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sábado, 15 de fevereiro de 2020

CRESCE A INFLUÊNCIA DA ALA MILITAR NO MINISTÉRIO DO BOZO E DIMINUI A DOS PUPILOS DO GURU ESPIROCADO

Os astros não o alertaram de que  seu prestígio despencaria?
josias de souza
GENERAIS QUERIAM UMA REFORMA MINISTERIAL
 MAIS AMPLA
O núcleo fardado do Planalto sonhava com uma reforma ministerial mais ampla. Para os generais, Jair Bolsonaro acertou ao associar a dança de cadeiras à noção de eficiência administrativa. Mas errou ao renovar o prazo de validade da blindagem oferecida a ministros cujo desempenho é questionado. 

Avalia-se que a lógica prevaleceu na Casa Civil, com a troca de Onyx Lorenzoni pelo general Walter Braga Netto. Foi observada também na substituição de Gustavo Canuto por Rogério Marinho na pasta do Desenvolvimento Regional. Ficou comprometida, no entanto, em pelo menos três ministérios. 

Em privado, os generais com gabinete no Planalto lamentam que Bolsonaro tenha mantido nos cargos os ministros Ernesto Araújo (Itamaraty), Ricardo Salles (Meio Ambiente) e, sobretudo, Abraham Weintraub (Educação) —uma trinca que, em 2019, revelou-se parte do problema gerencial do governo. 
Ainda falta muito para o desgoverno virar governo

Disciplinados, os militares conformam-se com a constatação de que Araújo, Salles e Weintraub sobrevivem porque seguem orientações do chefe. E celebram a conquista de um par de atenuantes.

Na área internacional, Bolsonaro lipoaspirou as atribuições do assessor especial Filipe Martins, que ecoa no Planalto a verborragia ideológica do chanceler e do polemista Olavo de Carvalho. Acomodou-o abaixo do almirante Flávio Rocha, nomeado para a chefia da Secretaria de Assuntos Estratégicos da Presidência. 

No setor ambiental, o vice-presidente Hamilton Mourão estabeleceu-se como um contraponto a Salles ao receber do presidente a atribuição de coordenar o recriado Conselho da Amazônia. Nele, têm assento, além de Salles, outros 13 ministros. 

Bolsonaro celebra a militarização do Planalto como um avanço. O ânimo do presidente contrasta com um receio dos militares. Em conversa com dois parlamentares governistas, um dos auxiliares do presidente batizou o temor do grupo da farda de efeito Santos Cruz

Referia-se ao general Carlos Alberto dos Santos Cruz, o ex-ministro palaciano que foi detonado após seis meses de governo em meio a fofocas e aleivosias espalhadas por Carlos Bolsonaro, o filho zero dois do presidente, e pelo seu guru Olavo de Carvalho. 
Inimigo: o lavajatismo e seu expoente máximo

A menção ao nome de Santos Cruz, que mantinha com Bolsonaro uma amizade de três décadas, indica que os generais continuarão dando expediente no Planalto com um olho na mesa de despachos e outro nos parafusos de suas poltronas. (por Josias de Souza)
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Toque do editor — No seu primeiro ano, os governos tentam obter a aprovação de medidas impopulares e arriscam-se a incidir em bizarrices, testando-as para ver se colam. O segundo, contudo, já é ano eleitoral e a fauna política começa a priorizar, acima de tudo, passar incólume pelo teste das urnas ou, melhor ainda, conquistar posições mais elevadas. Aí acaba a micareta.

Então, erram os companheiros da esquerda que veem o crescimento da influência da área militar no ministério do Bozo sob o prisma de teorias da conspiração. Os fardados de hoje, gatos escaldados, em sua expressiva maioria não sonham com um novo 1964, mas, apenas, com um governo que funcione. Representam o que há de pragmatismo e racionalidade nesse saco de gatos governamental.

Sua ascendência tende a evitar as aventuras disparatadas que Steve Bannon e Olavo de Carvalho pregam e também a, pelo menos, atenuar a submissão incondicional do Bozo aos interesses estadunidenses (mesmo quando conflitam com os nossos!).

