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sexta-feira, 1 de dezembro de 2017

UM EPISÓDIO DE CRUELDADE EXTREMA: O DEL. FLEURY JUROU TORTURAR DEVANIR DE CAVALHO ATÉ A MORTE... E CUMPRIU!

Como a família de Lula, também a de Devanir José de Carvalho veio de muito longe para tentar melhor sorte no ABC paulista. O ofício que ele lá aprendeu foi o mesmo: o de torneiro-mecânico. E outra opção de ambos acabou sendo idêntica, a de trocarem a carreira confortável que tinham ao alcance pela árdua defesa dos explorados. 

As semelhanças terminam por aí. Enquanto o destino de Lula foi a Presidência da República, para Devanir estava reservado um terrível martírio. Que ele enfrentou com convicção e coragem.

Para contar um pouco da história desse valoroso companheiro,  vou entremear três relatos:
—  o de minha autoria, no livro Náufrago da Utopia;
— o da Comissão Nacional da Verdade, no seu relatório final (o verbete a ele dedicado está na página 576 do volume 3); e
— o do Centro de Documentación de los Movimentos Armados, intitulado Um exemplo de resistência.
*  *  * 
"Mineiro, nascido no dia 15 de julho de 1943, na cidade de Muriaé, Devanir era filho de José Carvalho e Esther Campos de Carvalho... 
Na década de 1950, sua família, de origem camponesa, mudou-se para São Paulo, para a região do ABCD. Era a época do início da instalação das indústrias metalúrgicas e automobilísticas na região.

Juntamente com seus irmãos Derli, Daniel e Joel, com quem aprendeu o ofício de torneiro mecânico desde a adolescência, trabalhou nas indústrias da região — Villares e Toyota, entre outras. Em 1963, casou-se com Pedrina, com quem teve dois filhos...

Em 1963, logo que se empregou, uniu-se ao Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo e Diadema, militou por reformas de base e participou de greves, passeatas operárias e outras formas de mobilização. Nesse mesmo ano ingressou no Partido Comunista do Brasil, no qual militou até 1964.

Depois do golpe militar, mudou-se para o Rio de Janeiro, devido às perseguições, e lá continuou sua militância na clandestinidade, trabalhando como motorista de táxi.

Em 1967, Devanir uniu-se à Ala Vermelha, dissidência do PCdoB... (que) partiu para a ação e foi o primeiro grupo a realizar ações armadas no Brasil, durante a ditadura militar, já no ano de 1968. Essas ações eram dirigidas pelo Grupo Especial Nacional (GEN), do qual participava Devanir Carvalho.

[Quando a Ala Vermelha decidiu mudar sua linha política, abandonando as ações armadas] O GEN não aceitou a reorientação e, saindo da Ala, criou o Movimento Revolucionário Tiradentes (MRT)...

Pequeno, mas combativo e eficiente, já em dezembro de 1969, o MRT realizou ações armadas em conjunto com outros grupos guerrilheiros com os quais formou uma Frente (ALN, VPR e Rede)." (Um exemplo de resistência)

*  *  *

Em agosto de 1969, eu (Júlio) estava à frente do setor de Inteligência da Vanguarda Popular Revolucionária em SP e o José Raimundo da Costa (Moisés), meu companheiro no Comando Estadual — responsável por contatos com outras organizações e pela assistência a grupos menores, inclusive do Interior , passou-me uma  batata quente, conforme descrevi no meu livro:
"É tempo de situações complicadas para Júlio. Obrigado a uma viagem de última hora,  Moisés  lhe pede que cubra em seu lugar um ponto dos mais delicados: deve encontrar-se com Devanir José de Carvalho (Henrique), que acaba de escapar à bala de um cerco policial. O fato foi noticiado com algum destaque pela imprensa.
Devanir (8º da esq. p/ a dir., na fileira de baixo) e outros militantes assassinados pela ditadura militar
Combatente com mais de um ano de participação ininterrupta em ações armadas, Devanir é da mesma estirpe do  Bacuri: arrojado até a insensatez, tem uma trajetória marcada por sangue e mortes. Foi expulso pela direção da Ala Vermelha do PCdoB em meio a recriminações mútuas. Tem agora seu próprio grupelho e mantém relação de cooperação com a VAR.
— Um homem desses, que teve quatro irmãos presos pela repressão e conseguiu fugir mesmo depois de baleado, deve estar com os nervos à flor da pele — comenta Júlio.

