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terça-feira, 6 de julho de 2021

QUANTO VALE A VIDA DE CADA BRASILEIRO? R$ 1 MILHÃO? "ABSURDO!", DIZEM OS RICOS E PODEROSOS. JÁ 1 DÓLAR LHES SOA MELHOR

O
s abomináveis companheiros de jornada do governo incorruptível decidiram que a aquisição de vacinas para salvar a vida de brasileiros só poderia ser permitida se lhes pagassem a propina de 1 dólar por cada um dos imunizantes em questão, totalizando cerca de R$ 1 bilhão como butim a ser rateado entre eles.

Talvez seja por isso que a mineradora Vale do Rio Doce esteja esperneando tanto para não pagar R$ 1 milhão pela vida de cada trabalhador que morreu como consequência do seu desleixo criminoso, ao ignorar os alertas dos técnicos de que sua barragem em Brumadinho (MG) estava sob risco de ruptura iminente, como acabou acontecendo em janeiro de 2091.

Condenada a indenizar em R$ 1 milhão, por danos morais, os herdeiros dos funcionários mortos na ocasião, a Vale está recorrendo da sentença.

Alternativamente, reivindica que não recebam tal quantia as famílias de cada um dos trabalhadores vitimados, mas apenas as dos 131 que eram seus funcionários diretos, deixando de fora as dos 139 pertencentes a empresas contratadas.

Sem nenhum pudor, a mineradora declara que seria "absurdo" pagar R$ 270 milhões pela vida desses brasileiros que sua ganância dizimou, o que explica a sua postura de, repulsivamente, regatear, tentando reduzir o custo pela metade.

Os parasitas do bolsonarismo se contentam com bem menos: os 5 reais e pouco que o dólar está valendo.

Esse é o Brasil nos estertores de um governo genocida.

Isso é o capitalismo tentando sobreviver ao fim da sua vida útil, mesmo havendo grande chance de, com a desumanidade das decisões tomadas também na esfera climática, conduzir nossa espécie à extinção. (por Celso Lungaretti)

sábado, 30 de março de 2019

PARA NOSSO PRESIDENTE, ERAM TEMPOS DOURADOS; PARA OS POBRES, ANOS DE PENÚRIA, INCERTEZAS E AMARGURAS

encontro com a ditadura – 7
Por força da idade, não me é possível falar sobre minhas memórias da ditadura: como sou de 1988, vim ao mundo plenamente na Nova República. Porém, posso trazer-lhes o testemunho de parentes.

Ao contrário de outros, não vou relembrar prisões, torturas ou assassinatos; abordarei um aspecto hediondo da ditadura que não era totalmente visível para a classe média urbana da época. Falarei, em geral, de como era a vida nos grotões do Brasil sob o regime militar, relatando um pouco da experiência de meus pais, que cresceram durante o período da ditadura. 

Venho de uma família pobre de origem rural. Meu pai e minha mãe nasceram numa cidade do interior de Minas Gerais, da região de Governador Valadares, região mais conhecida como Vale do Rio Doce, a qual emprestou seu nome à companhia de minério. 

Apesar de ser, sem dúvida, uma das regiões mais ricas do mundo em minério de ferro, é também uma das mais pobres do estado. Quem ainda hoje viaja pela linha de trem que liga Belo Horizonte ao Espírito Santo, se depara com lugarejos miseráveis e crianças vendendo picolés e água nas estações. Até alguns anos atrás, os mais desavisados dos passageiros perdiam bonés e relógios, furtados por ladrões que se aproximavam do trem estacionado. 

A cidade dos meus pais não teve a sorte de possuir uma linha de trem passando por ela. Foi sempre um grotão enfiado no meio do nada.

Meus pais eram de família agricultora. Viviam da plantação de auto-subsistência, vendendo o excedente para tirar um pouco de dinheiro. 

A família da minha mãe possuía ao menos uma terra própria para plantio, enquanto a família do meu pai vivia do empréstimo de terras de terceiros, a famosa meia. Sim, um sistema de produção medieval ainda existia no interior brasileiro da segunda metade do século XX. 

Não existiam escolas e as começavam a trabalhar na plantação tão logo atingissem tamanho suficiente. A família numerosa – justamente para gerar ampla mão-de-obra no roçado – forçava um processo de criação familiar descentralizada, com os irmãos maiores cuidando dos menores e todos dependendo do acaso. 

