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domingo, 11 de maio de 2025

O DIA DA$ MÃE$ E A FAMÍLIA EM CACOS

Por mais que as feministas esperneiem, a função primordial da mulher é a maternidade. Pelo óbvio motivo de que, caso ela deixe de exercê-la, a espécie humana se extinguirá.

Os gregos antigos, que sabiam das coisas, dedicavam a Rhea, mãe dos deuses, uma de suas mais belas comemorações: a da chegada da primavera.

Os cristãos também destacam sobremaneira o papel de Maria, mãe de Jesus Cristo, a quem endereçam uma de suas principais orações. Isto fez com que ela se colocasse, na imaginação dos devotos, quase no mesmo plano do Pai Nosso. Sua deferência para com as mães e as mulheres, no entanto, só subsistiu até o feudalismo. Por quê?

Uma explicação na linha do marxismo é a de que, sendo os homens mais aptos para o árduo trabalho braçal nos campos e para a guerra, a divisão de trabalho estabeleceu-se naturalmente, ficando as mulheres com a responsabilidade de gerar novos trabalhadores e combatentes, além de cuidarem do lar em que eles recompunham suas forças. A ideologia – a atitude cavalheiresca e protetora em relação ao sexo frágil – teria se erigido sobre essa realidade material.

O capitalismo, no entanto, dessacralizou a família, submetendo mulheres e crianças à mesma exploração que impôs aos homens. 
“A burguesia rasgou o véu do sentimentalismo que envolvia as relações de família e reduziu-as a simples relações monetárias”, constatou Marx, qual um profeta irado diante do quadro dantesco de seu tempo.
“A grande indústria destrói todos os laços familiares do proletário e transforma as crianças em simples objetos de comércio, em simples instrumentos de trabalho” (Manifesto do Partido Comunista, 1848).
Emblematicamente, o primeiro registro de celebração do
Dia das Mães no milênio passado se dá na Inglaterra do século 17, quando o quarto domingo da Quaresma começou a ser dedicado às mães das operárias inglesas.

Nesse dia as trabalhadoras ganhavam folga para ficar em casa com as mães, depreendendo-se, portanto, que trabalhassem nos demais domingos. 

Os industriais, apesar de se dizerem tementes a Deus, não lhes permitiam que seguissem o exemplo do Criador, descansando no sétimo dia. 

Se fé demais não cheira bem, fé de menos fede pior ainda ...
.
DO CAPITALISMO SELVAGEM AO  PÓS-INDUSTRIAL - O Brasil, com sua industrialização tardia, foi poupado do pesadelo em que se constituiu a criação da infra-estrutura básica do capitalismo na Europa, com destaque para o trabalho massacrante nas minas de carvão inglesas, em que mulheres e crianças cumpriam jornadas às vezes superiores a 14 horas diárias!

Em nosso país, até a década de 1960 os homens da casa (o pai e os filhos, estes pegando no batente tão-logo atingissem a idade de 14 anos) geralmente obtinham remuneração suficiente para o sustento, mesmo que precário, da família.

Foi quando os avanços no processo produtivo, tornando cada vez mais desnecessária a força física para a maioria dos desempenhos, possibilitaram o ingresso em massa das mulheres no mercado de trabalho.

O chamariz do consumo e a perspectiva de serem donas dos próprios narizes (sem se darem conta de que estavam apenas trocando o mandonismo do marido pela tirania impessoal do sistema) levaram as mulheres a disputarem entusiasticamente posições com suas iguais e com os próprios homens, mesmo recebendo paga inferior à deles pelas mesmas funções.

Como consequência desse aumento exagerado da oferta da mão-de-obra, as remunerações de todos foram aviltadas.

As famílias de classe média, principalmente, passaram a depender do trabalho dos dois cônjuges para manterem seu padrão de vida. Ficaram em cacos, com pais fatigados demais para cumprirem realmente seu papel e crianças crescendo aos cuidados de terceiros. O resultado são esses jovens problemáticos, egoístas e imaturos que todos conhecemos.

Nestes tempos em que as mulheres veem a si próprias mais como profissionais do que como mães, paradoxalmente, o Dia das Mães é festejado como nunca. Mas, também aí prevalecem os malfadados interesses monetários, a necessidade que o sistema tem de datas festivas que alavanquem as vendas.

