A Alemanha fracassou em 2018 e Özil virou turco...
Mesut Özil, o meia alemão, pôs o dedo na ferida do racismo na carta em que anunciou no domingo (22) sua despedida da seleção alemã:
"Eu sou alemão quando ganhamos, mas imigrante quando perdemos".
É a mais pura verdade e revela a tremenda hipocrisia do racismo —essa indecência abjeta em viés de alta em quase todo o mundo. Na Alemanha, prova-o o fato de a xenófoba Alternativa para a Alemanha ter obtido 12,6% dos votos e 94 assentos no Parlamento, no pleito de 2017.
Em 2014, na Copa do Brasil, Özil era alemão e foi um dos destaques da seleção campeã do mundo (sim, aquela dos 7 a 1 que ninguém esquece).
Em 2018, na Copa da Rússia, Özil virou turco. Fracassou, como todos os seus companheiros, eliminados ainda na primeira fase da competição, com um desempenho pavoroso.
Daria até para dizer que só a derrota é racista, não fora pela frase seguinte da carta do jogador:
"Ainda não sou aceito na sociedade. Me tratam como alguém diferente".
...já quando quando ganhou a Copa de 2014, Özil era alemão.
Achei que Özil desistiria da seleção antes até da Copa da Rússia. Fiquei com vergonha alheia ao ouvir o quanto ele era vaiado, durante o último amistoso da Alemanha antes da Copa, contra a Arábia Saudita, disputado em Leverkusen. Vaias também para Gündogan, igualmente de origem turca.
O crime de ambos: terem posado para fotos ao lado do presidente turco, Recep Tayyip Erdogan, então em campanha para reeleger-se (o que conseguiu).
Acho Erdogan um horror, como todo autocrata, mas qualquer cidadão turco ou de origem turca, como é o caso dos dois jogadores, tem o direito de apoiar qualquer candidato. Ao menos, enquanto existirem vestígios de democracia no país, o que ainda é o caso da Turquia, sabe-se lá por quanto tempo.
Como a vitória não é racista, os alemães não se incomodaram com o fato de que, dos 23 campeões de 2014, seis eram imigrantes: Klose e Podolski, nascidos na Polônia e naturalizados alemães; Khedira, de pais tunisianos; Boateng, descendente de ganeses; e Mustafi, de albaneses, além de Özil.
Desgraças nacionais continuam sendo culpa de estrangeiros
O mais indecente no episódio de Özil é que a campanha contra ele foi desatada pelo próprio presidente da Federação Alemã de Futebol, Reinhard Grindel, ex-deputado da União Democrata-Cristã, partido que encabeça a coligação governante. O jogador conta que Grindel quis afastá-lo da seleção pela foto com Erdogan, mas não conseguiu porque o técnico, Joachim Löw, e o diretor esportivo, Oliver Bierhoff, não permitiram.
Se serve de consolo para os brasileiros, vê-se que Marco Polo del Nero, o ex-presidente da CBF, não é o único comandante do futebol indigno do cargo.
Em tempo: saiu a lista dos 10 jogadores candidatos a melhor do mundo. Nenhum brasileiro aparece. Não chega a ser tão triste quanto as cenas de racismo explícito que afastaram Özil da seleção alemã, mas é, sim, incômodo sinal dos tempos. (por Clóvis Rossi)
O jornal inglês The Telegraph acaba de publicar uma lista dos 20 melhores técnicos de seleções nacionais de futebol da atualidade.
Dunga, como era de se esperar, ficou de fora; seu lugar vai ser sempre no fim da fila e, como o ranking da Fifa lista 209 escretes, só iremos encontrá-lo numa relação dos 200 melhores.
Isto, claro, supondo que ele supere os técnicos de Anguilha, Bahamas, Djibouti, Papua Nova Guiné, Andorra, Mongólia, Somália, Eritreia e Vanuatu. Deve dar.
O argentino Jorge Sampaoli, que treina o Chile, é o segundo, só perdendo para o alemão Joachim Löw.
Faz todo sentido: o atualizado Sampaoli foi aquele que deu um nó tático no jurássico Dunga ao tornar mais ofensivo o selecionado chileno no 2º tempo da partida recente pelas eliminatórias sul-americanas, quando o Brasil foi ligeiramente inferior no 1º tempo e não viu a cor da bola na etapa complementar, merecendo sair de Santiago com outros 7x1 no lombo (os 2x0 ficaram baratos).
...e o fim.
Hoje a parada do Dunga vai ser contra o Tata Martino, 14º lugar. A Argentina não terá os contundidos Messi, Tevez e Aguero, enquanto o Brasil sonha com um Neymar demolidor como nos últimos jogos do Barcelona.
