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segunda-feira, 4 de maio de 2020

COVID-19 PODERÁ MATAR DE 800 MIL A 1 MILHÃO DE BRASILEIROS, ESTIMA 0 SANITARISTA ARTHUR CHIORO

nabil bonduki
FIM DO ISOLAMENTO DESEJADO POR
 BOLSONARO SERÁ UM DESASTRE
Ao entregar cestas básicas e equipamentos de proteção na favela de Heliópolis, numa ação coordenada pela associação local com recursos arrecadados em campanha de solidariedade, jovens de classe média se depararam com um fato chocante. Entre 20% a 30% dos moradores recusaram a oferta de máscaras, dizendo que elas vinham da China e estavam contaminadas pelo vírus.

Ao mesmo tempo em que a rede bolsonarista busca desacreditar a imprensa e agredir jornalistas, como fez domingo em Brasília, por WhatsApp ela difunde informações descabidas, que prejudicam qualquer ação preventiva. 

Como um card que circulou em Manaus, com uma imagem dos sepultamentos em vala comum na cidade, acompanhada de uma foto de Lula, com a legenda: PT manda enterrar caixões vazios: estão enterrando caixões vazios para gerar pânico na população do Amazonas.
São exemplos da dificuldade de enfrentar a pandemia num país onde a mentira e o confronto se tornaram uma política de governo. Ao invés criar um clima de união nacional e de criar um gabinete de crise para formular uma estratégia sanitária e econômica para conter o avanço do coronavírus, o colapso do sistema de saúde e a crise social, o governo investe num gabinete de ódio.

O país está à deriva, da saúde à política. Enquanto o novo ministro da Saúde fala que poderemos ter mais de mil mortos por dia, o presidente diz e daí?, estimula o contágio e promove crises políticas em série, que impossibilitam qualquer entendimento para enfrentar a situação.

A crise institucional, o confronto permanente e as informações desencontradas deixam a população confusa e atônita. O isolamento determinado por governadores e prefeitos é combatido pelo presidente, que se vale das dificuldades econômicas da população para buscar apoio a uma estratégia genocida.

As carreatas da morte, que voltaram às ruas no dia 1º de maio, em apoio ao presidente e criticando o fechamento do comércio, são uma das faces desse confronto. O impeachment do governador Dória foi protocolado na Assembleia e se tornou bandeira de luta desses fanáticos.
Isso não vai adiante, mas deixa consequências, que poderão ser nefastas. O precipitado anúncio do governador de São Paulo sobre a reabertura gradual do comércio a partir de 11 de maio, assim como o recuo de outros governadores e prefeitos na mesma direção, foi resultado dessa campanha estimulada pelo presidente.

Se a flexibilização for efetivada, seja pela pressão política seja pela falta de convicção de alguns governantes, a fila de caixões e o colapso do sistema de saúde vão crescer, afetando a capacidade de recuperação do país.

Para um ex-ministro da Saúde, Arthur Chioro, a situação epidemiológica é gravíssima. Para ele, respeitado médico sanitarista, o número de mortos pode alcançar entre 800 mil e 1 milhão de pessoas nos próximos meses, se o relaxamento da quarentena que vem sendo proposto for adiante: 
"Viveremos ainda cenas muito trágicas no país".
Chioro afirma que a falta de testes acarreta uma grave consequência:
"A subnotificação mascara a realidade: o número de contagiados é muito maior do que os dados oficiais, com a taxa de mortalidade atingindo 7%. Os casos considerados leves e assintomáticos, que representam 85%, não estão contidos entre os casos confirmados".
Ele recomenda que não se afrouxe o distanciamento para evitar uma explosão ainda maior de casos, pois isso vai levar ao aumento do contágio e tornarão as perspectivas de saída da crise mais distantes. 

O ex-ministro José Gomes Temporão concorda: “O confinamento é necessário”. E adverte que “o vírus não é democrático: vai afetar os mais frágeis, que vivem nas periferias.”

Tudo indica que a pandemia está muito longe de atingir o pico, inclusive porque o distanciamento físico está longe de ser efetivo. No dia 30 de abril, a taxa de isolamento caiu para apenas 46% em São Paulo, mas este é o índice médio. 

Em bairros mais periféricos, o isolamento é baixíssimo e ainda menor em determinados segmentos, como os jovens. Levantamento feito a partir de celulares mostrou que em distritos como Lageado, na Zona Leste, o isolamento de jovens era praticamente inexistente.
Chioro: "A situação epidemiológica é gravíssima".

