terça-feira, 31 de janeiro de 2017

SOMOS VÍTIMAS E PROTAGONISTAS DE UMA SOCIEDADE DOENTE

"Errar é humano. Botar a culpa nos outros,
também." (Millôr Fernandes, humorista)
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O ser humano tem uma capacidade impressionante de adaptação e submissão às condições adversas de vida, a ponto até mesmo de rejeitarem as possibilidades de melhora de vida propostas. 

Atualmente no Brasil (e na maior parte no mundo), as pessoas convivem apaticamente com claros sintomas de que a sociedade está doente. Ao invés de se rebelarem contra tal situação, preferem fechar-se numa concha individual de pretensa proteção, à espera da solução dos problemas por parte de outrem, como se coubesse apenas aos entes chamados vagamente de autoridades a responsabilidade de apagarem os incêndios que não cessam de surgir.  

Os indícios de patologias sociais são flagrantemente constatáveis, bastando para isto abrirmos a porta das nossas casas ou ligarmos a televisão. 

Por que somos obrigados a erigir muros em volta das nossas casas e (os que temos maior poder aquisitivo) sobre eles colocar cercas elétricas, ou (os menos favorecidos) aqueles feios cacos de vidros, enquanto os favelados dispensam muros, pois não possuem quase nada que alguém possa cobiçar? 

Por que não podemos ver a diversidade da arquitetura urbana, que, a partir dos muros, mais parece um tedioso e repetitivo bloqueio visual dos emparedados (agora, em São Paulo, sem a arte dos desenhos em grafites, que quebravam um pouco tal monotonia)?     

Por que nos grandes centros urbanos somos obrigados a passar horas e horas no congestionamento de veículos para ir ao trabalho e para dele voltar, seja em ônibus ou carros particulares, aspirando gás carbônico que, além de poluir o ar que respiramos, produz o chamado efeito estufa, criando uma barreira na atmosfera que contribui para o aquecimento do planeta?

Por que nossos rios e mares são poluídos com o lixo que descartamos de modo displicente e irresponsável, além de neles jogarmos dejetos industriais altamente poluentes e de termos uma deficiente coleta do lixo, cujo destino final são os aterros anti-sanitários?

Por que se estabeleceu entre nós a cultura de buscarmos sempre sobrepujar os nossos semelhantes nas mais variadas situações do cotidiano, como se fôssemos adversários uns dos outros numa competição fratricida, que acaba sendo o salvo-conduto para a prática da  beligerância coletiva? 

Por que cometemos a pequena corrupção e recriminamos a corrupção sistêmica (desde que praticada por nossos adversários ideológicos)?  
Por que somos obrigados a pagar um plano de saúde caro, cujo atendimento muitas vezes nos é negado em momentos cruciais por uma burocracia qualquer, ou a nos sujeitar ao atendimento médico do SUS, cuja ineficiência é notória? 

Por que na periferia das cidades as pessoas são obrigadas a viver em ruas mal pavimentadas, sem esgotamento sanitário e drenagem contra alagamentos, além de terem de viajar em ônibus precários e vagões abarrotados?

Por que somos obrigados a conviver com tão extremado nível de violência, expresso, p. ex., nas mortes por balas perdidas e na assustadora frequência de assaltos a caixas eletrônicos, num país que outrora era conhecido pela cordialidade do povo e convívio pacífico das várias etnias?

Por que assistimos à volta de doenças como tuberculose, hanseníase e febre amarela, além do recrudescimento da dengue e do surgimento de viroses como zika e chikungunya?  

Por que ainda temos elevado índice de analfabetismo e (o que é tão grave quanto!) grande parte da população sendo considerada analfabeta funcional, incapaz de interpretar um texto, por mais simples que seja, ou de redigir um recibo?

Por que somos obrigados a tomar conhecimento, pelo noticiário, dos repetidos episódios de desvio de verbas da merenda escolar por políticos corruptos?

Por que somos obrigados a aceitar taxas de juros do cartão de crédito que atingem até 480% ao ano, quando a inflação anunciada se situa atualmente na casa de pouco mais de 6% ao ano?

Por que temos de suportar a constante anulação dos direitos adquiridos (como a redução dos valores da aposentadoria por parte do sistema de previdência social estatal, ao mesmo tempo em que passa a exigir cada mais tempo de contribuição do candidato à mesma aposentadoria?

