terça-feira, 31 de outubro de 2017

O PÓS-68 E SEU PRINCIPAL CULT NAS TELAS: "JONAS, QUE TERÁ 25 ANOS NO ANO 2000".

A revolução renascerá das cinzas, como a fênix?
“O anseio meu nunca mais vai ser só
Procura ser da forma mais precisa
O que preciso for
Pra convencer a toda gente
Que no amor e só no amor
Há de nascer o homem de amanhã”
(
Geraldo Vandré, Bonita
)

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O ideário político dos contestadores de 1968 é pouco lembrado e menos ainda reverenciado, já que não convém aos que hoje confrontam, a partir de posições ortodoxas, o capitalismo e suas inúmeras mazelas (desigualdade social, ganância e competição exacerbadas, parasitismo, mau aproveitamento do potencial produtivo que hoje seria suficiente para proporcionar-se uma existência digna a cada habitante do planeta, danos ecológicos, etc.).

Nas barricadas parisienses, gritando slogans como a imaginação no poder e é proibido proibir, muitos estudantes erguiam as bandeiras negras do anarquismo, que marcara forte presença nos movimentos revolucionários do século 19, mas havia perdido terreno desde a vitória do bolchevismo em 1917.

A tentativa de construção do socialismo em países isolados e economicamente atrasados já se evidenciava desastrosa, por degenerar em totalitarismo. A URSS e seus satélites, bem como a China e Cuba, sacrificavam uma das principais bandeiras históricas das esquerdas, a liberdade, para priorizarem a outra, a igualdade.
 Revolução traída: o poder usurpado por uma nomenklatura.

E nem a esta última conseguiam ser totalmente fiéis. Propiciavam, sim, melhoras materiais significativas para os trabalhadores, mas nem de longe extinguiram os privilégios, tornando-os até mais afrontosos ao substituírem as antigas classes dominantes por odiosas nomenklaturas (as camadas dirigentes do partido único e as burocracias governamentais, que se interpenetravam e coincidiam na justificativa/imposição de seu status de mais iguais).

O desencanto dos jovens europeus com o socialismo real  se somou à constatação de que o proletariado industrial das nações prósperas se tornara baluarte, e não inimigo, do capitalismo. Seduzido pelos avanços econômicos que vinha obtendo, preferia tentar ampliá-los do que apostar suas fichas numa transformação radical da sociedade. Ou seja, face à célebre alternativa de Rosa Luxemburgo –reforma ou revolução?– os aristocratizados operários do 1º mundo optaram pela primeira, como Edouard Bernstein previra.

Em termos teóricos, o filósofo Herbert Marcuse já dissecara tanto o desvirtuamento do marxismo soviético quanto a transformação do capitalismo avançado num sistema impermeável à mudança, a partir da sedução do consumo, da eficiência tecnológica e da influência atordoante da indústria cultural, que estava engendrando um homem unidimensional (incapaz de exercer o pensamento crítico).
68 francês: primeiro ensaio de uma revolução de novo tipo.
Foi ele a grande inspiração dos jovens contestadores de 1968, mesmo porque praticamente augurara sua entrada em cena, assumindo o papel de vanguarda que o proletariado deixara vago.

Para Marcuse, somente os descontentes com a sociedade (pós) industrial –intelectuais, estudantes, boêmios, poetas, beatniks e demais outsiders– perceberiam seu totalitarismo intrínseco e seriam capazes de revoltar-se contra ela. Os demais, partícipes do sistema como produtores e consumidores, seguiriam mesmerizados por sua racionalidade perversa.

O diagnóstico de Marcuse acabaria sendo melancolicamente confirmado quando esses descontentes colocaram a revolução nas ruas de Paris e o proletariado lhes voltou as costas, preferindo arrancar pequenas concessões de De Gaulle do que apeá-lo do poder. O Partido Comunista Francês, comprando uma passagem de ida sem volta para a irrelevância, desempenhou papel decisivo na manutenção do status quo e consequente salvação do capitalismo na França.

Mas, o esmagamento das primaveras de Paris e de Praga não conteve o impulso dessa nova maré revolucionária, que continuou pipocando nos vários continentes, com especial destaque para a contracultura e o repúdio à Guerra do Vietnã por parte da juventude estadunidense.
Contestando a Guerra do Vietnã: as flores venceram o canhão.

Foi, principalmente, nos EUA que os novos anarquistas se lançaram à criação de comunidades urbanas e rurais para praticarem um novo estilo de vida, solidário e livre. Substituíam os antigos laços familiares pela comunhão grupal – ou, como diziam, tribal – e dividiam fraternalmente as tarefas relativas à sua sobrevivência, tal como sucedia nas colônias cecílias de outrora.