A questão é que, além da desinformação bolsonarista e da pressão contra o isolamento, é enorme a dificuldade da população mais vulnerável ficar em casa. As moradas são pequenas, superlotadas e sem acesso fácil à internet. Muitos precisam sair para auferir alguma renda. Além disto, é necessário que se crie uma consciência psicossocial da necessidade de isolamento.

A prevenção ao contágio exige uma mudança de comportamento social, questão que deveria estar no rol de preocupação dos governos para tornar mais efetivo o isolamento físico. Vera Paiva, professora do Instituto de Psicologia da USP e coordenadora de um projeto de prevenção à Aids, que agora se volta ao coronavírus, afirma que é necessário formular estratégias específicas para cada segmento social.

Usando sua experiência na prevenção à Aids, ela afirma que, sem uma mudança de mentalidade obtida através de um trabalho psicossocial, será difícil evitar que as pessoas passem a ter um distanciamento físico seguro para evitar a contaminação. 

A informação precisa considerar aspectos como a idade, a classe, a condição de moradia, a orientação sexual e a religião. Não adianta chegar na periferia com o mesmo discurso de ficar em casa, que pode funcionar na classe média.

Como o isolamento físico é, por enquanto, a única vacina para enfrentar o Covid 19, faz-se necessário formular estratégias específicas para garanti-lo, evitando a flexibilização das medidas de enfrentamento à pandemia.
Temporão: "O vírus não é democrático"

situação exigiria um presidente com capacidade de liderança para lidar com a maior crise sanitária, econômica e social da história recente do país. 

Na falta disso, é necessário que se estruture uma forte articulação política capaz de coordenar as ações sanitárias em todo o país e de formular propostas para o pós-pandemia.

O ato de 1º de maio, promovido pelas centrais sindicais, com mensagem dos ex-presidentes FHC, Lula e Dilma e dos ex-candidatos a presidente Marina e Ciro, talvez seja um bom prenúncio nessa direção. (por Nabil Bonduki)

segunda-feira, 16 de março de 2020

A SITUAÇÃO TENDE A PIORAR: O BRASIL CAMINHA PARA UMA CRISE ECONÔMICA, SOCIAL E DE GESTÃO SEM PRECEDENTES

nabil bonduki
CRIMES DE RESPONSABILIDADE DE BOLSONARO
NÃO PODEM FICAR SEM RESPOSTA
"[Tinha outro artigo em mente, mas] não me contive ao receber a notícia de que Bolsonaro voltou dos EUA com uma comitiva que já tem doze pessoas contaminadas pelo coronavirus, saiu do isolamento e se misturou durante mais de uma hora com os participantes do ato deste domingo em Brasília.

O presidente cometeu, simultaneamente, um duplo crime de responsabilidade.

Por um lado, contrariando as recomendações do próprio Ministério da Saúde (um dos poucos setores do governo que, afortunadamente, ainda não foi destroçado), correu o risco de contaminar algumas das centenas de pessoas com quem teve contato direto na manifestação de Brasília, onde apertou mãos, abraçou e tirou selfies com apoiadores. 

A atitude combina bem com um presidente que não acredita na ciência e que classificou o coronavirus de fantasia, assim como com as declarações dos líderes do movimento que, na Avenida Paulista, chamaram o coronavirus de mentira.

Por outro lado, o presidente convocou e participou de atos que atacaram a Constituição. Os manifestantes pediram intervenção militar, defenderam o AI-5, atacaram o Congresso e o Supremo e, em última instancia, sob o argumento de defender o Brasil, exigiram um regime forte, centralizado na presidência.

Isso é inadmissível. Chega de passar a mão na cabeça de um governante irresponsável, que expõe a vida das pessoas ao risco da contaminação de um vírus e que, abertamente, apoia grupos e movimentos que estão atacando a Constituição. O Congresso não pode mais ficar imobilizado, com o país caminhando para uma crise econômica, social e de gestão sem precedentes.

A história está repleta de exemplos de presidentes que, após serem eleitos democraticamente, utilizam-se de massas fanatizadas, associadas a forças militares e/ou policiais (como os do motim do Ceará) para extravasar seu poder constitucional, esvaziar ou controlar os demais poderes e governar sem o sistema de pesos e contrafreios que caracteriza a democracia.