Por que uma condenação penal por qualquer crime pode significar inclusão obrigatória como soldado do crime organizado, ou a morte num presídio, sem que o estado garanta a incolumidade física do apenado, função e responsabilidade de sua incumbência, fato que significa uma condenação à criminalidade ou à pena de morte não oficializada? 

Por que temos (principalmente os jovens) de conviver com o fantasma do desemprego, que obriga um pai e/ou uma mãe de família, a passar fome junto com seus filhos, sob risco de despejo por falta de pagamento de alugueis, quando estão aptos a um emprego, mas este lhes é negado? 

Por que somos obrigados a consumir vegetais e frutas contaminadas com agrotóxicos que causam câncer, tudo em nome de melhora da produtividade para maximização dos lucros?

Ufa! 

Seriam ainda muitas as citações possíveis de fatos inerentes à miséria social que à qual a maioria da população é submetida no atual estágio da vida brasileira, em contraste com o admirável desenvolvimento tecnológico, capaz:
— de produzir embriões humanos ou clones de animais pela engenharia genética, como se fossem xerox de papel;  
— de produzir drones minúsculos ou gigantes, capazes de transportar pequenos objetos ou seres humanos;  
— da comunicação imediata auditiva e visual em todos os quadrantes do mundo, via satélite;  
— dos robôs com inteligência artificial;  
— dos veículos que trafegam sem motoristas pelas ruas e avenidas;  
— das naves interplanetárias capazes de pousar em planetas distantes com transmissão instantânea de informações; etc., etc. etc. 
Entretanto, o contraste entre os ganhos do saber da humanidade e a miséria social antes referida é flagrante, e deriva de um modo de relação social cuja superação é tema tabu; e que sempre foi ruim, mas que agora se tornou absolutamente insuportável, por obsolescência completa de sua forma e conteúdo, mas que continua a ser praticado. 

Mas, a permanência deste modelo de relação social cruel e falido pode ser explicada a partir de alguns fatores principais, quais sejam:
a força coercitiva institucional, que mantém pela lei e pela força manu militari o atual status quo 
— a inconsciência social sobre a negatividade da mediação social reificada que lhe é subjacente;  
— a adaptação comodista dos indivíduos sociais à opressão que lhes é imposta; 
— o medo do novo e do desconhecido.
A miséria, por si só, não se constitui em fator de emancipação. Ao contrário, é fator de submissão, por um lado, e de promoção da barbárie na sua forma mais cruel e opressora, por outro lado. Caso a miséria fosse indutora da emancipação, a África com seu quase 1 bilhão de habitantes, seria um bom exemplo. Não é.  

Neste sentido, os países desenvolvidos, ora atingidos pela crise do capitalismo e com seus altos níveis de escolaridade e consumo em fase de perdas, devem representar uma luz no fim do túnel. 
Por Dalton Rosado

Que o digam as crescentes e altamente participativas manifestações contra a estupidez de um Donald Trump, que, com sua visão microeconômica da economia aplicada à administração pública, está apressando a morte de um sistema moribundo chamado capitalismo. 

segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

OS 20 ANOS DA MORTE DO PAULO FRANCIS: É HORA DE AVALIARMOS SUA TRAJETÓRIA COM UM POUCO DE COMPREENSÃO.

"Infelizmente, nós, 
que queríamos preparar o caminho para a amizade, 
não pudemos ser, nós mesmos, bons amigos. 
Mas vocês, quando chegar o tempo
em que o homem seja amigo do homem, 
pensem em nós
com um pouco de compreensão."
(Brecht, Aos que virão depois de nós)
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No próximo sábado, 4, duas décadas terão transcorrido desde a morte do analista político e crítico de cultura Franz Paul Trannin da Matta Heilborn, mais conhecido como Paulo Francis. Ele foi vítima de enfarte, aos 66 anos de idade.

Os acontecimentos posteriores vieram, por um lado, provar que ele tinha carradas de razão nas acusações de corrupção que fazia à Petrobrás, tidas por muitos como causa do seu óbito (andava muito assustado com o processo milionário que a estatal lhe movia nos EUA).

E,  por outro lado, colocaram por terra sua ilusão de que, nas asas da 3ª revolução industrial, o capitalismo conduziria a humanidade ao Paraíso. Ledo engano. Com uma depressão pior ainda que a da década de 1930 se desenhando no horizonte, danos ambientais cada vez mais ameaçadores e Donald Trump tudo fazendo para botar fogo no circo, hoje se teme inclusive pela sobrevivência da espécie humana.

