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domingo, 21 de janeiro de 2024

MASSAFUMI ESTARIA FAZENDO 75 ANOS; MATOU-SE AOS 27, DESTRUÍDO PELA DITADURA MILITAR E PELO FOGO AMIGO.

Nascido em 22 de janeiro de 1949, Massafumi Yoshinaga estaria completando 75 anos nesta 2ª feira.

Conheci-o como integrante da FES – Frente Estudantil Secundarista, criada no início de 1968 para reforçar a participação de tal segmento no combate à política educacional da ditadura, pois a Upes – União Paulista dos Estudantes Secundaristas estava esvaziada. 

Dela só restava, como uma alma penada, dirigindo assembleias raras com participação rala, o presidente, Antônio Ribas, que adiante seria um guerrilheiros do Araguaia executados pelos militares.

Pretendíamos reerguer o movimento secundarista pela base e, no final do ano, tomarmos a Upes, restituindo-lhe a representatividade que perdera em decorrência de disputas ideológicas (e, amiúde, zoológicas) de tendências de esquerda. No final, as litigantes se retiraram e a deixaram ao léu.

Era um nissei alegre, brincalhão, que adorava fazer movimento de massas. Mas, eu só encontrava com ele nas passeatas, assembleias e outros acontecimentos maiores. No dia a dia, ele integrava a FES da zona sul e eu, a da zona leste. 
 
Já lá se vão 55 anos, mas ainda me lembro de uma parceria marcante que fizemos no finalmente realizado congresso da Upes. A FES cindira-se em duas e a zona centro estava presente com pelo menos uma centena de estudantes do Colégio de Aplicação da USP. Eles adoravam discutir política, eram filhos da classe média intelectualizada.

O nosso lado, das proletárias zonas leste e sul, conseguira a muito custo levar um tiquinho de representes de escolas da região.
Personagens dos arrependimentos iniciais: Marcos Vinícius, Massafumi e Rômulo Augusto
Logo no início dos trabalhos, submeteu-se a votação a questão de se as decisões seriam tomadas por colégio ou por pessoa. Mas, como essa escolha se deu por maioria simples, perdemos de goleada. E estávamos condenados à derrota em todas as subsequentes.

Era um início de tarde de sábado e decidimos alongar ao máximo os trabalhos, para que o congresso fosse interrompido e terminasse no domingo. Assim, durante a noite, tentaríamos convencer os ex-companheiros a adotarem uma postura mais razoável.

Então, dois provocadores assumimos a missão de causar paralisações, principalmente indignando os estudantes do Aplicação. O Massafumi os levava à loucura, com suas frases desdenhosas sobre "os filhinhos de papai mimadinhos e aplicadinhos, incapazes de somar forças com outras tendências". Queriam até bater nele, mas os líderes os continham.

Eu os cutucava de outra maneira, argumentando serenamente com a retórica que usávamos, mas as conclusões acabavam sendo igualmente indigestas para eles, enfurecendo-os.
Após mês e meio nesta área de Jacupiranga, o Massa decidiu
sair em busca de um caminho fora da luta armada. Não achou.



Divertimo-nos muito, completamo-nos às mil maravilhas e conseguimos nosso intento: a conclusão do congresso ficou para o domingo.

Um ano depois nos reencontramos como combatentes da
VPR – Vanguarda Popular Revolucionária.  

Integrávamos a equipe precursora que avaliava se uma propriedade na região de Registro serviria para instalarmos nossa primeira área de treinamento de guerrilha. Estávamos em cinco (inclusive o comandante Carlos Lamarca) e lá ficamos por um mês e meio.

Foi vetada, por apresentar diversos inconvenientes. E, na hora de a desocuparmos, ambos decidimos não seguir adiante no trabalho de campo, por diferentes motivos. 

Eu, porque traumatizado com a morte do Eremias Delizoicov, a quem conhecia desde o curso primário, não aguentava mais tomar conhecimento da desgraceira daquela fase vários dias depois dos acontecimentos. Mesmo muito procurado pela repressão, preferia ficar no olho do furacão (as cidades) e, se possível, prestar alguma ajuda aos companheiros que sob minha liderança haviam ingressado na VPR.   
 
O Massa porque, a partir de sua transição abrupta do movimento de massas para a luta armada, passou a ver-se como um estranho no ninho. Queixava-se de estar distante das pessoas simples, sentindo, nas suas palavras, falta de calor humano.
Durante a ocupação da reitoria em maio/2007, pude matar as saudades daqueles tempos
em que ia tanto e tão esperançoso à USP. como aprendiz da revolução (vide
aqui
 
Dizia que não aguentava mais ouvir falarem o dia inteiro sobre
assuntos bélicos, queria outros papos.

