O assassinato do indigenista Bruno Pereira nada mais foi do que a repetição de uma infinidade de outros episódios nos quais defensores da natureza, do povo explorado e dos índios foram calados por capangas dos poderosos, neste Brasil onde a verdadeira lei é a lei do mais forte.
Só provocou toda essa gritaria no exterior porque, desta vez, os sicários mataram também um jornalista estrangeiro. Ou seja, as matanças covardes de brasileiros já estão normalizadas, pasmo e indignação só existe quando alguém diferenciado vai junto.
Isto também vem de longe. Dos exterminados pela ditadura militar, ninguém sofreu martírio tão extremo e prolongado quanto o Bacuri.
E ninguém causou tanta comoção lá fora quanto o Vladimir Herzog, que, embora houvesse sucumbido a um provável ataque cardíaco logo na primeira sessão de tortura que sofreu, era de ascendência judaica, o que alhures o colocava em patamar superior até mesmo ao dos companheiros que sofreram suplícios intermináveis e inenarráveis nos aparelhos clandestinos da repressão.
...e o de 1962. Tudo como dantes no quartel de Abrantes.
Lamentei muito por Herzog, a quem eu conhecia de vista como professor da ECA-USP quando lá estudava, assim como muito lamento o óbito de Dom Philips, que veio morrer numa terra distante por praticar um jornalismo idealista.
Mas, se eu tiver de chorar, será antes por Bruno Pereira e pelo João Pedro Teixeira, o cabra marcado para morrer, líder da Liga Camponesa de Sapé (PB), assassinado a mando dos latifundiários em 1962.
Porque estes não ignoravam quão pouco valiam suas vidas no Brasil e, mesmo havendo sido alertados de que tinham as mortes encomendadas, decidiram seguir adiante, assumindo todos os riscos em nome de suas convicções. (por Celso Lungaretti)
Dirigida por Eduardo Coutinho, esta narrativa semidocumental
teve suas filmagens interrompidas quando do golpe de 1964 e
retomadas em 1981. O longa-metragem foi lançado em 1984.
Goulart falaria para 300 mil pessoas no Comício da Central do Brasil
No ônibus lotado, eu em pé, ouvia o radinho de pilha de um dos passageiros transmitindo o discurso de um dos oradores do comício pelas Reformas de Base na estação Central do Brasil, no Rio de Janeiro. Era o 13 de março de 1964.
O discurso poderia ser de Leonel Brizola, Jango falaria às 20 horas. Ali, dentro do ônibus, perto da Praça da Sé, deviam ser umas 19 horas.
Eu voltava do trabalho no Sesc, naquela época ficava ao lado da praça Leopoldo Froes, em São Paulo. Trabalhava na Divisão de Orientação Social, com um grupo de jovens selecionados por concurso, chefiados por gente altamente qualificada como José Tavares, Renato Requixa e Bahij Amin Aur. Estava terminando meu curso de Direito na USP, no Largo de São Francisco, mas decidira não exercer a advocacia.
A resposta conservadora viria seis dias depois
Vivia na rua Taguá, e isso poderá surpreender alguns, numa espécie de República de estudantes, no prédio do Exército da Salvação, junto ao templo na esquina com a rua São Joaquim. O primeiro andar tinha sido dedicado a abrigar jovens, na maioria universitários. Éramos dez, de origens sociais e denominações diversas, e isso criava um clima de troca constante de ideias.
Nesse dia 13 de março, lembro-me de termos discutido a questão das reformas de base e o comício da Central do Brasil, sem chegarmos a um acordo, dada a visão religiosa de alguns contrários ao socialismo e mais ainda ao comunismo, acusações feitas ao governo de João Goulart.
Mais alguns dias e São Paulo seria o ponto de partida de movimentações de massa contra o governo Goulart, nas grandes passeatas chamadas de Marchas da Família com Deus pela Liberdade, nas quais, como hoje, religiosos apelavam a Deus diante da ameaça de um golpe comunista. A grande diferença é denominacional — nos anos 60 e seguintes, ainda era o clero católico romano tradicional quem podia levantar o povo, em defesa do credo cristão.
