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terça-feira, 12 de novembro de 2019

EVO SE SALVOU POR BUSCAR REFÚGIO NUM PAÍS CUJO PRESIDENTE TEM VERGONHA NA CARA E NÃO TRAI PERSEGUIDOS POLÍTICOS

Evo deve a vida ao México. Battisti deve a Evo as grades...
sylvia colombo
ACOLHER REFUGIADOS E PERSEGUIDOS É BELA TRADIÇÃO MEXICANA
Há quem pense que a acolhida do México ao agora ex-presidente boliviano Evo Morales tem a ver com o simples alinhamento ideológico deste com o atual mandatário mexicano, o também esquerdista Andrés Manuel López Obrador. Ou seja, uma mera questão conjuntural.

Porém, um dos belos legados da tradição mexicana é justamente este, o de acolher estrangeiros com problemas políticos, refugiados ou perseguidos. Basta lembrar das centenas que fugiram das ditaduras do Cone Sul nos anos 1970 (brasileiros, argentinos, chilenos e uruguaios), para ficar num exemplo próximo. 

Ou do líder revolucionário soviético León Trotsky que, tentando escapar de Stálin, em 1936 foi acolhido pelo presidente Lázaro Cárdenas por influência do pintor Diego Rivera e se refugiou no lindíssimo bairro de Coyoacán, na Cidade do México. A fúria de Stálin contra ele, porém, foi maior, e Trotsky acabou sendo assassinado ali mesmo. 
Esteban Volkov com o avô célebre nos anos 30 e numa foto de 2012

Curioso é que essa terra que deve ter parecido tão distinta à sua, acabou sendo o lugar em que hoje está seu legado. Não apenas sua casa, seus objetos e muitos de seus escritos seguem ali, assim como seu neto Esteban Volkov, que entrevistei na Cidade do México há alguns anos e que é a cara do avô, mas adora quesadillas e tacos e fala com o mais puro sotaque chilango.

Desde que decidiu que se aceitaria o pedido de asilo de Morales, o chanceler mexicano, Marcelo Ebrard, vem fazendo referências a essa tradição. Explicou que ela está viabilizada pelo artigo 15 da Constituição, que define o acolhimento como um direito humano.

Na Argentina, a gratidão pelo México é tão profunda que muitos ex-montoneros, intelectuais e defensores de direitos humanos que tiveram de deixar o país durante o regime militar (1976-1983) não quiseram voltar nunca, e são chamados de argen-mex.

Entre outros exilados importantes, o México recebeu ainda mais de 20 mil espanhóis republicanos durante e depois da Guerra Civil Espanhola (1936-1939), fugindo das garras de Franco. 
Em 1956 Fidel e Che ficaram um mês presos no México, onde preparavam efetivos para lutarem em Cuba
E, em 1955, foi nesse território que o cubano Fidel Castro se encontrou com o argentino Ernesto Che Guevara, antes que ambos iniciassem sua luta pela Revolução Cubana. O México também jamais aceitou aplicar sanções contra Cuba e seguiu sendo o melhor aliado da ilha socialista nos piores anos da Guerra Fria.

Mais atrás ainda, o poeta José Martí (1853-1895), um dos próceres de Cuba, também passou um tempo exilado no México antes de virar um dos heróis da independência cubana.

No México, não se trata de proteger apenas quem tem afinidades ideológicas, mas sim de respeitar uma Constituição histórica, de viés humanitário, e que deixou marcas profundas na política e na cultura do país.
Se hoje o México é, também, célebre por sua literatura, seus movimentos artísticos e suas revistas culturais, deve muito a esses refugiados ou perseguidos vindos da América do Sul, da Europa ou da longínqua então União Soviética. 