Moisés  lhe recomenda que se aproxime com cuidado, evitando gestos bruscos.
Minha aparência inofensiva tranquilizou Devanir
O encontro é numa manhã ensolarada de sábado, na rua Pamplona, proximidades da Avenida Paulista. Felizmente, tudo está tranquilo. É uma região nobre da capital paulista e não há movimentações suspeitas que possam assustar Devanir.
Ele chega cauteloso, com o braço na tipoia. Olha interrogativamente para  Júlio, que está do outro lado da rua. Júlio  abre um sorriso efusivo e atravessa, mantendo as mãos afastadas do corpo. Vai direto ao assunto:

— Companheiro, o Moisés viajou e eu vim no lugar dele. Vamos tomar um café?

Talvez por Júlio ter aparência inofensiva, Devanir não mostra nenhuma desconfiança. Acabam se dando bem.  Júlio  transmite o recado de  Moisés, marca o novo encontro e depois ficam meia hora jogando conversa fora. Devanir satisfaz a curiosidade de  Júlio  sobre o tiroteio: 
— Nem sei como escapei, era tanta bala passando perto..."(Náufrago da Utopia)
O Moisés também foi executado
 *  *  *

Meu encontro seguinte com Devanir foi casual... e providencial.

Consumado o racha no Congresso de Teresópolis da VAR-Palmares, em outubro/1969, eu fui incumbido de expor aos militantes paulistas a posição dos que estávamos recriando a Vanguarda Popular Revolucionária, ao passo que o Antonio Roberto Espinosa apresentava as razões dos que preferiram continuar na VAR.

Acontece que a VPR, de imediato, não tinha  aparelho  nenhum em SP. Então, cabia à VAR me dar abrigo, provisoriamente. O que ela fez apenas pela metade:
"Júlio  estava provisoriamente instalado no aparelho de um companheiro residente na periferia. Era transportado de carro, sem olhar o percurso. De repente, num final de tarde,  furam  o  ponto  em que deveria ser apanhado. Depois, também o  ponto  alternativo. Ele compreende que foi abandonado.

O que fazer? Há boatos de que a repressão aprimorou o controle dos hotéis, mais vale não arriscar. Então, sem opção melhor, ele acaba voltando à velha Mooca — bairro que está evitando desde que saiu de casa, porque lá é conhecido demais.

Consegue guarida na casa de um ex-colega do [Colégio] MMDC, espírita convicto, que nunca concordou com as atividades revolucionárias. Numa emergência, ele socorre Júlio — mas, na manhã seguinte, logo cedinho, pede-lhe que vá embora, pois tem um irmão que é policial-militar e também mora lá. A presença de Júlio poderá causar-lhe sérios problemas.
Esta ação da VPR teve importante contribuição de Devanir e seu MRT
 Volta para o centro da cidade e fica a esmo. Lê jornais num parque, estica o quanto pode o almoço. À tarde, um golpe de sorte: dá de cara com Devanir!
Já restabelecido do tiroteio, Devanir agora lidera outra das pequenas organizações violentas, o Movimento Revolucionário Tiradentes. Ele oferece um  aparelho  para  Júlio  ficar até o dia seguinte, quando vai reencontrar o  Moisés.

