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sexta-feira, 24 de outubro de 2025

MEIO SÉCULO SE PASSOU E NENHUM DOS ASSASSINOS DO VLADO FOI PUNIDO

Amanhã (25) se completa meio século desde a missa de 7
º dia em homenagem ao jornalista Vladimir Herzog, o Vlado, assassinado pela ditadura brasileira no DOI-Codi, seu principal centro de torturas em São Paulo.  

O ato foi uma corajosa resposta à tentativa dos torturadores de maquilarem o homicídio como suicídio, já que as religiões não honram suicidas. 

Na Catedral da Sé, palco daquela missa, será relembrado amanhã, a partir das 19 horas, esse episódio em que, pela primeira vez desde a assinatura do AI-5, as forças da repressão foram colocadas na defensiva, tendo sido, portanto, um divisor de águas entre o terrorismo de estado pleno e a lenta agonia do regime militar. 

Assassinado no dia 25 de outubro de 1975, Vladimir Herzog teve o mesmo destino de dezenas de outros combatentes e idealistas que foram vitimados por  acidentes de trabalho nos porões da ditadura. 

Isto para não falar dos executados a sangue-frio depois de presos e dos que tombaram  sob os tiros da repressão, às vezes sem esboçarem a mínima reação, como Carlos Marighella.

Foto tirada após pendurarem o corpo
de Herzog: a farsa foi desmascarada
POR QUE A MORTE DO VLADO
 REPERCUTIU TANTO?

A de outros jornalistas, como Mário Alves e Joaquim Câmara Ferreira, não despertou tamanha comoção na época. 

E ambos morreram de forma igualmente chocante: Câmara Ferreira se atracando com os torturadores para forçar um ataque cardíaco, enquanto Mário Alves sofreu um verdadeiro massacre, chegando  a ser empalado com um cassetete dentado.

Há vários motivos para o caso do Vlado ter sido mais emblemático.

Primeiramente, chocou e até hoje choca sabermos que ele se dirigiu pelas próprias pernas ao encontro da morte, acreditando que sofreria apenas o interrogatório para o qual estava convocado. Por que ele não desconfiou de que poderia ter o mesmo destino que tantos tiveram antes dele? 

Por um motivo simples: em 1975 a tortura já arrefecera, pois a esquerda armada havia sido totalmente dizimada.

O auge da tortura se deu no período 1969/73. Os militares reagiram ao enfrentamento aberto da esquerda estruturando, em São Paulo, a Operação Bandeirantes (Oban), incumbida apenas de combater a vanguarda armada, enquanto as organizações desarmadas, como o velho PCB, continuaram sendo atribuição do Dops, que ainda se mantinha dentro de certos limites.

A Oban nasceu clandestina em junho de 1969 – montada por oficiais das três Armas e policiais civis, com financiamento de empresários fascistas. No início de 1970 foi legalizada, além de congêneres serem criadas nos demais Estados brasileiros, ficando todas as unidades com a denominação de DOI-Codi. 

Funcionavam em quartéis da Polícia do Exército, com exceção da pioneira paulista, que continuou operando nos fundos de uma delegacia de polícia na rua Tutoia. 

O DOI-Codi/ SP funcionava nos fundos de uma delegacia
 TORTURADORES, SINÔNIMO DE  
RAPINANTES

Desde o primeiro momento, teve mais poder do que a estrutura legal dos Dops, chegando a arrancar presos políticos de suas mãos quando bem entendia. 

E, como a rede dos DOI-Codi's se ocuparia da subversão como um todo, foram retiradas dos Dops quaisquer incumbências de investigação e captura; passaram a atuar apenas na formatação das denúncias a serem encaminhadas às auditorias militares.

Para seus quadros, os DOI-Codi's ofereciam remunerações elevadas e, no caso dos militares, a perspectiva de ascensão meteórica na carreira.

A esquerda armada expropriava bancos, executava operações altamente rentáveis como o roubo do cofre do ex-governador Adhemar de Barros. Então, os militantes às vezes portavam somas vultosas consigo ao serem presos. 

Na VPR e VAR-Palmares, p. ex., cada combatente dispunha de um substancial fundo de reserva, que deveria ser mantido intocado até uma circunstância extrema, como a de ele ficar descontatado e ter de fugir do País.

Dinheiro, armas, veículos e até objetos de uso pessoal dos militantes dessas organizações eram, por sua vez, expropriados pelos captores, que os dividiam a seu bel-prazer, nunca o restituindo aos proprietários expropriados.

Henning Boillesen foi justiçado por guerrilheiros
EMPRESÁRIOS  FINANCIAVAM
A REPRESSÃO 

Além disto, os empresários financiadores da repressão contribuíam para as caixinhas de prêmios pela captura ou morte de militantes clandestinos. Havia até quem, em troca, assistisse torturas de prisioneiras nuas. 

