segunda-feira, 14 de dezembro de 2020

SPIELBERG COMEÇOU COM UM EMPOLGANTE DUELO ARTÍSTICO, DEPOIS SÓ DUELARIA PELA MAXIMIZAÇÃO DOS CIFRÕES

A engrenagem capitalista nas artes tem o toque de Sadim (Midas ao contrário): todo ouro que toca vira cascalho. É interminável a lista de grandes talentos que minguaram por se prostituírem ao chamado cinemão, limitando-se a prover as banalidades inócuas que os espectadores medianos apreciam.

Steven Spielberg ocupa lugar de destaque na relação. Poderia ter feito cinema de verdade, a julgar pelo pique inicial. Mas, o primeiro grande sucesso, Tubarão (1975), foi o último grande filme. Nunca mais deixou de bajular os consumidores em troca de um punhado de dólares. 

Estreou com um filme de TV tão bom que acabou nos cinemas: este Encurralado (1971), a que vocês podem assistir na janelinha abaixo.

O título original, Duel, é mais apropriado. 

Caminhoneiro antipatiza com um caixeiro viajante (Dennis Weaver) que buzinou insistentemente pedindo passagem. Por este único motivo, passa a persegui-lo e a hostilizá-lo desmedidamente ao longo da estrada, até o pacato sujeito se convencer de que não tem como escapar do duelo. Só sobreviverá se assumir o desafio.

Afora a maestria com que Speilberg faz crescer o suspense a cada segundo do seu estranho road movie, há todo um simbolismo por trás da ação, remetendo-nos à história bíblica de Davi e Golias: o vendedor tem o alusivo nome de David Mann (Davi, homem) e confronta um gigantesco monstro mecânico cujo condutor nunca é visto. 

Indo mais além, eram tempos de Guerra do Vietnã e da contestação jovem, que desestabilizavam o mundinho careta (segundo o jargão dos pirados da época) no qual David Mann se acostumara a viver. Assim como ele, a chamada maioria silenciosa sentia-se repentinamente ameaçada, tendo de travar duelos para os quais não se havia preparado. Encurralado flagra tal desconforto.
Situação semelhante é mostrada no filme que representou um divisor de águas na carreira de Spielberg, Tubarão, quando o perigo inesperado se corporifica num monstro marinho, que também surge do nada e atrai para um duelo mortal o xerife prosaico e sem queda para herói (Roy Scheider).

Maior faturamento da história do cinema até então, tonteou Spielberg, tornando-o um obcecado por bilheterias. A partir daí ele realizaria um sem-número de besteirinhas caça-níqueis, além de recorrer a uma apelação manjadíssima (fazer coro com a cantilena dos judeus, os magnatas que comandam Hollywood) quando se dispôs a obter, custasse o que custasse, o seu primeiro Oscar.  

Seu A lista de Schindler desperdiçou uma ótima história e um personagem histórico exemplar ao satanizar excessivamente os nazistas, repisar demais suas bestialidades e vitimizar de forma maniqueísta ao extremo as suas vítimas, acabando por se tornar esquemático, repetitivo e tedioso .

Essencializado, poderia ter sido uma obra-prima. Não consigo lembrar de um filme mais carente de cortes, tantas são as excrescências (pieguices e redundâncias) a clamarem por cortes. (por Celso Lungaretti)

Nenhum comentário:

Related Posts with Thumbnails