Saímos. Eu para estruturar nosso serviço de Inteligência no RJ, como já o fizera em SP. Ele, para viver como civil, embora a passagem pela VPR o tivesse queimado muito: a repressão concluíra erroneamente ser ele o japonês da metralhadora dos assaltos a banco da VPR e o tornara um dos terroristas assassinos procurados que apareciam em cartazes por todos os lugares.  

Embora responsável por ele estar sendo caçado no Brasil inteiro, a Organização nada fez pelo Massa: não providenciou sua fuga para o exterior e nem mesmo deu uma graninha para ele se manter durante alguns meses. Nada.

Então, vivendo precariamente havia quase meio ano (participou de colheitas no interior, dormiu como mendigo em barracas do mercado municipal), estava chegando ao limite.
Persio Arida tripudiou sobre tragédia do
Massafumi no afã de autopromover-se

Foi quando viu cinco velhos amigos se 
arrependendo, inclusive o guru dele, o Marcos Vinícius Fernandes dos Santos.

Procurou a irmã do Marcos, que lhe serviu de pombo correio para fazer chegar um pedido de conselho ao prisioneiro; recebeu, de volta, a sugestão de entregar-se ao Dops. 

Para dourar a pílula, o Marcos ainda orientou a irmã a dizer que, com isto, o Massa agilizaria a libertação dos cinco.

Ele, então, sentiu-se desculpado para ceder. Viu-se fazendo uma ação nobre, à maneira dos antigos samurais (assim ele se justificou depois para o tio Akitoshi).

Apareceu na tevê e comoveu o Brasil, sendo elogiado até pelo ditador Médici. 

Mas, libertado pouco depois, não reencontrou nenhum calor humano. Ficou estigmatizado pelos simpatizantes da esquerda e visto como encrenca pelos cidadãos comuns (poderia ser alvo de atentados e eles temiam pegar as sobras). 

Foi enlouquecendo: ia para o litoral acreditando que, por estar no nível do mar, suas ondas mentais não seriam captadas pelas unidades da repressão na cidade de São Paulo.

Tentou duas vezes o suicídio e a família o salvou. Na terceira, o irmão que deveria cuidar dele, vendo-o em pleno sono, acreditou que nada de mal aconteceria se corresse ao banco para pagar uma conta. Ao voltar, encontrou-o enforcado. Pendurara-se no chuveiro.

Nem preciso dizer como o fato de ele ter passado os últimos anos nesse inferno me abalou. Senti-me culpado por não o haver procurado quando recuperei a liberdade, mas nem sequer sabia como chegar até ele; ademais, me reconstruía a duras penas, após ter sido quase aniquilado.

Como acontece com os que rodeavam suicidas, as autojustificativas nunca me convenceram totalmente.
"quando só havia injustiça e não havia revolta"

Consolou-me um pouco a oportunidade que tive de lutar por sua memória, inclusive quando ele foi alvo de uma agressão covarde e repulsiva do Pérsio Arida (vide 
aqui)

Que mais poderia dizer agora? Não sei. Eu tive outra vida depois daquela, ele não. Restaram-me apenas a pena e o pesar.

Melhor socorrer-me com o Brecht:
"Vós, que vireis na crista da onda em que nos afogamos, ao criticardes nossas fraquezas, pensai também nos tempos sombrios de que haveis escapado. Íamos através da luta de classes, desesperados, trocando mais de países que de sapatos, quando só havia injustiça e não havia revolta".

O que se poderia cobrar de Massafumi, ele pagou mil vezes, mediante tudo que sofreu e a forma horrível como morreu.

Já os bárbaros que destruíram por 21 anos o Brasil que ele tanto amou e os intolerantes que dele exigiram muito mais do que poderia dar, esses conservaram um enorme débito acumulado para com ele e as demais vítimas de sua desumanidade. 

A maior parte dos ditos cujos levou tal débito para o túmulo... (por Celso Lungaretti)      

sexta-feira, 16 de abril de 2021

DOCUMENTÁRIO RESGATA O INFORTÚNIO DE PEÕES DO TABULEIRO DA PROPAGANDA ENGANOSA DA DITADURA MILITAR

Personagens dos dois primeiros arrependimentos: Marcos Vinícius
Fernandes dos Santos, Massafumi Yoshinaga e Rômulo Augusto Romero
Foi melancólico rever na noite de ontem (5ª feira, 15), meio século depois, alguns daqueles jovens esperançosos que estavam ao meu lado no movimento estudantil de 1968 e na luta armada subsequente à assinatura do AI-5, quando o Brasil foi submetido ao terrorismo de Estado sem quaisquer limites.  