Há dois anos, logo após a prisão de Lula, escrevi uma coluna que continua atual:
"A frustração com a política, a polarização extremada e a intolerância são ingredientes para a emergência de regimes autoritários. Ainda mais se alimentados por uma crise econômica prolongada, pelo desemprego e pelo medo. É o Brasil nos últimos anos. A cada novo acontecimento, fica mais claro o risco de um retrocesso.
...Nesse contexto, Bolsonaro, com um forte viés autoritário, lidera quando Lula é excluído. Ele vocaliza o descrédito no sistema democrático e a ideologia da segurança, de apelo popular. 
É fundamental a formação de uma ampla frente democrática, antifascista. O país precisa debater e pactuar, em um ambiente democrático, saídas para a crise. 
O golpe contra Dilma e o impeachment preventivo de Lula foram planejados para viabilizar um programa neoliberal. Mas, de fato, vem abrindo o espaço para uma alternativa autoritária e populista, que custará caríssimo para o país".
Uma frente democrática não é, necessariamente, uma política de conciliação. É recriação de um ambiente democrático e minimamente racional, onde possa se debater, com divergências, novas políticas públicas e o papel do Estado para tirar o país da depressão econômica, social e política que se aprofunda.

O desmonte do Estado provocado pelo Bolsonarismo, a frustração com a inoperância das reformas e política econômica comandada por Guedes (que não gera resultados efetivos) e a inevitável crise econômica mundial provocada pelo coronavirus têm levado muitos dos defensores das reformas neoliberais a rever posições ortodoxas.

Em entrevista à Folha de S. Paulo, André Lara Resende afirma que “a tentativa de equilibrar as contas públicas, a curto prazo e a qualquer custo, inviabiliza os investimentos públicos e paralisa serviços básicos. Não há recuperação possível nessas condições”. 

Rodrigo Maia tem feito afirmações semelhantes, o que mostra que algo se move e que o liberalismo primitivo já não é mais um consenso nas elites.

Na mesma entrevista, Resende afirma que “um Estado competente é condição para garantir serviços públicos de qualidade e o bom funcionamento da economia competitiva”. A frase, assim como a anterior, poderia ter vindo de um político da esquerda moderada, contrário à concepção de Estado mínimo mas que admite uma economia competitiva.

Isso mostra a necessidade de criação de espaços de diálogo e de convergências mínimas para romper a estagnação do país. Mas nada indica que isso seja possível em um ambiente tóxico e antidemocrático como o proporcionado pelo atual governo. 

Antes que seja tarde, é necessário criar as condições políticas para dar um novo rumo ao país. 
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(por Nabil Bonduki)

terça-feira, 31 de julho de 2018

A CANDIDATURA FASCISTA JÁ DERRETE, AGORA PRECISAMOS DETER O AVANÇO DO AUTORITARISMO NA SOCIEDADE

nabil bonduki
COM DENÚNCIAS ANÔNIMAS E AÇÕES
 INTIMIDATÓRIAS, AUTORITARISMO AVANÇA
A reflexão acima é de Martin Niemöller (1892-1984), pastor da Igreja Protestante que lutou contra os nazistas. Deve servir de alerta para os brasileiros que acreditam na democracia, mas que estão indiferentes ao avanço do autoritarismo.

Na semana passada, três professores da Universidade Federal do ABC foram intimados por uma comissão de sindicância investigativa, criada pela corregedoria da universidade com base numa denúncia anônima, por terem participado de um debate no lançamento de um livro.

Uma das perguntas da comissão foi se “ocorreram manifestações de desapreço contra Temer e integrantes do Judiciário e Promotoria”. Para Gilberto Maringoni, um dos intimados, “trata-se de evidente tentativa de censura, algo que se julgava encerrado desde (...) a ditadura”.  
Velório de Cancellier, vítima da escalada fascista

Não é um fato isolado, mas um processo crescente de ameaça à liberdade de expressão. Na Universidade Federal de Santa Catarina, a Polícia Federal  agiu contra docentes que participaram de um evento que condenou o abuso de poder cometido por uma delegada e uma juíza contra o ex-reitor Luiz Carlos Cancellier [tal perseguição o levou ao suicídio].

Como afirmou a Folha de S. Paulo em editorial [leia-o na íntegra aqui], “esse gênero de protesto, legítimo em qualquer democracia, e ainda mais num ambiente de liberdade como é o de uma instituição acadêmica, motivou iniciativas de claro conteúdo intimidatório”.

Os arroubos autoritários seguem um perigoso roteiro: um grupo denuncia um evento, uma manifestação artística ou uma opinião. Em seguida, alguma autoridade —o Judiciário, a polícia ou um órgão de controle— proíbe, censura ou intimida os participantes. 

