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sexta-feira, 29 de dezembro de 2023

SOBRE A SOLIDARIEDADE

 É característica original das espécies animais a gregariedade; até os animais irracionais vivem em coletividade, razão pela qual se lhes dão os substantivos coletivos da gramática: não são adjetivos, são substantivos, pois que da essência da substância do que lhes é inerente e imanente.  

A gregariedade do viver coletivo necessarialmente leva à proteção de um em benefício de todos, o que, implicitamente envolve, lato sensu, o sentido de solidariedade. 

A gregariedade e a solidariedade são características que contribuíram para que a espécie humana sobrepujasse a força física de animais portentosos ao longo da evolução animal.

Mas a irracionalidade da primeira natureza humana conflita com a sua segunda natureza racional, que se traduz, segundo Nietzsche, numa ânsia de poder de uns sobre outros que por vezes anula o caráter solidário que lhe é imanente. 

Os animais irracionais se digladiam e se matam entre si pela disputa de poder e do amor das fêmeas com as quais querem acasalar e perpetuar a espécie de modo fisicamente aprimorado.  

Nós, os humanos, conservamos esses traços da irracionalidade beligerante animal e as guerras fratricidas são o testemunho mais evidente disso, que é potencializada por uma relação social mundial que é sobretudo antissolidária. 

A caridade é um resquício de humanidade solidária. 

Nesse sentido, a caridade é benvinda, quando não exercida pela hipocrisia dos que querem parecer sensíveis ao drama humano desde que os carentes continuem como tais e dependente dos caridosos.  

Desconfio da caridade dos que a publicitam e se posicionam no dia a dia de modo a conservar as causas que promovem a carência social majoritária. 

Desconfio da caridade de quem se recusa a raciocinar fora dos padrões pré-estabelecidos, tal qual alguém que rejeita o espelho por medo de ver a sua própria face

Desconfio da caridade de quem elabora um raciocínio ilógico e contraditório, seja por ignorância conservadora ou por interesse na deturpação de conceitos como justificativa para o seu posicionamento social segregacionista e até por desencargo da própria consciência. 

A caridade, antes de ser ou não ser demonstração de solidariedade, é testemunho de quão profundamente errada é  a nossa relação social; conservar essa última é falta de caridade sincera. 

Trazemos em nós, infelizmente, os caracteres de uma primeira natureza irracional que contamina a nossa natureza racional em transição. Aqui cabe a citação da frase do poeta e compositor Chico César: “Deus me proteja de mim e da maldade de gente boa”, ou ainda, da frase “Deus me livre dos meus amigos, porque dos inimigos cuido eu”

A solidariedade humana é comportamento social abrangente que envolve coragem de contraposição ao conforto covarde de quem prefere o ruim conhecido aos riscos do desvendar de um futuro que possa se apropriar dos ganhos do conhecimento adquirido e projetá-lo de modo radioso com a exclusão dos males sociais de antanho.  

Paradoxalmente, o ser humano tem comportamento contraditório em face de um estágio inferior de sua segunda natureza em transição para uma terceira natureza que será intelectualmente superior e isenta da contaminação daquilo que ora é por ele mesmo vivido e que foi por ele construído e conservado. 

A nossa sorte é que o movimento dialético dos fatos sociais altera permanentemente a acomodação negativa de um modo de relação social que ora entra no seu ocaso com as graves e ameaçadoras turbulências que estamos a enfrentar.  

Acredito que seguimos, ainda que por caminhos tortuosos, para uma forma de relação social que no futuro repudiará o presente, igual ao repúdio que temos hoje por aquilo que há pouco mais de 135 anos a lei admitia como justa propriedade sob registro escritural e cartorial de um ser humano vindo da África acorrentado nos navios negreiros, fato social que tão belamente recebeu o escárnio do Poeta Castro Alves em sua breve e eterna vida.   