Nunca foi tão fácil ganharmos dos hermanos na casa deles. A coisa só acabará em tango se o Dunga exceder sua quota habitual de lambanças. É a esperança que resta à Argentina.
"Dá a chupeta/ Dá a chupeta/ Dá a chupeta pro bebê não chorar"
Há exatamente um ano, o Brasil perdeu a honra futebolística: seus homens viraram meninos, assistindo sem reação, como se estivessem hipnotizados, aos sucessivos tentos da Alemanha no Mineirão. O 7x1 saiu barato.
E, se em 90 minutos foram sete gols, quatro deles ocorreram apenas entre os 22' e os 28' da etapa inicial, sem que os dois técnicos presentes (?), o campeão de 2002 e o campeão de 1994, esboçassem a mínima reação.
Jogadores aparvalhados no campo, treinadores petrificados no banco. Nunca a Seleção Brasileira fora tão humilhada: pior placar adverso em mais de 100 anos de história e mais de mil partidas disputadas, além de uma postura complacente como jamais se vira. Fez-me lembrar o conselho de Marta Suplicy para as situações nas quais o estupro é inevitável: "Relaxa e goza".
Taticamente, a melhor explicação do vexame é a de um dos destaques do tri, o craque Tostão, hoje um dos poucos comentaristas de futebol que vale a pena lermos (a íntegra do seu artigo está aqui). Ele destaca como a derrota acachapante já se desenhava nos vestiários, com um técnico sabendo exatamente o que fazer e o outro mais perdido do que cego em tiroteio:
O professô do tempo do Onça...
"Felipão começou a palestra repetindo que, em casa, é impossível o Brasil perder. Parreira acrescentou: 'Estamos com as mãos na taça. A CBF e a Seleção são coisas que deram certo no Brasil'.
Felipão lembrou a estratégia: 'Vamos pressionar, acuar os alemães, com uma linha de três atacantes [Bernard, Fred e Hulk], Oscar perto dos três e mais o apoio dos laterais. Luiz Gustavo fica mais atrás, quase como um terceiro zagueiro, para fazer a cobertura'.
Fernandinho, preocupado, perguntou: 'Professor, não é perigoso eu ficar sozinho, no meio, contra os três alemães, que tocam muito bem a bola?' Felipão, com seu trejeito característico, respondeu: 'Eles vão tremer e não vão sair da defesa'.
No outro vestiário, o técnico alemão Joachim Löw relembrou: 'Vamos congestionar o meio-campo, com cinco jogadores [Kroos, Schweinsteiger, Khedira, além de Müller e Özil, pelos lados], ficar com a bola, trocar passes e avançar em bloco'.
A Alemanha, contra o Brasil, e o Chile, contra a Argentina, congestionaram o meio-campo, defenderam e atacaram em bloco, sem deixar espaço entre os setores.
Enquanto isso, Brasil e Argentina tinham um vazio no meio, pois jogaram com um volante, quase como um terceiro zagueiro (Luiz Gustavo e Mascherano), um meia ofensivo, próximo aos três da frente, quase um quarto atacante (Oscar e Pastore). No meio-campo, tinham apenas um jogador (Fernandinho e Biglia), ambos sem muito talento. A diferença é que a Alemanha tem muito mais qualidade individual que o Chile".
...e um técnico da modernidade.
Low estava anos-luz à frente de Felipão, mas o papo certamente teria sido outro com Pep Guardiola comandando o escrete brasileiro. Interessado em agregar mais uma grande conquista a seu currículo, ele ofereceu-se para nos levar ao hexa, com remuneração muito abaixo do seu patamar habitual caso não se sagrasse campeão. José Maria Marin recusou. Espero que os remorsos o estejam consumindo em sua cela na Suíça...
AGORA SÓ QUEREMOS SER O MAIOR
SAPO DE UMA PEQUENA LAGOA
O complexo de vira-latas, de que nos livráramos no finzinho de junho de 1958, voltou com tudo, pior do que nunca. Esquecemos a pretensão de ombrearmo-nos aos maiores do planeta e passamos a nos enxergar de novo como competidores pela supremacia na América do Sul. Atrás da Europa, tudo bem, só não se pode ficar abaixo dos esfarrapados da vizinhança!
Cinco dias depois, a maioria dos brasileiros torcia pateticamente pelos algozes alemães contra os hermanos argentinos, preferindo os abastados filhos da Merkel, destruidora de nações, a outros coitadezas como nós, semelhantes a nós em tudo e sofredores como sempre fomos e jamais deixaremos de ser enquanto nos prostrarmos aos desígnios das grandes nações capitalistas.