Refiro-me, claro, à exibição on line, no Festival Internacional de Documentários É Tudo Verdadedo filme Os arrependidos, que os diretores Armando Antenore e Ricardo Calil realizaram inspirados, principalmente, na dissertação de mestrado de Alessandra Gasparotto, que virou livro em 2011 com o título de O terror renegado.

Dei depoimentos para o trabalho de mestrado e também para o filme (como fiz quase sempre que alguém veio me pedir minha versão e avaliação dos acontecimentos dos anos de chumbo, com a única exceção de um ex-colega da ECA-USP que deu uma guinada ideológica de 180º e se tornou um dos ultradireitistas extremados da revista veja).

O Manuel Henrique Ferreira sendo visitado
na prisão pelo arcebispo D. Eugênio Sales
Um grande mérito do documentário foi mostrar:
— como os aproximadamente 40 ditos arrependidos foram meros peões da propaganda enganosa da ditadura de Emílio Médici, daí os patéticos comerciais de TV da dita cuja terem sido incluídos à farta para revelar o modus operandi dos Goebbels brasileiros em sua lavagem cerebral; e 
— como causaram imenso estrago na vida dos prisioneiros laçados para desempenharem, sob coação ou por calculismo (encurtar suas penas) tais papéis.

É dada grande ênfase ao primeiro episódio, quando cinco detentos do Presídio Tiradentes, já saídos da fase de tortura, negociaram com o Dops paulista a realização de entrevistas e distribuição de escritos contrários à luta armada. 

Para qualquer pessoa perspicaz, deve saltar aos olhos a superficialidade dos argumentos com que ainda hoje tentam justificar tal decisão.

O líder, que dera continuidade a uma tradição familiar de apoio aos ideais de esquerda, era o teórico da turma. Afora a óbvia motivação pessoal (e oportunista), acreditou que pudesse abrir caminho para uma pacificação dos espíritos e ser futuramente reconhecido como o visionário que interrompera as matanças.   

Um segundo reagiu de maneira machista à violenta rejeição com que os cinco foram recebidos pelos outros presos ao voltarem para o Tiradentes: dobrou a aposta, tornando-se integralista convicto, leitor e divulgador de Plínio Salgado.

Os outros três eram apenas liderados. Um deles, meu companheiro desde o movimento secundarista, me contou muito tempo depois que mais se deixou arrastar do que concordou com aquilo tudo. 

[Aliás, foi ele também quem teve o indesejável privilégio de estrear os equipamentos de tortura da Operação Bandeirantes como cobaia, quando tal filial do inferno ainda estava em fase de instalação...]
Nunca fui processado por violência alguma, mas
recursos públicos eram gastos para me caluniar
A repercussão foi pouca e talvez a coisa parasse por aí se Massafumi Yoshinaga não se encontrasse em situação precaríssima, após desligar-se da VPR porque, como me disse na ocasião, "não aguentava mais ficar ouvindo dia e noite papos sobre armas e estratégias militares".

Jovem com imensa necessidade estar junto ao povo, vibrando e confraternizando com aqueles por quem lutava, sentia-se como fera enjaulada tendo de submeter-se às limitações da clandestinidade. 

Ainda por cima, a repressão plantara muito alarmismo na imprensa a respeito do japonês da metralha que participava das ações da VPR; então, quando o nome do Massa caiu no seu conhecimento, acabou supondo que fosse ele o dito cujo (o verdadeiro era o Yoshitane Fujimori).

O Massa pediu desligamento e a VPR, numa decisão tão descabida quanto insensata, nem lhe ofereceu uma opção de fuga para o exterior, nem um refúgio seguro no interior do país, nem mesmo uma boa quantia em dinheiro para atravessar os primeiros tempos. Como resultado, não só a família temia abrigá-lo, como ele teve de dormir em barracas no Mercado Municipal, participar de colheitas no interior, etc., sujeito não só ao risco de ser preso a qualquer momento, como também a inúmeras privações.

Em desespero, conseguiu que a família do líder do primeiro arrependimento o colocasse a par do seu drama e pedisse conselho. A resposta que veio do Tiradentes foi a de que, se o Massa resolvesse entregar-se à repressão, teria a incolumidade garantida e logo sairia da prisão, além de prestar um serviço aos velhos amigos, pois isto agilizaria a libertação deles. 

