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quarta-feira, 1 de outubro de 2014

SE A ESCOLHA DO PT FOR ENFRENTAR AÉCIO, TERÁ DE RESPONDER POR UMA EVENTUAL VITÓRIA TUCANA.

É inteiramente correta esta análise do colunista Fernando Rodrigues na Folha de S. Paulo desta 4ª feira, 01/10:
"Foi muito bem sucedida a estratégia petista de ataque a Marina. Numa eleição tão cheia de incertezas, ninguém duvida da presença de Dilma Rousseff no segundo turno.
Mas o cenário é mais sofisticado. Dilma e seu marqueteiro, João Santana, transformaram-se nos 'senhores do universo' desta eleição...
A dupla tem o poder de modular o processo de desossar Marina. Pode decidir quem passará ao segundo turno ao apertar um pouco mais o botão ou ao suavizar a 'blitzkrieg'. Aécio fica ali embaixo com uma bacia coletando os votos que desabam da prateleira marinista. 

Ocorre que parece ter chegado a um limite o benefício direto da estratégia para Dilma. Ela tem hoje os mesmos 40% registrados no último dia 26. Seus comerciais vitriólicos na TV fazem os votos perdidos por Marina deslizarem para Aécio.
Se os 'senhores do universo' Dilma e Santana desejarem, podem pisar no acelerador e catapultar Aécio ao segundo turno. A alternativa é reduzir a guerrilha, permitindo que Marina passe à rodada final de votação. A decisão será tomada depois de ponderar a respeito de quem seria o adversário mais fraco contra Dilma numa disputa mano a mano.
A julgar pelo demonstrado até agora pelo Palácio do Planalto, Marina é uma candidata muito mais indesejada do que Aécio..."
Mas, se continuarem até domingo satanizando Marina com métodos tão sórdidos quanto os de Goebbels e Stalin, ambos estarão correndo o risco de levarem a verdadeira direita ao poder.

Pois, por mais que finjam acreditar no contrário, sabem muito bem que ela atende pelo nome de Aécio Neves. Só perfeitos idiotas engolem as patranhas de que Marina representaria bancos, Soros, CIA ou a Spectre dos filmes de 007.

Caso acabem pavimentando o caminho para o retorno triunfal dos tucanos, terão de responder por isto mais tarde. Eu lhes atirarei na cara tal vilania até o último dia da minha vida. Acredito que os omissos de hoje também vão começar a fazê-lo... depois que a vaca for pro brejo. Mas, aí será tarde. A hora de cobrar coerência é agora!

O maior tiro pela culatra que maquiavélicos deste tipo deram, na minha avaliação, foi o disparado por Tancredo Neves em 1984. Embora oposicionista, fez uma articulação de bastidores com parlamentares situacionistas dispostos a abandonarem a canoa furada da ditadura, como bons ratos que eram. 

Assim, os conchavados por Tancredo votaram em peso contra a Emenda Dante de Oliveira, que restabelecia as eleições diretas para presidente da República. Em seguida, desertaram do PDS e, na eleição indireta, deram ao velho conservador mineiro os votos necessários para eleger-se sem povo e na contramão da vontade do povo (nas urnas, Brizola teria feito picadinho dele).

O crime perfeito foi punido pela única Justiça que ainda poderia intervir, a divina (ou, conforme o gosto do freguês, o acaso): Tancredo ganhou, mas não levou. Morreu às vésperas de ser empossado.

É o que pode acontecer novamente. Canso de alertar que o desgaste de 12 anos no poder, o evidente esgotamento das bandeiras petistas e o péssimo momento da economia brasileira podem acarretar a derrota da Dilma até mesmo contra Aécio.

Aí, o PT terá trocado sua filha pródiga pelo antípoda, o inimigo de classe.

De quebra, a volta ao Palácio do Planalto de um partido bem estruturado para governar tende a significar outros mandatos na sequência, enquanto Marina dificilmente passará de um.

E, claro, entre uma reformista e um direitista, não há nem discussão: esquerdistas que raciocinem com a cabeça fria, sem estarem transtornados pelo receio de perderem suas boquinhas, só podem preferir a primeira.

sábado, 30 de agosto de 2014

UM ESPECTRO RONDA O BRASIL: O ESPECTRO DO MARINISMO.