A ideia era a de irem expandindo a rede de territórios livres até que engolfassem toda a sociedade. Então, em vez de colocarem a tomada do poder como ponto-de-partida para as transformações sociais, deflagradas de cima para baixo, eles pretendiam expandir horizontalmente seu modelo, pelo exemplo e adesão voluntária (nunca pela coerção!), até que se tornasse dominante.

Acreditavam que, descaracterizando seus ideais para conquistarem os podres poderes, os revolucionários acabavam sendo mudados pelo mundo antes de conseguirem mudar o mundo. Então, era preciso que ambos os processos ocorressem simultaneamente: deveriam construir-se como homens novos à medida que fossem construindo a sociedade nova.
Veremos concretizada a profecia do filme Jonas?

Esse anarquismo renascido das cinzas e atualizado foi o último grande referencial revolucionário do nosso tempo, daí despertar até hoje a simpatia dos jovens que buscam a saída do inferno pamonha do capitalismo (uma definição antológica do Paulo Francis!) e a ojeriza daquela esquerda que ainda se restringe aos projetos de conquista do poder político.

A questão é se, como em outras circunstâncias históricas, a maré revolucionária será novamente retomada a partir do último ápice atingido (mesmo que com intervalo de décadas entre os dois ascensos).

Os artistas, antenas da raça, creem que sim. Desde o genial cineasta suíço Alain Tanner (Jonas, Que Terá 25 Anos no Ano 2000), para quem as vertentes e tendências de 1968 voltarão a confluir, reatando-se os fios da História; até nosso saudoso Raul Seixas, que nos aconselhava a tentarmos outra vez e tantas vezes quantas fossem necessárias, não dando ouvidos às pregações tendenciosas da mídia contra a geração das flores e das barricadas.
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NOS DEPRESSIVOS ANOS 70, ESTE FILME MANTEVE 
A ESPERANÇA DE QUE O SONHO NÃO HAVIA ACABADO
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Assista aqui, na íntegra e com legendas em português, ao
obrigatório filme Jonas, que terá 25 anos no ano 2000.
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Um dos filmes com intenções políticas mais poéticos da história do cinema, Jonas que terá 25 anos no ano 2000 (lançado em 1976) mostra uma Suíça que, em meados da década de 1970, está em plena normalidade capitalista, nada restando dos ventos de mudança que sopraram em 1968 afora indivíduos isolados que representam facetas das utopias cultuadas pela geração anterior. 

Já não existe um projeto coletivo a imantar tais vertentes, mas os pequenos profetas (como o ótimo diretor Alain Tanner  os qualificou em entrevistas) continuam tentando levar adiante, isoladamente, aquilo no que creem. São oito, todos com os nomes iniciados por M (de maio, o mês das barricadas francesas).

Uma teia de circunstâncias inesperadas os vai colocando em contato, até que os oito se reúnem numa única ocasião, congraçando-se na fazenda do personagem que se dedica ao cultivo de vegetais sem contaminação química. É quando almoçam exultantes, numa sequência, belíssima, que simboliza a Santa Ceia. 
O personagem Mathieu, seguindo as pegadas de Rousseau.

Bem naquela fase e sob tais auspícios, o casal de fazendeiros gera um filho, que será Jonas, evocando o profeta que foi engolido pela baleia mas sobreviveu, assim como o filme acena com a esperança de que a criança sobreviverá à gordura capitalista para, no ano 2000, corporificar uma nova e definitiva síntese dos ideais dos pequenos profetas.

Embora o filme não esclareça como isto se dará, parece destacar sobretudo a via representada pelo personagem Mathieu (São Mateus?), que Rufus interpreta. Ele quer educar as crianças de forma que não percam sua bondade natural, escapando ilesas aos condicionamentos ideológicos que uma sociedade corrupta lhes tenta impor, mais ou menos como Jean-Jacques Rousseau preconizou em Emílio, ou Da Educação

Quando nos aproximamos da comemoração do cinquentenário das jornadas de 1968, Jonas... é um filme simplesmente obrigatório. Até por colocar em discussão o que realmente vale a pena discutirmos: se 1968 foi uma primavera que passou em nossas vidas ou o ensaio geral de uma revolução que ainda chegará?
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Esta digressão, que começou citando uma pungente canção de Vandré, merece ser encerrada com um desabafo, que talvez venha a se revelar profético, do bravo guerreiro Raulzito: “Todo jornal que eu leio/ Me diz que a gente já era/ Que já não é mais primavera/ Oh baby, oh baby,/ A gente ainda nem começou”.

O MAIO DE 68 NA VISÃO DE BERTOLUCCI: O POLÊMICO "OS SONHADORES".