Cada revolucionário importante tinha o valor previamente fixado, daí o empenho obsessivo dos rapinantes em chegarem até eles. O bolo era dividido segundo a importância de cada qual no esquema repressivo, sobrando algum até para os carcereiros...

Com a derrota da luta armada, o ditador Ernesto Geisel pretendia ir desmontando aos poucos esse Estado dentro do Estado. Militar de mentalidade prussiana, não admitia a existência de um poder paralelo envergonhando a farda. 

Ora, os rapinantes haviam se acostumado com um padrão de vida muito superior ao que lhe possibilitava seus soldos e já não conseguiam mais viver sem a rapina – tanto que a notória equipe de torturadores da PE da Vila Militar do RJ envolveu-se com contrabandistas em 1974 e acabou sendo presa, interrogada... e torturada, provando um pouco do próprio veneno.

Para atrapalharem a distensão lenta, gradual e progressiva de Geisel, que incluía a desmontagem do aparelho repressivo de exceção, passaram a efetuar provocações que, esperavam eles, fariam a esquerda reagir, permitindo-lhes alegar que continuavam sendo úteis e necessários. 

Valia tudo para despertarem o fantasma do comunismo, que lhes era tão vantajo$o  inclusive a Operação Gutemberg, lançada contra jornalistas. 

O Grupo Opinião, vítima dos atentados 
BOMBAS CONTRA
TEATROS NÃO EVITARAM 
A REDEMOCRATIZAÇÃO
  
Assim, uma base do PCB que fora formada na ECA/USP e se expandira com o ingresso de seus membros na carreira de jornalistas – continuando, entretanto, bem longe de representarem uma ameaça real ao regime – acabou sendo escolhida como um dos principais alvos dessa suspeitíssima escalada de prisões de peixes pequenos, desencadeada em outubro de 1975. 

E o pobre Herzog talvez tivesse papel de destaque nas tramoias dos provocadores por ser um professor muito querido, com o qual os universitários presumivelmente se solidarizariam, uma vez preso.

Como a ECA era tida pela repressão como um celeiro de subversivos e nela certamente existiam agentes infiltrados, é difícil acreditar que essa base não constasse dos relatórios policiais havia muito tempo. O fato é que, até o final de 1975, não existiu interesse em estourá-la.

Aí, de repente, não mais que de repente, a repressão se deu conta de que a ditadura começaria a ser derrubada pela insidiosa infiltração subversiva no Departamento de Jornalismo da TV Cultura, com seu mísero 1% de audiência em São Paulo...

Vlado, coitado, não levou em conta o arranca-rabos nos bastidores do regime e seguiu confiante para o matadouro. Até pela estima que lhe devotava o governador Paulo Egydio Martins, estava certo de que em seu caso não abririam a caixa de ferramentas. 

Ledo engano: aplicaram-lhe uma combinação de choques elétricos e amoníaco para provocar asfixia. E o mataram.

Maldade: duas crianças ficaram órfãs 
OS TORTURADORES, "MALDITOS NA MEMÓRIA DOS HOMENS E
NO JULGAMENTO DE DEUS"

Os torturadores despertaram a indignação mundial – para o que também concorreu a ascendência judaica da vítima, repetindo em escala ampliada o que já sucedera no final de 1969, quando da morte sob torturas de Chael Charles Schreier, militante da VAR-Palmares. 

Judeus são muito sensíveis à morte dos seus em circunstâncias semelhantes às do Holocausto.

Geisel e seu fiel escudeiro Hugo de Abreu aproveitaram a chance para minarem o DOI-Codi de uma forma que não despertasse resistências na caserna. Assim, Geisel deu ao II Exército o ultimato de que não poderia deixar uma morte como aquela se repetir.

Previsivelmente, antes que se completassem três meses, os torturadores erraram a mão de novo, despachando para o túmulo o metalúrgico Manuel Fiel Filho, do PCB. Com isto, forneceram a Geisel motivo suficiente para exonerar o comandante do II Exército Ednardo D'Ávila Melo e desmontar o DOI-Codi, robustecendo seu projeto de abertura política.

Por último, devem ser lembrados: 
– o cansaço dos cidadãos que viviam sob terror policial desde 1969 e já não aguentavam mais o clima de autoritarismo e intolerância, mesmo porque, visivelmente, não havia mais uma ameaça verdadeira ao regime; 
– a resistência dos jornalistas, que afinal se avolumou; e
– a coragem dos líderes religiosos de três confissões, D. Paulo Evaristo Arns à frente, que correram todos os riscos para, com a realização de uma missa ecumênica pela alma de Herzog na catedral da Sé, impedirem que mais esse assassinato fosse acobertado pela ditadura.