Os mais jovens, que não conheceram o Francis d'O Pasquim e da vibrante participação inicial na Folha de S. Paulo (quando esta ainda tinha como diretor de redação o inesquecível Cláudio Abramo, defenestrado pelos militares em 1977), guardam dele a imagem negativa, antipática, de sua última fase.

Eu não considero Francis um típico esquerdista que endireitou ao se tornar sexagenário, conforme a frase célebre do ex-presidente Lula.

Prefiro vê-lo como quem caiu numa armadilha da História, pois suas convicções arraigadas e um cenário enganador o induziram a um terrível erro de avaliação. E não sobreviveu tempo suficiente para cair na real e, talvez, corrigir seu rumo.

Para um melhor entendimento do que estou falando, vou lembrar sua trajetória toda.

Ele estudou em colégios de jesuítas e beneditinos, cursando depois, por uns tempos, a Faculdade de Filosofia da Universidade do Brasil. Trocou-a por uma pós-graduação em Literatura Dramática na Universidade de Columbia (Nova York), que também não concluiu.

Chegou a ser ator e diretor teatral, mas acabou no nicho tradicional dos que são melhores para escrever sobre suas paixões artísticas do que para personificá-las: a crítica, a partir de 1959, no Diário Carioca.

Paralelamente, colaborava com a revista Senhor (que mais tarde viria a editar) e escrevia sobre política no jornal Última Hora, de Samuel Wainer.

Relatou, mais tarde, um episódio pitoresco do seu noviciado. Entregou uma crítica teatral toda pomposa, repleta de termos pernósticos, ao seu editor. Ao recebê-la de volta, viu um grosso traço vermelho circundando a expressão “via de regra”. E o comentário: “Via de regra é a buc...”.

[Para os jovens que desconhecem o linguajar de outrora, esclareço que regras era um eufemismo para menstruação.]

Francis disse que essa foi a primeira e única lição aproveitável de jornalismo que recebeu: escrever com simplicidade e clareza, em vez de pavonear-se com exibições desnecessárias de erudição.

Também comentou que tudo que há para se aprender de jornalismo, aprende-se em 15 dias numa redação. Daí sua avaliação de que o fundamental para o exercício dessa profissão é uma formação cultural sólida, humanística e universalizante.

Ou seja, jornalismo tem tudo a ver com história, sociologia, psicologia, antropologia, filosofia, política, economia, literatura. Isto, sim, é que deveria ser priorizado na formação de um jornalista, segundo Francis (para ele, o mero ensino de técnicas era algo secundário, mais apropriado para liceus de artes e ofícios).

Era, aliás, assim que o lecionavam, p. ex., na Escola de Comunicações e Artes da USP quando a cursei, entre as décadas de 1970 e 1980: os dois primeiros anos voltados para a formação geral e só os dois últimos para a específica. Depois, tragicamente, sobreveio a capitulação diante do capitalismo pós-industrial, que execra o pensamento crítico e reduz o ensino à mera capacitação profissional.
NA TRINCHEIRA DAS PALAVRAS
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Embora não deixasse de registrar os erros e limitações das esquerdas brasileiras, por ele tidas como muito distantes da grandeza histórica e intelectual do seu ídolo de então – Trotsky, o teórico da revolução permanente e mártir da oposição de esquerda ao stalinismo –, Francis considerava que a prioridade era combater as forças de direita.

Foi o que fez no conturbado período da renúncia de Jânio Quadros, da tentativa de golpe para impedir a posse do vice-presidente eleito e do ziguezagueante governo de João Goulart.

Não desistiu depois do golpe militar. No Correio da Manhã, na Tribuna da Imprensa e na revista Realidade, continuou manifestando seu inconformismo com o país da ordem unida.

O lançamento do semanário O Pasquim, em junho de 1969, lhe deu projeção nacional. A Senhor e a Realidade já o haviam tornado conhecido em outros estados, mas num circulo restrito de intelectuais e pessoas sofisticadas. O Pasquim sensibilizou o público jovem, atingindo tiragens mirabolantes para um veículo alternativo.

E o Francis era o guru da turma em todos os assuntos referentes à política nacional e internacional, bem como à visão de esquerda da cultura. Com seus conhecimentos vastíssimos, dominava qualquer discussão.

Leitor assíduo de um sem-número de publicações estrangeiras, tinha sempre algo novo a dizer sobre a Guerra do Vietnã, um dos grandes temas da época.

