Mostrando postagens com marcador Queen. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Queen. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 13 de julho de 2017

ROCK'N ROLL CAN NEVER DIE!

"Foi o primeiro, foi o único sonho."

É uma das frases mais marcantes de um filme cheio delas: Pierrot Le Fou (1965), de Jean-Luc Godard, que aqui recebeu o estapafúrdio nome de O demônio das 11 horas (como os boçais da companhia distribuidora não entenderam nada de nada, acharam que qualquer título bizarro serviria...).

Meu primeiro sonho foi, claro, a revolução. E nenhum dos subsequentes viria a ser tão importante para mim.

Mas, sobrevivi à grande derrota dos anos de chumbo. E, too young to die (1), só me restou seguir em frente,  living in the material world (2).

Fui juntar meus cacos nas esperançosas comunidades em que os jovens tentavam escapar, ao mesmo tempo, dos tentáculos do sistema e das tenazes da ditadura. Faço um balanço das experiências que vivenciei em Reflexões sobre a sociedade alternativa (3).

Nossa  comuna  também soçobrou ao baixo astral dominante, seguindo a avassaladora tendência brasileira da primeira metade dos anos 70:  out of the blue, into the black  (4).

Aí, resignei-me a vegetar durante o dia, quando era obrigado a vender minha força de trabalho intelectual, para só ser eu mesmo à noite, com minha companheira e meus discos, numa quitinete da av. Nove de Julho. Um flash desta fase está em Memórias de um roqueiro pobre

No final da década, não pensei mais que a cabeça aguentaria se eu parasse  (5). Resolvi, portanto, abandonar a comunicação empresarial que no íntimo detestava, mas até então suportara estoicamente; e fui à luta por uma carreira mais gratificante. 

Acabei crítico de rock, redator e editor de várias revistas musicais, numa simpática editorazinha que, talvez por me remunerar parcamente, dava toda liberdade para eu escrever o que me desse na telha.

A transição do roqueiro tardio para o crítico acidental  é detalhada em Hoje é dia de rock.

Foi quando tive uma breve amizade com o Raul Seixas, consequência da satisfação que sentiu ao ler o meu texto sobre sua primeira coletiva na CBS e o primeiro porre que tomamos juntos (outros viriam): A teimosia braba do guerreiro

E criei um estilo algo diferente de abordar o rock, que até me valeu uma pequena legião de fãs – a ponto de, três décadas depois, encontrar um dos meus antigos artigos disponibilizados na internet, por alguém que se deu ao trabalho de o digitar e postar: Rock germânico no Brasil. 

A bagagem de informações roqueiras e avaliações críticas que então acumulei pode ser aferida num dos meus escritos mais ambiciosos, o comemorativo dos 20 anos do festival emblemático da geração das flores: Woodstock 69: o sonho de uma geração e amostra da perfeição possível neste sofrido planeta!

Mas, acabei também me sentindo too old to rock'n roll  (6). E, no final de 1984, a crise do papel me deu o empurrão final, ao tornar inviável minha subsistência  meio dentro e meio fora do sistema. 

Muito a contragosto, tive de ir buscar um espacinho na grande imprensa. Com o único consolo de que não perdia muito, pois o rock visceral que tanto me empolgara estava sendo substituído pelas megaproduções sem alma. É o que conto em 1991: o Queen inaugura a era dos grandes espetáculos roqueiros no Brasil. Adeus, inconformismo! 

Finalmente, na década passada dei nova guinada na minha vida e, por caminhos tortuosos e sofridos, acabei voltando ao palco revolucionário, ou seja, à minha verdadeira praia, onde sempre quis estar e de onde jamais deveria ter saído. 

Curiosamente, uma revista de rock me pediu que iniciasse uma colaboração, bem naquele momento em que caía para alguns internautas a ficha de que o sumido crítico André Mauro e o Celso Lungaretti atuante na defesa do Cesare Battisti eram a mesma pessoa.