Foi de D. Paulo a frase celebre: "Não matarás! Quem mata se entrega a si próprio nas mãos do Senhor da História e não será apenas maldito na memória dos homens, mas também no julgamento de Deus".

Nem assim as tentativas de inviabilizar a redemocratização do Brasil cessaram de todo. Em 1976 houve atentados a bomba contra o Grupo Opinião, a ABI, a OAB e a residência de Roberto Marinho, além do sequestro e espancamento do bispo de Nova Iguaçu e da chacina dos militantes na gráfica do PCdoB.

Em 1979/81, a ação dos grupos paramilitares de direita se intensificou, com novos ataques a entidades e cidadãos ilustres (como o jurista Dalmo de Abreu Dalari) e até os bizarros incêndios de bancas de jornais nas quais eram vendidas publicações alternativas.

Proximidade de uma casa de força mandou pelos ares os
ultradireitistas que queriam provocar enorme matança


...E A BOMBA EXPLODIU NO COLO
DO TERRORISTA! 

Até que, em 30 de abril de 1981, o feitiço virou contra o feiticeiro: a bomba explodiu no colo do terrorista que pretendia provocar pânico cujas consequência   seriam terríveis, durante em show musical no Riocentro. A maré mudou e a redemocratização foi consolidada.

Em março de 2013 a família, por decisão judicial, recebeu um novo atestado de óbito de Herzog, no qual seu falecimento deixou de ser atribuído a suicídio, mas sim a "lesões e maus tratos sofridos durante o interrogatório em dependência do 2.º Exército".

Em março de 2018, a Corte Interamericana de Direitos Humanos responsabilizou o Estado brasileiro por não haver denunciado e punido os responsáveis pela tortura e o assassinato de Herzog, por ela qualificado de "um crime de lesa-humanidade".

Os agentes e autoridades envolvidos no assassinato de Herzog até chegaram a ser identificados, mas a Lei de Anistia de 1979, que garantiu impunidade eterna às bestas-feras da repressão ditatorial, os protege até hoje. (por Celso Lungaretti) 

sábado, 8 de fevereiro de 2025

POR QUE HERZOG FOI TÃO DESPROTEGIDO AO ENCONTRO DO DOI-CODI, SEM SEQUER LEVAR ADVOGADO OU ACOMPANHANTE?

Foto montada pelo DOI-Codi
para sustentar versão de suicídio

A informação (vide aqui) de que a viúva Clarice Herzog, quase meio século depois, ainda luta na Justiça para receber uma pensão vitalícia relativa à responsabilidade do Estado brasileiro no assassinato do Vlado, reavivou-me as lembranças daquele que, para mim, foi o aspecto mais surpreendente e chocante desse episódio crucial.

Procurado na TV Cultura, no final de seu expediente de sexta-feira, por agentes do DOI-Codi, ele prometeu ir na manhã seguinte à sede do pior centro de torturas da repressão política na capital paulista. 

E foi exatamente o que fez... desacompanhado! Nem sequer um advogado entrou com ele  no covil das bestas-feras.

Só uma explicação me ocorre: Herzog, como muitos integrantes da esquerda que não pegou em armas contra a ditadura, subestimava os inimigos fardados. 

Ele, ademais, acreditava-se intocável por ser amigo do governador Paulo Egydio Martins  (o qual, por sua vez, era forte aliado do ditador Ernesto Geisel, então empenhado em extinguir os mecanismos de exceção criados no pior momento dos anos de chumbo).  

Mas, ignorando a crise interna no aparelho repressivo, Herzog acabou caindo numa armadilha que lhe custou a vida.

Recapitulemos. Morto no dia 25 de outubro de 1975, ele teve destino idêntico ao de dezenas de outros combatentes e idealistas que foram vitimados por acidentes de trabalho nos porões da ditadura. 

Isto para não falar dos executados a sangue-frio depois de presos, bem como dos que tombaram  sob os disparos desnecessários da repressão, caso dos tocaiados como Carlos Marighella, que não teve tempo para esboçar a mínima reação.
Audálio Dantas, presidente do Sindicato de Jornalistas
de São Paulo, inconformado no enterro do Vlado
Mas, por que a morte do Vlado repercutiu tão intensamente, inclusive no exterior, gerando tantas consequências?

A de outros jornalistas, como Mário Alves e Joaquim Câmara Ferreira, não despertou tamanha comoção na época. E ambos morreram de forma igualmente chocante: Câmara Ferreira se atracando com os torturadores para sofrer um ataque cardíaco, enquanto Mário Alves passou por um verdadeiro massacre, chegando  a ser empalado com um cassetete dentado.

Dentre vários motivos para o caso do Vlado ter sido o mais discutido, um dos principais foi exatamente o de ele ter-se dirigido pelas próprias pernas ao encontro da morte, acreditando que sofreria apenas um interrogatório de rotina. E os alarmes provavelmente não dispararam no seu cérebro porque,  em 1975 a tortura já arrefecera, posto que a esquerda armada havia sido totalmente dizimada.