Então, o grande exemplo a ser lembrado nesta data é o de Anna Jarvis, estadunidense que batalhou incessantemente para que fosse instituído um dia de homenagem a todas as mães, vivas ou mortas, visando fortalecer os laços familiares e o respeito pelos pais.

O governador do seu estado, a Virgínia Ocidental, acabou oficializando essa celebração em 1910, no que foi logo imitado por congêneres, até que o presidente Woodrow Wilson unificou em 1914 as várias datas estipuladas, fixando o Dia Nacional das Mães no segundo domingo de maio.

Os comerciantes se atiraram sofregamente à exploração do lucrativo filão, horrorizando Ana Jarvis, que desabafou em 1923 para um repórter: “Não criei o Dia das Mães para ter lucro”. No mesmo ano ela tentou cancelar a celebração por meio de uma ação judicial, inutilmente.

E teve sorte de morrer antes que o desvirtuamento do Dia das Mães se tornasse avassalador, na sociedade de consumo. (por Celso Lungaretti)

segunda-feira, 1 de maio de 2023

CELEBRAR O DIA DO TRABALHADOR É CELEBRAR A SERVIDÃO CAPITALISTA

 


N
osso comportamento muda de acordo com a nossa compreensão sobre o significado dos conceitos estabelecidos ao longo da nossa vida, felizmente. É a capacidade de pensar e corrigir rumos o que nos faz avançar na busca pelo crescimento intelectual humano. 

Cogito, ergo sum!, disse o filósofo e matemático René Descartes, cuja tradução literal mais correta seria Penso, logo sou! 

Sim, é a partir do pensar que se manifesta a nossa melhor racionalidade  e não pela repetição irrefletida de conceitos equivocados que se afirmaram antes de nós e sobre os quais repetimos tal como papagaios sem saber o seu significado exato. 

Há conceitos que se estabeleceram entre nós como imutáveis verdades virtuosas e que ao longo do tempo foram positivados de modo a conservar equívocos que somente a dialética histórica do movimento pode desconstruir e denunciar as suas falácias essenciais.  

Viva o dia de trabalho! Viva o trabalhador!  

Como marxista tradicional que fui, repeti, por anos, tal frase acima a cada primeiro de maio como um mantra revolucionário capaz de nos redimir do inferno capitalista que sempre questionei.  

Mesmo sabendo que Karl Marx preconizara a superação do trabalho abstrato produtor de valor, fonte da acumulação capitalista, num futuro no qual teríamos uma sociedade sem classes sociais, a sociedade comunista, não atinava para o fato de que incensar o trabalhador e o trabalho, ambas categorias capitalistas assim consideradas pelo próprio Marx, constituía uma contadictio in adjecto [contradição entre partes de um argumento].

Jamais percebi que a foice e o martelo, símbolos revolucionários bolcheviques do trabalho no campo e na cidade, podiam representar, simultaneamente, a base sobre a qual se ergue a lógica capitalista.  

O incenso ao trabalho e ao trabalhador derivou do fato de o Marx da juventude, período no qual crescia a aglutinação urbana de trabalhadores no processo de industrialização capitalista, considerava a união desses mesmos trabalhadores em um partido político revolucionário – o partido comunista – elemento para uma revolução que derrubasse a ordem político-jurídica do capitalismo e sua lógica de produção.  

O Marx da maturidade fez uma correção de rumos que corresponde a uma autocrítica implícita.  

Retomou na maturidade o que havia estudado em 1844, quando contava apenas 26 anos - quando escreveu em cadernos a obra Manuscritos Econômico-filosóficos, de 1844, somente publicada em 1927 em russo, e em 1932 em alemão - e aprofundou a crítica da economia política nos Grundrisse, no qual estudou  e anotou observações e conclusões surpreendentes, na qual previu que com o desenvolvimento tecnológico aplicado à produção de mercadorias - esta última categoria fortemente criticada logo no primeiro capítulo de O Capital - faria voar pelos ares toda a lógica funcional capitalista, como ora ocorre. 