Hoje, o catolicismo, implantado desde a descoberta, está em vias de ser suplantado no Brasil pela versão populista da religião cristã dos evangélicos. Porém, a base continua sendo a mesma — o clero cristão domina as populações pobres e de pouca instrução, protegendo os interesses dos grupos econômicos nacionais e, agora de maneira marcante, estrangeiros.
Tropas de Olympio Mourão andando pela Dutra em 31/03. Goulart só deixaria o poder na noite de 1º/04
O Brasil saía da experiência do parlamentarismo e retornava ao presidencialismo, o Plano Trienal proposto por Goulart visava relançar a economia e combater a inflação reinante. Dois nomes estavam sempre nos jornais — Celso Furtado, ministro do Planejamento, e San Thiago Dantas, ministro da Fazenda.
Um entrave surgiu ao Plano, a CGT, UNE e forças sociais de esquerda o condenaram. A inflação prosseguiu sem crescimento econômico. Restava se proceder as reformas de base, mas as transformações exigidas uniram militares, empresários e o clero, criando o clima para o golpe, desfechado no dia 31 mas concluído no 1º. de abril, Dia da Mentira.
Para nós estudantes, que vivíamos a efervescência do país, era a época dos órgãos reacionários Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais, Ipes, e o Instituto Brasileiro de Ação Democrática, Ibade, aos quais se opunham o Iseb, Instituto Superior de Estudos Brasileiros e o Centro Popular de Cultura, com seus Cadernos do Povo. É a época das Ligas Camponesas, de Julião, do movimento da reforma agrária e da Ação Popular.
Foi nesse clima que vimos acontecer o golpe com a implantação da ditadura militar, que iria mudar a vida de alguns de nós. Naqueles dias 31 de março e 1º de abril, ainda não jornalista, eu jamais poderia imaginar participar de uma oposição franca à ditadura, responsável pela perda sucessiva de empregos e a viver no Exterior. (por Rui Martins)
Francisco Julião e as Ligas Camponesas: a reforma agrária tinha bem mais a ver em 1964...
Sobre a reforma agrária– O capitalismo tem na produção industrial de mercadorias manufaturadas o seu carro-chefe na geração de valor válido, capaz de sinalizar para a colocação de moeda nova em circulação sem que cause inflação.
Considera-se como valor válido aquele não existia até o momento em que o insumo é extraído da natureza e processado na produção pelo trabalho abstrato e maquinaria, transformando-se em mercadoria.
Quando se analisa a composição do PIB dos países detentores de valores expressivos, como os Estados Unidos, China, Japão, França e Alemanha, vamos constatar a importância do setor industrial (secundário da economia), ainda que seja o setor de serviços (terciário da economia) o mais expressivo na composição do PIB, mesmo não sendo produtor de valor válido, pois apenas transfere de mãos valor já existente (daí a certeza de tanta emissão de moeda sem lastro). O setor agrícola, (primário da economia), ainda que seja produtor de valor válido, nunca representa soma considerável de valor econômico. Nos EUA, maior produtor de grãos do mundo, o setor agrícola gera apenas 1,9% do PIB.
...do que agora, mas a esquerda estacionou no século passado.
Fiz este preâmbulo para deixar mais claro que a reforma agrária – ou seja, a divisão de terras para a produção de mercadorias – se constitui numa bandeira capitalista, pois é capaz de manter a subsistência alimentar e ocupação de grandes contingentes de trabalhadores não absorvidos pelo setor industrial graças à produção vital de alimentos para os trabalhadores desse setor a preço compatíveis com o trabalho necessário (aquele pago aos trabalhadores para a sua mera subsistência).