Aproveitando a deixa, dissequei minha trajetória pouco convencional no artigo Still crazy after all these years. 

O título, eu tomei emprestado de uma canção pungente do Paul Simon. Mas, creio ter adquirido o direito de o utilizar, até por jamais haver perdido a esperança de que os fios da História seriam reatados e novos inconformistas levariam adiante a luta contra o inferno pamonha  (7) do capitalismo, partindo do ponto exato em que  fomos tão rudemente interrompidos  (8).

Neste 2017, quando se completam quatro anos desde que as pedras voltaram a rolar naquelas memoráveis jornadas de junho, o Dia Mundial do Rock não está mais na TV, nos palcos e em nenhum espetáculo programado. Está nas ruas. Até porque há mais no quadro do que os olhos podem ver  (9)...
.
Observações:
  1. Too old to rock'n roll, too young to die é a faixa-título do álbum de 1976 do Jethro Tull;
  2. Nome da faixa-título de um álbum de 1973 do George Harrison;
  3. Os trechos em vermelho são todos links, clique para abrir o artigo citado;
  4. Verso da canção My my, hey hey (out of the blue), do Neil Young;
  5. Referência à canção Tente outra vez, do Raul Seixas;
  6. Vide, acima, a observação 1;
  7. Expressão que o Paulo Francis criou para qualificar o capitalismo de imbecilizante, afora desumano;
  8. Before We Were So Rudely Interrupted é o título do ábum de reagrupamento do The Animals;
  9. Outros versos do hino roqueiro My my, hey hey (out of the blue).

quarta-feira, 1 de março de 2017

1981: O QUEEN INAUGURA A ERA DOS MEGA-ESPETÁCULOS ROQUEIROS NO BRASIL. ADEUS, INCONFORMISMO!

O Pink Floyd destacou a semelhança de mega-espetáculos de rock com celebrações nazistas 
Quando foi que, no Brasil, o rock começou a deixar de lado o inconformismo para se tornar mega-espetáculo inofensivo (com um quê das imponentes festividades nazistas da década de 1930)?

O melhor divisor de águas talvez seja a apresentação do Queen no estádio do Morumbi, em março de 1981. Foi a primeira vez que cá vimos um conjunto exibir-se em campo de futebol, com telão, fumaças, luzes e toda a parafernália infernal.

Na década anterior, os ideais e posturas da contracultura ainda inspiravam alguns roqueiros viscerais, como Neil Young, Eric Burdon e Joe Cocker. E os produtos típicos da indústria cultural eram pop stars como Peter Frampton e Paul McCartney.

Foi em 1979 que comecei a escrever sobre rock na editora Imprima. Os sócios-proprietários surpreenderam-se com a receptividade dos meus textos: o gênero estava em baixa era pouco executado nas rádios, mas demonstrou possuir insuspeitados contingentes de fãs.

Eu sabia disto, via-os sempre na Galeria do Rock, centro velho de São Paulo, cujos sebos  frequentava. Neles ainda subsistia o espírito de antagonismo com relação aos caretas  do sistema, a mentalidade de tribo minoritária e discriminada.

Passei a ter duas páginas fixas, depois quatro, no carro-chefe da editora, a revista Música. E se lançaram novas publicações, que eu criei e editava: Internacional Extra, Rock Stars, Rock Show, Rock Passion.

Quando soube da vinda do Queen, escrevi a obrigatória matéria de apresentação. Lá pelas tantas, informei o óbvio: que o nome do conjunto se devia a queen ser uma gíria para bicha. Sem preconceito, apenas um dado informativo a mais.

O fã-clube ignorava e escreveu cartas raivosas à editora, acusando-me de difamador (!). Pediu que visitasse sua sede para discutir o assunto.

Como não era bobo nem nada, impus a condição de que a meninada viesse à editora. Aí, claro, o papo transcorreu civilizadamente, na sala de reuniões.