Acredito, sobretudo, que é a solidariedade humana, aliada ao instinto de sobrevivência, ambos preservados, será aquilo que evitará a hecatombe nuclear e a agressão ecológica suicida, constituindo-se como alicerce capaz de se contrapor ao conservadorismo segregacionista, covarde, xenófobo, racista, misógino, supremacista e homofóbico.  

Ora, somente sob uma forma de relação social superior, poderemos eliminar de modo substancial a negatividade imanente ao modo de relação social atual, justamente porque é impossível se desentortar as raízes e o caule de uma árvore. Já dizia o poeta popular que “morre torto o pau que nasce torto!” .

A reforma sempre altera alguma coisa na superfície do que está posto para que tudo permaneça inalterado, mas o movimento dialético social tem substância revolucionária capaz de expor as contradições representadas pela negatividade do que se articula em detrimento do ser humano - mesmo que todo esse mal tenha sido por ele mesmo criado - e provoca a necessária ruptura. 

É a dialética do movimento com suas teses e antíteses, que por sua vez serão contraditadas novamente num ciclo virtuoso em busca de uma verdade inatingível, mas que se aprimora. 

2024 promete!  (por Dalton Rosado) 

terça-feira, 8 de maio de 2018

SOBRE A MORAL REVOLUCIONÁRIA E O IMPERATIVO DE SERMOS VISTOS COMO ALTERNATIVA À PODRIDÃO BURGUESA – 1

Como às vezes uso em meus textos a expressão moral revolucionária, um companheiro me perguntou o que isto significava.

Fiquei meio encabulado, pois não se trata de algo que eu possa atribuir a texto(s) específico(s), mas sim a várias experiências vividas e observações feitas ao longo deste meio século em que venho travando o bom combate.

E as lições que extraí dessa prática tiveram também alguma influência de uma infinidade de análises que li, espalhadas pelos trabalhos de vários autores que dissecaram a imoralidade suprema do nosso campo, o stalinismo. Era o exemplo negativo que jamais poderia se repetir, então minha geração se empenhou muito em discernir como aquele mostrengo totalitário se engendrara, para prover os antídotos.

Despretensiosamente, alinhavo algumas conclusões a que cheguei e estão mais ou menos no espírito do tema:

— devemos resistir sempre à tentação de transmitir a nossos públicos visões simplificadas, mais fáceis de entender, mas que na verdade sejam manipulatórias e mentirosas. Tanto a comunicação do Hitler quanto a do Stalin operavam dessa maneira. 
Em termos teóricos, é fundamental jamais esquecermos que somos dialéticos e não maniqueístas, portanto nunca devemos nos colocar como portadores de toda a verdade e satanizar desmedidamente os inimigos. 
Nossa comunicação, enfim, deve ser esclarecedora, consistente e veraz, não eficaz e conveniente mas falsa. A verdade é revolucionária. E, como não somos utilitaristas, para nós os fins não justificam os meios, estando, isto sim, em interação dialética com os ditos cujos, de forma que, se utilizarmos meios infames, nossos fins ficarão inevitavelmente amalgamados com a infâmia.

— as polêmicas com adversários pertencentes ao campo da esquerda devem ser travadas sempre respeitosamente, visando convencê-los e atraí-los para nossas posições. Discussões agressivas, implacáveis, só cabem contra os inimigos de classe e os pregadores da barbárie.

— as disputas pela hegemonia dentro de nossas organizações devem sempre ser travadas, pelas tendências existentes, com foco nas idéias. É altamente negativa a disputa de nichos de poder com a utilização de todos e quaisquer meios e fazendo vistas grossas ao jogo sujo. Se nem entre nós conseguirmos estabelecer relacionamentos civilizados e realmente democráticos, o que teremos para transmitir à sociedade?
Seria fácil, mas fatal, surfarmos também na onda da corrupção

— nossas organizações devem sempre estimular e propiciar as discussões esclarecedoras, ao invés de achatá-las com o peso da autoridade dos dirigentes. O pensamento crítico é vital para nós, pois sem ele estagnamos, tornando-nos repetitivos e, com o tempo, irrelevantes.