Segundo Marx, o conjunto das contradições das categorias capitalistas impulsiona a guerra de mercado na qual se digladiam os capitalistas e as próprias no confronto épico das mercadorias, cada uma pretendendo autofagicamente atingir a hegemonia dela mesma. Deste modo, ele contradisse seus próprios conceitos de juventude, o que jamais foi observado pelos politicistas marxistas tradicionais - Lenin sendo um deles, e Stalin um tosco e insensível ditador.  

Os marxistas tradicionais, antimarxistas na essência, de tanto incensarem o trabalho abstrato produtor de valor e escravizador dos que dele participam, deram no que deram, com os desastres do século XX!!! 

Marx teria se revirado no túmulo se pudesse ver o que os marxistas tradicionais não se aperceberam da correção de rumos que ele mesmo fizera, tanto que em certo momento afirmou: eu não sou marxista!    Ainda ontem vi e ouvi pela televisão, interrompendo um bom jogo de futebol ao qual eu assistia, um discurso de exaltação ao dia do trabalho e do trabalhador feito pelo presidente Lula em cadeia nacional com custos pagos pelo erário, cuja fonte de receita são os impostos cobrados aos trabalhadores, que além de sofrerem com a extração de mais valia, ainda pagam pela exploração fiscal estatal de que são vítimas.  

Que Lula exalte o trabalhado abstrato produtor de valor e escravizador do qual tira o seu sustento, seja como sindicalista, seja como presidente de um partido de trabalhadores, ou seja como político que exerce o mais alto cargo da estrutura opressora estatal, é explicável, ainda que a partir de uma reflexão mais profunda não seja elogiável.   

Lula não quer superar o trabalho abstrato produtor de valor que explora quem o produz, mas apenas defendê-los como bandeira autosustentável de sua própria posição e da visão de mundo de tudo o que defende, principalmente da retomada do desenvolvimento econômico - mais capitalismo - como social-democrata adepto da equivocada ideia de ser possível uma vida harmoniosa entre o capital espoliador e o trabalho abstrato escravizador, ambos complementares entre si, e que ora atinge o seu ponto de saturação inviabilizando a vida social e ecológica.  

O dia do trabalho abstrato escravizador e do trabalhador escravizado deveria ser tratado com a solenidade e o lamento do sofrimento a que todos os trabalhadores historicamente são escravizados, seja diretamente, como no feudalismo e antes dele, ou indiretamente, como no capitalismo, e não como festa apoteótica de vitória e sorteio de brindes - não seriam esmolas?- , por se tratar de um processo de segregação e exploração que deve ser superado.  

A festa da emancipação humana ainda tem data a ser marcada! (por Dalton Rosado) 

segunda-feira, 16 de outubro de 2017

DALTON ROSADO E SUAS CONSIDERAÇÕES SOBRE O FILME "O JOVEM KARL MARX"

Os habituados a vê-los assim...
"Já é tempo de os comunistas exporem
abertamente ao mundo inteiro o seu modo
de ver, os seus fins, as suas tendências, e
de contraporem à lenda do espectro do
comunismo um manifesto do próprio
partido" (Karl Marx e Friedrich Engels)

A transição do feudalismo para o capitalismo foi gestada nos últimos cinco séculos que nos precederam, quando as relações pré-capitalistas cederam paulatinamente lugar a relações político-econômicas capitalistas, ocasionando uma substancial substituição das relações de produção eminentemente agrárias pelas de produção industrial urbana, o que implicou profundos conflitos e alterações dos comportamentos sociais. 

A tensão provocada pela transição política de estados escravocratas, monárquico-eclesiásticos, para estados laicos, republicanos, adequados à nova realidade de produção mercantil plena, é o que está na base das convulsões políticas havidas na primeira metade do século 19, nas quais Karl Marx e Friedrich Engels iniciaram as suas intervenções (o capitalismo é o modo político-econômico-social que mais provocou genocídios e guerras na história da humanidade).

O foco da crítica contida em todo o pensamento marxista é o fato de a evolução das relações de produção capitalistas ter entronizado um novo tipo de escravização, mais sutil, porque feita a partir da extração de mais-valia, com o trabalhador se vendo impelido a vender espontaneamente a única mercadoria que possui (ou seja, a sua força de trabalho) por preço vil. 
...ficarão surpresos por o filme mostrá-los assim.