Evidentemente, nossa postura enquanto esquerda deve ser a de manter distância de todas as correntes reunidas no desgoverno atual, mas é importante termos sempre clareza quanto a quais são os inimigos principais neste momento:
A oitava praga do Egito é pior do que qualquer parasita
— o olavismo professado pelos príncipes herdeiros;
— o neoliberalismo do mercador de ilusões;
— o tenentismo togado que apóia Moro: e 
— as ambições faraônicas dos mercadores do templo.

E termos total clareza quanto à missão que nos cabe: a de forjarmos uma nova esquerda, de baixo para cima, voltando a participar intensamente das lutas sociais em todo o território nacional, pois a que tínhamos ou sucumbiu às ilusões e tentações democratico-burguesas, ou se tornou pusilânime demais para batalhar pela reconquista dos espaços perdidos ao longo desta década maldita. (por Celso Lungaretti) 

quinta-feira, 31 de outubro de 2019

TENTAM INTIMIDAR-NOS? ENTÃO, TEMOS MAIS É DE PAGAR PRA VER!!!

igor gielow
ESCALADA AUTORITÁRIA DOS BOLSONAROS É BLEFE, MAS PODE SAIR DO CONTROLE
O mais recente volume puxado da prateleira de provocações institucionais por um membro da família Bolsonaro está na praça: a sugestão feita pelo deputado federal Eduardo, de reeditar o Ato Institucional número 5 caso a esquerda promova protestos radicais.

Inicialmente, seria preciso apontar onde estão tais manifestações. Um fenômeno notável que acompanhou a debacle do PT no poder federal foi a substituição de forças esquerdistas por movimentos à direita como dínamos principais de protestos de rua no país. Dilma Rousseff caiu, também, por isso.

Desde o começo dos protestos contra o governo de centro-direita de Sebastián Piñera no Chile, Eduardo, seu irmão Carlos e outros expoentes do bolsonarismo de grande valentia na frente de teclados vêm apontando uma suposta trama continental esquerdista que logo chegaria ao Brasil.

Entraram na conta da suposta conspiração balbúrdia nas ruas do Equador e até o petróleo que emporcalha a costa nordestina. 

Ato contínuo, o pai da turma, Jair Bolsonaro, corroborou as hipóteses de forma genérica e invocou a possibilidade de chamar as Forças Armadas por meio do artigo 142 da Constituição.

Generais se entreolharam calados, dado que temem ser usados como bucha de canhão de uma luta quixotesca —muitos devem se perguntar se estavam certos no seu entusiasmo com o governo do capitão reformado. Na cúpula da ativa, é minoritário o apoio ao chamado olavismo.

Na 3 ª feira (29), Eduardo insinuou que poderia haver uma solução repressiva por aqui se o Chile contaminasse as ruas brasileiras. Hoje (31), deu nome aos bois.

Há algumas variáveis a considerar. Primeiro, de DNA. O bolsonarismo dito raiz, personificado pelos filhos do presidente, pelo chanceler Ernesto Araújo, pelo ministro Abraham Weintraub, pelo assessor palaciano Filipe Martins e outros seguidores do escritor Olavo de Carvalho, sempre pregou uma delirante solução de força para os problemas do país.

Em 22 de março, o antes obscuro Martins escreveu sem o recato que se supõe de um funcionário do Planalto que o povo deveria mostrar aos políticos e ao Judiciário “quem manda no país”. E recorrente, entre os aderentes da seita olavista, a ideia de que são capazes de mobilizar a nação em torno do dito mito.
Pinçar declarações flagrantemente antidemocráticas do presidente é um esporte sem emoções, de tão facilmente jogado. Assim como a dos filhos, o loquaz Carlos à frente.

Assim, é bem provável que Eduardo, o mesmo que havia sugerido o fechamento do Supremo Tribunal Federal com mínimo aparato militar, acredite mesmo que um AI-5 seria necessário. O fato de não haver nenhum distúrbio nas ruas brasileiras hoje é um mero detalhe de realidade.

Obviamente, não se trata de tratar a esquerda como um cordeiro inocente. É também do DNA daquele campo a radicalização.

Mas a violência associada a manifestações do passado recente, e junho de 2013 é a régua, têm menos a ver com o PT e mais com a degeneração promovida por black blocs e afins —apoiados, ideologicamente, por franjas da esquerda urbana.