— a democracia interna e a transparência devem ser as máximas possíveis, só limitadas por imperativos de segurança (e precavendo-nos para que falsas alegações de riscos de segurança não sirvam de pretexto para os dirigentes se livrarem de questionamentos indesejáveis).

— travamos uma luta de amplitude mundial e temos o dever de não só dar apoio efetivo a outros povos, como também aos companheiros estrangeiros que estejam sofrendo discriminação e perseguições em nosso país. A solidariedade revolucionária é sagrada para nós e como tal deve ser encarada, respeitada e praticada!

— e, óbvio ululante, temos a obrigação de jamais cedermos às tentações e facilidades da sociedade atual, já que servimos de (e somos vistos como) exemplos vivos dos ideais que pregamos. Então, p. ex., mesmo sabendo que os recursos públicos são quase sempre mal gastos, não podemos jamais aproveitar as posições que tenhamos obtido no aparelho de Estado burguês para desviá-los em benefício de nossas organizações ou, pior ainda, de nós mesmos.
"Jamais cedermos às tentações da sociedade atual"

Seria bem mais fácil surfarmos também na onda da corrupção do que sustentarmos nossas atividades com doações de companheiros, promovendo rifas, espetáculos, festas, etc. Mas, é fatal. Coloca nas mãos dos inimigos armas poderosas para destruírem nossa credibilidade aos olhos do povo.

No passado já aprendêramos tal lição mas, alunos relapsos que somos, tivemos de recebê-la de novo, da pior maneira possível. É absolutamente indispensável mantermo-nos e sermos vistos como alternativa à podridão da sociedade burguesa, e não como cúmplices ou condescendentes com ela.

Enfim, estas foram algumas das lições que aprendi na minha longa prática; outras certamente devem existir, que não me tenham ocorrido neste momento. 

Para finalizar, fui dar uma passada de olhos no livro A moral deles e a nossa, escrito por Trotsky no fim da vida (1938) e, provavelmente, a melhor sistematização dos valores éticos dos revolucionários. 

Na segunda parte deste post, apresentarei uma seleção de trechos que vale a pena citar neste contexto, alguns até coincidentes com minhas mal traçadas linhas (mas, sinceramente, fazia uma eternidade que não os lia...).
(continua neste post)

quarta-feira, 3 de maio de 2017

É TERRÍVEL O ABANDONO A QUE ESTÁ RELEGADO O ZÉ DIRCEU!

O Zé Dirceu envelheceu 9 anos em 9 meses de prisão
A melhor fonte de informação de que disponho sobre o que se passa com o Zé Dirceu e no seu entorno é a colunista Mônica Bergamo, da Folha de S. Paulo, que assim relata as últimas evoluções do caso:
"A notícia de que José Dirceu seria libertado foi recebida nesta terça (2) com alegria moderada pelos familiares e amigos do ex-ministro. Eles acreditam que em breve o petista deve voltar à prisão de Curitiba (PR).
Advogados ligados a Dirceu também fazem a mesma análise. Eles acreditam que a libertação, determinada pelo Supremo Tribunal Federal, deve apressar a condenação do ex-ministro no TRF-4 Tribunal Regional Federal da 4ª Região. Depois disso, já sentenciado em segunda instância, ele voltaria à prisão.
A iniciativa dos procuradores de Curitiba, de oferecer nova denúncia contra Dirceu no mesmo dia em que ele seria julgado pelo STF, reforça a impressão do círculo mais próximo de Dirceu de que a alegria da liberdade deve ser passageira.
E os mesmos amigos relatam que, depois que Dirceu foi preso, os recursos para ele e para familiares secaram. Duas das filhas do ex-ministro seguiriam inclusive viajando de ônibus quando querem visitá-lo em Curitiba. A mulher dele, Simone, vai ver o marido em geral a cada quinze dias, com a filha, Antônia, de 5 anos".
A SOLIDARIEDADE REVOLUCIONÁRIA AINDA EXISTE?
.
É por eu ter sido preso político e por haver mantido laços políticos com o Zé nos idos de 1968 que sua situação me incomoda e me indigna.