Mas, não será tranquila sua permanência. O MRT tem uma ação armada programada, os militantes saem de madrugada.  Júlio  sente que é seu dever oferecer ajuda, cordialmente recusada:
— Muito obrigado, companheiro, mas como justificaremos para a VPR se acontecer alguma coisa com você?
Joaquim Seixas: outro executado
Não consegue dormir até a volta do grupo, claro. E eles chegam dizendo que saiu tudo errado e tiveram de alvejar os policiais de uma radiopatrulha. Um comenta que os dois cartuchos de .12 de sua garrucha atravessaram a porta do veículo:
— Foram pegar o policial lá dentro, acho que ele virou peneira...

Para piorar, temem que o  aparelho  seja descoberto (é relativamente próximo do local do tiroteio) e decidem abandoná-lo às pressas.  Júlio  fica novamente só, com um dia inteiro pela frente, até o ponto com Moisés, marcado para as 20h30".  (Náufrago da Utopia)
*  *  * 
"O MRT passou todo o ano de 1970 com a Frente, realizando ações armadas de expropriação e colaborando com a VPR no sequestro do cônsul-geral do Japão em São Paulo para obter a libertação de presos políticos.

No início de 1971, começou um processo de debates para formulação de sua linha política, mas a repressão se abateu pesada e dizimou seus principais dirigentes (Devanir Carvalho, Joaquim Alencar de Seixas e Dimas Antônio Cassemiro)...

Por volta de 11 horas da manhã do dia 5 de abril de 1971, Devanir chegou à rua Cruzeiro, n° 1.111, bairro de Tremembé, em São Paulo, onde foi recebido pela polícia com uma rajada de metralhadora, que o deixou imobilizado.

Levado para o Deops, passou a ser torturado pelo delegado Sérgio Fleury e sua equipe. Foi assassinado por volta das 18 horas do dia 7 de abril de 1971.
Delegado Sérgio Fleury: prazer em torturar até a morte!

Segundo a versão policial, Devanir foi morto em confronto com a polícia, mas o próprio delegado Fleury fazia questão de deixar claro que pretendia prendê-lo e levá-lo à morte por meio de tortura.

Esses avisos eram mandados pelos próprios irmãos de Devanir, que permaneceram presos de 1969 a 1970. Fleury dizia: 'Avisem ao Henrique (nome de guerra de Devanir) que encomendei nos Estados Unidos um bastão tranquilizante para poder pegá-lo vivo e que serei eu, pessoalmente, que o pegarei no pau'.

A família de Devanir prefere aceitar a versão de que ele foi morto em confronto com a polícia: 'É melhor para nós. É muito difícil pensar que meu pai foi torturado até a morte', diz o filho Ernesto."(Um exemplo de resistência)

*  *  * 
"A versão para a morte de Devanir indica que ele teria morrido em confronto com forças policiais... 

Os policiais do Dops/SP teriam chegado ao endereço que abrigava um aparelho do MRT no dia 5 de abril de 1971 e entrado em confronto armado com Devanir, que teria resistido à prisão. 
Restos mortais de Devanir não estavam no cemitério de Perus 

O laudo necroscópico produzido pelos legistas do Instituto Médico Legal de São Paulo confirma a versão apresentada pela polícia de que Devanir teria morrido em tiroteio no dia 5 de abril de 1971, especificando que sua morte teria sido decorrente de 'hemorragia traumática externa e interna por disparos de arma de fogo'.

Versão diferente fora enunciada por Ivan Seixas, militante do MRT, preso no dia 16 de abril de 1971 (..). Seixas afirma que foi com outros companheiros ao endereço na rua Cruzeiro, no dia seguinte ao tiroteio (...) Complementou dizendo que moradores da região testemunharam a prisão de um homem ferido, cuja descrição física seria compatível com a de Devanir. 

Ainda de acordo com Seixas, nos dias seguintes ao tiroteio e à subsequente prisão de Devanir, lideranças do MRT teriam recebido relatos de prisioneiros informando que Devanir teria morrido no dia 7 de abril de 1971, após dois dias de tortura sob custódia do delegado Sérgio Fleury.