Mortes por doenças eram corriqueiras. Pelos relatos de meus pais, chegam a quase uma dezena – somando os dois lados – o número de mortes prematuras de irmãos e irmãs. Cólera, febre amarela, doenças intestinais ou anemia eram motivos comuns. 

A fome era uma constante. Quando a plantação ia mal ou (no caso do meu pai) não se encontrava terra para trabalhar, o jeito era racionar a comida entre as numerosas bocas e esperar por uma sorte melhor. Não havia qualquer ajuda governamental para minorar a situação. 

Em geral, conforme disse, não havia escolas. E quando existiam eram elitizadas, pois as crianças pobres não podiam ser desviadas do trabalho (meu pai, p. ex., só terminou a 4ª série primária quando já era adolescente e o ensino médio quando chegava à idade de 40 anos). 

A própria agricultura praticada pelas famílias de meus pais era rústica, baseada na enxadinha e no plantio intuitivo, seguindo a ocorrência ou não de chuvas. Não havia apoio de tecnologia ou de conhecimentos técnicos. Ainda hoje, se a antiga casa de minha mãe for visitada, é possível ver os moedores manuais de arroz e o fogão à lenha. Na década de 1990 ainda se usavam lamparinas de querosene para iluminar a casa. 

Igual a milhões de outros, meu pai emigrou para a capital, Belo Horizonte, na década de 70, fugindo justamente desta miséria. Nela encontrou uma situação um pouco melhor, mas não radicalmente diferente. Morava na periferia, num barracão também sem luz nem água encanada. 

O baixo salário tornava difícil até a compra de um simples rádio de pilha e o desemprego tornou-se corriqueiro após o malogro do milagre econômico. 

O presidente Bolsonaro e sua turma podem muito bem sentir falta dos anos de chumbo, pois desfrutavam das benesses  do poder e viviam na bonança, bem nutridos em bairros de classe média. 

Mas o povo sofrido, que via seus filhos morrerem por desnutrição e que vivia na incerteza sobre se teria  pão em sua mesa no dia seguinte, não possui quaisquer saudades desta época politica e socialmente nefasta. (por David Emanuel de Souza Coelho) 

domingo, 27 de janeiro de 2019

PORQUE NÃO DEVEMOS GOVERNAR, NEM ALMEJAR O PODER (6ª parte)

(continuação deste post)
g) a crise ecológica nas suas duas dimensões, a terrestre e a atmosférica por uma infeliz coincidência, eu já começava e escrever este capítulo quando chegaram as notícias sobre a impressionante ruptura da barragem mineralógica da empresa Vale S/A (ex-Cia. Vale do Rio Doce), em Brumadinho, MG, causando o assassinato de pelo menos 37 trabalhadores e populares, atingidos por mais esta tragédia anunciada.

Prevê-se que o total de óbitos ultrapassará a casa de 100 e é certo que os danos ambientais se prolongarão por muito tempo, até que a natureza restaure o status quo ante, corrigindo os estragos causados pela insensatez dos homens. 

Apenas três anos após outra tragédia do mesmo naipe, ocorrida em Mariana, MG (cidade de nascimento do meu pai, e que para mim é particularmente cara), ter vitimado 19 pessoas e arruinado a vida de milhares de outras, vemos se repetir esse fenômeno devastador.

Sob o primado da ganância capitalista, as tragédias ecológicas com custos humanos acentuados ocorrem sob as mais variadas formas.

O que dizer do lixo despejado nos oceanos, vitimando um sem-número de espécies marinhas?  

O que dizer da poluição da baía de Guanabara, a apodrecer a sua deslumbrante beleza? 

O que dizer da redução do rio Tietê (que corta a cidade de São Paulo, a maior metrópole brasileira) a um esgoto a céu aberto, como estivesse a testemunhar a irracionalidade de um modo de relação social suicida? 

O que dizer do desmatamento irracional da Amazônia, com todas as consequências climáticas para o Brasil e o mundo?

O que dizer da suicida continuidade da emissão de gás carbônico pela queima de combustível fóssil em milhões de veículos, quando possuímos tecnologias suficientemente desenvolvidas para a produção de energias limpas que poderiam servir-lhe de alternativa?