Assim mesmo, observa-se nos países capitalistas liberais ou capitalistas de estado, que fizeram a reforma agrária já há bastante tempo, uma nova concentração de terras nas mãos de grandes empresas agrícolas sediadas em terras nas quais são passíveis a produção de alimentos em grande escala e com altos níveis de produtividade.
As terras que, não se enquadrando na economia de escala, destinam-se à mera sustentação dos pobres produtores, não podem competir no mercado, daí resultando desde a pobreza do campo (e a migração urbana) até o abandono de terras tidas como improdutivas dentro desse quadro capitalista de produção. No Brasil, país de baixa densidade demográfica, ainda não se fez a reforma agrária, pois nossas elites políticas, com sua burrice crônica, ainda não compreenderam que se trata de uma bandeira capitalista. O último governo que quis acelerar a reforma agrária (Jango Goulart) foi deposto pelos militares como comunista, sob aplausos de políticos, empresários e dos setores eclesiásticos atrasados!!! Os antigos coronéis, proprietários de latifúndios no semiárido do nordeste brasileiro, há muito abandonaram as suas terras (juntamente com os trabalhadores rurais) e foram morar nos centros urbanos mais próximos.
Reforma agrária despenca nos últimos governos
Os filhos de tais coronéis, que estudaram e se formaram em cursos superiores, produzem para os setores secundário e terciário da economia. Os filhos dos trabalhadores rurais, agora citadinos, que não puderam estudar, são trabalhadores desqualificados profissionalmente que amargam os baixos salários e o desemprego estrutural.
Diante deste quadro, o Movimento dos Sem Terra, em que pese a sua meritória intenção de dar terras aos que nelas querem trabalhar, está contaminado pelo vírus da propriedade rural (que é categoria jurídica capitalista, diferente do conceito de posse) e da produção de mercadorias. Ou seja, os despossuídos querem destituir o proprietário para serem proprietários, numa jornada que está a priori, e sob tais propósitos, condenada ao fracasso, antes por imposição da lógica de mercado do que pelo recalcitrante preconceito da elite política da bancada ruralista e dos latifundiários brasileiros. Sob o governo do presidente Boçalnaro, o ignaro, reforma agrária é palavrão.
Mal sabe ele e sua equipe que até os latifundiários nordestinos se queixam da suspensão da desapropriação de suas terras improdutivas, pois, para eles, é melhor receber títulos da dívida agrária do governo por terras avaliadas sob critérios inconfessáveis, do que ter que sustentar os custos dos impostos e da conservação de terras abandonadas.
O MST no nordeste perdeu sua função, pois se restringia à ocupação de terras improdutivas e abandonadas como forma de obtenção de propriedades territoriais cujos módulos rurais logo adiante seriam abandonados ou vendidos a preço vis. Os proprietários rurais já têm saudade dos tempos em que o governo desapropriava as suas terras improdutivas e pagava por elas. Com sua burrice ignara profunda e ideológica de ultradireita, o governo que aí está desagrada a gregos e troianos.
Faltou esclarecer: comida para o povo ou para o mercado?
Qualquer pessoa que se digne a enfrentar as veredas rurais nordestinas verá, desolada, as ruínas de casas nas quais outrora moravam os sofridos trabalhadores rurais; e poderá também constatar a desertificação causada pelo aquecimento global que produz secas intermitentes e longas.
No sul, sudeste e centro-oeste brasileiro, grandes produtores de itens agrícolas, o poder da vigorosa produção agrícola brasileira (mesmo que isso não represente grandes somas de valor quando comparadas aos produtos industriais manufaturas e até aos agrotóxicos comprados a preços de ouro) não admite falar-se em reforma agrária, até pelos preços proibitivos das terras perante um governo economicamente combalido.
Este é o quadro da reforma agrária brasileira, que, a exemplo de outros fenômenos sociais mundo afora que aqui chegaram com imenso atraso ou nem sequer chegaram (estamos, p. ex., entre os últimos a abolirem a escravidão negra), cada vez mais fica relegada às calendas gregas. (por Dalton Rosado)