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terça-feira, 18 de junho de 2019

...MAS, O QUE EU QUERO É LHE DIZER QUE A COISA AQUI 'TÁ PRETA!

Não pude deixar de lembrar-me da canção Meu caro amigo, do Chico Buarque, ao acabar de responder a um e-mail do bom companheiro Rui Martins que, lá na Suíça, aflige-se com as novidades que lhe chegam do Brasil.

No caso, a sua inquietação era com o alerta que lancei nesta 2ª feira, 17 (vide aqui), por ele qualificado de "um pesadelo".

A resposta que enviei ao Rui é o que tenho para dizer aos leitores neste momento, então a reproduzo na íntegra:
"...é triste mas continuo não conseguindo fazer com que esses indícios de grave perigo sejam levados a sério.
O MBL e o Vem Pra Rua estão convocando para manifestações no país inteiro no dia 30, alegadamente em solidariedade ao Moro. 
Há duas possibilidades: 
1. a de o áudio golpista (clique aqui para abrir) provir de uma vertente secundária da extrema-direita que estaria tentando dar um direcionamento mais radical a tais manifestações; 
2. a de o áudio expressar a verdadeira intenção da extrema-direita com as manifestações e a solidariedade ao Moro ser apenas a versão maquilada, para uso externo.
O certo é que não se pode brincar com essas coisas e a imprensa, em primeiro lugar, deveria estar investigando esse áudio, até porque faz um tipo de pregação que pode ser enquadrado como crime virtual. Isto não tem interesse jornalístico?
Será que, como durante a escalada do Hitler, ignoraremos o perigo até essa cambada não poder mais ser detida?!"

domingo, 26 de maio de 2019

BOLSONARO NÃO SABE PARA ONDE VAI E CONDUZ OS BRASILEIROS A LUGAR NENHUM

hélio schwartsman
UM PRESIDENTE REATIVO
Jair Bolsonaro se meteu numa encrenca. Não, não falo de ele ter assumido a Presidência, mas da convocação de seus apoiadores para participar de manifestações pró-governo neste domingo. Do nada, o presidente criou para si o que os americanos chamam de lose-lose situation, isto é, colocou-se numa posição em que, não importa o que ocorra, ele sairá perdendo.

Se as manifestações não reunirem um público grande, ou seja, caso se possa carimbar que foram um fracasso, o governo terá dado uma inédita demonstração de fraqueza —e com apenas cinco meses de mandato.

Se, por outro lado, os protestos ficarem apinhados de gente, a pressão sobre o Congresso e o STF tornará mais tenso o relacionamento entre os três Poderes, dificultando o futuro de sua administração, que depende do Legislativo e do Judiciário para concretizar praticamente todos os seus projetos.

Mesmo no mais verossímil cenário de copo meio cheio, meio vazio, no qual as manifestações não possam ser classificadas nem como fiasco nem um retumbante sucesso, Bolsonaro não sai incólume. 

Mesmo no mais verossímil cenário de copo meio cheio, meio vazio, no qual as manifestações não possam ser classificadas nem como fiasco nem um retumbante sucesso, Bolsonaro não sai incólume. 

Ele já perdeu pontos ao expor divisões entre seus apoiadores. Grupos fortemente vinculados ao presidente, como o MBL e o Vem pra rua, anunciaram publicamente que não estariam nos atos. O próprio Bolsonaro pulou fora, e proibiu ministros de participar.

A estratégia de atiçar as massas contra o Legislativo e Judiciário só faria sentido se o presidente tivesse planos reais de investir contra os dois Poderes. E, mesmo assim, a abordagem racional teria exigido que atacasse com carga total, não que, no instante seguinte, se pusesse a contemporizar e esvaziar os protestos.