Uma palavrinha do editor
Sem confirmação da data em que o ministro Luiz Fux recolocará o caso de Cesare Battisti na pauta da 1ª Turma do Supremo e em meio à ressaca no noticiário político desde que a Câmara Federal rechaçou o pedido de abertura de um processo de impeachment contra Michel Temer, estou, para não deixar a peteca cair, postando filmes sobre os movimentos contestatórios de 1968, no espírito da série de três artigos sobre se eles não passam de uma utopia do passado ou permanecem como um projeto de futuro (vide aqui, aqui e aqui).

Caso deste Os sonhadores, que, mesmo sem figurar entre as obras-primas do grande cineasta italiano Bernardo Bertolucci, não deixa de ser interessante. Estou introduzindo-o com a reprodução de uma boa crítica de Marcelo Hessel, que fui buscar no site Omelete:
"Quando vai à Cinémathèque de Paris, Matthew (Michael Pitt) gosta de se sentar nas primeiras fileiras da sala. Para receber as imagens primeiro, diz ele, ao lado de todos os outros cineclubistas recém-saídos da puberdade. 

A frase nasce clássica, junto com outras tantas passagens espirituosas de Os sonhadores (The dreamers, 2003). E ela resume bem o romantismo ingênuo e a intensa cinefilia que transpira, do início ao fim, do polêmico filme de Bernardo Bertolucci.

Apesar do ardor, o norte-americano Matthew não usufrui da cinemateca como gostaria. Decorre o ano de 1968, e o fundador e diretor da casa, Henri Langlois (1914-1977), acaba de ser demitido. Os movimentos estudantis, que já falavam alto contra o conservadorismo institucionalizado, se exacerbam. Entre passeatas e manifestações, Matthew puxa conversa com dois jovens irmãos gêmeos que também frequentavam as sessões, Theo (Louis Garrel) e Isabelle (Eva Green). Ah, Isabelle...

Matthew logo se interessa, claro, pela sensualidade meio blasé da moça. E os gêmeos nutrem curiosidade pelo norte-americano limpo e loiro que flana por Paris sem compromissos – e que parece conhecer tanto de cinema quanto eles próprios. 

O teste definitivo: se o trio enganar os guardas e conseguir atravessar o Louvre numa correria desenfreada, quebrando o recorde dos personagens godardianos de Bande à part (1964), a amizade de Matthew será finalmente aceita.

História, cinema e ficção, como se vê, misturam-se sem pudor em Os Sonhadores. Enquanto os dias de 1968 – o famoso ano que não acabou – transcorrem e marcam a memória de uma geração idealista, Matthew passa as tardes no apartamento de Theo e Isabelle discutindo política, cultura, comportamento. 

E aprendendo a viver. O sexo inevitável surge lúdico e inocente, o incesto se mostra mais poético do que carnal. Haverá quem se sinta escandalizado com a libertinagem, mas o fato é que o amor é só mais uma peça, e não o fator dominante, nesse conto de amadurecimento.

Bertolucci enche a tela de nostalgia, sim, mas o seu discurso soa novo, pertinente – como as últimas palavras de sabedoria de um velho enfermo para o seu neto imprudente. Theo brada contra o sistema, mas é incapaz de acompanhar as passeatas que acontecem à sua janela. Já Matthew desafia os irmãos a crescerem, a lutarem, mas ele mesmo prefere o discurso pacifista ao confronto de verdade. 
Neste cenário, o panfletarismo dá lugar à reflexão. Joplin, Doors, Dylan, Hendrix, ícones daquela geração, poucas vezes soaram tão verdadeiros quanto na fabulosa trilha sonora de Os Sonhadores.

O cineasta tenta, assim, alimentar o inconformismo nos jovens de hoje que aprenderam a ver em termos como revolução uma conotação negativa. Busca, com Matthew e os gêmeos, resgatar o tempo em que o maior desacordo entre EUA e França envolvia o humor de Jerry Lewis. E o seu filme prega, acima de tudo, a crença no cinema como arma da transformação.

Entre inúmeras citações explícitas de obras alheias, a referência a Sergei Eisenstein (1898-1948) aparece de forma velada. Na cena final, ao fazer os policiais avançarem sobre a platéia, Bertolucci toma do mestre russo a sua mais famosa ferramenta, o enquadramento engajado. Com isso, não deixa dúvidas sobre o seu libelo político".

Para ativar a legenda, clique no 4º ícone da dir. p/ a esq., no rodapé.

segunda-feira, 30 de outubro de 2017

SÉRIE "1968, UTOPIA DO PASSADO OU PROJETO DE FUTURO?" – 1: OS DIAS EM QUE A IMAGINAÇÃO QUASE CHEGOU AO PODER...