É um método típico dos regimes totalitários, de qualquer vertente. Denúncias anônimas ou ações violentas integram um modus operandi promovido por grupos paralelos à estrutura institucional que atuam de modo complementar a governos autoritários. 
Esta obra da Queermuseu amalgama Jesus Cristo e a deusa Shiva 

Não faltam exemplos, como o fechamento da exposição Queermuseu em Porto Alegre, após pressão de ativistas. Débora Diniz, professora da Universidade de Brasília, vem recebendo ameaças de violência de grupos contrários à sua defesa do direito reprodutivo das mulheres.

O Brasil vive momentos de obscurantismo. Por isso, o compromisso com a democracia precisa estar no centro do debate eleitoral. Uma frente democrática e progressista, que reafirme os princípios da liberdade e dos direitos individuais e sociais e coloque um dique aos retrocessos, é essencial. (por Nabil Bonduki)
Lluís Llach e sua canção-símbolo da resistência ao fascismo na Espanha

terça-feira, 20 de março de 2018

EXECUÇÃO DE MARIELLE NO RJ TEVE ENORME REPERCUSSÃO; LONGE DOS HOLOFOTES, OS ATIVISTAS SÃO ABATIDOS COMO MOSCAS.

Por Nabil Bonduki (*)
EXTERMÍNIOS NO BRASIL PROFUNDO PRECISAM GANHAR VISIBILIDADE
E GERAR REAÇÕES
Na madrugada de 12 de março, dois dias antes de Marielle Franco ser alvejada, Paulo Sergio Nascimento, diretor da Cainquiama (Associação dos Caboclos, Indígenas e Quilombolas da Amazônia) levou quatro tiros quando se dirigia para o banheiro, na área externa de sua casa, em Barcarena (PA).

Nascimento era um dos mais atuantes líderes da denúncia que a comunidade vem fazendo contra os crimes ambientais promovidos pela mineradora norueguesa Hydro Alunorte. Em fevereiro de 2017, uma das bacias de rejeitos da empresa transbordou, afetando o meio ambiente, a saúde e as atividades econômicas das comunidades rurais de Barcarena.

Análises dos metais feitas pelo Instituto Evandro Chagas comprovaram a contaminação das águas de igarapés e rios junto a 24 comunidades rurais do município. Já foram encontrados três canais clandestinos que conduzem rejeitos aos cursos d’água.
Moradores da região em protesto contra o assassinato de Paulo Sérgio Nascimento
A Cainquiama busca embargar as atividades não licenciadas da mineradora, movimento apoiado pelo Ministério Público e pela Defensoria Pública do estado. Mas os defensores do meio ambiente de Barcarena sofrem ameaças desde 2014. Nascimento foi o segundo a ser executado em três meses. Em dezembro de 2017, foi a vez de Fernando Pereira.

“É como se nós fôssemos a caça e eles, os caçadores”, alerta Bosco Oliveira, diretor da Cainquiama que, assim como a sua presidente, Maria do Socorro, teve que deixar a comunidade após um ataque de policiais à sede da associação.

Em janeiro, a Promotoria do Pará, por meio do promotor Armando Brasil Teixeira, solicitou à Secretaria de Segurança “garantia de vida aos representantes da associação, considerando os fatos envolvendo suposta prática de crimes militares por policiais”. A solicitação foi rejeitada...
Só no ano retrasado houve 66 ativistas de DH exterminados

Pará, Rondônia e Maranhão concentram 90% dos assassinatos de ativistas de direitos humanos no Brasil, segundo o dossiê lançado em junho de 2017 pelo Comitê Brasileiro de Defensores e Defensoras dos Direitos Humanos. 

Em 2016, foram registrados 66 assassinatos de ativistas; apenas no primeiro semestre de 2017, foram 42. Muitos outros podem, ainda, estar ocultos. Entre os executados estão prefeitos, vereadores, ativistas de grupos LGBT, líderes de assentamentos rurais, ambientalistas e missionários.

A comoção nacional e internacional que gerou a execução de Marielle, na vitrine do país, que é o Rio de Janeiro, é uma oportunidade para dar visibilidade ao genocídio que ocorre no Brasil profundo, sob o olhar cego das autoridades, da opinião pública e da Justiça.

A indignação que vem tomando as ruas pode dar lugar a um movimento contra esses esquadrões de extermínio que se espalham pelo país. Essa é a maior homenagem que podemos prestar a Marielle.

* arquiteto, urbanista e professor universitário, Nabil Bonduki foi vereador paulistano. 
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