebol.

Não deveria almejar companhia tão deplorável... começando pela de quem rouba medalhas ao invés de as conquistar. 

Mas, é o que ele quer. Fazermos o quê? Pouquíssimo nos pede, em comparação com tanto que deu.

Ademais, sendo octogenário, merece todas as homenagens que possamos prestar-lhe enquanto estiver conosco.

Mas, os presidentes das federações estaduais tendem a elegerem para o cargo um cartola tão insignificante e inútil como quase todos da sua espécie.

Cujo nome só é lembrado por algum torcedor pelo fato de ser a chamada  piada pronta, misturando um grande viajante e um péssimo imperador.

Somos ingratos ao extremo com aqueles que lavaram nossa alma e nos fizeram ter orgulho de ser brasileiros.
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