A sensação que fica é a de que o presidente não tem um plano muito definido do que fazer para lograr seus objetivos. Ele apenas reage, com base em instintos, aos acontecimentos. Como nada indica que mudará de atitude, devemos esperar três anos e meio de muitos sobressaltos e inconstâncias. (por Hélio Schwartsman)

segunda-feira, 20 de maio de 2019

"BOLSONARO FORÇA CRISES PORQUE QUER FECHAR O CONGRESSO E O STF, CENSURAR A IMPRENSA E PERSEGUIR A ESQUERDA"

Forças terríveis = pretexto para o autogolpe
celso rocha de barros
A CARTA DE JÂNIO
Na última 6ª feira (17) o presidente da República compartilhou, num grupo de WhatsApp de seus apoiadores, um texto de Paulo Portinho, analista de investimentos que foi candidato a vereador no Rio de Janeiro em 2016 pelo Partido Novo.

O texto afirma que o governo fracassou em tudo que tentou até agora e termina recomendando que os investidores desfaçam suas apostas no sucesso da economia brasileira (Sell, uma recomendação de venda de ações). Até aí, achei que era uma coluna minha.

Mas o texto atribui o fracasso de Bolsonaro à influência de forças ocultas, corporações que impedem qualquer presidente —inclusive os de esquerda— de governar.

Não é muito fácil entender que forças ocultas seriam essas. Elas estariam impedindo a implementação do programa de Paulo Guedes, mas também teriam obrigado Dilma Rousseff a nomear Joaquim Levy.

Para mim, não ficou muito claro porque um sistema que obriga Dilma a ser mais ortodoxa e Guedes a ser menos ortodoxo estaria funcionando mal.
Quando uma embarcação está afundando, os ratos são os primeiros que a abandonam 
Mas a mensagem do texto é clara: a única coisa que Bolsonaro teria feito de útil como presidente teria sido provar que não é possível governar o Brasil sem fazer conchavos.

Bolsonaro seria “só um óculos com grau certo, para vermos que o rei sempre esteve nu, e é horroroso”.

Essa é a versão que Bolsonaro está tentando vender: a de que não conseguiu fazer nada de útil em cinco meses porque não deixaram. Ele diz isso para que seus apoiadores culpem o Congresso, o STF, a imprensa, e, é claro, a esquerda.

A verdade é o contrário: Bolsonaro quer fechar o Congresso e o STF, censurar a imprensa e perseguir a esquerda. Por isso, não faz nada e força crises.
O que será da corte sem seu bobo?

Não por acaso, enquanto os bolsonaristas divulgavam o texto de Portinho (que não parece ter nada a ver com a coisa toda, coitado), também convocavam uma manifestação de apoio a Bolsonaro.

Não precisa acreditar em mim: pesquise o que a turma que apoia a manifestação está dizendo nas redes sociais. A conversa é sobre fechar Congresso, expulsar ministros do Supremo e daí pra baixo. É um movimento em defesa de um golpe de estado.

Os movimentos de rua que apoiaram o impeachment, como o MBL e o Vem pra Rua, já declararam que não participarão do ato. Entenderam do que se trata.

Tudo indica que a divulgação do texto de Portinho e a convocação da manifestação golpista é um gesto de desespero do bolsonarismo radical, ocorrido ao final de uma semana em que Olavo de Carvalho admitiu derrota diante dos generais. 

Também era preciso desviar atenção das enormes manifestações estudantis e, é claro, das denúncias contra a família Bolsonaro.

É bom lembrar: nenhum presidente recente venceu em situação mais favorável para governar do que Bolsonaro. Ideologicamente, os congressistas são muito mais alinhados a Bolsonaro do que eram aos governos petistas. 

Tendo sido eleito como cabeça de chapa, Bolsonaro tem muito mais força do que Temer.
Por Celso Rocha de Barros

E, se Bolsonaro tivesse problema em conviver com acusados de corrupção, não teria montado esse ministério.

Alguns analistas viram na publicação do manifesto Sell uma espécie de carta de renúncia, como a de Jânio. É sempre bom lembrar: a renúncia de Jânio foi uma tentativa de golpe. 

sábado, 14 de março de 2015

DOMINGO DE PROTESTOS PODERÁ DEIXAR O GOVERNO MAIS FRAGILIZADO AINDA

A página eletrônica vemprarua, criada a partir das jornadas de protesto de 2013 contra a majoração do transporte coletivo em Sampa, apresenta-se como um "projeto apartidário" que "surgiu da ideia em reunir em um site informações sobre as diversas manifestações [de protesto] agendadas no Brasil".. 

