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quarta-feira, 23 de setembro de 2020

FÚRIA RETÓRICA DO$ PREGADORE$ É IGUAL, DESDE A IDADE MÉDIA ATÉ O BRASIL ATUAL!

E
u poderia começar dizendo que, na época de Martinho Lutero, já havia Edir Macedo, Silas Malafaia e outros. 

Eram os evangélicos daquele tempo conhecido como Idade Média: conservadores, reacionários e, pior do que isso, exploradores da fé. O mais famoso, que ficou na História, se chamava Tetzel (mais precisamente, Johann Tetzel).

O forte desse padre pregador dominicano (naqueles anos, os dominicanos nada tinham a ver com os de hoje) era a verve, sabia usar a força das palavras e era capaz de enrolar quem o ouvisse. 

Para tornar mais fortes seus argumentos diante da populaça ignara naquele ano de 1517, Tetzel gritava (para não dizer, berrava), com seu dedo indicador apontando seu público de pecadores, bons para irem arder uma eternidade no Purgatório, na fila para o Inferno.

Com sua fúria oratória (que chegou mesmo a merecer um destaque num filme hollywoodiano), Tetzel, dizem os historiadores, personificou todo o catolicismo medieval, naqueles anos de mobilização geral do Vaticano para a construção da Basílica de São Pedro, em Roma. 

Rosto arredondado, com seu ventre proeminente sobressaindo sob a batina, João Tetzel acabou ficando mais famoso do que seu superior, o papa Leão X.

A História não teria sido toda bem contada se esquecêssemos de revelar que foi desviada parte do dinheiro subtraído dos fiéis e que Tetzel respondeu a processo por imoralidade. Se houver semelhança também nisso com os Tetzel evangélicos de hoje, será mera coincidência.

Naquela época não havia os vídeos do YouTube e nem os blogs visualizados centenas de milhares de vezes (como hoje), mas a gritaria ameaçadora do Tetzel se propagou por toda Alemanha. Mesmo se o leitor não souber alemão, vai entender esta frase predileta por ele vociferada: Wenn das Geld im Kasten klingt, die Seele aus dem Fegefeur springt!.

Noutras palavras, como poderiam traduzir Malafaia e Macedo, quando as moedas caem e ressoam no cofre, sua alma sai ou escapa do Purgatório!.

A força de persuasão de Tetzel era tamanha que a campanha pelas indulgências ou perdões comprados por dinheiro alvoroçou toda Alemanha e acabou criando um opositor, menos oral e mais cerebrino: Martinho Lutero, também padre mas professor de teologia, que respondeu com suas 95 teses contra as indulgências.

A Basílica de São Pedro foi construída, os cofres se encheram de moedas, tantas e tantas a ponto de Tetzel ser repreendido por seus superiores, porém, o que foi pior para a Igreja, a estrutura monolítica do cristianismo derreteu com a Reforma. Roma ganhou uma basílica mas perdeu sua primazia.

De divisões em divisões o cristianismo chegou ao evangelismo dos nossos dias no Brasil, no qual a maioria dos chamados pastores (de gado?) sequer fez estudos de teologia. Extraordinários vendedores de barbatanas para colarinho na praça da Sé, em São Paulo, converteram-se em anunciadores do céu para todos, desde que pagos os dízimos e feitas as ofertas generosas para Deus. Como se Deus fosse um coletor de impostos.
Será que Malafaia e Macedo possuem o código sagrado capaz de abrir a porta dos céus? Não há uma Basílica de São Pedro em construção, mas igrejas evangélicas surgem e se multiplicam, aumentando o tilintar das moedas nos cofres dos Tetzel de nossos dias.

Nenhum Lutero à vista, para salvar nossa riqueza folclórica de crendices e benzeduras, de maus olhados, de sacis-pererês, substituídas pela crueza das interpretações literais de uma bíblia estadunidense traduzida sem fantasias. Nesse cemitério de mortos pelo coronavírus, também serão enterradas nossa música substituída por gospels, nossa poesia, nossa literatura profana, nossas piadas picantes, nosso prazer de viver e de pecar.

Acabaram-se empregos, o auxílio emergencial vai ser reduzido, o custo de vida dispara, mas Malafaia Macedo Tetzel continuará trocando moedas por promessas de chalés e casebres nos céus, bastando aos pobre de espírito doarem suas ofertas e se resignarem a comer seu pão seco, sem mortadela e sem presunto.