O auge da tortura se deu no período 1969/73. Os militares reagiram ao enfrentamento aberto da esquerda estruturando, em São Paulo, a famigerada Operação Bandeirantes, incumbida de combater apenas a vanguarda armada, enquanto as organizações desarmadas, como o velho PCB, continuaram sendo atribuição dos departamentos estaduais de Ordem Política e Social, que ainda respeitavam alguns limites.

A Oban nasceu clandestina em junho de 1969 – montada por oficiais das três Armas e policiais civis, com financiamento de empresários fascistas. No início de 1970 foi legalizada com o nome de DOI-Codi, além de se criarem congêneres por todo o Brasil. Funcionavam em quartéis da Polícia do Exército, com exceção da pioneira, que continuou operando nos fundos de uma delegacia de polícia no bairro do Paraíso (!). 
D. Paulo Evaristo Arns consolando Clarice Herzog em 1975
Desde o primeiro momento, teve mais poder do que a estrutura legal dos Dops, chegando a arrancar presos políticos de suas mãos quando bem entendia. E, como a rede dos DOI-Codi's passou a ocupar-se da subversão como um todo, foram retiradas dos Dops quaisquer incumbências de investigação e captura; passaram a atuar apenas na formatação jurídica das denúncias a serem encaminhadas às auditorias militares. 

Para seus quadros, os DOI-Codi's ofereciam remunerações elevadas e, no caso dos militares, a perspectiva de ascensão meteórica na carreira.

DO SERVIÇO SUJO SE INCUMBIAM OS RAPINANTES A esquerda armada expropriava bancos, executava operações altamente rentáveis como o roubo do cofre das propinas dadas pela corrupção ao ex-governador Adhemar de Barros.  

Então, os militantes às vezes portavam somas vultosas consigo ao serem presos. 
Edição histórica: repúdio à morte de Schreier

Nas organizações em que militei, a VPR e VAR-Palmares, cada combatente dispunha de um substancial fundo de reserva, que deveria ser mantido intocado até uma circunstância extrema, como a de ele ficar descontatado e ter de fugir do País.

Dinheiro, armas, veículos e até objetos de uso pessoal dos militantes dessas organizações eram, por sua vez, expropriados pelos captores, que os dividiam a seu bel-prazer, nunca o restituindo aos proprietários expropriados. 

Além disto, os empresários financiadores da repressão contribuíam para as caixinhas de prêmios pela captura ou morte de militantes clandestinos. Cada revolucionário importante tinha o valor previamente fixado, daí o empenho obsessivo dos rapinantes em chegarem até eles. O bolo era dividido segundo a importância de cada qual no esquema repressivo, sobrando algum até para os carcereiros... 

Com a derrota da luta armada, o ditador Ernesto Geisel pretendia ir desmontando aos poucos esse Estado dentro do Estado. Militar de mentalidade prussiana, não admitia a existência de um poder paralelo envergonhando a farda.

Ora, os rapinantes haviam se acostumado com um padrão de vida muito superior ao que lhe possibilitava seus soldos e já não conseguiam mais viver sem a rapina – tanto que a notória equipe de torturadores da PE da Vila Militar do RJ envolveu-se com contrabandistas em 1974 e acabou sendo presa, interrogada... e torturada, provando um pouco do próprio veneno.

Então, para atrapalhar a distensão lenta, gradual e progressiva de Geisel, que incluía a desmontagem do aparelho repressivo de exceção, passaram a efetuar provocações que, esperavam eles, fariam a esquerda reagir, permitindo-lhes alegar que continuavam sendo úteis e necessários. Valia tudo para despertarem o fantasma do comunismo, que lhes era tão vantajo$o.
Sacerdotes de três confissões oficiaram a missa de 7º dia de Herzog, na Catedral da Sé.
Assim, uma base do PCB que fora formada na ECA/USP e se expandira com o ingresso de seus membros na carreira de jornalistas – continuando, entretanto, bem longe de representarem uma ameaça real ao regime – acabou sendo escolhida como um dos principais alvos de uma suspeitíssima escalada de prisões de peixes pequenos, desencadeada em outubro de 1975. 

Embora estivesse havia poucos meses lecionando na ECA, Herzog foi incluído no pacote dos provocadores, talvez porque era um professor muito querido na USP desde que nela se formara em Filosofia no ano de 1959. Supunham que, prendendo-o, os universitários protestariam. 

Então de repente, não mais que de repente, a repressão se deu conta de que a ditadura começaria a ser derrubada pela insidiosa infiltração subversiva no Departamento de Jornalismo da TV Cultura, que era dirigido por Herzog e tinha mísero 1% de audiência em São Paulo...