Karl Marx, por sua sólida formação filosófica hegeliana e humanista, tendia a ser um teórico crítico dessas novas relações de produção, enquanto Friedrich Engels, indignado com as degradantes condições de vida dos operários (principalmente dos das empresas do seu pai, que conhecia muito bem), sem prejuízo de seu interesse teórico, era mais propenso às abordagens políticas.  

O filme O jovem Karl Marx (2017, dirigido por Raul Peck), pode ser assistido na tela do seu computador (clicando aqui) ou baixado  (clicando aqui). Reconstitui os cinco primeiros anos da colaboração entre Marx e Engels, desde que se aproximaram em Paris no ano de 1843 até redigirem a quatro mãos (ou a seis, porque Jenny Marx, esposa do primeiro, os ajudava com seus bons palpites) o célebre Manifesto do Partido Comunista.

A parceria entre ambos, que perdurou até a morte de Marx em 1883, representou não só uma contribuição teórica mútua, mas teve um papel marcante no aspecto material: Engels, por ser filho (dissidente) de um grande industrial alemão da indústria têxtil, pôde minimizar as agruras financeiras de Marx e sua família, causadas pelas permanentes perseguições que ele sofria, permitindo-lhe manter o foco na formulação e publicação das teorias que até hoje embasam o pensamento revolucionário. 

A autoria conjunta da obra A Sagrada Família (1845), que inicialmente deveria intitular-se Crítica da crítica-crítica, foi o marco inicial dessa colaboração. 
Início do capitalismo: trabalho infantil nas minas de carvão

Eles questionaram o afastamento dos jovens hegelianos (os irmãos Bauer) das convicções democráticas, pois negavam a importância do papel do proletariado nas mudanças em curso. Aí já se prenunciava o interesse intervencionista na luta de classes que se configurava em Marx e Engels.      

Em toda a Europa surgia um novo quadro societário urbano, prenunciando a primeira revolução industrial. Ao mesmo tempo que provocava uma crescente aglutinação populacional urbana, tal processo acentuava a penúria a que estava submetido o proletariado. A formação de correntes de pensamento anticapitalistas inspirou a organização dos trabalhadores, com a criação de sindicatos e ligas para a defesa dos seus interesses. 

Ainda que focadas na mesma defesa dos interesses dos trabalhadores, ditas correntes de pensamento divergiam na forma de condução da luta e nos objetivos a serem alcançados. 

Os anarquistas, também chamados de socialistas utópicos, direcionavam suas críticas contra a Igreja (que até então dividira o poder político com a nobreza monárquica e a aristocracia rural) e contra o Estado burguês emergente, tendo em Pierre-Joseph Proudhon, Mikhail Bakunin e Charles Fourrier os seus mais proeminentes teóricos ativistas; do outro lado, Marx e Engels representavam a linha de pensamento que se convencionou chamar de socialismo (ou comunismo) científico.

Inicialmente eram todos companheiros de luta. Muitos se aglutinavam, em maior ou menor proporção, na Liga dos Justos, que em 1847 passaria a intitular-se Liga dos Comunistas (agora com Marx e Engels). Tal movimento seria o embrião da Primeira Organização Internacional de Trabalhadores.
Proudhon é o que está falando. Marx escuta.

As divergências teóricas e práticas viriam, contudo, a separá-los, provocando disputas muitas vezes agressivas entre pares de uma mesma crítica social. Tais divergências desembocaram num confronto de posições políticas dos anticapitalistas diante da luta de classes.

Com a fundação da Liga dos Comunistas estava dado um passo fundamental para a criação de um Partido Comunista desejado por Marx (menos) e Engels (bem mais).

O MANIFESTO COMUNISTA 
  
O Manifesto do Partido Comunista de 1848 é a tese mais claramente definida de uma concepção de luta política que, ao invés de pugnar pela superação da categoria trabalho como fonte de formação do capital e, consequentemente, do capitalismo, visa adotar o proletariado como sujeito da revolução e o Estado dito proletário como instrumento de consolidação da revolução proletária.