Seixas lembra, por fim, que, em sua passagem pelo DOI-Codi e, posteriormente, pelo Dops/SP, ouviu, diversas vezes, os guardas e torturadores afirmando que Henrique teria sofrido dois dias nas mãos de Fleury sem ter revelado qualquer informação antes de morrer. 
Ocupação do MST  que leva o nome de Devanir de Carvalho
Em documento elaborado pelo Centro de Informações do Exército do Ministério do Exército, Devanir teria morrido no dia 7 de abril de 1971 em São Paulo.

A despeito de sua certidão de óbito, expedida em 20 de outubro de 1995, indicar como local de sepultamento o cemitério Dom Bosco, em Perus, efetivamente, o corpo de Devanir José de Carvalho fora enterrado no cemitério da Vila Formosa, conforme registra requisição de exame do IML/SP.

Diante das investigações realizadas, conclui-se que Devanir José de Carvalho morreu em decorrência de ações perpetradas por agentes do Estado brasileiro, em contexto de sistemáticas violações de direitos humanos promovidas pela ditadura militar implantada no país a partir de abril de 1964."(Comissão Nacional da Verdade)

domingo, 30 de outubro de 2016

ELIO GASPARI REPROVADO. OU EM TÉCNICA JORNALÍSTICA OU EM CONHECIMENTOS HISTÓRICOS SOBRE A DITADURA...

Já seria um exagero reprovável se um foquinha qualquer afirmasse que nem na ditadura garotos eram algemados como em Miracema (título de uma nota segundo a qual "em Miracema, cidade a 78 km de Palmas, a PM algemou estudantes que haviam ocupado uma escola. Segundo o Ministério Público, o promotor ordenou que dois jovens fossem algemados porque resistiam à ação da polícia. Uma universitária que participava da invasão disse que foi algemada com um menor de 15 anos".). 

Afinal, desconhecimento da história do País não pega bem para jornalistas de qualquer idade.

Mas, em se tratando de um septuagenário que exerce a profissão há cerca de meio século e, ainda por cima, escreveu uma série de livros sobre a ditadura militar, pretendendo tê-la escancarado, tal rompante retórico é simplesmente indesculpável.

Pois, obviamente, garotos e garotas eram, sim, algemados pela repressão política nos anos de chumbo

Bestas-feras que executavam prisioneiros (teoricamente sob a tutela do Estado) a sangue-frio, que nos submetiam às piores torturas, que estupravam as nossas irmãs e companheiras, que maltratavam crianças para quebrar a resistência dos pais, que davam sumiço em cadáveres, lá gente dessa laia iria se deter diante de algo bem menos atroz, como algemar algum jovem?

Gaspari também tinha a obrigação de saber que o companheiro Ivan Seixas, preso aos 16 anos de idade, foi brutalmente espancado juntamente com o pai (Joaquim Alencar de Seixas), algemados um ao outro, tendo a selvageria sido tamanha que a algema se rompeu! 

Eis um relato saído no Portal Imprensa a este respeito:
"Seixas e seu pai foram espancados juntos, literalmente. Unidos por uma algema, os dois foram agredidos pelos agentes do DOI-Codi de tal forma que quem passava pelo local pedia clemência aos policiais, que respondiam com rajadas de metralhadora para o alto, pondo fim a qualquer tipo de protesto.
Pai e filho foram postos na mesma sala, cada em um instrumento de tortura diferente. Ivan Sanches pendurado pelos pés em um pau-de-arara, seu pai na chamada cadeira do dragão, inspirada nas cadeiras elétricas norte-americanas. Ele conta que não via a tortura de seu pai, mas podia ouvir seus gritos e xingamentos aos torturadores. Após uma noite de torturas e brutalidades, Seixas revelou onde morava por pensar que sua família (irmã e mãe) já tivesse fugido do local. Estava enganado. A polícia invadiu sua casa, agrediu sua família e saqueou tudo o que podia ser carregado". 
Ivan Seixas então e agora
A prisão de alguém tão jovem, submetido aos mesmos rigores dos adultos, indignou a opinião pública mundial (ainda mais por seu pai ter sido assassinado pelos verdugos),.