Outro ponto central é a considerar é o contexto. Toda essa agitação bolsonarista acompanha o adensamento das notícias negativas que vêm das investigações sobre o passado do clã no Rio de Janeiro. Os recados de Fabrício Queiroz a Flávio Bolsonaro, novas apurações acerca de Carlos, o atabalhoado e mal-explicado episódio da citação falsa ao presidente no caso Marielle Franco.

É um padrão. Sempre que a família está sob pressão, surgem essas hipérboles por parte do entorno presidencial —quando não do próprio mandatário máximo. É uma tática retirada do livro Donald Trump de tergiversação política via Twitter, e tem funcionado a contento ao ser macaqueado cá nos trópicos. Quando fica feio demais, pede-se desculpas e bola para frente.

Trata-se de uma versão 4.0, ou algo assim, dos velhos tomos conspiratórios forjados para justificar repressões no passado. Estão aí para contar história os Protocolos dos Sábios do Sião, peça antissemita do Império Russo que teve utilidade estendida até o nazismo dos anos 1930 ao inventar uma trama judaica para dominar o mundo, e o brasileiríssimo Plano Cohen, falsificação integralista sobre um golpe comunista que ajudou Getúlio Vargas a virar ditador em 1937.,

O problema é que, de factoide em factoide, os limites podem chegar a pontos de ruptura. Uma provocação aceita aqui, um erro de cálculo ali, e algo sério pode acontecer —esse é o risco da escalada autoritária do clã Bolsonaro. 

O teste de fogo será a eventual libertação do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, como até os mármores do Supremo sabem. (por Igor Gielow)

terça-feira, 24 de setembro de 2019

DISCURSO DO BOZO NA ONU FOI UM MIASMA PESTILENTO DA GUERRA FRIA. A DÚVIDA É SE ELE PERDEU O CALENDÁRIO OU A RAZÃO...

leonardo sakamoto
BOLSONARO PASSA VERGONHA, QUEIMA
 PONTES E ISOLA AINDA 
MAIS O BRASIL
Jair Bolsonaro nem tentou parecer palatável à comunidade internacional de países na abertura da Assembleia Geral das Nações Unidas, em Nova York, na manhã desta 3ª feira (24). 

Com clara dificuldade de ler o discurso no teleprompter, o presidente fez uma intervenção profundamente ideológica, como se ainda fosse vigente a Guerra Fria, batendo no socialismo, criticando desafetos globais, atacando a mídia e negando responsabilidade no aumento do desmatamento da Amazônia. 

Recebeu aplausos protocolares da maioria dos presentes e efusivas comemorações do bolsonarismo-raiz no Brasil – para quem, aliás, as palavras parecem ter sido dirigidas. 

Por outro lado, o discurso inaugura um novo Brasil para a comunidade internacional. Esta 3ª foi um marco para o fim de uma antiga imagem externa brasileira, com características que passavam pelo equilíbrio e pelo diálogo. 

A questão é que essa novidade remete ao século 19, com o isolacionismo pré-abolição, o nacionalismo tacanho que se orgulhava do atraso, a hostilidade exacerbada aos vizinhos, a subserviência colonial. Em 74 anos de ONU, o Brasil, pela primeira vez, adotou inédito discurso de embate com a organização. 
A participação de Bolsonaro foi alinhada à de Donald Trump, que veio logo a seguir. O que não é coincidência. 

Uma fonte me informou que o discurso de Bolsonaro tomou sua forma final após o encontro, nesta 2ª (23), do deputado federal Eduardo Bolsonaro e do assessor para assuntos internacional da Presidência da República, Filipe Martins, com Steve Bannon, que foi estrategista da campanha de Donald Trump e é uma das lideranças do movimento ultraconservador internacional. 

Querendo agir como os Estados Unidos, mas sem ter condições geopolíticas para tanto, o presidente brasileiro reforçou a posição defensiva do país em todos os tabuleiros internacionais ao evitar uma fala conciliatória. 

Ou seja, apesar de ter começado afirmando que essa era "a oportunidade de restabelecer a verdade", seu discurso foi visto por membro de missões estrangeiras com as quais conversei como uma oportunidade perdida

Por ser país em desenvolvimento e por ter limitado poder militar, econômico e político, o Brasil sempre defendeu a importância das Nações Unidas por ser uma forma de conter o poderio de países hegemônicos. 