Trata-se de um exemplo vivo de como a imigração e o acolhimento ao estrangeiro só tendem a enriquecer uma cultura e uma sociedade. 
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(por Sylvia Colombo)

quinta-feira, 5 de setembro de 2019

NO BRASIL, A DIREITA OU É SELVAGEM OU É PUSILÂNIME E OMISSA; NO CHILE, SIM, EXISTE UMA DIREITA CIVILIZADA.

sylvia colombo
RELAÇÃO COM PASSADO DITATORIAL DISTANCIA
PRESIDENTE DO CHILE DE BOLSONARO
Piñera deplora declarações ultrajantes do Bozo
A relação com o passado ditatorial é o que mais diferencia o presidente brasileiro, Jair Bolsonaro, do chileno, Sebastián Piñera.

Se o primeiro é fã declarado do general Augusto Pinochet, que governou o Chile entre 1973 e 1990, Piñera, de centro-direita, orgulha-se de ter votado não –contra a manutenção do regime –no plebiscito que decidiu o fim da ditadura militar em 1988.

Nesta quarta (4), após Bolsonaro atacar o pai de Michelle Bachelet, que foi torturado e morto pelo Estado sob Pinochet, o presidente chileno disse em pronunciamento não compactuar com as declarações do mandatário brasileiro.
"Não compartilho em absoluto a menção feita pelo presidente Bolsonaro por respeito a uma ex-presidente do Chile e, especialmente, em um tema tão doloroso como a morte de seu pai."
Desde o seu primeiro mandato, entre 2010 e 2014, Piñera estimula a Justiça do país a seguir com processos contra violações de direitos humanos cometidos durante a ditadura. 
Michelle tinha toda razão ao criticar o autoritarismo brasileiro

Promotores e juízes estão autorizados a trabalhar baseando-se no arcabouço jurídico do desaparecimento contínuo, adotado já nas gestões de Bachelet (2006/10 e 2014/18).

O recurso presume que um corpo não encontrado é produto de crime que ainda está sendo cometido –e, portanto, não é anistiável.

Outra ferramenta legal do Estado chileno baseia-se no Estatuto de Roma (1998) e determina que crimes considerados de lesa-humanidade não prescrevem.

A estimativa da Justiça é que cerca de 3 mil pessoas tenham desaparecido durante a ditadura no Chile e que mais de 30 mil hajam sido torturadas. 

Alberto Bachelet, pai de Michelle, era general de brigada da Força Aérea e se opôs ao golpe militar dado por Pinochet em setembro de 1973. Ele foi preso e torturado pelo regime e morreu sob custódia, em fevereiro de 1974. 
A infame resposta foi o ataque à memória do seu martirizado pai
A ex-presidente chilena também foi presa e torturada por agentes de Pinochet em 1975. 

Em entrevista à Folha de S. Paulo no ano passado, o juiz Mario Carroza, responsável por julgar casos importantes da ditadura chilena dentre eles, a morte do pai de Bachelet, afirmou que "nunca houve nenhuma restrição a investigar quem fosse, [seja] políticos, militares ou empresários, por parte de nenhum desses dois presidentes [Piñera e Bachelet]". 

Carroza também esteve à frente de casos como o dos quemados, em que dois jovens foram incendiados por participar de um protesto, o assassinato do cantor popular Victor Jara e a morte misteriosa do poeta Pablo Neruda.

O Chile dispõe de uma Lei de Anistia ainda em vigor. Para o jurista, no entanto, ela se restringiu a cumprir seu papel no momento da transição democrática.

Carroza defende que hoje o direito internacional e a jurisprudência para casos de lesa-humanidade já permitem que se investiguem e condenem sem levar em conta anistias e prescrições. E que tanto Piñera quanto Bachelet sempre respeitaram isso.
O que mais se poderia esperar de um fã do Ustra?

Durante a visita de Bolsonaro ao Chile em março passado, Piñera afirmou, apesar do clima amistoso entre ambos, que não estava de acordo com as opiniões do brasileiro sobre os períodos ditatoriais de seus países e que as frases do brasileiro sobre o tema eram "tremendamente infelizes". 
(por Sylvia Colombo
de Buenos Aires)
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