Várias campanhas foram realizadas no exterior para a libertação do Ivan, que mesmo assim permaneceu preso até os 22 anos. Até hoje padece de fortes dores nas costas em função da vértebra que os torturadores fraturaram.

Gaspari ignora tudo isto? Ou está precisando fazer afirmações bombásticas para atrair leitores?

quarta-feira, 11 de abril de 2012

O INFERNO DO USTRA

No meu artigo Srª Torturador: só teme a verdade quem tem esqueletos no armário (vide aqui), relatei como, em 1985, Maria Joseíta Silva Brilhante Ustra escreveu uma mensagem para ser lida  futuramente  por suas filhas  (o que não impediu seu marido torcionário de a divulgar amplamente nos espaços virtuais da extrema-direita...), na qual o DOI-Codi era apresentado como uma espécie de playground no qual criancinhas podiam circular livremente e manter atividades amenas com as prisioneiras.

Era mesmo? Seguindo as regras do bom jornalismo, apresento agora o outro lado:

"[Joaquim] Seixas foi preso junto com seu filho Ivan, na Rua Vergueiro, altura do n° 9000, no dia 16 de abril de 1971. Do local da prisão, ambos foram levados para a 37ª Delegacia de Polícia, que fica na mesma rua Vergueiro, na altura do nº 6000, onde foram espancados no pátio do estacionamento, enquanto os policiais trocavam os carros usados para o esquema de prisão.

De 1á foram levados para o DOI/Codi, que a esta época ainda se chamava Operação Bandeirantes-Oban. No pátio de manobras da Oban, pai e filho foram espancados de forma tão violenta, que a algema que prendia o pulso de um ao outro rompeu-se.

Dessa sessão de espancamento, ambos foram levados para a sala de interrogatórios, onde passaram a ser torturados um defronte ao outro. Nesse mesmo dia, sua casa foi saqueada e toda sua família presa.

No dia seguinte, 17 de abril de 1971, os jornais paulistas publicavam uma nota oficial dos órgãos de segurança, que dava conta da morte de Joaquim Alencar de Seixas em tiroteio. Em realidade, Seixas estava morto só oficialmente, pois nesta mesma hora se desenrolavam torturas horríveis, o que pôde ser testemunhado por seu fllho Ivan, sua esposa Fanny, e suas duas filhas, Ieda e Iara, presas na noite anterior.

Por volta das 19 horas deste dia, Seixas foi finalmente morto. Sua esposa, Fanny, ouvindo que seu marido acabara de morrer, pôs-se nas pontas dos pés e viu os policiais estacionarem uma perua C-14 no pátio de manobras, forrar seu porta-malas com jornais, e colocarem um corpo que reconheceu ser o de seu marido. Não bastasse o seu reconhecimento, ouviu um policial perguntar a outro: 'De quem é este presunto?' e como resposta, a afirmação: 'Este era o Roque' (nome usado por Seixas).

No processo a que responderia se estivesse vivo, consta uma fotografia de seu cadáver com os sinais dos sofrimentos passados, e um tiro na altura do coração, que indicaria a causa-mortis.

Os assassinos de Joaquim Alencar de Seixas foram identificados por seus familiares e companheiros como sendo o então major Carlos Alberto Brilhante Ustra, o capitão Dalmo Lúcio Muniz Cirillo, o delegado Davi Araújo dos Santos, o investigador de polícia Pedro Mira Granziere e vários outros, identificáveis somente por apelidos."
(do verbete sobre Joaquim Seixas no site Tortura Nunca Mais)

"Cheguei na Oban e a violência começou no interrogatório, com choque elétrico. Quando eu vi o pau de arara, não reconheci o que era porque estava em choque. Vi um copo cheio de uma substância branca e achei que era açúcar, para tomar com água na hora do nervoso. Mas era sal, para pôr nas feridas. 