Tal concepção, ainda que vislumbrasse a superação futura do próprio proletariado (tese defendida por Marx), tem componentes discutíveis:
— implica o fortalecimento e unidade do trabalho abstrato e do trabalhador como sujeitos da ditadura do proletariado; 
— implica, por consequência, o fortalecimento do Estado;  
— e implica, como consequência última, a permanência da forma-valor (dinheiro e mercadorias) para sustentar os dois, o que postergaria a emancipação humana para as calendas gregas.  
Ou seja, embora lance as bases do Partido Comunista e exalte o proletariado como coveiro do capitalismo (daí a foice e o martelo como dísticos do trabalho em sua bandeira), o Manifesto, contraditoriamente, não leva às últimas consequências o fato de que os trabalhadores, em conexão indissolúvel com o trabalho e como categorias capitalistas que são, dão vida ao capitalismo. Não há capitalismo sem trabalhador e trabalho abstrato, substâncias da forma-valor que se materializa no dinheiro e na mercadoria, formando o ciclo instrumental da exploração social. 

O ponto central do Manifesto é o encaminhamento para a pretensa ditadura do proletariado pelo Estado proletário, uma ilusão na qual os comunistas do mundo inteiro acreditaram e que deu no que deu. Os Estados ditos proletários terminaram por aderir à economia de mercado internacional e em suprimento da minguante economia de mercado nacional; foi a resultante inevitável de uma lógica social mercantil fechada.            

Outro aspecto importante a ser criticado no Manifesto é que ele refere-se exclusivamente à abolição da propriedade privada, sem alusão à propriedade em si; isto tem a ver com o confronto havido com os socialistas utópicos (como Proudhon), que criticavam a propriedade de uma maneira geral. Os ditos utópicos defendiam o direito de posse do bem a quem dele necessitasse, algo bem diferente do direito de propriedade estatal. 

Em que pese o vigor panfletário do Manifesto e aspectos elogiáveis como a defesa do internacionalismo (que, mais corretamente, deveria chamar-se transnacionalismo) em contraposição ao nacionalismo patriótico xenófobo até hoje cultuado (com mais intensidade agora, aliás, pois a crise do capitalismo provoca um recrudescimento das posturas ditatoriais), ele se constitui numa aporia política, compreensível no momento em que surgiu, mas que contradiz em grande parte aquilo que o Marx da maturidade passaria a defender 11 anos mais tarde, na obra Contribuição para a crítica da economia política

É que o gênio de Marx compreendeu posteriormente (vide seus Grundrisse) que, com o desenvolvimento da maquinaria, o trabalho e o trabalhador se tornariam supérfluos em maior parte; e que isto faria voar pelos ares toda a concepção do sistema produtor de mercadorias baseado no valor, como ora ocorre.
Cadê o operário que estava aqui? A automação comeu.

Daí estarem agora os movimentos operários a mendigarem emprego, ao invés de superá-lo, transformando a força do proletariado num leão sem dentes. 

A mudança de concepção do Marx da maturidade, com relação ao Marx da juventude, se expressa claramente num excerto extraído da dita Contribuição para a crítica da economia política, que vai numa direção bem diferente do enfoque acentuadamente político e vanguardista do Manifesto Comunista. Ali ele critica a natureza do sistema sem querer humanizá-lo, quando diz:
"O dinheiro não é só um objeto da paixão de enriquecer; ele é o próprio objeto. Essencialmente, esta paixão e a auri sacra fames (a maldita sede do ouro). A paixão de enriquecer, ao contrário da paixão pelas coisas naturais particulares ou pelos valores de uso tais como o vestuário, as joias, os rebanhos, etc., só é possível a partir do momento em que a riqueza geral se individualiza numa coisa particular e pode, assim, ser retida sob a forma de uma mercadoria isolada. 
O dinheiro surge, portanto, como sendo o objeto e a fonte da paixão de enriquecer. No fundo, é o valor de troca, o seu crescimento, que se torna um fim em si. A avareza mantém o tesouro prisioneiro, não permitindo ao dinheiro tornar-se meio de circulação, mas a sede do ouro mantém a alma de dinheiro do tesouro, a constante atração que exerce sobre ele a circulação"
O filme tem o mérito de demonstrar o espírito do tempo naqueles meados do século 19, quando se acerbavam os sentimentos de apropriação da riqueza abstrata que provocavam a miséria urbana, em contraponto ao fausto dos capitalistas emergentes, causando a indignação dos que defendem (e têm) o sentimento se justiça. 