A rapidez com que a candidatura presidencial de Marina Silva deslanchou, além de deixar aparvalhados petistas e tucanos, impôs aos analistas o desafio de decifrarem a nova esfinge da política brasileira, que está devorando todas as suas certezas de antes do fatídico 13 de agosto.

Despretensiosamente, alinhavei trechos dos últimos artigos de colunistas que, no meu entender, abordaram aspectos interessantes da questão. Os meus comentários vêm em vermelho.

Valem pelo que valem: ajudam-nos a refletir sobre um fenômeno novo. Neste sentido, não dei bola para o fato de que dois deles costumeiramente são satanizados em certas tribunas da esquerda. Como se dizia antigamente, até um relógio quebrado marca a hora certa duas vezes ao dia...

DESENVOLVIMENTISMO x SUSTENTABILIDADE

A expectativa de segundo turno entre duas mulheres, uma ex-gerentona neopetista e uma evangélica ex-petista, ambas bravas e autoritárias, promete boas emoções. Vai sair faísca.

Duas mulheres, duas histórias diferentes. Dilma Rousseff vem da classe média de Minas e entrou pela porta da frente em bons colégios católicos. Marina Silva emergiu da miséria no Acre e chegou pela porta dos fundos: esfregava chãos e lavava banheiros das freiras para ter direito às aulas.

Dilma vem da resistência armada à ditadura, era do PDT e virou presidente pelo PT. Marina nasceu com a bandeira do meio ambiente, cresceu no PT, fez fama nacional no PV, tentou sem sucesso criar a Rede e acabou candidata a derrotar Dilma pelo PSB. Ou seja: Marina, muito mais petista de raiz do que a neófita Dilma, se tornou a maior ameaça à continuidade do PT no Planalto.

Dilma e Marina conviveram no PT e no ministério do primeiro governo Lula. Foi aí que a encrenca começou. As duas encarnaram uma guerra entre "desenvolvimentismo" e "sustentabilidade" e disputaram não só espaço e poder interno, mas as graças do ídolo Lula. Dilma venceu todas, e Marina deixou o governo, o lulismo e o PT. Ganhou vida própria. E assombra os petistas. (Eliane Cantanhêde, em sua coluna de 29/08 na Folha de S. Paulo - clique aqui para ler a íntegra) 

É algo geralmente omitido pelos detratores de Marina, obcecados em desconstruí-la a qualquer preço e com quaisquer métodos: a acriana tem muito mais cara de PT do que a mineira. E ela leva vantagem também em termos de trajetória política, pois se lançou com bandeiras ecológicas (importantíssimas quando a própria sobrevivência da espécie humana está ameaçada pela ganância capitalista) e se mantém fiel a elas até hoje

Dilma, pelo contrário, lutava pela justiça social no tempo da guerrilha e depois se tornou (argh!) desenvolvimentista. Chegou ao cúmulo de apresentar como seu sonho dourado a transformação do Brasil num país de classe média (argh de novo!). Para quem se mantém essencialmente nos marcos do marxismo e do anarquismo, como eu, sua degringola ideológica é chocante: de Che Guevara para Juscelino Kubitschek!

Enquanto for Dilma a candidata do PT, não tenho dúvida nenhuma em afirmar que quem melhor representa a esquerda no embate é Marina. Se os petistas tomarem a única providência que parece oferecer-lhes possibilidade de salvação, tornando Lula candidato, aí a coisa mudará de figura. 

DOIS PARADIGMAS SERÃO QUEBRADOS?

O dado mais relevante da pesquisa Datafolha realizada nos dias 28 e 29 de agosto é a consolidação, neste momento, de Dilma Rousseff (PT) e Marina Silva (PSB) como as primeiras colocadas na disputa presidencial. Elas estão empatadas com 34% de intenções de voto cada uma.

Nunca nas eleições diretas para presidente da República pós-ditadura militar, nesta fase da campanha, os dois protagonistas isolados foram de partidos cujas origens estão na esquerda do espectro político.