Evidentemente, ele não se encontra num daqueles cárceres infernais dos anos de chumbo, mas a privação da liberdade, para pessoas sensíveis, é terrível em qualquer circunstância.

Lembro-me da minha frustração quando compareci à sessão da auditoria militar na qual minha última prisão preventiva foi revogada, mas não me libertaram de imediato, como, ingenuamente, eu supunha que aconteceria.

Voltei para o DOI-Codi paulista e, não me lembro se no dia seguinte ou no outro, de manhã cedinho mandaram-me arrumar minhas coisas para aguardar no pátio a ordem de soltura. Passei o dia inteiro naquela ansiedade, nem sequer se lembraram de me darem o almoço, o que pouco me importou. Finalmente, lá por umas 16h, finalmente me vi livre. Foi como se estivesse voltando à vida.

Então, quando li que o Zé esperou em vão ser incluído num indulto natalino, foi-me muito fácil imaginar a dor que isto lhe deve ter causado. Imensa!
Uma vitória épica contra os neofascistas europeus e a grande imprensa brasileira
O certo é que, tendo desistido de superar o capitalismo e se tornado um partido meramente populista e reformista, o PT se distanciou também de valores que sempre foram sagrados para a esquerda, como a solidariedade revolucionária. Na visão dos esquerdistas da minha geração, esse foi um retrocesso chocante!

Quando, em 1986, aquele pessoal de Salvador fez a besteira de assaltar um banco para financiamento de suas lutas, o PT só pensou nos danos sofreria em termos de imagem e no uso que a direita faria do episódio na eleição seguinte (dali a alguns meses). Correu a expulsá-los e os abandonou vergonhosamente.

Tomei a defesa da greve de fome dos quatro e lutei como um leão até levá-la a um bom final porque era a atitude coerente com tudo em que eu acreditava... e também porque me enojava vê-los tão desprezados pelos companheiros em quem um dia confiaram.
"Amigo é coisa pra se guardar no lado esquerdo do peito"

Meus motivos foram semelhantes ao ajudar a salvarmos o Cesare Battisti da extradição (quando ingressei na luta, a maior parte da esquerda ainda se omitia), em tentar fazer o mesmo pelo Mauricio Norambuena (sem êxito, infelizmente!) e ao me posicionar por alguma solução humanitária para o Zé (no exato momento em que o PT dele se distanciava o mais que podia).

Durante o julgamento do mensalão, o Zé era apoiado por seu partido como deveria mesmo ser. Mas, na fase do petrolão, à medida que vazavam no noticiário indícios de que ele participara de esquemas ilícitos não só visando ao financiamento de campanhas eleitorais, mas colhendo também benefícios para si próprio, foi sendo cada vez mais encarado pelo partido como motivo de vergonha, do qual quanto menos se falasse, melhor.

Alguém acredita ter sido ele o único dirigente do PT que embolsou grana?

Eu sempre considerei deplorável revolucionários cederem às tentações da sociedade burguesa ou sequestrarem alguém por outro motivo que não fosse o de resgatarem um companheiro das garras de uma ditadura bestial. Mas, isto jamais nos deveria impedir de adotarmos uma postura humanitária nos casos de combatentes valorosos do passado que depois cometeram tais erros.

E me causa asco quem lhes nega o mínimo apoio em função de mesquinhos cálculos politiqueiros. Para quê? Para governar como neoliberal e deixar a esquerda em cacos ao perder o poder?!
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