Vlado, coitado, não levou em conta o arranca-rabos nos bastidores do regime e seguiu confiante para o matadouro. Até pela estima que lhe devotava o governador paulista Paulo Egydio Martins, estava certo de que em seu caso não abririam a caixa de ferramentas
Boilesen, notório empresário financiador da repressão 

COMO OCORRIAM OS DITOS ACIDENTES DE TRABALHO – Aqui falo por experiência própria: ao recebermos choques elétricos não conseguíamos respirar e nos sentíamos como se estivéssemos morrendo. Mas os torturadores, quando não queriam nos matar, cessavam a descarga antes de enfartarmos. 

No entanto, baseavam-se  numa média de tempo que o supliciado fosse capaz de suportar; quando, contudo, ele possuía alguma comorbidade, eventualmente expirava antes.

Os torturadores, ao excederem a dose causando a morte de Herzog, despertaram a indignação mundial – para o que também concorreu a ascendência judaica da vítima, repetindo em escala ampliada o que já sucedera no final de 1969, quando da morte sob torturas de Chael Charles Schreier, militante da VAR-Palmares. Judeus são muito sensíveis à morte dos seus em circunstâncias semelhantes às do Holocausto.

Geisel e seu fiel escudeiro Hugo de Abreu aproveitaram a chance para minarem o DOI-Codi, esperando que, assim, sua vindoura extinção não despertasse resistências na caserna. Portanto, Geisel deu ao II Exército o ultimato de que não poderia deixar uma morte inconveniente como aquela se repetir.

Previsivelmente, antes que se completassem três meses, os torturadores erraram a mão de novo, despachando para o túmulo o metalúrgico Manuel Fiel Filho, também do PCB. Com isto, forneceram a Geisel motivo suficiente para exonerar o comandante do II Exército Ednardo D'Ávila Melo e desmontar o DOI-Codi, robustecendo seu projeto de abertura política.
Mortos pela ditadura militar: os zumbis ultradireitistas ainda pregam a volta de tais horrores
Por último, devem ser lembrados: 
  • o cansaço dos cidadãos que viviam sob terror policial desde 1969 e já não aguentavam mais o clima de autoritarismo e intolerância, mesmo porque, visivelmente, não havia mais uma ameaça verdadeira ao regime; 
  • a resistência dos jornalistas, que afinal se avolumou; e
  • a coragem dos líderes religiosos de três confissões, que correram todos os riscos ao realizarem na Catedral da Sé uma missa ecumênica pela alma de Herzog, implicitamente desmentindo a versão da ditadura segundo a qual  ele se suicidara.
Nem assim as tentativas de inviabilizar a redemocratização do Brasil cessaram de todo. Em 1976 houve atentados a bomba contra o semanário Opinião, a ABI, a OAB e a residência do empresário de comunicações Roberto Marinho, além do sequestro e espancamento do bispo de Nova Iguaçu e da chacina dos militantes na gráfica do PCdoB.

Em 1979/81, a ação dos grupos paramilitares de direita se intensificou, com novos ataques a entidades e cidadãos ilustres (como o jurista Dalmo de Abreu Dalari) e até os bizarros incêndios de bancas de jornais nas quais eram vendidas publicações alternativas.

Até que, em 30 de abril de 1981, o feitiço virou contra o feiticeiro: a bomba explodiu no colo do terrorista fardado que pretendia provocar pânico de consequências imprevisíveis durante em show musical no Riocentro. A maré mudou e a redemocratização foi consolidada. 
(por Celso Lungaretti)

sexta-feira, 23 de junho de 2023

HÁ 86 ANOS NASCIA VLADIMIR HERZOG. SEU SACRIFÍCIO NOS INSPIRA ATÉ HOJE!

 
Herzog e o filho Ivo: perda irreparável! 
N
este domingo transcorreria o 86º aniversário do jornalista Vladimir Herzog, assassinado  sob torturas em 1975 no DOI-Codi de São Paulo.

O acontecimento despertou grande indignação no Brasil e no exterior, acabando por se tornar o ponto de inflexão a partir do qual a ditadura militar começou a desmontar os órgãos repressivos que criara na fase mais aguda do terrorismo de Estado.

A efeméride vem a calhar, pois nos estimula a refletirmos sobre os horrores dos quais escapamos com a recente e acachapante derrota dos nostálgicos do arbítrio e das atrocidades dos anos de chumbo. 

Eles passaram o último quadriênio inteiro conspirando para fazer o Brasil voltar às trevas, sob o comando de um psicopata que há décadas se proclama seguidor de Brilhante Ustra, aquele torturador emblemático que até 1974 comandou o mesmo centro de torturas no qual  Herzog viria a falecer.