Furando toda a grande imprensa, Francis, n'O Pasquim, foi o primeiro a informar os leitores brasileiros sobre o massacre de My Lai, que fez crescer em muito o repúdio mundial à intervenção estadunidense.

Disponibilizava as informações que a grande mídia, por ideologia, covardia ou incompetência, sonegava do seu público.

Era também um crítico implacável da postura israelense de impor sua vontade pela força no Oriente Médio, o que lhe acarretava acusações rasteiras de que isto se deveria à sua ascendência alemã.

Uma boa mostra da qualidade do seu trabalho jornalístico e das devoções que o inspiravam está no seu abrangente artigo sobre o aniversário da revolução soviética (vide parte 1 e parte 2).
Foto que soldado dos EUA tirou dos mortos de My Lai

E, sendo um dos opositores mais contundentes do reacionarismo dos EUA, também não poupava a URSS, que colocava praticamente no mesmo plano, como grande potência que priorizava sempre seus interesses (e não os da revolução). Isso só fazia aumentar o seu prestígio aos olhos de uma geração que se decepcionara terrivelmente com o esmagamento da Primavera de Praga.

Cansado de ser preso pela ditadura, mudou em 1971 para Nova York, de onde mandava seus textos para o próprio Pasquim, a Tribuna da Imprensa, a revista Status e a Folha de S. Paulo (à qual chegou pelas mãos do diretor de redação Cláudio Abramo, também de formação trotskista).

Continuava, basicamente, um homem de esquerda, mas travava polêmicas azedas com quem ele considerava esquerdistas de salão, como a feminista Irede Cardoso. [Ela sofreu um dos maiores massacres intelectuais de que tenho notícia.]
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SOB OS HOLOFOTES GLOBAIS
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Paulo Francis, como muitos outros intelectuais de sua geração, foi perdendo o pique à medida que a ditadura ia deixando de exibir suas garras. Seu talento sobreviveu à ditadura, mas definhou na praia da redemocratização.

A partir de seu posto de observação privilegiado, captou bem a tendência desestatizante do final do século passado.

E foi quando toda sua história de opositor ferrenho da estatização compulsória e autoritária que caracterizaram o stalinismo fê-lo cometer um desatino: ajudou entusiasticamente a impulsionar a desestatização de Thatcher e Reagan, com seus escritos em O Estado de S. Paulo e suas participações no jornalismo da Rede Globo, bem como no programa de TV a cabo Manhattan Connection.

Se estava certo quanto à falta de pujança da economia soviética e o parasitismo das estatais brasileiras, não percebeu que o mundo engendrado pela globalização viria a ser uma versão mais desumanizada ainda do capitalismo selvagem.

O oásis que vislumbrou era ilusório. Todos aqueles avanços científicos e tecnológicos que estavam ocorrendo simultaneamente com o deslanche da 3ª revolução industrial na década de 1990 (informática, biotecnologia, engenharia genética, novos materiais, novos processos) pareciam mesmo augurar um futuro melhor para a humanidade... mas desembocaram, isto sim, numa forma mais avançada de dominação, como Marcuse previra com grande antecedência. A ciência e a tecnologia ajudando a perpetuar a desigualdade social, as injustiças mais aberrantes e o embotamento do senso crítico.

Só que não era tão fácil adivinhar-se tal evolução naquele instante de enorme otimismo e euforia, assim como poucos em 1970 apostariam que o milagre brasileiro de Delfim e Médici fosse ter fôlego tão curto.

A intuição de Francis o traiu quando mais precisava dela, para evitar a nódoa final numa biografia impecável.

Acabou como um daqueles medalhões midiáticos que antes ridicularizava, aclamado mais por ter se tornado celebridade do sistema do que pela real qualidade do seu trabalho – como suas incursões pela literatura, em que a racionalidade e a mordacidade excessivas deixam tudo com um jeitão artificial, de tramas concebidas mecanicamente para demonstrar teses, ridicularizando comportamentos e desafetos.
A justiça tardou, mas não falhou: a quadrilha foi desbaratada.
Morreu na hora certa, antes que o admirável mundo novo erguido sobre os escombros do muro de Berlim mostrasse suas feições monstruosas, sepultando, en passant, as análises e avaliações que Francis fazia em seus últimos escritos – os quais acabaram se revelando, mesmo, agônicos...