Depois, ao lado de dezenas de convidados da Emi-Odeon, assisti à apresentação de Fred Mercury & cia. no gramado do Morumbi. As novidades me surpreenderam, mas a descaracterização não me escapou. Percebi que a emoção cedia lugar à coreografia bem ensaiada. 

Deduzi que não haveria mais interação entre palco e platéia, mas sim veneração dos astros.

Que nunca se repetiriam temporadas como aquela lendária do Cream no Fillmore West, em 1967, quando Eric Clapton, Jack Bruce e Ginger Baker, dia após dia, apresentaram de forma diferente as mesmas músicas, de forma que a duração nunca era idêntica. Que improvisos magníficos!
Tony Osanah na fase roqueira, acompanhando Raul Seixas. 

Também me lembrei dos idos de 1973, quando o rock estava tão por baixo que só tinha espaço num dia morto como 2ª feira, no Teatro Oficina. Eu ia quase sempre.

Certa noite choveu, o público era pequeno e a aparelhagem de som estava dando defeito. Um fim de feira.

Então, enquanto os artistas se apresentavam, havia um montão de bicões dando palpites no fundo do palco, enquanto os técnicos tentavam consertar o equipamento; a falação atrapalhava os números. o espetáculo parava 10 minutos, continuava, parava de novo. Algumas atrações desistiam e se mandavam, outras cumpria a obrigação mas só batendo ponto, com o enfado estampado no rosto.

Aí entrou o argentino Tony Osanah (que integrara os Beat Boys ao acompanharem Caetano Veloso em "Alegria, alegria", mas  depois acabaria redescobrindo suas raíces de america), só com a guitarra e o pedal para controlar sintetizadores.

A performance foi furiosa, no melhor estilo Jimi Hendrix. Ao final, trovejou: 
"Eu poderia estar ganhando mais grana nas boates, mas vim aqui atrás de um bom astral. E o que encontrei? A mesma merda. Som, a gente tira na raça, basta ter tesão!". 
Típico texto meu daqueles tempos
Atirou a guitarra no chão e foi embora batendo portas.
.
DOMESTICAÇÃO
.
O certo é que, naquela noite de 35 anos atrás no Morumbi, ficou claro para mim que o sistema voltaria a apropriar-se do rock. 

[Isto já acontecera nos anos 50, quando a indústria cultural tirou espaço dos pioneiros rebeldes e passou a apostar alto em músicos bem comportados, que não assustassem as famílias conservadoras atrapalhando os negócios, como Pat Boone, Neil Sedaka, Paul Anka e Connie Francis.] 

E eu, que mantivera a chama roqueira acesa em anos de vacas magras, passei a me sentir cada vez mais um estranho no ninho, cada vez mais entediado com as matérias cada vez mais consumistas que era obrigado a escrever e/ou editar.

Aí, em dezembro de 1984, deixei a editora Imprima e parti pra outra, sem alegria e sem fantasia, aposentando definitivamente o crítico de rock André Mauro, o último dos independentes, que permaneceu alinhado com a contracultura quando ninguém mais o era, de saudosa memória para uns poucos e envelhecidos fãs que até hoje o citam nas redes sociais.
Os novos e maus tempos chegaram com este show do Queen no Morumbi 

segunda-feira, 23 de março de 2015

JAMAIS PERDI A ESPERANÇA DE QUE NOVOS INCONFORMISTAS LEVARIAM ADIANTE AS LUTAS DA MINHA GERAÇÃO

"Foi o primeiro, foi o único sonho."

É uma das frases mais marcantes de um filme cheio delas: Pierrot Le Fou (1965), de Jean-Luc Godard, que aqui recebeu o estapafúrdio nome de O demônio das 11 horas (como os boçais da companhia distribuidora não entenderam nada de nada, acharam que qualquer título bizarro serviria...).

Meu primeiro sonho foi, claro, a revolução. E nenhum dos subsequentes viria a ser tão importante para mim.

Mas, sobrevivi à grande derrota dos anos de chumbo. E, too young to die (1), só me restou seguir em frente,  living in the material world (2).

