Ontem ele era o velhinho transviado das motociatas; exibia sua pança conduzindo jet-ski, sem noção de que mais parecia uma caricatura do galã Fernando Collor; disparava insultos e baixarias para todos os lados; fazia questão de exaltar abominações como os milicianos do Rio de Janeiro e os torturadores da ditadura militar.
Hoje convoca uma multidão para vê-lo pedir arrego; balança o rabinho para aquele que dizia desprezar; chega à humilhação extrema de implorar ao Lula que intervenha para salvá-lo das grades ("Fui para cima do apaziguamento, com anistia. Isso precisa vir do lado de lá. Eu sei que o Parlamento é o ente que decide essa questão, mas partindo do Executivo seria muito bem-vindo").
Que música poderíamos dedicar a tão repulsivo personagem? Bem, como ele está na fase quem-não-chora-não-mama, lembrei-me de uma perfeita, composta e interpretada pelo Sirlan na década de 1970. Vejam o vídeo e constatem. (CL)
"Faça alguma coisa antes de ver o fim do poço, diga
Imaginou-se que a emoção não teria espaço no mundo macho e triunfalista de Bolsonaro. Mas eis que o infortúnio eleitoral abriu uma fenda –mesmo que cenográfica– na carapaça que parecia inexpugnável.
O capitão chorou. Verteu lágrimas em público, num evento militar. Descobre-se de repente que os imbrocháveis também choram.
O pranto de Bolsonaro não chegou a produzir espanto. Muitos devem ter reprimido um sorriso interior. Alguns ouviram uma voz no fundo da consciência exclamando: "Farsante!".
A memória dos mortos da pandemia atiçou instintos primitivos. "E daí?", muitos se perguntam. Deveria enfrentar a morte eleitoral "como homem", não como "maricas".
A esta altura, a máscara de sofredor não lhe cai bem.
Diz-se que Bolsonaro está deprimido. A depressão, no seu caso, é o preço total –com juros, multa e correção monetária– cobrado por 60 milhões de eleitores, de uma vez só, de alguém que não pagou suas parcelas de autocrítica nos últimos quatro anos.
No dia 7 de setembro 2021, num comício antidemocrático na Avenida Paulista, Bolsonaro declarou que só Deus o tiraria do Planalto. "Só saio preso, morto ou com a vitória. Direi aos canalhas que eu nunca serei preso".
Vivo e derrotado, o capitão perderá em 25 dias a blindagem do cargo e o escudo de Augusto Aras. Colecionador de processos, Bolsonaro deve ter receio de ser espremido nos 10 metros quadrados de uma cela.
Por isso tenta adaptar o seu versículo predileto para "Conhecereis o chororô e o mimimi vos libertará!".
Talvez devesse trocar um dedo de prosa com Valdemar Costa Neto. O dono do PL, especialista na matéria, enfrentou recintos fechados sem choro. (por Josias de Souza)
"Faça alguma coisa antes de ver o fim do poço. Diga uma
palavra ou, pelo menos, desespere. Pelo menos chora,
chora o seu medo. Sangra a sua dor, sangra a sua dor!"
Assim como a maioria dos seres humanos, sonho com uma repetição de tempos melhores, em todos os sentidos. Até no futebol. Quero demais ver novamente os sul-americanos no topo e os europeus, com toda a sua grana, curvando-se aos lampejos geniais de nossos Pelés, Garrinchas e Maradonas.
Então, finda a decisão do Mundial de Clubes, com a derrota pra lá de honrosa do melhor dos representantes brasileiros desde a conquista corinthiana em 2012, não tive a mínima vontade de teclar meu desalento.
Mas, como venho sempre colocando algo no blog sobre as grandes decisões futebolísticas, hoje, tendo esfriado a cabeça, resolvi trazer para cá a mais consistente e equilibrada análise que encontrei na blogosfera, a do Mauro Cezar Pereira.
Só acrescentaria que, se a superioridade do Chelsea sobre o Corinthians foi muito maior que a do Liverpool sobre o Flamengo, Tite conseguiu incutir nos seus comandados um espírito vencedor que faltou aos rubronegros: eles acreditaram o tempo todo na vitória, não se intimidaram com as situações claras de gol evitadas por defesas monumentais de Cássio e souberam aproveitar cirurgicamente uma das poucas chances que criaram.
Guerrero: oportunismo e frieza na maior chance do timão
Jorge Jesus se mostrou um treinador mais benéfico para o futebol do que o Adenor, ao encarar corajosamente, de igual para igual, o melhor time do mundo.