Mais que isto, representa, também, uma aceleração de batimentos nos corações dos que ainda conservam a capacidade de indignar-se com essa mesma injustiça social histórica, e que creem na consciência e força aglutinadora do povo no rumo da sua emancipação.

Fica a plena convicção de que, se Karl Marx redigisse nos dias de hoje um Manifesto Comunista, ele diria: 
"Desempregados de todo mundo: uni-vos!"


autor:
Dalton
Rosado.

segunda-feira, 2 de outubro de 2017

AINDA PODE SER VISTO O FILME COMPLETO E LEGENDADO SOBRE OS PRIMÓRDIOS DE MARX E ENGELS, ATÉ CRIAREM O 'MANIFESTO'

Se você, caro leitor, chegou até aqui e não se deparou com o filme que prometi, devo-lhe uma explicação e algumas dicas de como ainda encontrá-lo na web.

Eu o achei disponibilizado no Youtube na 2ª feira, 2, e não pensei que a empresa proprietária dos direitos autorais (California Filmes) fosse tão rapidamente exigir sua retirada do ar. É indício de que o lançará nos cinemas ou em DVD/blu ray dentro em breve.

Felizmente, encontrei uma página do Facebook na qual O Jovem Karl Marx está postado e ainda pode ser assistido on line: esta.

Tenho também dois links a sugerir àqueles que sabem baixar filmes: este (pelo Mega) e este (por torrent).

Suponho ser desnecessário avisar que, tanto quanto no Youtube, tudo isso pode mudar rapidamente. Então, recomendo aos interessados n'O Jovem Karl Marx que façam jogo rápido.

"Com pouco mais de 20 anos, Marx conheceu em Paris Friedrich Engels, o filho de um industrial de Wuppertal, que trazia consigo uma rica experiência da Inglaterra. Em Manchester, seu pai tinha uma tecelagem.

Marx e Engels ficaram amigos. Junto a Jenny, esposa de Karl Marx, os jovens desenvolveram o Manifesto Comunista. O texto deveria reunir tudo o que os três consideravam importante observar numa época de grandes mudanças sociais.

O filme acompanha a juventude de Marx e Engels, delineia a amizade inabalável entre os dois e mostra como um trio único nasce a partir das dificuldades que eles viveram durante a sua turbulenta juventude."

Assim o diretor e roteirista haitiano Raoul Peck introduz seu O jovem Karl Marx (2017), que reconstitui a trajetória de Marx (August Diehl), Engels (Stefan Konarske) e Jenny (Vicky Krieps) entre Paris, Bruxelas e Londres, nos primeiros cinco anos de sua amizade e colaboração intelectual, até criarem um dos livros mais influentes da história da humanidade, o Manifesto do Partido Comunista.

quinta-feira, 4 de maio de 2017

DALTON ROSADO: "POR UM MANIFESTO EMANCIPACIONISTA".

"Minha dor é perceber que apesar de termos feito tudo o
que fizemos, ainda somos os mesmos e vivemos
como os nossos pais..." (Belchior)
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Faz-se necessária a proposição de linhas gerais de um Manifesto Emancipacionista, como reflexão sobre a necessidade urgente de superação das muitas categorias capitalistas desenvolvidas desde 3 mil anos. Tomamos inicialmente, como exemplo, o instituto jurídico da propriedade.

Quando se institui o instituto jurídico da propriedade (mais uma abstração tornada real), está-se, implicitamente, derrogando a força do instituto natural e justo da posse necessária ao uso individual e coletivo. É para isto que o instituto jurídico da propriedade foi inventado; ele é um construto da forma-valor e carrega em si a negatividade daquilo que lhe deu forma. Dá forma jurídica à coerção do poder do Estado, à detenção da acumulação do capital em seu conteúdo social segregacionista.

As pessoas geralmente defendem a propriedade porque a confundem com o direito de posse, que no direito burguês é inferior ao direito de propriedade. Com a propriedade se derroga, em maior parte, a posse.