A contrapartida seria o de respeitar diretrizes em direitos humanos, meio ambiente e, claro, ter postura construtiva. O que não foi o caso. 
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TROPEÇO EM CONTRADIÇÕES – Bolsonaro criticou os regimes autoritários de Cuba e da Venezuela, mas elogiou o regime autoritário da Arábia Saudita. 

Denunciou trabalho escravo de médicos cubanos (o que já foi negado pelo Ministério Público do Trabalho, que investigou o assunto), apesar de criticar o sistema que atua na fiscalização de escravidão contemporânea no Brasil. 

Lamentou a perseguição religiosa, principalmente de cristãos, em todo o mundo, ignorando que adeptos de religiões de matriz africana têm sido sistematicamente atacados no país por membros de algumas denominações cristãs. 

Houve, aliás, novidade na defesa internacional de uma identidade cristã, em detrimento ao que o país defendia, desde o fim da escravidão. 

Afora isso, ele:
— exaltou seu discurso no Fórum Econômico Mundial, em Davos, na Suíça (que durou poucos minutos e foi criticado por investidores); 
— falou da viagem que fez ao Chile (mas não disse que ela provocou intensos protestos da sociedade de lá por suas posições pró-ditadura e contra os direitos humanos);
— citou sua ida a Israel (quando chocou a sociedade local por afirmar, no Memorial do Holocausto, que o nazismo era de esquerda); e 
— ressaltou que foi à Argentina (ignorando que seu apoio a Maurício Macri, por lá, é radioativo). 

Também foi um discurso de um governo que provou não entender a dinâmica das Nações Unidas. A submissão a Donald Trump e sua retórica será mal vista por China, importante parceiro comercial, e Rússia. 

Sua crítica à França será encarada, diplomaticamente, como extensiva à toda União Europeia. 

A exaltação a Israel não será compensada por sua declaração de que pretende visitar alguns países árabes. 

Sobre a Amazônia o discurso não é menos que desastroso. Afirmou que o seu "governo tem compromisso solene com o meio ambiente", mas não falou da responsabilidade de pecuaristas, madeireiros, grileiros e garimpeiros nas queimadas. Aliás, não disse como pretende conter a devastação da floresta, pelo contrário, negou que isso esteja acontecendo. 

Preferiu citar populações indígenas e pequenos produtores rurais como responsáveis por iniciar incêndios. Creditou a "ataques sensacionalistas da mídia" a repercussão negativa global e afirmou que o debate sobre a Amazônia despertou "nosso sentimento patriótico". 

Chegou ao limite de dizer que "acabou o monopólio do senhor Raoni", acusando o líder caiapó, que é referência global em direitos de povos tradicionais e na defesa do meio ambiente, de ser manipulado por interesses estrangeiros. 

Leu uma carta de um grupo de indígenas agricultores, que respaldaram Ysani Kalapalo, a indígena que ele levou à Assembleia Geral e que apoia seu governo, para tentar provar que tem o respaldo das populações tradicionais – o que não é verdade. 

Não fugiu, contudo, ao preconceito ao dizer que "nossos nativos são seres humanos, exatamente como qualquer um de nós". 

CONSEQUÊNCIA DESSE NOVO BRASIL – Dessa forma, a participação de Bolsonaro não deve reverter a avaliação negativa de seu governo junto à maior parte da comunidade internacional.causada pela forma com a qual vem lidando com a crise na Amazônia e por suas declarações críticas aos direitos humanos. Quem já estava com Bolsonaro, continuará com ele. E só. 

Um resumo da sua curta presença em Nova York poderia ser: do lado de fora, manifestações contra ele e a favor da Amazônia (o que dá no mesmo), e sentimento de desprezo de muita gente do lado de dentro do prédio da ONU. 

Tínhamos uma política externa brasileira respeitada internacionalmente. Havia uma linha equilibrada, de mais de 100 anos, que não foi rompida nem pela ditadura. Vai demorar para a comunidade internacional entender as implicações desse novo Brasil apresentado por Bolsonaro. O estrago está feito para a imagem do país. Quanto aos brasileiros, já entendemos muito bem o significado disso.  
Para quem se frustrou com a falta de demonstrações de repúdio no plenário da Assembleia, um aviso. A normalização de Bolsonaro vem acompanhada da normalização do Brasil como país-pária em meio ambiente e em direitos humanos, como país que se opõe ao multilateralismo, como país de governante autoritário, incapaz de articular consensos internos ou internacionais. 