Ou, pelo contrário, talvez tenha perdido a chance de constatar que o fim do socialismo real não significava o fim da História, com o capitalismo logo atingindo seu limite extremo de expansão e passando a sobreviver em crise permanente no século 21, quando só consegue protelar a inevitável debacle promovendo um rodízio dos rigores (que vão sendo impostos a país após país) e recorrendo a artificialidades como a emissão de dinheiro sem lastro e a concessão exagerada de crédito.

Quem sabe até, em mais uma reviravolta surpreendente, não teria sido ele um dos arautos da nova utopia de que a humanidade tanto carece nos dias atuais?

O certo é que, independentemente de, em seus estertores, haver-se extraviado num labirinto do destino, foi um intelectual articulado e consistente como dificilmente se vê nestes tristes trópicos, deixando o legado de uma atuação memorável nas décadas de 1960 e 1970.

Talvez o melhor epitáfio para Paulo Francis seja outra de suas frases célebres: "Não há quem não cometa erros e grandes homens cometem grandes erros".

domingo, 29 de janeiro de 2017

FEDERER FEZ O INACREDITÁVEL: DERROTOU AS CONTUSÕES, A IDADE E O NADAL!

No tênis altamente competitivo dos dias atuais, o suíço Roger Federer parecia estar nos estertores de sua glória quando, em agosto de 2010, perdeu pela segunda vez a posição de nº 1 do mundo.

Antes, a mantivera por incríveis 237 semanas consecutivas, entre fevereiro de 2004 e agosto de 2008, época de sua absoluta supremacia; e a reconquistou em julho de 2009, perdendo-a, contudo, em junho de 2010, sem atingir a cobiçada meta de 300 semanas, um patamar que seria praticamente inigualável. Ficou no meio do caminho, com 285 semanas.

Prestes a completar 29 anos de idade, ninguém acreditava mais que voltasse ao apogeu. Mas, insistiu: mudou de treinador, mudou o estilo de jogo, ralou nos treinamentos e foi buscar a marca almejada, acrescentando à soma mais 17 semanas (entre julho e novembro de 2012). 

Total: 302. Novak Djokovic, o que está mais próximo, tem 223 e a concorrência brava de Andy Murray nos dias atuais.
Seu primeiro Grand Slam: Wimbledon, 2003.
Aí a fonte parecia ter secado em definitivo. Não ganhou mais nenhum torneio de Grand Slam e viu Rafael Nadal aproximar-se perigosamente do seu recorde de 17. O espanhol, com 14, certamente sonhava desbancar o maior de todos no outro parâmetro mais importante do tênis profissional.

Para piorar, as contusões que vinham atormentando Federer nos anos de vacas magras chegaram ao auge em 2016, quando teve de passar o segundo semestre inteiro fora das quadras, em cirurgia, tratamento e recuperação.

Ao voltar em 2017, só poderia ser visto como um azarão no primeiro grande torneio da temporada, o Australia Open. Aí ele se superou: mesmo tendo despencado para o 17º lugar do ranking por conta de sua longa inatividade, foi capaz de, partindo de baixo e pegando rivais mais difíceis, derrotar quatro dos Top10 e se tornar um inacreditável campeão de 35 anos!

O triunfo épico deste domingo (29) praticamente serviu para barrar Nadal, que agora está a quatro Grand Slam de empatar com ele e a cinco de o superar. Aos 30 anos e também já sofrendo os efeitos das contusões, as chances de consegui-lo se tornaram mínimas. 
O começo de tudo, aos 8 anos.

E pôs fim a uma tola polêmica sobre quem seria o melhor dos dois: o tenista de técnica mais apurada em todos os tempos (Federer) ou o maior guerreiro das quadras (Nadal). O espírito de luta e a força mental do espanhol lhe valeram vitórias contra o suíço, mas, para quem admira sobretudo o brilhantismo das performances, jamais houve dúvida.  

Minha admiração por Federer se deve também ao amor que tem por seu esporte, fundamental para, em duas ocasiões, ele haver dado a volta por cima quando todos aguardavam o anúncio de que penduraria a raquete. 

Ele não continua jogando movido pela ganância, nem se incomoda com as derrotas que vai acumulando no confronto com tenistas de uma, duas e até três gerações posteriores à sua (não está longe o dia em que enfrentará um adversário com metade da sua idade...). 

Joga pelo prazer de jogar, para retribuir o carinho dos torcedores e pela satisfação de ter-se tornado rei de um esporte que o apaixona desde menino, quando era pegador de bolas nas quadras suíças em que mais tarde exibiria seu fulgurante talento.
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HOUVE UMA VEZ UM CRÍTICO ACIDENTAL

Era um fascínio que vinha de longe. Foi uma cruel decepção.
Durante uns cinco anos, entre 1979 e 1984, atuei como crítico de cinema e de música em veículos de pouca expressão.