Fui juntar meus cacos nas esperançosas comunidades em que os jovens tentavam escapar, ao mesmo tempo, dos tentáculos do sistema e das tenazes da ditadura. Faço um balanço das experiências que vivenciei em Reflexões sobre a sociedade alternativa (3).

Nossa  comuna  também soçobrou ao baixo astral dominante, seguindo a avassaladora tendência brasileira da primeira metade dos anos 70:  out of the blue, into the black (4).

Aí, resignei-me a vegetar durante o dia, quando era obrigado a vender minha força de trabalho intelectual, para só ser eu mesmo à noite, com minha companheira e meus discos, numa quitinete da av. Nove de Julho. Um flash desta fase está em Memórias de um roqueiro pobre.

No final da década, não pensei mais que a cabeça aguentaria se eu parasse (5). Resolvi, portanto, abandonar a comunicação empresarial que no íntimo detestava, mas até então suportara estoicamente; e fui à luta por uma carreira mais gratificante. 

Acabei crítico de rock, redator e editor de várias revistas musicais, numa simpática editorazinha que, talvez por me remunerar parcamente, dava toda liberdade para eu escrever o que me desse na telha. Nesta fase, para não atrair as indesejáveis atenções da censura ditatorial, passei a utilizar o pseudônimo de André Mauro.

A transição do roqueiro tardio para o  crítico acidental  é detalhada em Hoje é dia de rock.

Foi quando tive uma breve amizade com o Raul Seixas, consequência da satisfação que sentiu ao ler o meu texto sobre sua primeira coletiva na CBS e o primeiro porre que tomamos juntos (outros viriam):  A teimosia braba do guerreiro. 

E criei um estilo algo diferente de abordar o rock, que até me valeu uma pequena legião de fãs --a ponto de, três décadas depois, encontrar um dos meus antigos artigos disponibilizados na internet, por alguém que se deu ao trabalho de o digitar e postar: Rock germânico no Brasil. A maioria desses fãs nunca soube que André Mauro e Celso Lungaretti "sempre foram o mesmo homem/ mas, para aprender o jogo dos ratos/ transou com Deus e com o lobisomem" (6).

A bagagem de informações roqueiras e avaliações críticas que então acumulei pode ser aferida num dos meus escritos mais ambiciosos, o comemorativo dos 20 anos do festival de Woodstock: Éramos crianças, brincando no paraíso. 

Mas, acabei também me sentindo  too old to rock'n roll (7). E, no final de 1984, a crise do papel me deu o empurrão final, ao tornar inviável minha subsistência  meio dentro e meio fora do sistema. 

Muito a contragosto, tive de ir buscar um espacinho na grande imprensa. Com o único consolo de que não perdia muito, pois o rock visceral que tanto me empolgara estava sendo substituído pelas megaproduções sem alma. É o que conto em O divisor de águas: de 'Born to be wild' para 'We are the champions'... 

Finalmente, na década passada dei nova guinada na minha vida e, por caminhos tortuosos e sofridos, acabei voltando ao palco revolucionário, ou seja, à minha verdadeira praia, onde sempre quis estar e de onde jamais deveria ter saído. 

Curiosamente, uma revista de rock me pediu que iniciasse uma colaboração, bem naquele momento em que caía para alguns internautas a ficha de que o sumido crítico André Mauro e o Celso Lungaretti atuante na defesa do Cesare Battisti eram a mesma pessoa.

Aproveitando a deixa, dissequei minha trajetória pouco convencional no artigo Still crazy after all these years.  

O título, eu tomei emprestado de uma canção pungente do Paul Simon. Mas, creio ter adquirido o direito de o utilizar, até por jamais haver perdido a esperança de que os fios da História seriam reatados e novos inconformistas levariam adiante a luta contra o inferno pamonha (8) do capitalismo, partindo do ponto exato em que  fomos tão rudemente interrompidos (9).