As igrejas evangélicas, além de uma série de isenções, não querem também pagar impostos – um bilhão de reais acumulados, num país de desempregados e de pobres que aceitam tirar leite dos filhos para pagarem seus pastores Tetzels, especialistas em contar lorotas sobre céus, pecados, perdões e salvações de almas.

Ainda há alguns anos, podíamos sonhar com castelos, rainhas, príncipes, cinderelas, brancas de neve, cavalos voadores, animais falantes e outras tantas fantasias, sem pagar dízimos, sem precisar fazer ofertas, sem sermos roubados por nossa ingenuidade.
(por Rui Martins)

domingo, 20 de setembro de 2020

A MERCANTILIZAÇÃO DA FÉ AJUDA A ETERNIZAR AS CAUSAS DO SOFRIMENTO SOCIAL E A DIFICULTAR A SUA SUPERAÇÃO

dalton rosado 
AS RELIGIÕES NO CONTEXTO DAS RELAÇÕES SOCIAIS 
Tem sido frequente nos últimos milênios a interferência das crenças religiosas nos contextos sociais em processo dialético histórico. 

Tal fenômeno ora se processa contra o que está posto, ora no sentido contrário, para consolidar aquilo que deseja a ordem dominante enquanto poder que se pretende perpetuar.

Concomitantemente à questão religiosa em si, o cristianismo, p. ex., nasceu sob a égide do inconformismo dos setores subalternos e minoritários do Império Romano que eram oprimidos pela ordem escravista de então. 

Os preceitos cristãos de partilha da produção contrariava os cânones jurídicos escravistas do Império Romano (Roma tinha 1 milhão de habitantes, dos quais 80% eram escravos), daí este ter prendido Jesus Cristo como subversivo e, num julgamento farsesco e manipulado, o condenado à morte. 

Contudo, as ideias do cristianismo, entremeadas da crença religiosa,  eram de tal forma revolucionárias que, mesmo perseguidos, reunindo-se clandestinamente em catacumbas e usando simbologia identificadora (os peixes), os cristãos conseguiram expandir rapida e consistentemente o seu movimento.

Até que, três séculos depois, o poder oficial desistiu de extinguir o cristianismo e optou por cooptá-lo como forma de controle e desvirtuamento de seus preceitos revolucionários. 

Daí em diante, a religião cristã no mundo ocidental e outras crenças no mundo asiático e africano sempre tiveram forte liame e conexão com o poder vigente. 

Nos últimos séculos, o o cristianismo vem influenciando fortemente o curso das relações políticas de grande parte da humanidade (principalmente no mundo ocidental).      

Na Idade Média a Igreja Católica se confundia com o poder monárquico feudal de tal forma que havia uma simbiose de ordenamento jurídico e poder absolutista, sob forte orientação religiosa, que, p. ex., condenava a usura praticada fora das permissões concedidas à aristocracia rural, aos nobres e à Igreja.

A então emergente relação social que se formava a partir do desenvolvimento da mercantilização era tratada como algo pecaminoso, daí sua necessidade de afirmar uma nova ordem jurídica que lhe fosse consentânea; isto provocou o cisma católico, dando origem ao cristianismo pentecostal de hoje. 

A mutação das relações sociais era entravada/retardada pela exploração de servos (na Europa) e de escravos negros africanos e índios (nas Américas), daí o imperativo de entronizar-se a exploração pelo salário (escravização indireta). 
A corrente que ascendia teve como expressão ideológica 
a doutrina iluminista, cujos pensadores se aliavam à reforma protestante de Martinho Lutero, autor das famosas 95 teses protestantes. 

Lutero (corroborado pelo seu seguidor mais novo João Calvino) e Zuínglio  foram os precursores da chamada Reforma Protestante, que teve em Thomas Münzer, um ativista dissidente do catolicismo vigente (constituiu-se em destacado revolucionário defensor dos camponeses, que eram bastante numerosos na ainda incipiente formação urbana pré-industrial).

Lutero foi bem mais adesivo às ideias mercantilistas; Münzer, às lutas camponeses, que o levaram a ser preso e executado por subversão à ordem escravista existente.

Estes exemplos históricos servem para demonstrar o liame que, no curso da História, tem havido entre política e religião. 