Mesmo ganhando pouco, é a fase da minha carreira profissional que me deixou as melhores recordações. Até como compensação, tinha liberdade para escrever o que queria, do jeito que queria. Repetindo o Jim Capaldi, "oh, how we danced!"...

Espelhava-me em pesos-pesados como Paulo Francis, Luiz Carlos Maciel e Rubem Biáfora, com quem aprendera a apreciar a arte com olhar independente, em vez de ser mais um a fazer oba-oba para os artistas e obras de que todo mundo gostava.

Isto me colocava na contramão de uma crítica que começava a funcionar apenas como fornecedora de subsídios para o consumo, oferecendo aos leitores uma bula para eles decidirem se valia a pena ver determinado filme, comprar certo disco. Cheguei a escrever que se tratava, isto sim, de uma burla que se cometia contra a arte.
O primeiro Alien era mesmo uma overdose de clichês

A ficha me começou a cair quando assisti numa cabine a Alien, o Oitavo Passageiro, de Riddley Scott, ao lado dos maiores nomes da critica cinematográfica de São Paulo.

À saída, os medalhões travaram verdadeira competição para ver quem se lembrava de mais filmes antigos dos quais Scott chupara trechos. Demonstraram claramente ter considerado Alien uma colcha-de-retalhos e um lixo.

Qual não foi minha surpresa ao constatar, dias depois, que todos eles haviam feito média com o filme, permanecendo confortavelmente em cima do muro, nem sim, nem não, muito pelo contrário.

Perdi o pouco de respeito que ainda me inspiravam.

O "PROMÍSCUO" ZEFIRELLI — Outro episódio na mesma linha foi o ocorrido quando da coletiva que o diretor italiano Franco Zefirelli concedeu, ao lançar em São Paulo O Campeão. Antipatizei com o filme por ser um reforço dos valores familiares, uma guinada na direção do conservadorismo, depois de toda a efervescência da geração das flores.

Além disto, Zefirelli acabava de ser contratado a peso de ouro para montar uma ópera no Rio de Janeiro, embora, garantissem os expertos, houvesse muitos brasileiros que poderiam desempenhar melhor a função, recebendo bem menos.
Franciscano? Nem um pouco...

Então, combinei com o colega do Diário Popular que, durante a entrevista, revezando-nos, jogaríamos o máximo de cascas de banana no caminho de Zefirelli.

Dito e feito. O italiano escorregou feio, chegando até a admitir que, ao contrário do moralismo piegas do seu filme, ele próprio era "promíscuo". E foi além no ridículo involuntário: "Mas, se todos fossem como eu, não existiria civilização".

Em nossas matérias, não perdemos a oportunidade de espinafrar o conspícuo remanescente de Sodoma e Gomorra – que, ademais, reconhecera não conceber os filmes seguindo suas convicções, mas sim com o calculismo de um homem de marketing.

Ou seja, ele procurava antecipar-se aos sentimentos e modismos que estariam em voga quando a película fosse lançada. É o que se depreende desta afirmação: "Não fiz Irmão Sol, Irmã Lua por ser franciscano, mas sim por ter percebido que a juventude estava entrando nessa onda e, logo, muita gente a seguiria..."

Mas, só nós dois registramos os maus momentos de Zefirelli. Os críticos realmente influentes omitiram suas bobagens e trataram de apenas levantar-lhe a bola, mantendo-se nas boas graças do sistema.

Eu, pelo contrário, nunca conciliei. Não hesitei em qualificar de irrelevante o Superman de 1978, com Marlon Brando. Aí, um diretor do poderoso Circuito Serrador fez questão de me entregar pessoalmente a permanente para ter livre acesso aos cinemas da empresa... com direito a um sermão sobre haver afastado os espectadores do seu grande lançamento daquele ano. Não dei a mínima.

Já as farpas contra o O Franco-Atirador, de Michael Cimino, serviram para azedar meu relacionamento com os mandachuvas do principal veículo em que escrevia, o jornal Fim-de-Semana.
Os bárbaros eram quem mesmo, cara pálida?!

Eles eram todos altos funcionários do jornal O Estado de S. Paulo (dizia-se até que não passava de um veículo criado para descarregar impostos da empresa, apresentando perdas extremamente superfaturadas...) e, como tais, reacionários até a medula.