O que as pessoas destituídas de qualquer propriedade mais almejam é um dia serem proprietárias (como de uma casa para morar, p. ex.); então, defendem, sem o perceber, aquilo que não passa da resultante jurídica da acumulação capitalista da riqueza abstrata que a oprime. Mais uma vez a inconsciência da sociedade sobre seu modo social de ser fica evidenciada.

Na verdade, caso fosse instituída a soberania do direito de posse individual para uso das casas e, assim, se assegurasse o direito à moradia (hoje negado para grande parte da população), todos aqueles beneficiados com a partilha das moradias veriam a posse como um direito natural e o direito à propriedade como abstração jurídica injusta.  

O direito de propriedade, que permite a acumulação individual de muitos bens transformados em mercadorias (centenas de casas nas mãos de único proprietário, para seguir no exemplo citado), nada mais é do que um grande acúmulo de horas de trabalho abstrato (valor) que foram subtraídas dos trabalhadores por meio da extração de mais-valia, permitindo tal acúmulo. 

A existência do direito de propriedade se constitui num exemplo claro do direito legislado como negação da realização do ideal de justiça ao qual, teoricamente, se propõe. A propriedade é a expressão do direito como a antítese da justiça. Não faz muito tempo que a legislação permitia a propriedade de um ser humano, trazido acorrentado da África e aqui submetido à escravidão. 

Mas, a questão não se cinge apenas ao combate ao direito de propriedade. Ele não é causa, mas efeito. Da mesma forma, a questão não se cinge apenas à transferência da extração de mais-valia das mãos privadas e acumulação de propriedade nas mãos do Estado. A extração de mais-valia é efeito da forma-valor e não a causa da dita cuja, embora se constitua no seu mecanismo funcional via trabalho abstrato, este sim a sua substância primária. 

Não basta transferir a propriedade e a extração de mais-valia das mãos privadas para as mãos estatais como quis o marxismo do movimento operário, exotérico. Este foi apenas o momento da luta pela afirmação e da busca de direitos dentro da imanência capitalista no seu processo de modernização. 
A questão que se coloca agora é a superação da forma-valor como modo de mediação social, pois só assim estaremos erradicando o mal pela raiz.     

Com a forma-valor se instalou um critério fetichista de relação social, sem sujeito personalíssimo, criando-se o sujeito automático (Marx) decorrente de uma lógica que tomou conta do seu criador (os seres humanos) e que se constitui numa estrutura por trás das costas dos envolvidos, os quais, inconscientemente, atuam como meras peças de uma engrenagem autofágica que transforma energia humana concreta numa abstração real (o dinheiro, expressão materializada da forma-valor).
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AGORA O PAPO É OUTRO
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Pela primeira vez no curso da evolução histórica do capitalismo atingimos o estágio no qual se faz inadiável a discussão sobre a inviabilidade do capital como modo de mediação social, juntamente com todas as categorias que lhe dão suporte.  
Antes, o capitalismo vivia a sua fase de ascensão, ainda que imposta sobre um rastro de sangue e desigualdade. A questão que se coloca agora é a sua, cada vez mais evidente, incapacidade de prover a vida social. 

Hoje em dia, quem (re)lê o Manifesto Comunista de Marx e Engels (1848) constata sua importância histórica elucidativa de um momento, mas, também, uma falta de sintonia com os tempos atuais. Aquele documento buscava a defesa de direitos para os trabalhadores dentro da imanência capitalista; eram possíveis de ser obtidos, tanto que muitos deles seriam conquistados (principalmente nas nações capitalistas desenvolvidas).

Era o que dava para ser feito num momento em que a industrialização ainda tinha muito terreno a percorrer e se queria apenas combater a brutal exploração perpetrada pelo capital, mas não negá-lo como forma de mediação social pseudo-libertadora. 

A extração de mais-valia absoluta (e não mais-valia relativa, como agora ocorre) era a tônica, sendo os trabalhadores submetidos a jornadas massacrantes de trabalho, frequentemente sob condições insalubres. A defesa dos direitos trabalhistas estava na pauta (como hoje volta a estar, mas sem chances de sucesso).