Morto no dia 25 de outubro de 1975, ele teve destino idêntico ao de dezenas de outros combatentes e idealistas que foram vitimados por acidentes de trabalho nos porões da ditadura. Isto para não falar dos executados a sangue-frio depois de presos e dos que tombaram  sob os tiros da repressão, às vezes tocaiados como Carlos Marighella, que não teve tempo para esboçar a mínima reação.

Por que a morte do Vlado  repercutiu tanto?  

A de outros jornalistas, como Mário Alves e Joaquim Câmara Ferreira, não despertou tamanha comoção na época. E ambos morreram de forma igualmente chocante: Câmara Ferreira se atracando com os torturadores para forçar um ataque cardíaco, enquanto Mário Alves sofreu um verdadeiro massacre, chegando  a ser empalado com um cassetete dentado.

Há vários motivos para o caso do Vlado ter sido mais emblemático.

Primeiramente, chocou e até hoje choca sabermos que ele se dirigiu pelas próprias pernas ao encontro da morte, acreditando que sofreria apenas o interrogatório para o qual estava convocado.

Por que ele não desconfiou de que poderia receber o mesmo tratamento que tantos outros antes dele? 
Médici foi o campeão de torturas nos anos de chumbo

Por um motivo simples: em 1975 a tortura já arrefecera, pois a esquerda armada havia sido totalmente dizimada.

O auge da tortura se deu no período 1969/73. Os militares reagiram ao enfrentamento aberto da esquerda estruturando, em São Paulo, a famigerada Operação Bandeirantes, incumbida de combater apenas a vanguarda armada, enquanto as organizações desarmadas, como o velho PCB, continuaram sendo atribuição do Departamento Estadual de Ordem Política e Social, que ainda se mantinha dentro de certos limites.

A Oban nasceu clandestina em junho de 1969 – montada por oficiais das três Armas e policiais civis, com financiamento de empresários fascistas. No início de 1970 foi legalizada, além de congêneres serem criadas nos demais Estados brasileiros, ficando todas as unidades com a denominação de DOI-Codi. Funcionavam em quartéis da Polícia do Exército, com exceção da pioneira paulista, que continuou operando nos fundos de uma delegacia de polícia da rua Tutoia. 

Desde o primeiro momento, teve mais poder do que a estrutura legal das Delegacias de Ordem Política e Social espalhadas pelo país, chegando a arrancar presos políticos de suas mãos quando bem entendia. E, como a rede dos DOI-Codi's passou a ocupar-se da subversão como um todo, foram retiradas dos Dops quaisquer incumbências de investigação e captura; passaram a atuar apenas na formatação das denúncias a serem encaminhadas às auditorias militares. 

Para seus quadros, os DOI-Codi's ofereciam remunerações elevadas e, no caso dos militares, a perspectiva de ascensão meteórica na carreira.

DO SERVIÇO SUJO SE INCUMBIAM RAPINANTES – A esquerda armada expropriava bancos, executava operações altamente rentáveis como o roubo do cofre do ex-governador Adhemar de Barros.  
Edição histórica: repúdio à morte de Schreier
Então, os militantes às vezes portavam somas vultosas consigo ao serem presos. Nas organizações em que militei, a VPR e VAR-Palmares, cada combatente dispunha de um substancial fundo de reserva, que deveria ser mantido intocado até uma circunstância extrema, como a de ele ficar descontatado e ter de fugir do País.

Dinheiro, armas, veículos e até objetos de uso pessoal dos militantes dessas organizações eram, por sua vez, expropriados pelos captores, que os dividiam a seu bel-prazer, nunca o restituindo aos proprietários expropriados. 

Além disto, os empresários financiadores da repressão contribuíam para as caixinhas de prêmios pela captura ou morte de militantes clandestinos. Cada revolucionário importante tinha o valor previamente fixado, daí o empenho obsessivo dos rapinantes em chegarem até eles. O bolo era dividido segundo a importância de cada qual no esquema repressivo, sobrando algum até para os carcereiros... 

Com a derrota da luta armada, o ditador Ernesto Geisel pretendia ir desmontando aos poucos esse Estado dentro do Estado. Militar de mentalidade prussiana, não admitia a existência de um poder paralelo envergonhando a farda.

Ora, os rapinantes haviam se acostumado com um padrão de vida muito superior ao que lhe possibilitava seus soldos e já não conseguiam mais viver sem a rapina – tanto que a notória equipe de torturadores da PE da Vila Militar do RJ envolveu-se com contrabandistas em 1974 e acabou sendo presa, interrogada... e torturada, provando um pouco do próprio veneno.

Então, para atrapalhar a distensão lenta, gradual e progressiva de Geisel, que incluía a desmontagem do aparelho repressivo de exceção, passaram a efetuar provocações que, esperavam eles, fariam a esquerda reagir, permitindo-lhes alegar que continuavam sendo úteis e necessários. Valia tudo para despertarem o fantasma do comunismo, que lhes era tão vantajo$o.