"Não trabalhe jamais!"
(frase encontrada nos
muros de Paris)
Aproximamo-nos dos 50 anos do maio de 1968 na França. 

Tal movimento representou a mais clara manifestação de insatisfação popular contra os valores capitalistas e seu modo de vida, justamente no momento em que a França poderia se jactar de uma predominância econômica sobre seus vizinhos europeus e o restante do mundo, e da possibilidade de confirmação vitoriosa do Estado do bem-estar social

Era o ápice dos incríveis e revolucionários anos 60 que, infelizmente, iriam ser eclipsados pela hipocrisia conformista da década seguinte, que em nosso país foi marcada pelo falso milagre brasileiro patrocinado pelo governo militar com o beneplácito dos que estiveram na base do golpe de 1964, os Estados Unidos e sua Operação Condor para a América latina, bem como pela perseguição raivosa e fascista aos que ainda desejavam manter de pé as bandeiras revolucionárias da década anterior.

Aquele movimento contestatório de estudantes e trabalhadores já está sendo como uma segunda revolução francesa, dada a sua importância para o significado do conceito de Estado e da sociedade industrial produtora de mercadorias, 

Isto porque muito mais relevante do que os resultados práticos político-institucionais obtidos pelo movimento.em termos de mudanças na correlação de força e nos organogramas do poder, o maio de 68 mexeu com a cabeça das pessoas, modificando seu modo de pensar e de agir.  

Iniciado a partir de reivindicações estudantis, sob o comando de Daniel Cohn-Bendit, o movimento se alastrou para os trabalhadores de um modo geral, tanto que 10 milhões deles aderiram (cerca de 2/3 de toda a força de trabalho do país) durante 15 dias; e teve tal apoio popular que levou cerca de 1 milhão de pessoas em praça pública.
Saiu, assim, do controle das lideranças sindicais e partidos de esquerda para confrontar não apenas o governo do general Charles De Gaulle (cujo aparelho policial se mostrou impotente para conter as manifestações), mas a própria essência do sistema produtor de mercadorias. 

Nem mesmo o Partido Comunista Francês (que em certo momento tentou direcionar o movimento no sentido de acordos políticos institucionais) conseguiu colocar um freio na avalanche contestatória, que mais pareceu ter a força de uma inundação que tudo arrasta.

Um das frases da Internacional Situacionista, representada por Guy Debord (autor do livro A sociedade do Espetáculo, de 1967), críticas à linha stalinista do marxismo tradicional, inscritas nos muros de Paris, era a que serve de epígrafe para este artigo: Ne travaillez jamais, questionando a essência do sistema produtor de mercadorias, pois negava não apenas o quantum de remuneração dos trabalhadores, mas o trabalho assalariado em si, considerado como fonte de toda a miséria capitalista.
Diante da Sorbonne: sejam realistas, peçam o impossível.

Outro slogan memorável: A imaginação ao poder. Uma heresia para os conformistas que, independentemente de orientações ideológicas, preferiam manter-se nos caminhos rotineiros da política convencional a embarcarem na jornada ao desconhecido proposta pelos jovens.

maio de 68 colocou, portanto, em xeque tanto a direita quanto a esquerda tradicional, que mais se escandalizou do que deslumbrou ao ver a utopia revolucionária ganhar as ruas e erguer barricadas como as da Comuna de Paris de 1871.

O movimento destacava aspectos como sexualidade e prazer na sociedade mercantil, criticando-a por transformar todas as pessoas em peças de uma engrenagem sufocante da vida social. Nada mais atual.   

Naqueles dias todo o sistema capitalista francês, tanto do ponto de vista econômico como institucional sentiu a força de que é capaz a mobilização popular. As fábricas, grande comércio e setores de serviços passaram às mãos do povo, ante a impotência do aparato repressivo.

As forças militares, rechaçadas pelos cidadãos, não tiveram como conter o transbordamento de resistência e alegria dos que lutavam ao tomarem seus destinos seus destinos nas mãos. A greve geral que se seguiu às manifestações levou uma multidão de mais de 1 milhão de pessoas às ruas de Paris, contando com a adesão de quase todas as profissões.

Entretanto, ainda que a insatisfação com o sistema fosse manifesta, o movimento não teve depois continuidade, por falta de uma proposição teórica que soubesse aglutinar todo o potencial revolucionário nele contido. Não estava claro que o passo seguinte deveria ser a abolição dos construtos capitalistas, alicerçados por suas categorias fundantes: trabalho abstrato, trabalhador, dinheiro, mercadorias, mercado, estado e política.