Assim, a questão se cingia à luta de classes, cujo foco seria a vitória da classe trabalhadora sobre a classe capitalista, como se isso representasse o fim do capitalismo; e se supunha que o Estado proletário, mesmo sem uma efetiva superação do capitalismo (cujo controle teria apenas trocado de mãos),  conseguisse promover a igualdade social.   

Reivindicar o fim da mais-valia subtraída aos trabalhadores pelo ente privado não significava, entretanto, abolir a produção de mercadorias, que implica, necessariamente, na sua extração. A Coréia do norte é capitalista de estado! 

Segundo o marxismo exotérico, a saída para tal impasse seria a entronização de um Estado proletário, no qual se continuasse produzindo mercadorias e extraindo mais valia, o que, contudo, passaria a ser feito em benefício do próprio trabalhador. Uma interpretação incongruente das teses de Marx, tornada possível por sua (então) falta de clareza sobre a dinâmica autotélica da forma-valor.

Sob o Estado proletário, a relação social sob a forma-valor seria tão-somente ontologizada, mudando-se a forma político-jurídica de sua ocorrência.       

Mais tarde Marx chegaria à essência da questão, compreendendo que não bastava reivindicar direitos, sendo necessário abolir a causa da opressão na sua base constitutiva ontológica. Os elementos do Marx exotérico da modernização capitalista davam lugar ao Marx esotérico da análise da natureza destrutiva e autodestrutiva da forma-valor que veio a seguir, embora ignorado pelos seus pretensos seguidores do século 20 (e, por muitos, até hoje!).    

Em O capital (sua obra definitiva, escrita de dez anos depois da publicação do Manifesto Comunista) é que se delineia com força a crítica da economia politica, como síntese daquilo que fora objeto dos seus estudos nos Grundrisse, escritos em cuja leitura se compreende melhor o antagonismo de conteúdo entre o Marx exotérico, reivindicador de direitos dentro da imanência capitalista, e o Marx esotérico, defensor da necessidade de superação do próprio capitalismo e de todas as suas categorias e construtos institucionais, sem a qual não se vai a lugar nenhum. 

Agora chegamos a uma situação-limite, na qual se faz necessária a elaboração de um Manifesto Emancipacionista, como continuidade histórica do Manifesto Comunista.  

A questão que se coloca atualmente não é mais a luta por direitos (que não virão!), em torno dos quais se digladiam situação e oposição políticas num hipócrita embate no qual tudo se resume à assunção ao poder político-burguês e não à sua superação como tal.

Ainda que isto esteja se tornando uma obviedade, ainda não foram delineados os alicerces fundamentais de uma superação que possa construir a nova sociedade sobre os escombros sociais e ecológicos da lógica capitalista. Tento aqui fazê-lo em linhas gerais, mesmo correndo o risco de ser incompreendido, tal é o grau de introjeção mental que o fetichismo da mercadoria atingiu, impedindo-nos de pensar fora da caixa.    

Entretanto, não me furto à indicação de alguns princípios indispensáveis à sua consecução: 
— uma administração de coisas (ao invés de administração de mercadorias), que nos permita retomarmos a razão sensível, ao invés de sermos teleguiados por uma lógica fetichista;
— a definição do direito à posse individual (para coisas de detenção pessoal), coletiva (para coisas coletivas) e públicas (para bens de uso público), com a extinção do direito de propriedade;   
— instituição do universalismo mundial (com a preservação das culturas regionais), no qual as carências de uma região sejam supridas pela abundância de outras, e vice-versa; 
— a supressão do Estado e de todos os seus poderes, mantenedores que são de uma relação social (capitalista) tornada obsoleta;   
— a decretação do fim do trabalho abstrato, passando todos os seus empregados e desempregados à condição de ativos contribuintes sociais; 
— a instituição de práticas ecológicas saudáveis, sem levarmos em conta o restritivo conceito mercantil de viabilidade econômica (a produção de bens e serviços sendo determinada por critérios de necessidade e não mais dos lucros, que estarão abolidos);
Por Dalton Rosado
— a elaboração de códigos de direitos civis e penais que sejam consentâneos com a realização do ideal de justiça segundo critérios de isonomia e de equidade; 
— de todos, segundo a sua capacidade, para todos, segundo sua necessidade.
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