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segunda-feira, 8 de janeiro de 2024

O QUE OS OUTROS JORNALISTAS NÃO ESCREVERAM SOBRE O ZAGALLO

Para Médici, seria uma saia justa dividir os holofotes
do tri com um comunista. Os cartolas o atenderam...
É irritante a tendência bem brasileira de se passar pano nas facetas menos lisonjeiras de um famoso quando ele morre, postura criticável até mesmo num cidadão comum e simplesmente inaceitável em jornalistas. 

Estes últimos, em especial os da imprensa escrita, deveriam priorizar a verdade, ao invés de vergarem-se às conveniências, fazendo coro às coberturas quase sempre louvaminhas e apologéticas dos meios eletrônicos.

Zagallo foi mais coadjuvante do que protagonista durante a vida inteira, então não havia motivo para estender-me agora sobre ele. Mas, faço questão de lembrar o que tantos outros omitiram:
— como campeão mundial em 1958 e 1962, não passava de um carregador de piano para os jogadores decisivos brilharem. Só atuou porque Vicente Feola e Aymoré Moreira, respectivamente, optaram por um novo esquema tático (o 4-3-3), com Zagallo recuando para auxiliar na marcação e encorpar o meio-de-campo. Se a opção fosse pelo ponta-esquerda convencional do 4-2-4, Pepe teria ficado com a vaga, pois, como atacante, era imensamente superior;
— dirigido por Saldanha, dito João Sem Medo, o escrete deitou e rolou nas eliminatórias do Mundial de 1970, com as então chamadas feras do Saldanha goleando impiedosamente os adversários. Mas, o ditador Médici não queria que a seleção o tivesse como técnico nos gramados do México, por causa de sua notória proximidade com o PCB. Então, os solícitos cartolas armaram uma arapuca para descartá-lo, incitando o técnico flamenguista Yustrich a dar repulsiva declaração à imprensa, na qual fez referência a uma suposta infidelidade da esposa do Saldanha. Este saiu atrás do ofensor para tirar satisfações, dando pretexto para seu afastamento. Quem foi o técnico politicamente confiável que acabou herdando o cargo? O Zagallo.
Quando Médici pediu Dadá Maravilha no escrete, Saldanha
disse: "Ele não escala a seleção, nem eu escalo ministério".
Zagallo obedeceu ao ditador, mas deixou Dario na reserva
— em situações como essa, a cartolagem só derruba um treinador quando já tem outro engatilhado e concorde para assumir a vaga. Embora Yustrich houvesse sido levado a crer que, feito o serviço sujo, seria ele o agraciado, seu autoritarismo no trato com os jogadores era tão acentuado que lhe acarretava forte rejeição. A opção por um treinador mais palatável era pra lá de previsível e isto já deveria estar nos planos dos golpistas;
— a seleção tricampeã mundial foi a que Saldanha moldou nas eliminatórias, quando reergueu a confiança dos brasileiros (abalada pelo fiasco de 1966). A grande novidade foi a formação do chamado quadrado mágico (Gerson, Tostão, Pelé e Rivellino), mas ela não se deveu a Zagallo, que preferia Edu como ponta-esquerda. Os líderes do elenco, contudo, forçaram a escalação do jovem da patada atômica  e o Brasil fez sua Copa mais memorável, dentre todas as que venceu;
— em 1994 Zagallo, qualquer que fosse seu rótulo oficial, não passou do principal auxiliar de Carlos Alberto Parreira e é sabido que sua influência foi grande para que o técnico adotasse posturas excessivamente cautelosas, culminando no horroroso espetáculo que foi a final contra a Itália: 0x0 durante 120 minutos, mais a pífia vitória nos pênaltis; e
— jamais pode ser esquecida a infame expulsão do grande goleiro Barbosa, quando este, já septuagenário, tentou visitar a concentração do escrete em 1994. 

Ele havia sido injustamente estigmatizado e feito bode expiatório do maracanazo  (inclusive por ser afrodescendente, tanto que disseminou-se a partir daí o preconceito de que goleiros negros sempre falhariam nos momentos decisivos). 
"Alegria do povo", Garricha encantou o mundo com
a pureza do seu amor pelo futebol. Não o merecemos.



O pobre Barbosa, após tanto sofrer por causa de uma única decisão errada (adiantou-se para interceptar o provável cruzamento do ponta Ghighia, pois assim nascera o tento de empate dos uruguaios, mas o atacante surpreendeu-o ao arrematar para o gol), ainda foi exposto e humilhado, 44 anos depois (!), como 
pé frio

Os jornalistas que cobriam o dia a dia em Teresópolis garantiram que tal atitude, raríssima num indivíduo cordial como Parreira, teve como forte instigador o Zagallo, que era, sabidamente, um homem supersticioso ao extremo.

É óbvio que Zagallo também teve lá seus méritos. Mas eles já foram desmedidamente exaltados pelos meus colegas, a ponto de um deles pretender que haja sido o segundo jogador mais importante da seleção canarinha em todos os tempos, acima até de Garrincha,  que carregou seu escrete nas costas em 1962 (feito só igualado pelo Maradona em 1986). 

