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sexta-feira, 3 de julho de 2020

CIENTE DA LETALIDADE DO CORONAVÍRUS, BOLSONARO OPTOU PELO DESDÉM. PODE SER CONSIDERADO APTO PARA O CARGO?

bruno boghossian
BOLSONARO SABOTOU COMBATE AO CORONAVÍRUS
AO SABER DA PROJEÇÃO
 DE 100 MIL MORTES
Na última 6ª feira de março, Jair Bolsonaro apareceu na TV e disse o que pensava sobre o aumento de casos de coronavírus no país: 
"Alguns vão morrer? Vão, ué. Lamento. Essa é a vida, é a realidade".
O presidente adotou a negligência como política oficial durante a pandemia. O desdém se tornou a principal marca do desempenho ruinoso do Brasil, que agora ganha contornos ainda mais perturbadores.

Ex-secretário do Ministério da Saúde, o epidemiologista Wanderson Oliveira contou à repórter Natália Cancian que o Palácio do Planalto foi avisado de uma projeção que estimava em 100 mil o número de mortes por coronavírus em seis meses. 

Segundo ele, os dados chegaram à cúpula do governo já em março.

Desde o início, a equipe de Bolsonaro tinha elementos sobre a gravidade da doença. Naquele mês, o presidente dizia que a Covid-19 faria menos de 800 vítimas (todos os grifos em vermelho são do editor). A previsão fraudulenta desabou em três semanas.

Bolsonaro sonegou informações e implantou uma sabotagem contínua às ações de combate à pandemia. Demitiu um ministro e forçou a saída de outro. Quando o país bateu 30 mil mortes, não deu bola: 
"A gente lamenta todos os mortos, mas é o destino de todo mundo".
O governo também sabia que a cloroquina era um método duvidoso de tratamento, mas estimulou o uso do remédio.

O Exército estocou mais de 1 milhão de comprimidos. Procuradores querem saber por que os insumos para o medicamento custaram mais do que o normal.

Os conflitos fabricados por Bolsonaro em torno das medidas de distanciamento, defendidas pelos técnicos da área, ajudaram a empurrar o país para o buraco, segundo Oliveira.
"Perdemos um tempo precioso com um debate improdutivo que acabou resultando numa confusão para a população muito grande".
O presidente liderou o país com a mesma habilidade do prefeito de Itabuna, na Bahia. Nos últimos dias, o alcaide disse que abriria o comércio mesmo que os casos na cidade disparassem, "morra quem morrer". (por Bruno Boghossian)
.
TOQUE DO EDITOR — Durante a ditadura militar, além dos quatro processos a que respondi por minha militância na VPR e VAR-Palmares, houve mais tarde um quinto, de caráter censório à minha atuação jornalística.

Arriscando-me a um sexto, já que se tenta criminalizar a comparação do bolsonarismo com o nazismo, avalio que o comportamento mais parecido com o que o epidemiologista Wanderson Oliveira atribui a Bolsonaro é o de Hitler em 1945: furibundo por perceber que sua queda estava cada dia mais próxima, ele ordenou a destruição da infraestrutura da Alemanha, para legar aos aliados uma terra arrasada!

Foi o chamado Decreto Nero, abortado pelo ministro Albert Speer, que prometeu implementá-lo e fez exatamente o contrário.
por Celso Lungaretti

A conclusão que se impõe, a partir do relato do epidemiologista, é a de que, furibundo com as consequências que o morticínio do vírus inevitavelmente traria para sua obsessão de ser reeleito em 2022, Bolsonaro resolveu dobrar a meta: "Se é para morrerem 100 mil, então que morram logo 200 mil!".

As perguntas que não querem calar são:
— Hitler estava louco em 1945 e deveria ter sido afastado do poder?
— Bolsonaro está louco em 2020 e deve ser afastado do poder? 

quarta-feira, 26 de junho de 2013

DELFIM DIZ QUE REPETIRIA SUA IGNÓBIL ASSINATURA NO AI-5

Delfim como papagaio de pirata do ditador Costa e Silva
"Se as condições fossem as mesmas e o futuro não fosse opaco, eu repetiria", afirmou Delfim Netto, referindo-se à sua ignóbil assinatura no hediondo Ato Institucional nº 5. Ou seja, ainda hoje ele seria capaz de apoiar o elenco de medidas que desencadeou o arbítrio sem quaisquer limites.  

O AI-5 proibiu o Judiciário de conceder habeas corpus para os perseguidos políticos, dando à ditadura militar sinal verde para torturar os resistentes a bel-prazer, além de outras disposições totalitárias: reforçou os poderes do presidente da República para decretar estado de sítio, intervenção federal, suspensão de direitos políticos, restrições ao exercício de direitos públicos ou privados (principalmente o afastamento dos  subversivos  de seus cargos), cassação de mandatos eletivos, imposição de recesso ao Congresso, assembléias legislativas e câmaras municipais, etc.

Delfim foi convocado para depor na Comissão da Verdade do município de São Paulo e eram favas contadas que ele não perderia as estribeiras, dando espetáculo tão patético quanto o do torturador-símbolo da Nação, Carlos Alberto Brilhante Ustra, ao comparecer à Comissão Nacional da Verdade. 

Speer: condenado, como mereceu!
Não, ele é ave de outra plumagem; os serenos mandantes, que não chegaram a ter uma gota sequer de sangue nos seus ternos chiques, se diferenciavam em muito dos destrambelhados paus mandados, aqueles cujas fardas ficaram emporcalhadas com o sangue das vítimas. 

No entanto, foi acintosa e repulsiva a afirmação de Delfim, segundo quem  o AI-5 teria sido necessário porque o país "estava num estado de desarrumação geral". Impor a paz dos cemitérios nunca foi método de arrumação.

Caso houvesse ocorrido aqui um julgamento como o de Nuremberg, mais do que justificável nas circunstâncias, decerto Delfim Netto seria condenado como o foi, p. ex., o arquiteto do Reich, Albert Speer, que também não era  pessoalmente responsável por nenhuma tortura ou assassinato, mas tinha total responsabilidade política por um governo monstruoso. 

Curiosamente, as desculpas esfarrapadas de ambos foram as mesmíssimas. Delfim alegou que desconhecia as torturas e teria até chegado a indagar do carrasco Médici se elas existiam, sendo tranquilizado. Acredite quem quiser.

Speer foi mais longe, afirmando ter participado do planejamento de um atentado contra Hitler que acabou não ocorrendo (claro!).

Em ambos os casos, nenhuma pessoa viva corroborou as versões daqueles a quem convinha mentir.
Uma camaradagem escrita nas estrelas

O paralelismo se deu, inclusive, quanto às provas fotográficas. 

Speer foi confrontado com uma imagem dele visitando o campo de concentração de Mauthausen, mas garantiu que era apenas uma viagem protocolar e não lhe teria sido mostrado nada que caracterizasse o Holocausto.

Esfregaram no nariz do Delfim uma foto em que aparece alegremente ao lado do empresário-símbolo do financiamento à repressão, mas ele, presumivelmente, negou que conhecesse tal faceta de Henning Boilesen. Acredite quem quiser.

Uma sentença como a de Speer, de 20 anos de prisão, teria caído muito bem para o gordo ministro (ou seria melhor dizermos  sinistro?) da ditadura.
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