O que dizer dos lixões a céu aberto na quase totalidade das metrópoles brasileiras, danificando o lençol freático e expondo a miséria social dos catadores que disputam com os urubus as suas sobrevivências?

O que dizer do uso de agrotóxicos nos alimentos, priorizando uma maior produtividade e ignorando o câncer que pode provocar nos organismos dos consumidores? 
Seriam milhares os exemplos de agressões ecológicas a serem citados. Enquanto isto, elegemos um presidente que claramente minimiza as agressões ambientais em favor do liberalismo econômico de mercado (sua afirmação de que o Ibama multa demais, perseguindo produtores, foi emblemática neste sentido).  

O que está na base desse comportamento irracional é a obediência cega ao fetichismo da mercadoria. Tornamo-nos reféns de uma lógica de relação social predatória que, atingido o seu limite de expansão em razão das próprias contradições internas que apontam para a necessidade de sua superação, ao invés de refletir conscientemente sobre a sua própria natureza, prefere negá-la como Calibã ao reconhecer sua imagem no espelho.

Será que esse quadro dantesco da crise ecológica é culpa do pensamento anticapitalista e dos movimentos que defendem a convivência harmoniosa com as diferenças de gênero, de opções sexuais e comportamentais?
Que a culpa é da falta de patriotismo? 

Que a culpa é dos comunistas comedores de criancinhas, que querem substituir a cor da bandeira brasileira? 

Chega de burrice, hipocrisia e insensatez! 

O que acontece com todas as tragédias ecológicas brasileiras e mundiais é que o capital, à medida que mais e mais se acentua a impossibilidade da sua reprodução aumentada (no seu caso, um imperativo de sobrevivência), não hesita em lançar mão de todos e quaisquer mecanismos de redução de custos de produção, ainda que causando a morte de seres humanos.

Esse é o leitmotiv do comportamento abominável das mineradoras que provocaram os dois últimos acidentes ecológicos devastadores.  

As discussões midiáticas sobre medidas legais cíveis e criminais,   bem como sobre providências administrativas e possíveis iniciativas políticas, são insubsistentes e fora de foco, justamente por não terem (nem poderem ter, em função dos compromissos das autoridades com o capital, grande vilão da história) a possibilidade de colocar o dedo na ferida.

A correta manutenção de barragens, quer estejam em atividade ou desativadas, representa prejuízos ou redução de lucros das empresas mineradoras, cujo objetivo primordial não é produzir mercadorias para a satisfação de necessidades de consumo, mas apenas utilizar tais necessidades para a realização dos seus lucros. 

Tanto faz produzir remédios que salvam, como produzir bombas que matam, o objetivo é o mesmo: a vital reprodução aumentada do capital pela extração de mais-valia e do lucro.

As pesadas despesas em dinheiro (valor) de manutenção das barragens equivalem a prejuízos, dentro da lógica capitalista. Para tal lógica reificada, abstrata, meramente numérica, vidas humanas são nada e o lucro é tudo.           

Por último vem a crise do aquecimento global provocada pela emissão de gases que provocam o efeito-estufa, impedindo que os raios solares refletidos desde a superfície da terra se espalhem na amplidão do universo. 

Essa constatação é científica, pouco importando os questionamentos (decorrentes da ignorância ou da ganância) de palpiteiros de direita ou de esquerda que ora estejam no poder político, igualmente submissos à lógica destrutiva e autodestrutiva do capital.

O aumento da temperatura planetária tem causado variações climáticas que promovem:
  • desertificação;
  • aumento do nível do mar ameaçando populações à beira-mar e de ilhas; 
  • problemas como o aumento da fome no mundo;
  • incêndios e invernos anormalmente rigorosos;
  • morte de corais; calor insuportável, 
  • e tantos outros transtornos para a vida animal e vegetal.   
Por trás de tudo isso está uma lógica insana e insensível à vida. 

O capital, embute por trás do brilho feérico das grandes metrópoles e da opulência dos reduzidos segmentos bem aquinhoados da população, uma compulsão macabra para a morte. 

O capital é assassino, e a crise ecológica é a resultante não seletiva de sua ação destrutiva. Que o digam as vítimas da catástrofe de Brumadinho, a quem transmito meus sentimentos de profundo pesar. (por Dalton Rosado) 
(continua neste post)
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