Eles faziam piadas sobre o corpo das mulheres, se era feio, jovem, velho, gozavam dos defeitos. Era uma mesquinharia muito grande. Eles abusam, violentam, de uma maneira ou outra, humilham, tornam objeto. Eles faziam a gente se sentir uma porcaria. 

...Eles tinham muito prazer na tortura. Não me pareceu que eles faziam por obrigação. 

Havia o Ustra [coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra], que era o mais terrível, porque vinha com uma conversinha, com uma diplomacia: ‘Minha filha, como você vai se meter numa coisa dessas, você é de uma família boa, vai prejudicar os seus filhos por essa coisa de comunismo’. E, de repente, inesperadamente, ele lançava uma bofetada. 

Lá da minha cela, eu conseguia ver que eles tinham uma cachorrada no pátio. Eles masturbavam as cadelas, as excitavam, e elas uivavam, acho que de prazer e medo. Era brutal. Eu tinha vontade de vomitar. "
(depoimento da professora universitária Lúcia Coelho, publicado no livro Luta,
Substantivo Feminino: mulheres torturadas, desaparecidas e mortas na resistência à ditadura)

"Fomos levados diretamente para a Oban. Tiraram o César e o [Carlos Nicolau] Danielli do carro dando coronhadas, batendo. Eu vi que quem comandava a operação do alto da escada era o Ustra [coronel reformado do Exército Carlos Alberto Brilhante Ustra]. 

Subi dois degraus e disse: ‘Isso que vocês estão fazendo é um absurdo’. Ele disse: ‘Foda-se, sua terrorista’, e bateu no meu rosto. Eu rolei no pátio. Aí, fui agarrada e arrastada para dentro. 

A primeira forma de torturar foi me arrancar a roupa. Lembro-me que ainda tentava impedir que tirassem a minha calcinha, que acabou sendo rasgada. 

Começaram com choque elétrico e dando socos na minha cara. Com tanto choque e soco, teve uma hora que eu apaguei. Quando recobrei a consciência, estava deitada, nua, numa cama de lona com um cara em cima de mim, esfregando o meu seio. Era o Mangabeira [codinome do escrivão de polícia de nome Gaeta], um torturador de lá. A impressão que eu tinha é de que estava sendo estuprada. 

Aí começaram novas torturas. Me amarraram na  cadeira do dragão, nua, e me deram choque no ânus, na vagina, no umbigo, no seio, na boca, no ouvido. Fiquei nessa cadeira, nua, e os caras se esfregavam em mim, se masturbavam em cima de mim. A gente sentia muita sede e, quando eles davam água, estava com sal. Eles punham sal para você sentir mais sede ainda. 

Depois fui para o pau de arara. Eles jogavam coca-cola no nariz. Você fi cava nua como frango no açougue, e eles espetando seu pé, suas nádegas, falando que era o soro da verdade. Mas com certeza a pior tortura foi ver meus fi lhos entrando na sala quando eu estava na cadeira do dragão. Eu estava nua, toda urinada por conta dos choques. 

Quando me viu, a Janaína perguntou: ‘Mãe, por que você está azul e o pai verde?’. O Edson disse: ‘Ah, mãe, aqui a gente fica azul, né?’. 