O Massa aceitou o conselho, foi logo libertado, mas, ao invés de reencontrar o calor das massas, foi é gelado no seu circulo de relacionamentos, enlouqueceu, tentou duas vezes o suicídio e teve êxito na terceira. Este drama terrível é um dos momentos culminantes do documentário.    

Os dois primeiros episódios foram entregues numa bandeja à repressão, tendo o ditador Médici apreciado intensamente a apresentação do Massa na TV. A inusitada rendição ao inimigo causou um impacto imensamente superior ao do blablablá daqueles que já estavam presos.
Protagonizei, infelizmente, o terceiro episódio, que teve características diferenciadas, pois envolveu uma disputa de poder entre os quadros da repressão. 

Depois de mais de dois meses de prisão e incomunicabilidade, fui transferido do DOI-Codi/RJ para a PE da Vila Militar (RJ), para uma mera finalização de inquérito, teoricamente sem torturas. 

Mas os oficiais de lá tinham, algumas semanas antes, sido afastados do vantajoso esquema de capturas dos combatentes da luta armada, como punição pela péssima repercussão internacional da morte sob torturas do estudante de medicina Chael Charles Schreier, de 23 anos, militante da VAR-Palmares. As justificativas inverossímeis da repressão eram recebidas com risadas no exterior. 

Ora, dividindo entre eles tudo de algum valor que apreendiam conosco, bem como as recompensas recebidas de empresários direitistas por cada um dos nossos que capturavam ou assassinavam, haviam se acostumado a um padrão de vida muito superior ao que seus soldos lhes facultava. Então, tentavam desesperadamente ser readmitidos no filão mais lucrativo do esquema repressivo.

Assim, acreditaram que, mesmo tanto tempo depois, poderiam arrancar de mim alguma informação útil. Sob a batuta do então tenente Aílton Joaquim, atiraram-me numa solitária imunda e desfecharam uma temporada de torturas extemporânea e que deu péssimos resultados: nada obtiveram para provar que eram melhores do que os concorrentes do DOI-Codi, mas me estouraram um tímpano e levaram uma aliada da VPR, também presa na unidade, a cortar os pulsos.
Chael Schreier, assassinado 
em 1969 na PE da Vila Militar

Sabendo que seriam punidos por extrapolar as ordens do comandante do inquérito, e com o episódio do Massafumi repercutindo na imprensa, veio-lhes a ideia de aumentar a aposta para tentarem mesmo assim sair no lucro.

Forçaram-me a escrever uma carta aos jovens, colocando-me, para tanto, exatamente ao lado da sala na qual torturavam aquela aliada com choques elétricos que lhe arrancavam gritos lancinantes; esmurravam-me e gritavam comigo de passagem, em seu entra-e-sai da sala.

A carta virou um vídeo gravado em plena madrugada no estúdio da TV Globo no Jardim Botânico, sob ameaça de eu nem sequer voltar vivo para o quartel se desdissesse o que constava da maldita carta. 

É por isso que, desde a década passada, geralmente sou colocado por historiadores e jornalistas como a vítima do primeiro arrependimento forçado

A partir desses três episódios, os responsáveis pelas operações de Guerra Psicológica nas Forças Armadas foram orientados a valorizarem o trunfo surgido meio por acaso, assumindo o controle dessas operações e negociando com os presos considerados apropriados para o papel; quando malsucedidos, não hesitariam em recorrer a coações.

O documentário relembra, também, o igualmente trágico episódio do Manoel Henrique Ferreira, que, apavorado com as torturas, concordou em fazer o que lhe pediam em troca da garantia de não ser mais barbarizado. 

Na noite em que o vídeo com ele gravado ia ser levado ao ar, instalaram um televisor na sua cela, para que todos assistissem. O Mané se convenceu de que era uma tentativa de fazer com que ele fosse justiçado pelos próprios companheiros e escreveu a célebre carta-dossiê a D. Paulo Evaristo Arns, que correria o mundo. (por Celso Lungaretti    
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P.S.:
 ia esquecendo, hoje se completaram 51 anos da minha prisão pelo DOI-Codi/RJ, em 16/04/1970, às 6h45, na praça Saens Peña (RJ). 

Nos primeiros tempos, lamentei que a VPR tivesse nos entregado cápsulas de cianureto inócuas e mandado nos livrarmos delas quando o primeiro preso a usar uma só teve diarreia (!); de qualquer forma, eu dava como favas contadas a minha execução adiante. 

Foi uma das poucas previsões que já errei redondamente. E acabei descobrindo que havia vida depois do inferno. (CL) 
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