Que enorme disparate! Quanta ingratidão com o genial Mané!

Enfim, faltava mostrar este outro lado do endeusado da vez, para restabelecer o equilíbrio que os textos jornalísticos, mesmo os necrológios, sempre deveriam ter. (por Celso Lungaretti)

quarta-feira, 1 de janeiro de 2014

O FANTASMA DE UM NOVO MARACANAZO NOS RONDA

Nasci dois meses e meio após o maracanazo. Cansei de ouvir meu pai rememorando o desânimo que se abateu sobre o povo brasileiro naquele domingo agourento, a ponto de nem mesmo os solteiros saírem na principal rua do bairro para o tradicional footing (ficavam, em grupinhos masculinos e femininos, circulando por dois quarteirões, para engatarem papos e iniciarem namoros). 

E, mesmo não tendo visto o grande goleiro Barbosa jogar, fiquei enojado ao saber como foi hostilizado por nossos imaturos torcedores, que sempre precisam de um bode expiatório para as derrotas mais sofridas.

O que ocorreu, na verdade? O ótimo ponta-direita Ghiggia fazia a festa em cima do limitado e truculento lateral Bigode. De um dos seus centros surgiu o gol de empate uruguaio.

Quando Ghiggia novamente se desvencilhou de Bigode e ameaçava cruzar, o pobre Barbosa deu um passo à frente, pensando em interceptar o centro. 

Mas o adversário não era bobo e aproveitou o vãozinho que se abriu entre o arqueiro e a trave para colocar a bola diretamente nas redes. Que goleiro nunca sofreu um gol desses?!

A infame estigmatização abalou tanto Barbosa que ele permaneceu deprimido e inseguro até 1953, quando quebrou a perna e a torcida do Botafogo foi, em peso, visitá-lo no hospital. Só então conseguiu dar a volta por cima. 

O que não impediu o supersticioso Zagallo de, como técnico da Seleção Brasileira durante as eliminatórias do Mundial de 1998, proibir que Barbosa pusesse os pés na concentração para uma visita, afirmando que o goleiro era pé frio. Quanta pequenez!

Enfim, é isto o que me veio à mente ao iniciar, já sexagenário, o ano do segundo Mundial a ser disputado no Brasil.

A nova oportunidade demorou tanto! E eu temo que novamente a desperdiçaremos, pois é estratosférica a inferioridade do sargentão Felipão em relação aos técnicos de ponta do futebol atual. 

Hoje, mais do que nunca, organização tática e competência estratégica ganham jogos. Os melhores adversários terão nos bancos verdadeiros enxadristas, a manejar seus efetivos como se fossem peões, cavalos, torres, bispos e rainhas. E nós, um mero jogador de damas, ajudado por um palpiteiro (Parreira) que copia esquemas alheios mas não cria nenhum.

Também já vai longe o tempo em que contávamos com craques capazes de fazer a diferença. Alemanha e Espanha nos superam nitidamente quanto à qualidade média do elenco.

Então, um olhar realista nos coloca atrás de ambas, no terceiro lugar da relação dos favoritos, ao lado da Argentina: dois escretes que dependerão exageradamente do desempenho de seu único fora-de-série. Tanto Messi poderá carregar a Argentina nas costas como Neymar compensar sozinho as deficiências do ultrapassado comandante. 

Repetiriam o que Maradona fez em 1986 e Garrincha em 1962, as duas Copas mais nitidamente conquistadas graças ao brilho de estrelas solitárias.

O que Neymar nunca conseguirá fazer é impedir que sintamos ganas de vomitar cada vez que o filhote da ditadura José Maria Marin for focalizado pelas tevês do mundo inteiro como o dirigente máximo do futebol brasileiro.

A obrigação de evitar tamanho opróbrio era, em primeiro lugar, do ministro dos Esportes Aldo Rebelo. 

Sua omissão foi pior, muito pior, do que o baile que o Bigode levou em 1950 e o gol que o Barbosa aceitou...

ISTO É FELIPÃO

"Felipão foi aplaudido quando elogiou a devoção de Daniel Alves à seleção e ao país, por não ter cumprimentado seus companheiros de Barcelona, na final da Copa das Confederações.

Parece até que um atleta, para jogar bem, com garra e comprometimento com a seleção, precisa ser mal-educado e tratar os adversários como inimigos."

Palavras de Tostão, que foi craque como jogador e é craque como comentarista.

Mais ainda por se conservar um humanista e um brasileiro cordial, resistindo ao clima de belicosidade tribal que Marin e Felipão tenta insuflar na torcida brasileira, bem ao estilo das Copas disputadas durante as ditaduras militares.

Ainda em suas ponderações sobre a entrevista dada por Scolari no encontro de fim de ano dos treinadores, Tostão veio ao encontro de outra de minhas avaliações, ao destacar que ele recorre muito à "tática de faltas para parar os lances". E deu, de graça, mais uma lição de esportividade a Felipão (a qual, provavelmente, entrará por um ouvido e sairá pelo outro):
"As grandes equipes não precisam fazer isso para desarmar, vencer e brilhar"
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