Eles também me diziam que iam matar as crianças. Chegaram a falar que a Janaína já estava morta dentro de um caixão.
(depoimento da professora Maria Amélia de Almeida Teles, no mesmo livro)

"Estávamos na nossa casa em Atibaia. Éramos eu, meu marido e meus filhos. A polícia cercou a casa, arrebentou o portão e bateu na porta. Meu marido estava dormindo. Mandaram chamá-lo e queriam levá-lo para prestar esclarecimento, mas ele pegou um fuzil e disse que não ia. Quando ele saiu na porta, a bala já bateu no peito dele, mas ele ainda estava vivo. Quando caiu, deram trinta, quarenta balas no corpo. O último foi na cabeça. Foi aí que ele morreu, e todos os homens entraram na casa. 

Eles diziam: ‘Mata ela e os filhos dela, mata essa puta’. Saquearam a casa toda. 

...Quando eu cheguei na delegacia, o pau comeu solto: arrancaram os meninos de mim, me jogaram no chão, pisaram em cima de mim, eu rolava no chão toda ensanguentada. Aí, começaram a vir os homens da Oban. Era soco, pontapé, batiam no meu quadril. Apanhei tanto na boca que a dentadura enganchou na gengiva. Minha boca fi cou toda inchada, cheia de dentes quebrados. 

De madrugada, me levaram para São Paulo, para a Operação Bandeirante, onde eu fiquei 23 dias apanhando. Era choque, choque, choque todo santo dia. Eu me urinava toda, e eles berravam: ‘Essa mulher tá podre, tira essa mulher fedorenta daqui’. Minha vagina ficou toda arrebentada por causa dos choques. Eu tive de fazer uma operação em Cuba, onde levei noventa pontos. Meu útero e minha bexiga ficaram para fora, eu estou viva por um milagre. 

Também levei muita porrada, muito soco na bunda. Fiquei completamente arrebentada, foi muito sofrimento. Nesses dias, eu não conseguia comer, porque, além da comida parecer ‘resto’, cheia de ponta de cigarro e palito, eu estava com a boca inchada. Então, só tomava uma xícara de café. Tinha também xingamento dos nomes mais pesados. De vez em quando, vinham e davam uma bofetada na nossa cara."
(depoimento de Damaris Lucena, que era feirante ao ser presa em 1970, no mesmo livro)

quarta-feira, 22 de julho de 2009

O OUTRO LADO E O BENEFÍCIO DA DÚVIDA

No final de 1968, procurando emprego na Folha de S. Paulo, fiquei conhecendo um senhor que estava à espera de ser chamado para sua reunião: o diretor do jornal santista do Grupo Folha, a Cidade de Santos. Batemos um papo e ele até me ofereceu uma vaga na sua redação, caso eu estivesse disposto a morar no litoral.

Seu nome: Antonio Aggio Jr.

Na década seguinte, ele se tornou diretor da Folha da Tarde, cuja redação, dizia-se, mantinha ligações perigosas com a repressão política.

Trabalhando em assessorias de imprensa, eu escutava alusões a isto. Mas, o jornalista apontado como aliado dos órgãos de segurança era o encarregado de cobrir a área militar, Carlos Dias Torres. Não me lembro de ter ouvido citarem o nome do Aggio nessas conversas.

Corta para 2004. Desempregado e em situação de extrema penúria, eu estava travando luta pública, principalmente via internet, para que a Comissão de Anistia do Ministério da Justiça cumprisse seus próprios critérios quanto à ordem de prioridade dos julgamentos.

Tais critérios, que me beneficiariam, estavam sendo desrespeitados. E a reparação da União era minha última esperança de dar a volta por cima e reconstruir a vida.

Expedindo e-mails em todas as direções, a partir de listagens encontradas aqui e ali, enviei mensagem a um site chamado O Jornal. Para minha surpresa, quem respondeu foi o Aggio. O site era (e é) dele.

Passou a colocar no ar tudo que lhe mandava. E, num e-mail, revelou que, embora nunca tivesse simpatizado com os ideais revolucionários, respeitava e tentara ajudar jornalistas que resistiam à ditadura, principalmente sua amiga Lenita Miranda de Figueiredo (do PCB), a quem teria salvado de ser assassinada nos porões do regime.