O  eminente professor Florestam Fernandes, de saudosa memória, assim avaliou o papel desempenhado por de Lutero e Münzer:
"Nenhum dos dois iria alterar o curso da história, embora fossem, à sua maneira, homens lúcidos e combativos e, para os seus respectivos círculos socais, homens-providenciais e heróis. 
Entravam nas correntes de transformação de uma época de crise de civilização e, por aí, se tornavam representativos; exerciam influência sobre os demais e a coletividade, concorriam, em suma, para que as correntes profundas da história subissem à superfície e atravessassem o coração, o cérebro e o comportamento dos homens".
Atualmente, em especial no caso brasileiro, mas como fenômeno comum a todas as Américas, estamos a observar o forte apelo religioso pentecostal em sintonia com o poder político mais conservador e voltado para a corroboração da lógica decadente do capitalismo. É a tentativa de orientar a aceitação da opressão, com a promessa de uma vida celestial venturosa após a morte.

Hoje, em cada grande cidade brasileira existe uma quantidade imensa de organizações ditas religiosas que, mediante manipulação próxima ou equivalente às lavagens cerebrais, arrancam todo o dinheiro e bens que podem de seus ingênuos seguidores. Atuam segundo o padrão das práticas mercantis e sua ferramenta de vendas é uma retórica apocalíptica e tosca, derivada do fundamentalismo bíblico mais rasteiro.

Sob as mais variadas nominações, desfrutando de aberrantes isenções fiscais, asseguram escandalosa prosperidade a seus autoproclamados pastores, missionários, bispos, etc. 

E obtêm poder político graças à formação de bancadas de parlamentares e governantes eleitos com os votos dos desventurados fiéis, que supõem estar seguindo o melhor caminho da salvação espiritual. 

Trata-se, enfim, da conjunção perfeita para a permanência das causas do sofrimento social e entraves à sua superação.

O direito à crença religiosa deve ser preservado como direito individual inalienável, mas o charlatanismo deve ser combatido como um crime de lesa-humanidade que se aproveita de uma população desesperada em busca da transcendência de suas agruras na Terra. 

Pergunta-se: os curandeiros televisivos que se tornam milionários a ponto de poderem comprar importantes meios de comunicação, casas de luxo e aviões, além de construírem templos cuja ostentação afronta a pobreza dos fiéis cujos dízimos sustentam tal bonança, devem ter taxadas as fortunas que amealham e que são preservadas sob as contas bancárias de entidades religiosas?

Sou absolutamente contrário à cobrança de impostos pelo Estado, simplesmente porque tenho absoluta clareza quanto ao fato de que a opressão exercida por esse mesmo Estado é subvencionada com a cobrança de impostos a uma população economicamente exaurida. 

Mas a minha oposição é ainda maior e mais abrangente. Sou contra as relações sociais de produção capitalista e suas categorias fundantes porque são elas as promotoras de miséria mundial ora em processo de disseminação graças ao limite interno de expansão capitalista e consequente definhamento provocado pelos seus próprios fundamentos.

[Trata-se de uma relação social que, se antes já era majoritariamente excludente, agora se tornou insuportável!]

Assim, entendendo que a manifestação de culto religioso deve ser livre para o ser humano como direito individual inalienável, gostaria que fosse suprimida a mercantilização da fé e o fervor religioso de tantas igrejas e pastores passasse a ser transmitido aos fiéis de modo desinteressado.

Gostaria de ver os traficantes de drogas (e não estou comparando uns com outros) comercializarem suas drogas pelo simples prazer de verem enlouquecidos os consumidores que foram por eles viciados e escravizados. 

Entendo que a superação da relação social sob a égide da forma-valor, com a implantação de uma ordem social horizontalizada, livre da escravização indireta do trabalho abstrato produtor de valor, seria a maneira viável de correção das muitas distorções sociais que vicejam neste período de crise agônica capitalismo.

Passamos por um daqueles momentos históricos nos quais uma nova ordem se prenuncia como necessária e sofremos as dores desse parto de difícil realização. Mas devemos ser os obstetras de uma nova vida, saudável e promissora.
Por enquanto, essa decisão legislativa de conceder perdão de impostos derivados de relações (pretensamente religiosas e verdadeiramente mercantis) que geraram lucros empresariais somente demonstra quão mal representados estamos na democracia burguesa, que mais parece uma arapuca legitimada por nós pelo voto. 

O contrário da democracia burguesa não é a ditadura, como querem nos fazer crer. Não é o caso de ruim com ela, pior sem elaA alternativa real é uma organização social descentralizada, horizontalizada e que priorize a satisfação das necessidades humanas e o bem comum. 