Mas, isto obrigou os jogadores do Flamengo a se superarem em campo, devido à maior qualidade individual dos adversários. E, assim como os briosos mexicanos do Monterrey, eles se cansaram, foram incapazes de manter o ritmo até o fim e aí o Liverpool se impôs.
Já o Corinthians de Tite, jogando fechado e apostando nos contra-ataques, manteve o fôlego.
E, com exceção de uma vacilada incrível do experiente Chicão no comecinho da partida, nenhum dos seus jogadores pareceu sentir o peso da responsabilidade, ao contrário de Bruno Henrique e Gabigol, que se esforçaram como nunca mas não conseguiram brilhar como sempre.
Vacilada do Chicão, primeiro milagre do Cássio
Para encerrar, desejo ao Galvão Bueno uma ótima aposentadoria... o quanto antes!
Foi simplesmente irritante ele procurar fazer do Mister o bode expiatório da derrota (que se começou a desenhar mais ou menos a partir dos 30 minutos do 2º tempo), atribuindo a perda do controle da partida por parte do Flamengo às substituições de Everton Ribeiro e Arrascaeta.
No instante mesmo em que aconteciam, eu já percebi que a causa era a queda de rendimento físico de ambos e a necessidade de remontar o time, colocando jogadores descansados em campo, para a provável prorrogação. Foi exatamente o que o Mister explicou mais tarde.
Mas, claro, Galvão precisava fornecer consolos baratos aos espectadores, tratando-os como crianças incapazes de assimilar os acontecimentos desagradáveis da vida. É o que ele sempre faz. (por Celso Lungaretti)
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mauro cezar pereira
PATAMAR ELEVADO DO FLAMENGO FICOU CLARO, SÓ QUE O LIVERPOOL ESTÁ ACIMA
Também com oportunismo e frieza, Firmino foi o algoz do Fla
Jogar contra o campeão europeu e tarefa complexa, especialmente quando este também e o melhor time do momento, caso deste Liverpool que perdeu apenas uma das 56 últimas partidas que fez pela Premier League, o mais difícil campeonato nacional do planeta.
Uma equipe que no atual campeonato inglês jogou 17 vezes, empatou uma (fora de casa, em Old Trafford, com o maior rival, Manchester United) e venceu 16!
Foi contra esse adversário que o Flamengo se impôs por boa parte dos 90 minutos em Doha, especialmente no 1º tempo. Teve a posse, jogou bola, colocou o Liverpool em seu próprio campo, marcando, por tanto tempo que antes do intervalo era de 59% o tempo de posse da pelota dos rubro-negros.
O time brasileiro jogava com coragem, não se limitava a atuar fechado em sua defesa, esperando uma chance.
Gabigol com cãibras: Flamengo foi minado aos poucos
Mas uma equipe como a campeão da Europa, forte e habituada a jogar do mesmo jeito, sem se descontrolar, mesmo quando em dificuldades, sabe que em algum momento devera recuperar o domínio da partida.
"Eles não se desconcentravam, mantiveram a calma, a forma de jogar", ressaltou o capitão Diego, com longa experiencia de futebol europeu, após o encerramento da decisão do Mundial de Clubesda Fifa.
O Flamengo perdeu e isso obviamente não satisfaz, não deixa a torcida feliz, embora ela tenha motivos para estar orgulhosa de uma apresentação ousada, enquanto a condição física permitia.
Fora a Flórida Cup, foram 74 jogos na temporada do time carioca; o Liverpool chegou ao seu cotejo 30º na atual e, como ela termina em maio, não deve passar de 60 apresentações. Isto pesou no decorrer do jogo.
Fato é que o time inglês mereceu vencer, criou as melhores chances e fez o goleiro Diego Alves trabalhar mais do que Alisson. Mas com um pouco de sorte e pontaria, Lincoln poderia empatar no finalzinho da prorrogação, após passe de Vitinho. Mandou para fora.
Jorge Jesus: substituições se deveram ao cansaço
Não, o Flamengo não pode reclamar da sorte, ela lhe sorriu. O que faltou então? Tempo. São cinco meses de Jorge Jesus contra quatro anos, dois meses e oito dias de Jurgen Klopp nos reds.
A partida do time brasileiro mostrou que, sim, e possível desafiar equipes poderosas da Europa nesses duelos. Mas para vencê-las encarando-as, saindo para o jogo, como fez o Flamengo e jamais se havia visto antes, e necessário avançar mais, chegar a um estagio mais alto.
O Flamengo está, sim, noutro patamar no Brasil e em relação a boa parte do continente. E ele é elevado, mas ainda bem abaixo dos melhores times de futebol do mundo. (por Mauro Cezar Pereira)