Esse Brasil parece incontornável. A maioria dos demais países poderosos vê uma oportunidade de ganhos no espólio do que já foi um país soberano e mais influente. Ninguém vai deixar de fazer negócios com o Brasil, mas, definitivamente, deixamos de ser interlocutor confiável para discutir e definir decisões coletivas. Caímos no pacote do grupo bizarro de nações. 

Os países em desenvolvimento devem estar vendo o fim de um líder, de fonte de ajuda nos desafios da pobreza e no desenvolvimento sustentável, de um parceiro para demandar um maior equilíbrio do poder global. Hoje, o Brasil age como colônia política dos Estados Unidos. 

Enquanto isso, os países latino-americanos, principalmente os vizinhos, devem buscar formas de se preservar da inegável queda de poder econômico e político brasileiro. E, quando possível, buscar a liderança da região, abandonada pelo Brasil. 

Só nos resta agradecer ao presidente pela sinceridade no discurso. Agora, o mundo pode entender melhor o que passamos por aqui, sem acharem que estamos exagerando. (por Leonardo Sakamoto)

quarta-feira, 3 de julho de 2019

COLOPROCTOLOGIA: TUDO QUE VC QUERIA SABER SOBRE A MASSA OLAVAL QUE OS BOLSONAROS TÊM NA CABEÇA.

joel pinheiro
da fonseca
EM SEIS MESES, OLAVO FORNECE
A BOLSONARO MILITÂNCIA ATIVA
E FANÁTICA
É uma pena que, em 2019, Olavo de Carvalho ainda seja tema relevante no debate público brasileiro. Com efeito, ele talvez nunca tenha sido tão relevante.

No governo Bolsonaro, Olavo não é apenas um escritor de sucesso ou o professor de um curso online popular; é um dos principais ideólogos do governo e indicou ao presidente os ocupantes de dois ministérios, no que foi prontamente obedecido.

Embora esteja, aos seis meses de governo, um pouco mais afastado do entorno presidencial, seus seguidores e sua ideologia continuam a influenciar os rumos de Brasília.

Essa posição de influência não é fruto do puro acaso.

Olavo veio construindo sua base, doutrinando um número crescente de seguidores com pouca bagagem cultural, desde o início dos anos 2000. Nos anos 1990, fora um polemista e crítico de medalhões intelectuais da esquerda que dominavam o debate público.

Antes disso, vivera muitas e diversas aventuras: alega ter sido militante comunista na juventude. Mais tarde, se juntou a uma tariqa (um grupo esotérico islâmico) e fez um mergulho no misticismo e no perenialismo; foi também astrólogo. Hoje, é católico e reside nos EUA.

Olavo já teve presença na mídia. Chegou a ter coluna no jornal O Globo. Mas, por seu pensamento crescentemente paranoico e sua incapacidade de travar uma discussão sem recorrer a ofensas e xingamentos, acabou perdendo todos os seus espaços na mídia, ao mesmo tempo em que investia em seu site, programa de YouTube e curso online.

Percebeu antes de muitos outros formadores de opinião que, com as novas tecnologias, não era mais necessário o crivo institucional da mídia ou da universidade para chegar ao público.

A aposta vingou. Morando nos EUA, Olavo dá um curso online de filosofia que já se estende por anos, tem milhares de alunos e mensalidade de R$ 60.

Ao mesmo tempo, ele conseguiu se transformar numa grande referência de cultura, filosofia e política para pessoas sem grande bagagem intelectual e com algum ressentimento do discurso dominante na mídia, na política, nas universidades e nas artes.

O QUE OLAVO ENSINA — Embora se considere filósofo e tenha escrito livros sobre filosofia, seu real interesse —e o de seus alunos e seguidores— é a política. Sua mensagem política é simples: tudo o que é de esquerda é maligno.

Em nome de extirpar a esquerda, vale tudo, inclusive derrubar à  força qualquer obstáculo institucional ao livre exercício de poder de um governante de direita.

Congresso, STF, mídia, universidades e mesmo as Forças Armadas: à medida em que não se curvarem ao mando de Bolsonaro, devem ser atacados sem trégua.