Não sei dizer se é só isto ou mais do que isto, pois vai além da função informativa, posicionando-se, em editorial, ao lado dos "movimentos que querem libertar o povo brasileiro deste modelo falido de governo". De qualquer forma, parece cumprir honestamente o papel de agenda, daí eu ter nele pinçado um quadro interessante do que poderá ocorrer neste domingo, 15.

Segundo a relação do vemprarua, as manifestações estão: 
  • confirmadas em 35 cidades brasileiras, sendo a metade capitais (Aracaju, Belém, Belô, Brasília, Curitiba, Floripa, Fortaleza, Goiânia, João Pessoa, Natal, Porto Alegre, Recife, Salvador, São Luiz, São Paulo, Teresina e Vitória);
  • confirmadas em 9 cidades estrangeiras, quais sejam Bruxelas, Lisboa, Londres, Miami, Nova York, Orlando (claro!), Santa Cruz de la Sierra (claro!), São Francisco e Sidney;
  • previstas, mas não confirmadas, em 198 cidades brasileiras, incluindo Campinas (onde a partida de futebol marcada para as 16 horas foi mantida para não deixar a TV Globo sem sua atração dominical, e que se dane o povo se ocorrerem distúrbios!), Curitiba, Rio de Janeiro e, até, as três cidades do ABC paulista, berço do PT.
Os protestos do contra tendem a ser mais impactantes...
O governo que coloque as barbas de molho. Não será só um desabafo histérico dos coxinhas e dos sem-fome, como sua rede de blogueiros amestrados tenta fazer crer. Pode mesmo acontecer algo impactante, que seria a senha para os ratos abandonarem de vez o navio, colocando o Titanic em rota acelerada de colisão com o iceberg.

Eu insisto: passou da hora de os dirigentes petistas admitirem que grassa muito descontentamento entre os brasileiros e que alguma forma de compartilhamento do poder deve ser tentada, caso o partido não queira perdê-lo por inteiro.

Até porque, durante a recessão que tende a se agravar cada vez mais ao longo (pelo menos) deste ano, o PT não estaria dividindo louros, mas sim responsabilidades. Custa tanto assim convidarem outras forças para servirem de vidraça junto com eles? 

Das opções que se ainda se oferecem ao PT, a pior de todas é deixar tudo como está pra ver como é que fica; a agonia lenta, mesmo que não desemboque num golpe de estado, imporá sacrifícios inimagináveis e insuportáveis aos brasileiros.

Convidar notáveis com credibilidade e independência política para a formação de um gabinete de crise, expelindo no ato os muitos inúteis que apenas representam seus partidos no Ministério, é algo a ser tentado, até porque a governabilidade que o PT pretendia adquirir mediante o loteamento de cargos é uma mercadoria que não lhe está sendo entregue.
...do que as inoportunas manifestações a favor.

O governo de união nacional pelo menos aliviaria as pressões que ora convergem todas sobre o governo. Não acredito que seja uma solução duradoura, mas ganhar tempo é preciso. E os FHCs da vida, digam o que estejam dizendo por enquanto, não poderão se furtar a um chamamento para ajudarem a salvar o País num quadro dramático como o atual. Acabarão tendo de participar, ainda que a contragosto. 

Se estas duas opções não vingarem, restará a renúncia de Dilma e Michel Temer, forçando a convocação de novas eleições presidenciais. Não chega a ser nenhuma catástrofe, até porque o Lula começaria a corrida eleitoral como favorito.

A partir daí, sobrarão apenas a hipótese ruim (impeachment, que, se não surgirem motivos legais suficientes para justificá-lo, equivaleria a um golpe branco) e a hipótese péssima (golpe de estado, tanques nas ruas).

Se não for desmontada a armadilha da tempestade perfeita --gravíssimas crises econômica, política e moral interagindo e se realimentando mutuamente--, não duvidem, dificilmente Dilma conseguirá atravessar em agonia lenta os 49 meses e meio de mandato que lhe restam. É tempo demais.

Então, o governo tem de começar a agir. As opções ruim e péssima pendem, como lâminas de guilhotina, sobre a cabeça dos brasileiros.
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