Na esteira do vácuo de encaminhamentos consequentes como a tomada das fábricas para a produção de bens socialmente úteis e serviços necessários ao consumo cotidiano, veio uma retomada do controle por parte dos que entendem que somente pode existir vida social a partir da produção de valor (dinheiro e mercadorias) e de uma organização estatal verticalizada. 

Paulatinamente os trabalhadores recomeçaram a produzir mercadorias; os dirigentes sindicais voltaram à sua rotina de negociação de pedintes de melhoras salariais e consequente afirmação do trabalho abstrato; as instituições do Estado retomaram o discurso hipócrita habitual, de defesa da cidadania; e se restabeleceu o marasmo opressor preexistente.  

Entretanto, como não há mal que dure para sempre, ainda reverberam nos ouvidos dos cidadãos os ecos do maio de 68, até porque a insatisfação popular é agora acirrada pela crise irreversível do capitalismo, com ingredientes novos como a insensatez ecológica suicida.

Por Dalton Rosado
Nunca foi tão necessário reatarmos os fios da História,  com a volta dos cidadãos às ruas, às greves e às barricadas, nestes tempos em que o capitalismo novamente nos apresenta sua face mais medonha e as condições novamente estão dadas para suas vítimas o confrontarem em ampla escala, como naquele ano memorável em que o povo francês, de tantas jornadas libertárias, por algumas semanas tomou conhecimento de sua força.

SÉRIE "1968, UTOPIA DO PASSADO OU PROJETO DE FUTURO?" – 2: FRAGMENTOS DE UMA REVOLUÇÃO.

"A efervescência entre os estudantes era apenas a manifestação mais evidente do descontentamento da sociedade francesa. Apesar do auge econômico, os empresários franceses haviam aplicado uma pressão violenta sobre os trabalhadores. Abaixo da superfície de aparente calma existia um enorme acúmulo de descontentamento, rancor e frustração. Já em janeiro houve violentos conflitos durante uma manifestação de grevistas em Caen.

A greve geral de 13 de maio marcou um ponto de inflexão qualitativo. Centenas de milhares de estudantes e trabalhadores se lançaram às ruas de Paris. Uma ideia da situação é a descrição que se segue da poderosa manifestação de um milhão de pessoas que tomaram as ruas de Paris no dia 13 de maio:
'Fileiras passavam incessantemente. Havia seções inteiras de trabalhadores de hospitais com seus jalecos brancos, alguns carregavam cartazes onde se podia ler Où sont les disparus des hôpitaux? (Onde estão os feridos que desapareceram dos hospitais?). 
Cada fábrica, cada centro de trabalho importante parecia estar representado. Havia numerosos grupos de ferroviários, carteiros, gráficos, metroviários, aeroportuários, eletricistas, comerciários, advogados, garis, bancários, trabalhadores da construção civil, vidreiros, químicos, faxineiros, empregados municipais, pintores e decoradores, trabalhadores do gás, balconistas, escriturários, trabalhadores do cinema, motoristas de ônibus, professores, trabalhadores das novas indústrias de plástico, todos eles em fila, o sangue da sociedade capitalista moderna, uma massa interminável, uma força que podia arrastar tudo que estivesse em seu caminho, se assim o desejasse'
Os dirigentes dos sindicatos esperavam que esta manifestação fosse suficiente para deter o movimento, não tinham intenção de continuar e estender a greve geral. Para eles, a manifestação era apenas uma maneira de liberar vapor. Porém, uma vez iniciado o movimento imediatamente ganhou vida própria. A convocatória de greve geral foi como uma grande rocha lançada sobre um lago tranquilo. As ondas se estenderam a cada canto da França. Ainda que houvesse apenas aproximadamente 3 milhões de trabalhadores organizados em sindicatos, participaram da greve cerca de 10 milhões e começou uma série de ocupações de fábricas em toda França.

No dia 14 de maio, um dia depois da manifestação de massas em Paris, os trabalhadores ocuparam a Sud-Aviation em Nantes e a fábrica da Renault em Cléon, seguidos pelos trabalhadores da Renault em Flins, Le Mans e Boulogne-Billancourt. Greves foram iniciadas em outras fábricas por toda a França, como em RATP e SNCF. Os jornais não saíram. 

No dia 18 de maio, os mineiros do carvão pararam de trabalhar e o transporte público ficou paralisado em Paris e em outras cidades importantes. Os trens foram os seguintes, depois o transporte aéreo, os estaleiros, os trabalhadores do gás e da eletricidade (que decidiram manter o abastecimento doméstico), os correios e as barcas que atravessam o Canal da Mancha.