Mas, limitemo-nos neste texto aos tormentos futebolísticos. Sobre os outros já falamos demais noutros artigos.
Primeiro ponto: a tragédia do Mineirão foi anunciada. Eu, p. ex., a vinha anunciando há cerca de um ano, por ter absoluta certeza de que o hexa jamais chegaria pelas mãos do treinador Luiz Felipe Scolari.
Mais lágrimas virão...
A Seleção Brasileira simplesmente não acompanhara a enorme evolução tática e técnica do futebol mundial a partir da revolução catalã da segunda metade da década passada, de forma que a nossa única esperança era termos no banco alguém como o corinthiano Tite, capaz de armar seu time de forma a compensar a inferioridade de forças (foi o que ele fez no Mundial de Clubes de 2012, ao dar um nó tático em Rafael Benítez e, contando com a aplicação do elenco e os milagres do goleiro Cássio, surpreender o franco favorito Chelsea).
Felipão, flagrantemente ultrapassado e taticamente medíocre, só poderia piorar o que já era ruim. E foi, claro, o que ele fez. Detalhe: a opção kamikaze de desguarnecer o meio-de-campo contra a Alemanha foi decidida à última hora e adotada... porque ele sonhara na vésperacom Bernard conduzindo o Brasil à vitória (!!!). Coisa dos treinadores do tempo do Onça, como Osvaldo Brandão.
Mas, por que o jurássico Felipão, que vinha de fracasso em fracasso desde o Mundial de 2002, estava lá? Simplesmente porque a presidência da Casa Bandida do Futebol caíra no colo de José Maria Marin, após a desgraça do também corrupto Ricardo Teixeira.
A certeza de novos vexames
Foi Marin que, contra a opinião da crônica esportiva e dos torcedores conscientes, retirou do ostracismo outro anacronismo com o qual se identificava pela índole autoritária de ambos. Deram-se as mãos e enterraram o escrete.
E o que aconteceu desde então? Nada. Como bem notou, mais uma vez, o lúcido Tostão:
"Para assimilar, conviver bem e renascer após uma tragédia, sem esquecê-la, é necessário, durante um tempo variável, refletir, vivenciar, com tristeza, a perda, o luto.
A CBF, com apoio da maioria dos treinadores brasileiros, fez o contrário, ao negar, ao não dar importância ao 7 a 1, como se fosse apenas um apagão. Um ano depois, o futebol brasileiro está no mesmo lugar, sem identidade, perdido".
Saiu Marin, entrou Del Nero. Seis por meia-dúzia.
Escolheram Gilmar Rinaldi para diretor de seleções, não ligando ou pretendendo mesmo que viceje à sombra da CBF o balcão de negócios denunciado pelo grande Zico (leia aqui).
Rinaldi imediatamente quis ter a seu lado o ex-jogador limitado e técnico fracassado Dunga, outro cujo passado o condena: pertenceu à máfia de intermediação de jogadores, convocou para a Copa de 2010 um dos clientes da empresa internacional da qual participava e mentiu à imprensa e à Justiça gaúcha a este respeito (leia aqui).
Marin foi preso a pedido do FBI e Del Nero voltou espavorido para o Brasil, não botando o pé fora desde então, pois teme ser também denunciado, preso e extraditado.
Não era o hexa chegando. Era a polícia suíça.
Armou-se uma CPI da CBF e a chamada bancada da bola, com a participação inclusive de senadores do PT, tudo faz para que ela acabe em pizza (leia aqui).
O Brasil foi expelido da Copa América pelo fraquíssimo selecionado paraguaio, aumentando os temores de que possa, pela primeira vez, ficar fora de um Mundial da Fifa. Com o futebol que acaba de exibir no Chile, mesmo não estando Neymar ausente como nos dois últimos papelões, pode, sim, não passar das eliminatórias.
Rinaldi armou uma maratona de blablablá engana-trouxa, durante a qual muito se falará e isto de nada servirá, pois o primeiro e fundamental passo para se restabelecer a moralidade e o profissionalismo na CBF e na Seleção é a saída de Del Nero, de Dunga e dele próprio, Rinaldi.
Resumindo: a situação continua exatamente a mesma um ano depois dos 7x1 e a perspectiva é de que, se nada de substancial mudar, mais humilhações virão.
Melancolicamente, a esperança que nos resta é a de que o FBI finalmente confirme ser Del Nero o tal "coconspirador 12" do esquema de roubalheira futebolística ora investigado pelos EUA, o que talvez mexa com os nossos brios o suficiente para, enfim, começarmos a desratizar a CBF.