Assim, uma base do PCB que fora formada na ECA/USP e se expandira com o ingresso de seus membros na carreira de jornalistas – continuando, entretanto, bem longe de representarem uma ameaça real ao regime – acabou sendo escolhida como um dos principais alvos de uma suspeitíssima escalada de prisões de peixes pequenos, desencadeada em outubro de 1975. 
Religiosos de três confissões oficiaram a missa de 7º dia de Herzog, na Catedral da Sé.
Embora estivesse havia poucos meses lecionando na ECA, Herzog foi incluído no pacote dos provocadores, talvez porque era um professor muito querido na USP desde que nela se formara em Filosofia no ano de 1959. Supunham que, prendendo-o, os universitários protestariam. 

Então de repente, não mais que de repente, a repressão se deu conta de que a ditadura começaria a ser derrubada pela insidiosa infiltração subversiva no Departamento de Jornalismo da TV Cultura, que era dirigido por Herzog e tinha mísero 1% de audiência em São Paulo...

Vlado, coitado, não levou em conta o arranca-rabos nos bastidores do regime e seguiu confiante para o matadouro. Até pela estima que lhe devotava o governador paulista Paulo Egydio Martins, estava certo de que em seu caso não abririam a caixa de ferramentas. Quão pouco valia a vida de um homem!

COMO OCORRIAM OS ACIDENTES DE TRABALHO – Aqui falo por experiência própria: ao recebermos choques elétricos não conseguíamos respirar e nos sentíamos como se estivéssemos morrendo. Mas os torturadores, quando não queriam nos matar, cessavam a descarga antes de enfartarmos. 

No entanto, baseavam-se  numa média de tempo que o supliciado fosse capaz de suportar; quando ele possuía alguma comorbidade, eventualmente expirava antes.
Boillesen, notório empresário financiador da repressão 

Os torturadores, ao excederem a dose causando-lhe a morte, despertaram a indignação mundial – para o que também concorreu a ascendência judaica da vítima, repetindo em escala ampliada o que já sucedera no final de 1969, quando da morte sob torturas de Chael Charles Schreier, militante da VAR-Palmares. Judeus são muito sensíveis à morte dos seus em circunstâncias semelhantes às do Holocausto.

Geisel e seu fiel escudeiro Hugo de Abreu aproveitaram a chance para minarem o DOI-Codi para que sua extinção não despertasse resistências na caserna. Assim, Geisel deu ao II Exército o ultimato de que não poderia deixar uma morte inconveniente como aquela se repetir.

Previsivelmente, antes que se completassem três meses, os torturadores erraram a mão de novo, despachando para o túmulo o metalúrgico Manuel Fiel Filho, também do PCB. Com isto, forneceram a Geisel motivo suficiente para exonerar o comandante do II Exército Ednardo D'Ávila Melo e desmontar o DOI-Codi, robustecendo seu projeto de abertura política.

Por último, devem ser lembrados: 
  • o cansaço dos cidadãos que viviam sob terror policial desde 1969 e já não aguentavam mais o clima de autoritarismo e intolerância, mesmo porque, visivelmente, não havia mais uma ameaça verdadeira ao regime; 
  • a resistência dos jornalistas, que afinal se avolumou; e
  • a coragem dos líderes religiosos de três confissões, que correram todos os riscos ao realizarem na Catedral da Sé uma missa ecumênica pela alma de Herzog, implicitamente desmentindo a versão da ditadura segundo a qual  ele se suicidara.
Quantos teriam morrido se o golpe tão acalentado por Jair Bolsonaro não flopasse?
Nem assim as tentativas de inviabilizar a redemocratização do Brasil cessaram de todo. Em 1976 houve atentados a bomba contra o semanário Opinião, a ABI, a OAB e a residência de Roberto Marinho, além do sequestro e espancamento do bispo de Nova Iguaçu e da chacina dos militantes na gráfica do PCdoB.

Em 1979/81, a ação dos grupos paramilitares de direita se intensificou, com novos ataques a entidades e cidadãos ilustres (como o jurista Dalmo de Abreu Dalari) e até os bizarros incêndios de bancas de jornais nas quais eram vendidas publicações alternativas.

Até que, em 30 de abril de 1981, o feitiço virou contra o feiticeiro: a bomba explodiu no colo do terrorista fardado que pretendia provocar pânico de consequências imprevisíveis durante em show musical no Riocentro. A maré mudou e a redemocratização foi consolidada. (por Celso Lungaretti, veterano da resistência à ditadura, que quase enfartou e teve um tímpano estourado nos porões do regime militar) 

quinta-feira, 1 de março de 2018

LULA ABRE O JOGO: ELE VÊ A LUTA ARMADA COMO ALGO QUE SÓ CABE NA CABEÇA DE MOLEQUES E ELOGIA "CORAGEM" DE TEMER

Da longa entrevista do ex-presidente Lula publicada nesta 5ª feira (1º) pela Folha de S. Paulo, chamaram-me a atenção duas respostas.