Os trabalhadores tomaram o controle dos recursos petroleiros em Nantes, negaram a entrada a todos os caminhões-tanques que não tivessem a autorização do comitê de greve. Foi formado um piquete no único fornecedor de gasolina que funcionava na cidade, assim garantiu-se que o único combustível liberado era para os médicos. Foram estabelecidos contatos com as organizações camponesas nas zonas periféricas, organizou-se o abastecimento de comida, os preços foram fixados pelos trabalhadores e camponeses. 

Para evitar a especulação, as lojas tinham que deixar à vista um adesivo com as palavras: Esta loja está autorizada a abrir. Os preços estão sob supervisão permanente dos sindicatos. O adesivo ia assinado pela CGT, CFDT e FO. Um litro de leite era vendido por 50 centavos, seu preço normal era de 80 centavos. O quilo da batata baixou de 70 para 12 centavos. O quilo da cenoura passou de 80 a 50 centavos e assim por diante.

Os estudantes, os professores, os profissionais, camponeses, cientistas, jogadores de futebol, até mesmo as bailarinas do Folies Bergères foram à luta. Em  Paris os estudantes ocuparam a Sorbonne. O teatro l'Odeon foi ocupado por 2.500 estudantes e os estudantes do ensino médio ocuparam suas escolas:
'A febre de ocupação afetou a intelligentsia. Os médicos radicais ocuparam as sedes da Associação Médica, os arquitetos radicais proclamaram a dissolução de sua associação, os atores fecharam todos os teatros da capital, os escritores encabeçados por Michel Butor ocuparam a Societe de Gens de Lettres no Hotel de Massa. Inclusive os executivos das empresas participaram ocupando durante um tempo o edifício do Conseil National du Patronat Français, depois se deslocaram para a Confederation Generale des Cadres' (David Caute). 
Como as escolas estavam fechadas, os professores e os estudantes organizaram vigílias, brincadeiras, comidas gratuitas e atividades para os filhos dos grevistas. Foram criados comitês de mulheres de grevistas que tiveram um papel importante na organização do abastecimento de alimentos. Não só os estudantes, como também os advogados profissionais estavam infectados pelo vírus da revolução. 

Os astrônomos ocuparam um observatório. Houve uma greve no centro de pesquisa nuclear de Saclay, onde a maioria dos 10 mil empregados eram pesquisadores, técnicos, engenheiros e cientistas. Até a igreja foi afetada. No Quartier Latin, jovens católicos ocuparam a igreja e exigiam debates no lugar das missas.

O PODER NAS RUAS

Os distúrbios continuavam em Paris, os trabalhadores e estudantes desafiavam o gás lacrimogêneo e as baterias de policiais. Numa só noite houve 795 presos e 456 feridos. Os manifestantes tentaram incendiar a Bolsa de Paris, considerada um símbolo odiado do capitalismo. Um comissário de polícia foi morto em Lyon, atropelado por um caminhão.

Uma vez na luta, os trabalhadores começaram a ter iniciativas que iam mais além dos limites de uma greve normal. Um elemento fundamental na equação foram os meios de comunicação de massas. Formalmente, são armas poderosas nas mãos do Estado, mas também dependem dos trabalhadores, que fazem funcionar as emissoras de rádio e televisão. No dia 25 de maio, a rádio televisão estatal, a ORTF, entrou em greve. Suprimiram as notícias das oito da noite. Os gráficos e jornalistas impuseram uma espécie de controle operário sobre a imprensa. Os jornais burgueses tinham que submeter seus editoriais ao escrutínio e deviam publicar as declarações dos comitês de trabalhadores.

A Assembleia Nacional discutiu a crise universitária e as batalhas do Quartier Latin. Porém, os debates nos salões da assembleia já eram irrelevantes. O poder havia escapado das mãos dos legisladores e agora estava nas ruas. 

No dia 24 de maio, o presidente De Gaulle anunciou o referendo no rádio e na televisão. O plano de De Gaulle, de realizar um referendo, foi frustrado pela ação dos trabalhadores. O general foi incapaz até mesmo de imprimir as cédulas do referendo devido à greve dos trabalhadores das gráficas franceses e a negativa de seus colegas belgas de atuarem como fura-greves. 

Este não foi o único exemplo de solidariedade internacional. Os condutores de trens alemães e belgas detinham seus trens na fronteira francesa para não romper a greve.

As forças da reação, até aquele momento em estado de choque e obrigadas a estar na defensiva, começaram a se organizar. Foram criados Comitês de Defesa da República, como tentativa de mobilizar a classe média contra os trabalhadores e estudantes. 

A correlação de forças de classe não é uma questão puramente numérica do tamanho da classe trabalhadora em relação ao campesinato e da classe média em geral. Uma vez que o proletariado entra na luta decisiva e demonstra ser uma força poderosa na sociedade, atrai rapidamente a massa explorada de camponeses e de pequenos comerciantes que são vítimas dos bancos e dos monopólios. Este fato era evidente em 1968, quando os camponeses levantaram bloqueios nas estradas ao redor de Nantes e distribuíram comida grátis aos grevistas."