Quando soube das acusações que a historiadora Beatriz Kushnir lhe fazia, de que a Folha da Tarde noticiara na véspera a morte do militante Joaquim Seixas (do MRT, pai de Ivan Seixas), pedi-lhe explicações.

O Aggio desmentiu, garantindo que os principais jornais paulistas, disponíveis no Arquivo do Estado, comprovam que o óbito foi noticiado simultaneamente por todos eles.

Enfim, sabendo como se passavam as coisas no tempo da ditadura, a minha impressão é de que o Aggio equilibrou-se, como a maioria dos jornalistas em redações importantes, na corda bamba.

Algum tipo de concessão todos acabavam fazendo. Mas, até por saberem que o mundo dá muitas voltas, eram poucos o que se comprometiam com os excessos mais gritantes e que poderiam mais tarde ser-lhes cobrados.

Concedo-lhe o benefício da dúvida em relação a essa terrível acusação que a Kushnir lhe lançou. Se existem os jornais daqueles dias, são eles que darão a palavra final sobre quem está com a razão. É simples assim.

E, como sempre segui o princípio jornalístico de ouvir os dois lados de uma questão, aconselhei o Aggio a escrever também um livro, oferecendo aos leitores do presente e do futuro um contraponto à versão da Kushnir. Assim, os pratos da balança ficarão equilibrados.

Tudo isto vem a respeito de um digno editorial que o Aggio colocou no ar em seus dois sites: Caso Battisti: Estado de Direito ou insanidade ditatorial? (ver aqui)

Além de publicar o excelente artigo do Rui Martins que caracteriza o procedimento do Supremo Tribunal Federal como uma "vergonha internacional", Aggio o complementou com um candente protesto de sua própria lavra. Vale a pena citar alguns trechos:
"[O refúgio é] ato unilateral que, dentro do nosso ordenamento jurídico, depende tão somente de decisão do Poder Executivo, isto é, do presidente da República e seu ministro da Justiça. E, além do mais, está conforme a tradição política brasileira quanto a tais casos.

"Mas, o 'asilado' continua preso, à espera da palavra final do Supremo Tribunal Federal – STF, uma aberração que agride a mente de qualquer cidadão dotado de senso comum, principalmente num País que garante liberdade aos piores assassinos enquanto aguardam o trânsito em julgado. E também concede indenizações e pensões a pessoas acusadas, no passado, da prática de crimes idênticos aos atribuídos pela Itália a Battisti.

"Também é muito estranho que, enquanto se perde em decidir até questiúnculas entre vizinhos devido à presença de animais de estimação em condomínios, o STF – a mais alta corte brasileira – procrastina um caso grave com o réu preso, da mesma forma que ignora a desesperadora situação dos milhares de desvalidos à espera (inútil) do pagamento de precatórios pelos municípios, Estados e União.

"Não morro de amores por Cesare Battisti, ou melhor, pelo que ele pode ou não ter feito na Itália. Essa é outra questão, algo subjetiva por sinal. Mas, daí a tolerar que alguém, seja lá quem for, ignore a Constituição Cidadã para atrair os holofotes da mídia, enquanto mantém um ser humano padecendo no cárcere... Isso não se faz nem com os bichos.

"Quando se intenta interpretar um texto de maneira contrária ao que nele está expresso, ocorrem aberrações. E, no caso de Battisti, o julgador parece colocar-se acima da letra da Constituição e da lei. A coisa toda está malcheirosa! Ou Battisti é um asilado político ou um reles homicida estrangeiro. Quanto a sua primeira situação, não resta dúvida, como também com relação ao fato de que, em tal condição, ninguém jamais deveria permanecer encarcerado nem por um dia, enquanto um grupinho de iluminados pelos holofotes da mídia fatura a torto e a direito sobre a sua desgraça. A quem interessa isso? À Nação? Ao povo brasileiro?"
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