Ela, contudo, somente será possível com um modo de produção social que lhe seja consentâneo. (por Dalton Rosado

segunda-feira, 6 de abril de 2020

CARTA DO RUI MARTINS AO PRIMO QUE O QUER CONVERTER EM EVANGÉLICO

Meu querido primo, 

temos trocado ideias  por WhatsApp sobre a quarentena ou confinamento: se o presidente Bolsonaro tem razão ou não em querer soltar o pessoal nas ruas com o risco de pegarem o coronavírus. Certo?

Nisso você me surpreendeu. E me citou e enviou um versículo da Bíblia, Salmo 91, no qual se lê que não devemos temer nada quando estamos com Deus.

Temer o que? No caso, imagino que seria o coronavírus. E como eu havia citado o presidente Bolsonaro no meio de pessoas em Brasília, a conclusão seria (me corrija se não for): mais forte do que as recomendações da OMS contra o vírus é a proteção de Deus. 

Bolsonaro está com Deus, então nada lhe acontecerá porque tem a proteção divina. E, por tabela, as pessoas tementes a Deus que se aglomeraram com ele naquele domingo não precisam temer o vírus, porque são também protegidas por Deus.

É isso mesmo que você quis me dizer? Tem certeza?
"diabo é o Bolsonaro, disfarçado em anjo de luz!!!"
Tudo bem. A seguir, você me pede para me arrepender dos meus pecados porque ainda há tempo. Que Deus me ama, que devo me converter. Que ele me protegerá do mal e da peste. Imagino, do coronavírus.

Fico imensamente grato por me falar isso, imagino que muitas pessoas estarão recebendo também tal mensagem nas igrejas e nos cultos em presença ou online. 

Se estiverem dentro de uma igreja com 50, 100, 200 fiéis, falando aleluia e cantando hinos, podem ficar tranquilos que não serão contaminados mesmo se o vírus estiver circulando no ar ou quando se derem as mãos. Admiro a sua fé, a ponto de colocar a vida em perigo!

Por volta do ano 1340, não havia ainda os evangélicos, eram os católicos que pregavam o cristianismo na Europa. E, de repente, vinda da Ásia e transmitida por ratos e pulgas, apareceu uma doença estranha, que provocava altas febres, criava gânglios ou inchaços na virilha e provocava a morte. Naquela época, não havia os cuidados de higiene de hoje, nem água encanada, nem se tomava banho de chuveiro e nem as roupas ficavam limpas nas máquinas de lavar.

Diante de tanta gente doente e das mortes que começavam, as igrejas ficavam cheias e, sem ninguém suspeitar do porquê, aumentavam as contaminações. Havia rezas, missas, cânticos, os pecadores se arrependiam, faziam penitências; os padres exorcizavam Satanás. 

Naquela época, não havia vacina, nem remédios, ninguém pensou em isolar a população num confinamento. A situação lembrava muito a agora existente com o coronavírus, mas a doença tinha outro nome: era a peste negra.

"a situação lembrava a agora existente com o coronavírus"
E, como sempre acontece, apareceram os charlatões, os vendedores de indulgências ou perdões para os doentes e para os que temiam ficar doentes. Muitos davam tudo quanto possuíam à Igreja, para se livrar da peste. E a Igreja Católica ficou muito rica, muito poderosa, porque era a única que tinha a chave para levar os homens a Deus.

A peste negra durou uns 40 anos, mas teve recorrências por quatro séculos. Morreram muitas e muitas pessoas, metade da população da época na Europa. A Igreja Católica era tão forte que vendia o céu, o perdão, o paraíso para os pecadores. E havia crédulos, tantos crédulos que aceitavam, acreditavam, rezavam, faziam penitências, pagavam e sentiam-se protegidos.

Foi nesse quadro que surgiu um monge, na Alemanha, revoltado com tanta exploração. Era Martinho Lutero, e com ele veio a Reforma. O mundo começou a mudar. Logo surgiram outros reformadores, como Calvino, e a mensagem principal era a salvação pela fé, sem a exploração dos fiéis pelo clero, pelo Vaticano, pelos padres.

Foi a Reforma que abriu as portas para os fiéis lerem a Bíblia, mas não só a Bíblia, e se libertarem da interpretação tendenciosa da Igreja Católica da época, a pensarem por si próprios. 

Dessa liberdade, que acabou com a chamada Idade Média, surgiu um novo conceito de ser humano e o Estado laico, sem ligação com as diferentes religiões e crenças. E se desenvolveram a literatura, a filosofia e o livre pensamento. 