(trecho do artigo A Revolução 
Francesa de Maio de 1968,
do escritor e analista político 
britânico Alan Woods, 
editor do site marxist.com)

SÉRIE "1968, UTOPIA DO PASSADO OU PROJETO DE FUTURO?" – 3: O CÉU COMO BANDEIRA E A HISTÓRIA NA MÃO.

No início do ano letivo de 1968, sem que ninguém esperasse, a repressão da ditadura militar atacou com bestialidade extrema um restaurante para estudantes carentes no Rio de Janeiro, acabando por matar a tiros um secundarista de apenas 16 anos, Edson Souto.

O movimento estudantil brasileiro, que tinha sido praticamente extinto pela repressão em 1964, já tentara renascer nas chamadas setembradas de 1967, mas a violência dos usurpadores do poder novamente havia prevalecido. Em março de 1968, no entanto, os estudantes voltaram às ruas... para ficarem! Com a certeza na frente, tentando tomar a História na mão [1], marcaram fortemente sua presença ao longo do ano.

Aprofundando um pouco a análise, podemos dizer que o final da década de 1960 marca a transição da sociedade rígida e patriarcal, característica da fase da industrialização, para o amoralismo da sociedade de consumo, em que tudo e todos devem estar disponíveis para o mercado.
Então, de certa forma, a contestação à autoridade de autoridades, reitores, sacerdotes, doutores disso e daquilo, dos luminares da sociedade em geral, convinha ao próprio capitalismo, que estava passando da etapa das grandes individualidades para a da liderança participativa. O foco passaria a ser o consumidor, o cidadão comum, em lugar do grande homem, a personificação da elite.

Respirava-se antiautoritarismo. As artes passavam por um momento de ousadias e experimentalismo no mundo inteiro, a imprensa se modernizava a olhos vistos, a liberalização de costumes e a liberação sexual entravam com força total. O movimento estudantil, estimulado pelos ventos de mudança, foi fundo na tarefa de derrubar as prateleiras, as estátuas, as estantes, as vidraças, louças, livros, sim! [2].
E, no hiato entre a etapa capitalista que terminava e a que ia começar, muitos jovens sonharam com algo maior: uma sociedade sem classes, em que não existisse a exploração do homem pelo homem e na qual a economia se voltasse para a satisfação das necessidades humanas em vez de ser regida pela ganância. Um ideal simbolizado por Che Guevara, o último revolucionário internacionalista de dimensões míticas, com seu corpo cheio de estrelas e tendo el cielo como bandera [3].

Mas, a repressão brutal desencadeada pela ditadura, principalmente após a assinatura do AI-5, inviabilizou a mudança maior que muitos pretendiam. Então, sobre a terra arrasada, o que floresceu foi mesmo a sociedade de consumo.
A classe média, eufórica com o milagre brasileiro, tratou é de enriquecer. E a esquerda estava tão debilitada pela perda de seus melhores quadros que pouco pôde fazer contra a conjugação de  boom  econômico e terrorismo de estado.

O movimento estudantil de 1968 foi, portanto, resultado de circunstâncias especiais e únicas. Daí não poder ser comparado com o de hoje (como muitos fazem, para depreciá-lo), quando os jovens, ademais, têm de esforçar-se no limite de suas forças para começarem bem uma carreira, o que acaba fazendo-os desinteressarem-se por quase todo o resto.

COMPETIÇÃO OBSESSIVA

A própria dificuldade insana que encontram para afirmar-se profissionalmente deveria levá-los a refletir sobre as distorções da sociedade atual. A competição obsessiva que aborta talentos e condena tanta gente a não desenvolver seu potencial é um dos horrores do capitalismo globalizado.

Então, é tempo de os estudantes começam a se indagar sobre a validade de continuarem nesse funil perverso, passando por cima dos despojos dos que tombarem no caminho. 

E isto com enorme possibilidade de, adiante, baterem com o nariz na porta, à medida em que a crise do capitalismo for aprofundando-se e o descompasso entre a oferta de empregos para profissionais com formação superior e o contingente de candidatos dela dotados a buscarem empregos se tornar  cada vez maior, condenando a grande maioria à frustração e ao exercício de funções sem nada a ver com aquelas para as quais se capacitaram.