Desde aquele surpreendente junho de 2013, as pedras voltaram a rolar. Afora o rock domesticado que é visto na TV, nos palcos e nos espetáculos cuidadosamente ensaiados, há um novo rock querendo nascer nas ruas, sujeito a refluxos, mas, espero, capaz de perseverar, de sacudir as grandes cidades outras vezes, fazendo  jus ao Raulzito e sua teimosia braba. Posso ser um sonhador, mas suspeito de que haja mais no quadro do que os olhos podem ver (10)...

Observações:
  1. Too old to rock'n roll, too young to die é a faixa-título do álbum de 1976 do Jethro Tull;
  2. Nome da faixa-título de um álbum de 1973 do George Harrison;
  3. Os trechos em vermelho são todos links, clique para abrir o artigo citado;
  4. Verso da canção My my, hey hey (out of the blue), do Neil Young;
  5. Referência à canção Tente outra vez, do Raul Seixas;
  6. Vide, acima, a observação 1;
  7. Pegando uma carona em As aventuras de Raul Seixas na cidade de Thor, do Raulzito;
  8. Expressão que o Paulo Francis criou para qualificar o capitalismo de imbecilizante, afora desumano;
  9. Before We Were So Rudely Interrupted é o título do ábum de reagrupamento do The Animals;
  10. Outros versos do hino roqueiro My my, hey hey (out of the blue).

domingo, 13 de julho de 2014

ROCK'N ROLL WILL NEVER DIE!!!

"Foi o primeiro, foi o único sonho."

É uma das frases mais marcantes de um filme cheio delas: Pierrot Le Fou (1965), de Jean-Luc Godard, que aqui recebeu o estapafúrdio nome de O demônio das 11 horas (como os boçais da companhia distribuidora não entenderam nada de nada, acharam que qualquer título bizarro serviria...).

Meu primeiro sonho foi, claro, a revolução. E nenhum dos subsequentes viria a ser tão importante para mim.

Mas, sobrevivi à grande derrota dos anos de chumbo. E, too young to die (1), só me restou seguir em frente,  living in the material world (2).

Fui juntar meus cacos nas esperançosas comunidades em que os jovens tentavam escapar, ao mesmo tempo, dos tentáculos do sistema e das tenazes da ditadura. Faço um balanço das experiências que vivenciei em Reflexões sobre a sociedade alternativa (3).

Nossa  comuna  também soçobrou ao baixo astral dominante, seguindo a avassaladora tendência brasileira da primeira metade dos anos 70:  out of the blue, into the black (4).

Aí, resignei-me a vegetar durante o dia, quando era obrigado a vender minha força de trabalho intelectual, para só ser eu mesmo à noite, com minha companheira e meus discos, numa quitinete da av. Nove de Julho. Um flash desta fase está em Memórias de um roqueiro pobre.

No final da década, não pensei mais que a cabeça aguentaria se eu parasse (5). Resolvi, portanto, abandonar a comunicação empresarial que no íntimo detestava, mas até então suportara estoicamente; e fui à luta por uma carreira mais gratificante. 

Acabei crítico de rock, redator e editor de várias revistas musicais, numa simpática editorazinha que, talvez por me remunerar parcamente, dava toda liberdade para eu escrever o que me desse na telha.

A transição do roqueiro tardio para o  crítico acidental  é detalhada em Hoje é dia de rock.

Foi quando tive uma breve amizade com o Raul Seixas, consequência da satisfação que sentiu ao ler o meu texto sobre sua primeira coletiva na CBS e o primeiro porre que tomamos juntos (outros viriam):  A teimosia braba do guerreiro. 

E criei um estilo algo diferente de abordar o rock, que até me valeu uma pequena legião de fãs --a ponto de, três décadas depois, encontrar um dos meus antigos artigos disponibilizados na internet, por alguém que se deu ao trabalho de o digitar e postar: Rock germânico no Brasil. 

A bagagem de informações roqueiras e avaliações críticas que então acumulei pode ser aferida num dos meus escritos mais ambiciosos, o comemorativo dos 20 anos do festival de Woodstock: Éramos crianças, brincando no paraíso. 