Numa delas, ele arrancou a máscara de vez, deixando transparecer todo o seu desprezo pelos que arriscamos a vida e a integridade física e mental na luta extremamente desigual contra a ditadura militar:
"Se eu não acreditasse na possibilidade de a Justiça rever o crime cometido contra mim pelo Moro e pelo TRF-4, eu não precisaria fazer política.
Quem sabe eu virasse um moleque de 16 anos e fosse dizer que só tem solução na luta armada. Não. Eu acredito na democracia, eu acredito na Justiça".
Eu mentiria se dissesse que fiquei surpreso. Sempre soube ser exatamente este o conceito que ele tinha e tem de nós. Marighella, Lamarca, Mário Alves, Juarez Guimarães de Brito, Joaquim Câmara Ferreira... comparados a moleques de 16 anos?! 

Lula nunca foi revolucionário, portanto jamais quis algo além da democracia burguesa, daí sua pouca empatia com os que lutamos nos anos de chumbo com o objetivo imediato de livrarmos os brasileiros de uma ditadura retrógrada e bestial, mas acalentávamos o sonho de que, reconquistada a liberdade, nosso povo perceberia que ela jamais seria completa enquanto existissem explorados e exploradores.

Por não se identificar com idealistas e (o que lhe pareciam ser apenas) quimeras, Lula assumiu uma postura melancólica quando dois ministros do seu primeiro governo, o Tarso Genro e o Paulo Vannucci, se propuseram a agir concretamente para que os torturadores do regime militar afinal respondessem por seus crimes.

Em 2007, ao ser lançado o livro Direito à memória e à verdade, uma espécie de relatório final da Comissão dos Mortos e Desaparecidos políticos do Ministério da Justiça, o Alto Comando do Exército contestou a iniciativa por meio de uma nota oficial simplesmente inaceitável, já que representava uma insubmissão face à autoridade do comandante supremo das Forças Armadas (o presidente da República). 

Submetendo-se vergonhosamente à chiadeira da caserna, Lula: 
  • proibiu Genro e Vannucci de continuarem pregando a revisão da Lei da Anistia (que igualara as vítimas a seus carrascos);
  • orientou ambos a recomendarem aos sobreviventes dos massacres militares e respectivas famílias que buscassem o caminho dos tribunais; e
  • sugeriu que os heróis e mártires da luta armada recebessem... homenagens!
O desfecho pífio deste episódio foi decisivo para que a impunidade dos carrascos se perpetuasse. Com o governo federal (surpreendentemente) se omitindo e o Congresso Nacional (previsivelmente) se mantendo em cima do muro, o que se poderia esperar do Judiciário, se não algumas sentenças corretas das instâncias inferiores que acabariam sendo sempre fulminadas pelas instâncias superiores?
De resto, aos internautas que tanto me recriminaram quando me posicionei contra a tentativa golpista do Rodrigo Janot e das Organizações Globo para derrubarem o Temer mediante uma armação ilimitada, eu recomendo que leiam o que o Lula disse sobre o assunto:
"...era importante manter o Janot. Era importante tirar o Temer. E era importante colocar o Rodrigo Maia. Isso para mim 'tá claro.
O Temer se prestou a fazer o serviço do golpe [contra a Dilma]. Mas não era uma figura palatável, e houve uma tentativa de golpe [do Janot e da Globo contra o Temer]. Se não, me explica o que aconteceu.
Você acha que na Globo alguém faz jornalismo livre? O jornalista decide e faz uma denúncia como aquela que foi feita contra o Temer?
No mesmo dia já tinha jornalista apostando na renúncia do Temer. E já 'tava se discutindo quem ia assumir e o que ia acontecer.
Ora, o Temer resolveu enfrentar. Teve a coragem de desmascarar o Janot, o Joesley e ficou presidente. E ainda ganhou duas paradas no Congresso Nacional, não se sabe a que preço. A imprensa dizia que R$ 30 bilhões foram gastos, não sei quantos bilhões. Mas ganhou".
Ou seja, tanto quanto o Brizola no passado e eu no presente, o Lula encara a Globo como uma inimiga  permanente do povo brasileiro, a não ser apoiada nem mesmo quando se volta contra alguém que a esquerda vê como inimigo transitório (nada indica que Temer não possa futuramente voltar a ser aliado político do PT, assim como o Maluf, o Collor, o Sarney, o Renan Calheiros e tantos outros que passaram de execrados a festejados ao sabor das conveniências de momento).

Neste ponto a minha concordância com o Lula é total. 

Como diria o Jack Palance, acredite quem quiser...
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