Desde a onda de ocupações iniciada em 2007 pela tomada da reitoria da USP em 2007, o movimento estudantil brasileiro vem tentando renascer. Mas, uma década depois, ainda está longe de atingir a amplitude e a consistência do de 1968, talvez por não haver tido como fermento a truculência e o obscurantismo de uma ditadura, contra a qual, necessariamente, os melhores seres humanos tomavam partido.
Mas, Zuenir Ventura está certo: 1968 foi um ano que não terminou. A revolução ainda voltará a identificar-se com as flores e as primaveras, depois deste inverno da desesperança que nos foi imposto.

Ainda veremos outras primaveras como as de Paris e de Praga, pois há uma lição que a História várias vezes nos ensinou: a humanidade não aguenta viver indefinidamente sem solidariedade e compaixão.

O mundo se tornou um lugar muito ruim para se habitar sob o neoliberalismo, ainda mais na versão selvagem que Donald Trump agora nos tenta enfiar goela abaixo. Algo tem de mudar – e esta mudança precisa começar o quanto antes, para deter a marcha da insensatez enquanto ainda existe algo para salvarmos.
E, depois dos terríveis fracassos a que a esquerda domesticada, populista e reformista nos tem conduzido ao longo deste século, a esperança de volta por cima é encarnada pelas novas gerações, pela juventude que ainda é capaz de sonhar com uma sociedade igualitária e justa, e de lutar com todas as suas forças para concretizar este sonho. 

Temos de aprender a lição que a História, ultimamente, não cansa de nos ensinar: os que se contentam com um mínimo, acabam ficando sem nada. É hora de voltarmos a mirar o prêmio máximo, aquele pelo qual vale realmente a pena lutarmos: o fim do capitalismo. E é a juventude que pode e deve encabeçar esta luta.
Lembrando a grande música do Sérgio Ricardo: se você não vem, eu mesmo vou brigar [4]

Lembrando o Edu Lobo dos melhores momentos: vou ver o tempo mudado e um novo lugar pra cantar [5].

Lembrando o Raulzito, profeta da sociedade alternativa que nos serve de inspiração para transformarmos a sociedade como um todooh baby, a gente ainda nem começou [6].
[1] Geraldo Vandré, Pra Não Dizer Que Não Falei de Flores
[2] Caetano Veloso, É Proibido Proibir
[3] Gil, Capinam e Torquato Neto, Soy Loco Por Ti, América
[4] Sérgio Ricardo, Esse mundo é meu
[5] Edu Lobo, Ponteio
[6] Raul Seixas, Cachorro Urubu

domingo, 29 de outubro de 2017

O FESTIVAL DE HIPÉRBOLES DEFORMA O DEBATE POLÍTICO. O DE MORALISMO RANÇOSO TENTA RESTAURAR A CENSURA.

TEMPOS DE HISTERIA
Vivemos tempos histéricos. Não que isso seja o fim dos tempos. A democracia liberal permite aos cidadãos serem tão hiperbólicos quanto desejarem.

Apesar de o exagero ser permitido, não creio que seja bom conselheiro. Ao contrário, penso que uma análise equilibrada dos fatos é o ponto de partida necessário para decisões sábias. Assim, hesito entre a frustração e o divertimento (não podemos perder o bom humor) ao ver gente protestando contra a pedofilia em museus, a ração humana para pobres ou a revogação da Lei Áurea.

O Congresso andou endurecendo as leis de crimes sexuais, mas, até onde sei, levar filhos a uma exposição que mostre nus ainda é uma atitude legal, assegurada pelo princípio da liberdade de expressão e pelas normas que dão à família o direito de educar rebentos segundo seus próprios valores, não os do MBL.
Se museu de arte moderna não comporta isto, para que serve?!

O prefeito João Doria, mais uma vez, pisou na bola ao privilegiar factoides em detrimento de planos consistentes, mas, até onde sei, não há nada de intrinsecamente errado ou imoral em liofilizar alimentos prestes a vencer. É tudo uma questão de mostrar que a farinha resultante é segura e útil –o que o prefeito não fez.

Já a portaria que muda a definição de trabalho análogo à escravidão tem problemas morais, legais e políticos, mas, daí a afirmar que equivale à revogação da Lei Áurea, vai enorme distância. Por mais graves que sejam os abusos hoje cometidos por empregadores, não dá para compará-los com a escravidão de verdade, que incluía chibatadas, admitia a venda de pessoas, a separação de famílias e ainda mobilizava o Estado para recapturar os negros fujões.

Aliás, não entendo como o movimento negro, que protesta até contra o uso da expressão black is beautiful num comercial, nunca se insurgiu contra o uso do termo escravo no contexto trabalhista. Essa sim me parece uma imagem que avilta a memória da chaga que foi a escravidão.

De volta aos velhos e maus tempos: meio século depois,
somos obrigados a gritar de novo É PROIBIDO PROIBIR!
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