Dessa separação da igreja surgiu o mundo moderno.
"surgiu um monge [Lutero] revoltado com tanta exploração"
Isso foi forte na Europa, mas nos países distantes essa mudança nem sempre chegou com a mesma força. 

Na América Latina, a educação e a cultura nunca foram para todos. O povo sempre teve apenas um mínimo; no Brasil, a Igreja Católica sempre dominou e fora das capitais a religião sempre se misturou com crendices. A religião convivia com pobreza, ignorância e miséria. E se misturava com as religiões africanas. 

Foi quando surgiu uma novidade: dizendo-se evangélicos, mas sem ter nada a ver com os protestantes já existentes no Brasil, surgiu o Evangelho da Prosperidade, uma maneira diferente de ser cristão. A nova moda exportada e apoiada pelos Estados Unidos pegou e cresceu, e hoje seus fiéis seguidores equivalem a 30% da população – em 2050, serão mais que os católicos.

Diversas variantes existem e algumas garantem a cura divina e também o sucesso econômico. Os pastores não fazem seminário nem curso de teologia, alguns pregam o Evangelho como faziam os vendedores ambulantes de barbatanas para colarinhos na Praça da Sé. E as pessoas acreditam.

É claro que fiquei surpreso com sua mensagem, primo. Simples, direta. Nunca imaginei assim o Evangelho. Essa interpretação literal de alguns versículos da Bíblia me é estranha. Sei que você foi universitário, teve acesso à literatura, deve ter estudado um pouco de filosofia.

Se você pede para eu fazer, deve ter feito. Você se arrependeu e se converteu. Mas, primo, se arrependeu do quê? Tinha tantos pecados assim? Não acredito, sempre foi um jovem de bons princípios. Bom, mas se lhe faz bem, tudo certo. Entretanto, isso me parece pouco diferente das crendices e superstições.

A reunião contaminadora no Haut Rhin: como uma bomba  
E vou lhe contar uma coisa que vi e ouvi agora há pouco na TV francesa. Deus não protege ninguém desse coronavírus. Não seja tolo, nem inocente – a contaminação, na França, veio de uma reunião de 1.500 pessoas numa comunidade evangélica, a Igreja da Porta Cristã Aberta, na região do Haut Rhin. 

Os médicos dizem que foi como uma bomba – os casos de vírus vieram das pessoas que saíram desse culto, igreja lotada, com muita gente já contaminada e contaminando.

Se você quer acreditar em Deus, tudo bem, ninguém é proibido de ter fé. Mas não acredite no Bolsonaro como se fosse um enviado de Deus. Esse sujeito que gosta de armas não merece sua fé,  nem a de ninguém. E também não acredite em tudo quanto dizem os pastores. Você me parece crédulo!

Você precisa acreditar em alguma coisa? Tudo bem. Eu não preciso. Vivo bem sem a figura de um pai celestial ou Deus. Se eu tivesse de me arrepender, como você disse, nem sei do que seria. Não acredito nem em céu, nem em inferno. Nem em Deus, nem no diabo. Diabo é o Bolsonaro, disfarçado em anjo de luz!!!

Não tenho medo da morte, acho coisa normal. Mas acho um crime Bolsonaro menosprezar a vida do povo brasileiro em favor da economia, sem querer proteger as pessoas como se está fazendo na Europa. Se houvesse Deus, juro que Bolsonaro seria punido.

A Bíblia é um belo livro, com belas histórias, mas existem também outros livros para ler. Não se fixe só na Bíblia. E, importante – não pense que seu pastor detém a verdade. Ele é como qualquer um de nós, só que é metido a dizer que está perto de Deus. Como não existe Deus, é um mentiroso que vive da credulidade dos outros.

"esse sujeito que gosta de armas não merece sua fé"
Me desculpe ser franco, mas você é um jovem inteligente, não se deixe enganar. 

Nós, os ateus (toda minha família é ateia), nós vivemos bem, somos felizes, não somos pecadores, somos pessoas leais, corretas e defensoras dos direitos humanos. 

Melhor do que o cristão Bolsonaro, não temos armas e nem queremos tê-las; achamos que são dignos de nosso amor e respeito tanto os negros como os amarelos, os homossexuais e os pobres. 

Para nós, esta vida humana é suficiente, não precisamos ter céu, nem nos ajoelhar diante do que não existe.

Grande abraço, não quero lhe converter, não tenho igreja; só esclarecer.

Seu primo Rui.