Mas, acabei também me sentindo  too old to rock'n roll (6). E, no final de 1984, a crise do papel me deu o empurrão final, ao tornar inviável minha subsistência  meio dentro e meio fora do sistema. 

Muito a contragosto, tive de ir buscar um espacinho na grande imprensa. Com o único consolo de que não perdia muito, pois o rock visceral que tanto me empolgara estava sendo substituído pelas megaproduções sem alma. É o que conto em O divisor de águas: de 'Born to be wild' para 'We are the champions'... 

Finalmente, na década passada dei nova guinada na minha vida e, por caminhos tortuosos e sofridos, acabei voltando ao palco revolucionário, ou seja, à minha verdadeira praia, onde sempre quis estar e de onde jamais deveria ter saído. 

Curiosamente, uma revista de rock me pediu que iniciasse uma colaboração, bem naquele momento em que caía para alguns internautas a ficha de que o sumido crítico André Mauro e o Celso Lungaretti atuante na defesa do Cesare Battisti eram a mesma pessoa.

Aproveitando a deixa, dissequei minha trajetória pouco convencional no artigo Still crazy after all these years.  

O título, eu tomei emprestado de uma canção pungente do Paul Simon. Mas, creio ter adquirido o direito de o utilizar, até por jamais haver perdido a esperança de que os fios da História seriam reatados e novos inconformistas levariam adiante a luta contra o inferno pamonha (7) do capitalismo, partindo do ponto exato em que  fomos tão rudemente interrompidos (8).

Neste 2014, quando se completa um ano desde que as pedras voltaram a rolar, o Dia Mundial do Rock não está mais na TV, nos palcos e em nenhum espetáculo programado. Está nas ruas. Até porque  há mais no quadro do que os olhos podem ver (9)...

Observações:
  1. Too old to rock'n roll, too young to die é a faixa-título do álbum de 1976 do Jethro Tull;
  2. Nome da faixa-título de um álbum de 1973 do George Harrison;
  3. Os trechos em vermelho são todos links, clique para abrir o artigo citado;
  4. Verso da canção My my, hey hey (out of the blue), do Neil Young;
  5. Referência à canção Tente outra vez, do Raul Seixas;
  6. Vide, acima, a observação 1;
  7. Expressão que o Paulo Francis criou para qualificar o capitalismo de imbecilizante, afora desumano;
  8. Before We Were So Rudely Interrupted é o título do ábum de reagrupamento do The Animals;
  9. Outros versos do hino roqueiro My my, hey hey (out of the blue).

sábado, 13 de julho de 2013

O ROCK VOLTOU: ESTÁ NAS RUAS!

"Foi o primeiro, foi o único sonho."

É uma das frases mais marcantes de um filme cheio delas: Pierrot Le Fou (1965), de Jean-Luc Godard, que aqui recebeu o estapafúrdio nome de O demônio das 11 horas (como os boçais da companhia distribuidora não entenderam nada de nada, acharam que qualquer título bizarro serviria...).

Meu primeiro sonho foi, claro, a revolução. E nenhum dos subsequentes viria a ser tão importante para mim.

Mas, sobrevivi à grande derrota dos anos de chumbo. E, too young to die (1), só me restou seguir em frente,  living in the material world (2).

Fui juntar meus cacos nas esperançosas comunidades em que os jovens tentavam escapar, ao mesmo tempo, dos tentáculos do sistema e das tenazes da ditadura. Faço um balanço das experiências que vivenciei em Reflexões sobre a sociedade alternativa (3).

Nossa  comuna  também soçobrou ao baixo astral dominante, seguindo a avassaladora tendência brasileira da primeira metade dos anos 70:  out of the blue, into the black (4).

Aí, resignei-me a vegetar durante o dia, quando era obrigado a vender minha força de trabalho intelectual, para só ser eu mesmo à noite, com minha companheira e meus discos, numa quitinete da av. Nove de Julho. Um flash desta fase está em Memórias de um roqueiro pobre.