Ora, O Franco-Atirador, agraciado com vários Oscar, apresentava o conflito vietnamita na ótica calhorda de lamentar os traumas sofridos pelos soldados estadunidenses em contato com a barbárie dos asiáticos.

Ou seja, além de despejarem toneladas de napalm nos coitados, os estadunidenses ainda os satanizavam. Parecia a velha piada do brutamontes se queixando ao fracote de que havia machucado a mão ao esmurrar a cara dele.

Perdi aquela tribuna e não lamentei. "Canto eu vendo, não vendo é opinião", dizia uma velha música da era dos festivais.

INTIMIDAÇÃO DE CRÍTICOS — Não pude, entretanto, deixar de lamentar o fato de haver, noutro episódio, indiretamente causado a demissão do crítico e cineasta Jairo Ferreira da Folha de S. Paulo, já falecido.

Naquele tempo, a nata dos cineastas engajados estava na órbita da estatal Embrafilme, cuja assessoria de imprensa passou a fazer uma espécie de lobby para intimidar críticos: cada vez que um deles lançava seu novo filme, todos os outros figurões escreviam elogios extremados e desancavam de forma igualmente extremada ("colonizado", etc.) quem ousasse discordar da excelência da película lançada.
"Mamãe, eu quero mamar..."

Isto tudo vinha em luxuosos press-kits, cuidadosamente produzidos para embasbacar, amedrontar e, finalmente, cooptar os críticos.

Observei o fenômeno uma, duas vezes. Na terceira, fiz uma veemente denúncia. Contei como funcionava o esquema e escrevi que, mesmo correndo o risco de me indispor com os Glauberes e Nelsons Pereiras, iria discordar: aquele filme era uma droga.

O amigo Jairo leu, gostou e resolveu bater na mesmíssima tecla.

Só que a Embrafilme despejava rios de dinheiro na Folha, com seus anúncios enormes e caríssimos. Então, por coincidência, uma semana depois ele foi demitido, a pretexto de que uma crítica sua, escrita para ser publicada no sábado, saíra só na segunda-feira, quando o filme já não estava em cartaz.

A editora da Ilustrada disse que não tinha sido avisada da urgência. O Jairo me garantiu que a alertara.

PARA ALÉM DA CRÍTICA DOMESTICADA — De resto, a contribuição maior que eu tentei dar foi propor uma crítica que não se limitasse aos mexericos de estúdios a que o Rubens Ewald Filho conferia tanta importância (quem transou com quem durante as filmagens, etc.) ou à abordagem puramente técnica.

Queria que o cinema fosse tratado como algo maior. Que os temas levantados pelos filmes também fossem discutidos e aprofundados, não apenas a maneira como estavam sendo apresentados. Que se confrontasse, p. ex., o filme e a obra literária do qual ele derivava. Ou o filme e o acontecimento histórico que ele retratava.
Cineastas paralisando o Festival de Cannes de 1968

Seria mais trabalhoso para os críticos mergulharem fundo em cada filme? Claro que seria. Mas, só assim daríamos aos espectadores subsídios para fluírem a arte em sua plenitude, como algo capaz de modificar e melhorar o ser humano.

A avaliação era do filósofo Herbert Marcuse, meu autor de cabeceira naquele tempo: a sociedade pós-industrial tenta domesticar a arte, transformando-a em entretenimento inócuo. Mas, a verdadeira arte será sempre um contraponto à realidade, servindo de ponte entre o que é e o que poderia ser. Cabe aos combatentes da utopia impedir que ela se torne inócua.

É claro que meu trabalho acabou sendo ignorado pela grande imprensa; e que, ao propor um enfoque diametralmente oposto ao que convinha ao sistema, queimei minhas chances de estabelecer-me como crítico. Acabei não conseguindo sequer sobreviver nessa área, sendo obrigado a trocá-la pelo –argh!– jornalismo econômico.

Mas, como nunca tive compromisso com o sucesso, faria tudo de novo. Afinal, disse Isaac Deutscher, há vitórias que nos aviltam e derrotas que nos dignificam.

Sendo essas as únicas opções, preferirei sempre as segundas.
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Assista aqui a um clássico sobre a paixão pela sétima arte

sábado, 28 de janeiro de 2017

O QUE A ESQUERDA DEVERIA DIZER ÀS SUAS OVELHAS NEGRAS, SEGUNDO O DALTON ROSADO: "FORA TUDO, FORA TODOS!".