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2020

RUI MARTINS INDAGA: ONDE ESTÁ O FOCO DO NAZIFASCISMO BRASILEIRO?

Se fosse uma enquete, decerto a maioria cravaria um xis na opção acima...
A pergunta agora é: como o Brasil, cujos pracinhas chegaram mesmo a lutar na Itália contra o Eixo nazifascista, tem atualmente um governo simpático a Hitler e Mussolini, embora, ao mesmo tempo, num esforço de equilibrismo, queira manter amizade e colaboração com Israel?

Retornar ao Plínio Salgado e aos integralistas galinhas verdes não explica a situação. A coisa é recente. Tem, porém, um traço marcante: não se trata de uma opção intelectual individual. O foco dessa vertente – e isto é importante – não está nas reuniões secretas de partidos. A trama é feita em nome de Deus, de uma maneira muito sutil, germina e se desenvolve nas áreas de influência das igrejas ditas evangélicas. 

Como nesse tipo de doutrinação é sempre necessário haver um inimigo e um perigo maior, utiliza-se a existência de uma ameaça, a do comunismo, como se o Brasil estivesse infestado de comunistas.

Existem, então, dois inimigos à espreita do pobre cidadão, reduzido à condição de inculto ingênuo por falta de maior cultura e, vamos ser sinceros, porque o petismo, nos seus anos de governo, favoreceu mais seu lado populista de esquerda do que a libertação política pelo conhecimento. 
Mas existem outros vilões, que escondem melhor o rabo pontiagudo, os chifres e o fedor de enxofre
A lógica da dialética evangélica levada ao povo é simples, básica, elementar, quase infantil: de um lado, o pecado; do outro, o diabo. O diabo torna os homens pecadores, sujeitos ao inferno. Para escapar da condenação eterna, só há um remédio: entrar numa igreja evangélica e seguir as sagradas escrituras.

Os argumentos pouco mudaram desde a Idade Média. Mudou a igreja – antes, eram os católicos que assustavam o povo, obrigado a comprar indulgências se não quisesse ir para o inferno. Surgiu, então, Lutero, desmascarando Tetzel, o enviado papal para a colheita do dinheiro gerado pelas indulgências, destinado ao Vaticano. 

Quinhentos anos se passaram e, hoje, os que se pretendem descendentes de Lutero tomaram o posto de Tetzel. Em lugar das indulgências, os dízimos dos miseráveis. Em lugar da construção de basílicas, a obtenção do poder.

A história é extremamente tola, mas se repete com pequenas variantes. Em síntese: o foco do nazifascismo brasileiro, não é preciso procurar muito, está nas pregações dos pastores evangélicos. Ou são pessoas que pensam politicamente como nazifascistas que se apoderaram da ingenuidade e do pensar popular utilizando os púlpitos das igrejas evangélicas? 
 Gladiadores podem ter alguma afinidade com Cristo?

Seja como for, esse pessoal inspirado por Deus, mas formado segundo a exegese bíblica dos estadunidenses, vai destruir – se eles continuarem se multiplicando – toda nossa cultura índia, negra e portuguesa e substituir pela dos puritanos do Mayflower. 

O que houve com o Brasil? Endoideceu ou emburreceu? Provavelmente as duas coisas, com a agravante de ter ingerido e digerido uma perigosa dose de nazifascismo. 

A transição de Hitler para a violência e para o massacre dos opositores não foi imediata, foi gradativa. Grupos de populares, gente boa como os atuais evangélicos, saiam à caça de judeus. 

Se nada for feito, se continuarmos nessa letargia de uma esquerda impotente, haverá uma caça aos petistas, aos comunistas e aos esquerdistas... em nome de Deus!

E, ao que parece, a Igreja Universal se prepara para isso. Ela criou um estranho Exército de Gladiadores do Altar, com uniforme militar, praticando ordem unida, por enquanto armados só com a palavra de Deus. Porém, vista a intolerância dos evangélicos contra os cultos afro, qualificados de pagãos, bastará um clima político tenso no Brasil para esses jovens soldados de Deus se tornarem cópias cristãs dos fanáticos talibãs. 

A Igreja Universal não explica direito porque criou um exército uniformizado, com soldados; fica a suspeita de que poderão ser utilizados na hipótese de um clima de agitação social. Os evangélicos terão, portanto, se inspirado nos extremistas muçulmanos para enfrentar qualquer mudança de governo capaz de acabar com seus privilégios. (por Rui Martins)
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