A eleição é em 5 de outubro. Restam pouco mais de 30 dias para uma reversão do quadro. Se isso não ocorrer, pela primeira vez o Brasil não terá um legítimo representante do centro ou da direita entre os dois finalistas na disputa presidencial. (Fernando Rodrigues, em sua coluna de 30/08 na Folha de S. Paulo - clique aqui para ler a íntegra) 

Não excluo a possibilidade de que a decisão ainda venha a ser entre esquerda e direita, como previ no dia do acidente com o jatinho de Eduardo Campos. O meu prognóstico se baseou exatamente no fato de que tem sido esta a tônica desde a redemocratização.

Caso o PT insista em perder com Dilma, sua candidatura ainda pode descer ladeira abaixo com velocidade suficiente para Aécio Neves a ultrapassar na reta de chegada.

Mas, a aposta mais sensata, neste momento, é mesmo na quebra deste paradigma, e também de outro: nunca o 2º turno foi disputado por duas mulheres.

GERENTONAS x ESTADISTAS

No Brasil, os eleitores procuram administradores, gerentes, quando se trata de disputas municipais e estaduais. Nas eleições presidenciais, contudo, buscam a personificação de uma utopia possível. FHC e Lula chegaram ao Planalto nas asas de grandes ambições. Hoje, é Marina quem aparece como a representação de uma ruptura profunda.

A utopia associada a FHC pode ser sintetizada pelas ideias de estabilização e modernização. Desde o segundo mandato tucano, porém, o PSDB abandonou a trilha das reformas e, sob o fogo da crítica petista, borrou o horizonte utópico com as cores cinzentas da "capacidade gerencial"... 

A utopia associada a Lula pode ser sintetizada pelas ideias de igualdade e justiça social. Inflado pelos ventos de popa da economia mundial, o potencial utópico do lulopetismo durou um mandato mais que o dos tucanos, mas encerrou-se no quadriênio de Dilma Rousseff. As suas reformas sociais praticamente esgotaram-se nas políticas de crédito e transferência de renda que ajudaram a estimular o boom de consumo popular. 

Hoje, num sentido fundamental, o PT converteu-se na nova Arena: o partido cuja força emana do controle da máquina pública. O mapa das intenções de voto na candidata-presidente evidencia a regressão política do partido que traçou seu caminho para o poder entre os eleitores de alta e média escolaridade dos grandes centros urbanos. 

Marina aparece como representação da terceira utopia, tão nitidamente expressa nas Jornadas de Junho de 2013...  (Demétrio Magnoli, em sua coluna de 30/08 na Folha de S. Paulo - clique aqui para ler a íntegra)

Eu já havia escrito algo bem próximo: que o PT está repetindo a trajetória do PMDB e do PSDB, partidos que começaram à esquerda e foram se descaracterizando cada vez mais, o primeiro se tornando uma agremiação meramente fisiológica e o segundo, o mais conspícuo representante da direita brasileira.

O PT ainda não chegou lá, claro, mas é para onde se encaminha, com o cada vez mais acentuado abandono das bandeiras revolucionárias, trocadas por um reformismo tão tímido que nem Eduard Bernstein aplaudiria. 

E, por já não ter quase nada a oferecer ao eleitorado dos grandes centros urbanos, seu celeiro de votos serão, cada vez mais, os pequenos e médios municípios, e principalmente os das regiões Centro-Oeste, Norte e Nordeste. Enquanto isto, sua influência tende a continuar diminuindo no Sudeste (responsável por 55,4% do PIB) e Sul (16,2%). Mas, suponho, não a ponto de se tornar um partido dos grotões, como o PDS (sucessor da Arena) nos seus estertores...

Outro ponto em que concordo inteiramente com Magnoli: as jornadas de junho de 2013 foram um divisor de águas, com os manifestantes de rua retomando o protagonismo político depois de uma década de pasmaceira, durante a qual os movimentos sociais  não só superestimaram a importância do poder político (cada vez mais avassalado ao poder econômico), como a própria disposição do PT em tentar concretizar as transformações profundas de que o Brasil desesperadamente carece.
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