No final da década, não pensei mais que a cabeça aguentaria se eu parasse (5). Resolvi, portanto, abandonar a comunicação empresarial que no íntimo detestava, mas até então suportara estoicamente; e fui à luta por uma carreira mais gratificante. 

Acabei crítico de rock, redator e editor de várias revistas musicais, numa simpática editorazinha que, talvez por me remunerar parcamente, dava toda liberdade para eu escrever o que me desse na telha.

A transição do roqueiro tardio para o  crítico acidental  é detalhada em Hoje é dia de rock.

Foi quando tive uma breve amizade com o Raul Seixas, consequência da satisfação que sentiu ao ler o meu texto sobre sua primeira coletiva na CBS e o primeiro porre que tomamos juntos (outros viriam):  A teimosia braba do guerreiro. 

E criei um estilo algo diferente de abordar o rock, que até me valeu uma pequena legião de fãs --a ponto de, três décadas depois, encontrar um dos meus antigos artigos disponibilizados na internet, por alguém que se deu ao trabalho de o digitar e postar: Rock germânico no Brasil. 

A bagagem de informações roqueiras e avaliações críticas que então acumulei pode ser aferida num dos meus escritos mais ambiciosos, o comemorativo dos 20 anos do festival de Woodstock: Éramos crianças, brincando no paraíso. 

Mas, acabei também me sentindo  too old to rock'n roll (6). E, no final de 1984, a crise do papel me deu o empurrão final, ao tornar inviável minha subsistência  meio dentro e meio fora do sistema. 

Muito a contragosto, tive de ir buscar um espacinho na grande imprensa. Com o único consolo de que não perdia muito, pois o rock visceral que tanto me empolgara estava sendo substituído pelas megaproduções sem alma. É o que conto em O divisor de águas: de 'Born to be wild' para 'We are the champions'... 

Finalmente, na década passada dei nova guinada na minha vida e, por caminhos tortuosos e sofridos, acabei voltando ao palco revolucionário, ou seja, à minha verdadeira praia, onde sempre quis estar e de onde jamais deveria ter saído. 

Curiosamente, uma revista de rock me pediu que iniciasse uma colaboração, bem naquele momento em que caía para alguns internautas a ficha de que o sumido crítico André Mauro e o Celso Lungaretti atuante na defesa do Cesare Battisti eram a mesma pessoa.

Aproveitando a deixa, dissequei minha trajetória pouco convencional no artigo Still crazy after all these years.  

O título, eu tomei emprestado de uma canção pungente do Paul Simon. Mas, creio ter adquirido o direito de o utilizar, até por jamais haver perdido a esperança de que os fios da História seriam reatados e novos inconformistas levariam adiante a luta contra o inferno pamonha (7) do capitalismo, partindo do ponto exato em que  fomos tão rudemente interrompidos (8).

Neste 2013 em que as pedras voltaram a rolar, o Dia Mundial do Rock não está mais na TV, nos palcos e em nenhum espetáculo programado. Está nas ruas. Até porque  há mais no quadro do que os olhos podem ver (9)...

Observações:
  1. Too old to rock'n roll, too young to die é a faixa-título do álbum de 1976 do Jethro Tull;
  2. Nome da faixa-título de um álbum de 1973 do George Harrison;
  3. Os trechos em vermelho são todos links, clique para abrir o artigo citado;
  4. Verso da canção My my, hey hey (out of the blue), do Neil Young;
  5. Referência à canção Tente outra vez, do Raul Seixas;
  6. Vide, acima, a observação 1;
  7. Expressão que o Paulo Francis criou para qualificar o capitalismo de imbecilizante, afora desumano;
  8. Before We Were So Rudely Interrupted é o título do ábum de reagrupamento do The Animals;
  9. Outros versos do hino roqueiro My my, hey hey (out of the blue).
Related Posts with Thumbnails