O FACCIOSISMO COMO CRITÉRIO
 NEGATIVO DA CRÍTICA
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"Às pessoas facciosas, depois de admoestá-las
severamente, evita-as, pois, senão, também
serás corrompido" (Bíblia, Livro de Tito)
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Nestes dias nos quais se escancaram as provas da promiscuidade do todo o segmento político (só estão de fora os que ainda não tiveram força de acesso ao poder ou de interferência nele, mas logo, logo caminharão para tal comportamento, à medida que dele se aproximarem) com o empresariado, expressos pela grande mídia na cobertura da decretação da prisão do bilionário Eike Batista, nós podemos aferir quão facciosas e inconsequentes são as defesas dos corruptos de um lado e de outro. 

A Globonews se apressa em demonstrar enfaticamente que os jatinhos do empresário Eike Batista serviram aos governantes petistas e seus aliados, omitindo o fato de que dito empresário, como sói acontecer, também servia aos políticos mais conservadores. Nisto não há nenhuma novidade.

O capital costuma corromper a todos os que exercem o poder político, o qual funciona como sua submissa linha reguladora auxiliar. Desta onda não escapa ninguém: os poucos que não se corrompem, perdem o jogo e são dele expulsos como um vírus estranho ao organismo. 
Aécio Neves, outro amigo desde criancinha do Eike Batista

Por seu turno, constato que os companheiros da esquerda, ao contestarem tal facciosismo midiático, verdadeiramente inaceitável, fazem-no no sentido de isentar de culpa os governantes que pertencem ao seu campo político.   

Aos revolucionários, que não compactuam com a promiscuidade, seja ela praticada por companheiros ou pelos corruptos históricos (os insensíveis, prepotentes e intolerantes governantes da direita), cabe a denúncia de todos os corruptos, indistintamente; e o apoio àqueles que, movidos por sentimento de neutralidade jurídica (difícil de ser mantida numa sociedade na qual predomina o poder do capital), norteiam a sua atuação jurisdicional para o combate à corrupção, provenha ela do agrupamento político que provier.. 

A eterna cantilena de que os membros do poder judiciário que combatem a corrupção estão a serviço das forças da direta ou do capital estrangeiro é inconsistente, ainda que eles estejam enquadrados por uma ordem jurídica opressora na sua essência. Mas nós precisamos distinguir as coisas, sob pena de condenarmos as boas ações, ainda que paliativas ou ingênuas. 

O combate, por parte do Judiciário, da corrupção derivada de práticas promíscuas do poder publico com o empresariado privado, equivale a enxugar gelo, na medida em que a grande corrupção sistêmica (aquela que subtrai do trabalhador parte do seu tempo de trabalho, não remunerando-o, via extração de mais-valia) é oficialmente permitida. 

Mas, isto não significa que a corrupção considerada oficialmente como criminosa não deva ser denunciada e combatida, com a punição de quem quer que a pratique, qualquer que seja o campo político do corrupto, e quaisquer que sejam as suas intenções. É o mínimo que se deve fazer. 

Admitir que a corrupção possa ser consentida desde que praticada por companheiros, supostamente servindo para alavancar boas causas, significa permitir o uso continuado de um mesmo cachimbo, acreditando que ele não vá entortar a boca. Tal concepção corresponde a um equívoco moral e a uma ética hipócrita, deturpada e facciosa, amoralista em sua essência.

O empresário Eike Batista construiu a sua meteórica fortuna a partir de maracutaias com o poder, praticadas em todos os níveis deste mesmo poder e em conluio com as siglas partidárias, tudo na base do é dando que se recebe

A corrupção associada ao poder público sempre envolve esferas diferenciadas de controle; de tão variada, não pode ser atribuída apenas a uma ou outra corrente política. Trata-se de um agir entranhado na ordem institucional sistêmica, no qual todos os agentes públicos dirigentes e privados saem ganhando e a imensa maioria do povo, que é quem paga os impostos, sai sempre perdendo.         
À esquerda seria indispensável que abandonasse a defesa de seus pares corruptos, readquirindo credibilidade para combater os seus adversários ideológicos igualmente corruptos. 

Aos revolucionários somente cabe uma frase, cada vez mais necessária: FORA TUDO, FORA TODOS! (*)
                                                       (por Dalton Rosado)
* "Fora tudo, fora todos!" é o refrão da música Coquetel molotov, de autoria de Dalton Rosado, que você pode escutar aqui..
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