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segunda-feira, 22 de julho de 2019

É GRANDE A MARGEM DE MANOBRA PARA OS PODEROSOS, SEM INFRINGIREM A LETRA DAS LEIS, ESTUPRAREM O ESPÍRITO DE JUSTIÇA

No domingo publiquei dois posts, este e este, que dão ao leitor uma boa noção de como o encalacrado Flávio Bolsonaro se livrou, ainda que provisoriamente, de investigações que, em circunstâncias normais, o acabariam levando a ser processado e condenado.

Como seu caso, a partir da decisão do ministro Antonio Dias Toffoli, presidente do STF, ficou na dependência de outro cujo julgamento está marcado para novembro, o 01 não será incomodado pelas autoridades nos próximos meses.

E, a julgar por precedentes como o de Ronaldo Cunha Lima, muitos outros meses ou anos poderá ele ganhar por meio das infinitas manobras protelatórias que as leis brasileiras facultam a quem tem luminares do Direito a defendê-los, até ocorrer a prescrição.

Para quem não se lembra, Cunha Lima alvejou Tarcísio Burity, seu adversário político, em pleno restaurante, diante de dezenas de testemunhas. Mesmo assim, seus defensores e as influências que mobilizou conseguiram evitar que fosse preso, perdesse o cargo de governador da Paraíba ou se tornasse inelegível (viria a ser, em seguida, senador e depois deputado federal). 

Nunca foi inocentado: seu processo tramitou em passo de tartaruga e finalmente evaporou (expressei minha indignação com este e outros casos aberrantes aqui).

É um roteiro cuja repetição pode muito bem ocorrer agora, em benefício do príncipe herdeiro. E, em termos jurídicos, nada há a objetar-se na decisão de Toffoli, pois tudo que ele fez encontra respaldo em nossas leis.

Foi o que cansei de repetir, em vão, durante a lengalenga do impeachment da Dilma. A retórica panfletária a respeito de golpe esbarrava nos fatos de que todos os procedimentos constitucionais estavam sendo cumpridos e as acusações possibilitavam, sim, sua condenação à perda do cargo. 

Nunca presidente nenhum haver sido impichado por descumprimento da lei orçamentária  não implicava que a dita cuja tivesse virado letra morta; ao outro lado bastava cinicamente retrucar que para tudo há uma primeira vez.

Daí meus esforços para convencer os petistas de que, quando a Câmara Federal deu sinal verde para a abertura do processo de impeachment, iniciou-se a contagem regressiva para a destituição de Dilma, com as batalhas jurídica e parlamentar se tornando mera perda de tempo. 

Minha sugestão foi de que ela renunciasse imediatamente e toda a esquerda se unisse em torno da bandeira de eleição direta para a escolha de quem a sucederia, aproveitando a impopularidade de Michel Temer para retomar a ofensiva política, ao invés de passar meses sangrando e sendo desmoralizada, até o mais amargo (e inexorável) fim. Ninguém escutou.

Quanto à acusação de golpe, nem fez as massas se mobilizarem significativamente na defesa do mandato de Dilma, nem sensibilizou ONU, OEA, cortes internacionais, etc., pois só o espírito das leis brasileiras havia sido estuprado; a letra das leis não sofrera arranhão nenhum. 

Golpes brancos não causam comoção maior, ainda mais quando têm lugar num continente que até poucas décadas atrás foi palco de tantos golpes sanguinários, com tanques nas ruas e resistentes executados/torturados aos montes.

Então, as novas gerações têm de aprender a lição que a minha estava careca de saber: as instituições da democracia burguesa estão, acima de tudo, a serviço dos poderosos. 

Se quisermos uma Justiça de verdade, teremos de conquistá-la superando o capitalismo. A utilidade da que temos agora é apenas tática. Não é ela que nos dará o que formos incapazes de conquistar nas lutas sociais. Ponto final. (por Celso Lungaretti)

quinta-feira, 14 de abril de 2011

VALE A PENA LER DE NOVO: "ESSE CRIME CHAMADO JUSTIÇA"

Face à nova vitória de Roberto Requião em sua cruzada para desmoralizar a Justiça e a política brasileiras, é mais do que oportuna a reedição do artigo abaixo, que escrevi no último mês de novembro, quando foi anunciada a merecidíssima sentença de Roger Abdelmassih. 

Este, que obtivera um inacreditável habeas corpus para responder ao processo  em liberdade, escapuliu logo depois da Justiça  que para os pobres tem garras, mas para a  gente bem  é uma mão que afaga. 

Abdelmassih continua até hoje foragido.
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O estuprador serial merece mesmo a pena de 278 anos a que foi condenado.
Ronaldo Cunha Lima

Tivesse eu os poderes de Deus, faria com que vivesse o suficiente para cumprir até o último dia de prisão, matando-o em seguida.

Mas, não consigo esquecer que a Justiça se faz algumas vezes, noutras não.

E, se colocarmos os casos lado a lado, fica a impressão de que tudo não passa de uma loteria.

Há culpados que recebem a sentença merecida... mas, do universo dos ricos, poderosos e famosos, são poucos, bem poucos. Além de dificilmente a cumprirem.

Há os que escapam graças a filigranas jurídicas... e são muitos.

Vai daí que a balança da Justiça não só foi substituída por uma loteria, mas por uma loteria fraudulenta.

P. ex., sem concordarmos com a frase infame de Paulo Maluf, assassinato é bem pior do que estupro.

Então, se o velho médico merece 278, quantos anos merece o velho jornalista que foi ao encontro da amante já antegozando seu assassinato, tendo-o executado com estarrecedora frieza, a ponto de haver disparado um tiro de misericórdia na moça que estrebuchava a seus pés?!

Um milênio seria pouco.
Roberto Requião
Mas, este faz parte da regra, não da exceção: não ficou nem um ano preso e está conseguindo tourear a Justiça até que seu inominável crime prescreva.

Da mesma forma, o político que surpreendeu e alvejou o rival num restaurante conseguiu não só ficar fora das grades -- deveria passar o resto da vida num calabouço medieval, isto sim! --, como continuou ganhando eleições e governando.

E que dizer daquele outro político que, mesmo tendo vencido o pleito graças a uma farsa exibida no horário eleitoral gratuito, desfrutou integralmente seu mandato espúrio e ainda saiu com a ficha limpa, sem condenação?!

E da absolvição daquele personagem que iniciou sua trajetória como seguidor de um mito (permanente como a revolução) da esquerda mundial, mas depois se tornou homem de confiança dos grandes capitalistas?!

Deveria defender os humildes dos abusos dos poderosos. Fez exatamente o contrário, utilizando todo o poder do Estado, da forma mais arbitrária e abusiva, para achatar um coitadeza qualquer.

Foi absolvido pelo Supremo Tribunal Federal, que aos verdadeiros esquerdistas, como Battisti, persegue encarniçadamente, mas que, aos banqueiros corruptos e aos ex-revolucionários que a burguesia cooptou, chama de Vossas Excelências.
Antonio Palocci

Então, somos obrigados a presenciar, enojados, o espetáculo: alguns bodes expiatórios ameaçados de não assumir mandatos por causa da  Lei da Ficha Limpa, enquanto centenas de vilões com culpas semelhantes serão poupados e um culpadíssimo segundo quaisquer critérios (tanto os da legalidade burguesa quanto os daqueles que a combatem)  está voltando à tona como, no mínimo, eminência parda do novo governo.

Aqueles a quem os deuses querem perder, primeiramente enlouquecem.

O Estado brasileiro dá, cada vez mais, a impressão de estar à mercê dos loucos.
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