No passado, ele já torceu abertamente por um golpe que derrubasse o governo constituído, como no caso da greve dos caminhoneiros em 2018. Olavo foi um apoiador de primeira hora dos grevistas. Para ele, os caminhoneiros possuíam a virtude e a força que faltava aos militares para fazer uma revolução.

Num post em sua página no Facebook em 24 de maio de 2018, escreveu:
"Por que os caminhoneiros estão pedindo intervenção militar? Deveriam eles mesmos fazer a intervenção, pois já provaram, mais de uma vez, que têm capacidade e bravura para isso. Todo poder aos caminhoneiros!"
Digamos que a estabilidade institucional do país não lhe seja um valor muito caro.

Embora tenha abandonado há muito o mundo das seitas esotéricas, conserva ainda alguns de seus traços: cultiva perante seus seguidores a imagem de um grande sábio, cuja autoridade deve ser sempre respeitada e reconhecida.

Com essa autoridade, promove a fanatização de seus seguidores, fazendo-os crer que vivemos na iminência constante de um apocalipse esquerdista, do qual apenas Olavo (ou aqueles por ele apontados) podem nos salvar.

Toda sua filosofia, em última instância, aponta para a mesma conclusão: duvidar da argumentação racional e confiar acima de tudo na intuição superior do mestre (ele próprio).

A mídia, a universidade e a ciência de maneira geral são alvo de desprezo.

Recentemente, expressou dúvidas sobre se a Terra é plana. Não se sabe até que ponto manifestações como essas devem ser levadas a sério, mas creio que buscar saber se algo que Olavo diz é sério ou não já é perder o ponto central da filosofia olaviana: o conteúdo é o que menos interessa. O importante é fomentar a dependência do seguidor na autoridade do mestre.

As teses conspiratórias se seguem umas às outras e vão embora sem deixar rastro. Maçonaria, programação neurolinguística, Foro de São Paulo, globalismo, comunismo, marxismo cultural, Clube Bilderberg, segredos de Fátima. O importante é manter a fé cega e o ânimo exaltado.
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O QUE OLAVO E OS OLAVISTAS FAZEM — Não se deve superestimar o papel de Olavo no governo Bolsonaro.

Ele não está presente no dia a dia da administração nem toma decisões. Permanece, contudo, como a fonte da ideologia dominante no discurso do governo (que combate inimigos como o globalismo e o Foro de São Paulo) e é o guru inspirador de figuras influentes: o ministro da Educação, Abraham Weintraub, o chanceler Ernesto Araújo, o assessor de política internacional da Presidência Filipe Martins e os filhos Carlos e Eduardo Bolsonaro.

Ao mesmo tempo, desafetos seus na equipe do governo têm sido paulatinamente demitidos, como ocorreu com o general Santos Cruz, ex-ministro da Secretaria de Governo, que em maio foi xingado de “seu merda” por Olavo no Twitter.

Inegavelmente, o que os olavistas têm a oferecer ao governo Bolsonaro não é domínio técnico das pastas em que são alocados. Até agora, vimos o fracasso vergonhoso da primeira indicação de Olavo ao Ministério da Educação, Ricardo Vélez Rodríguez.

Weintraub, seu sucessor, conseguiu transformar um contingenciamento normal numa crise de popularidade, faz o discurso de caça às bruxas contra professores e hoje se resume a xingar o PT no Twitter.

Nas Relações Exteriores os militares do governo tiveram que construir um verdadeiro cordão de isolamento para impedir que o ministro Ernesto Araújo comprometesse o interesse nacional com sua mistura curiosa de discurso nacionalista extremado e subserviência aos EUA.

A Apex, empresa pública que inicialmente fora deixada a cargo de olavistas, praticamente parou em meio à incompetência e às intrigas constantes por eles fabricadas. 
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O QUE RESULTA DO OLAVISMO — O que os olavistas oferecem ao governo é uma militância altamente mobilizada e fanatizada, disposta a atacar alvos selecionados nas redes sociais e fazer barulho nas ruas quando necessário.

Bolsonaro vem apostando nessa ideia, alimentado talvez pela crença de que o grito das redes significa popularidade real nos lares brasileiros.

Cercado de conselheiros como Filipe Martins e seu filho Eduardo, parece crer na paranoia conspiratória de que todos fora de seu círculo íntimo conspiram contra ele.

Os institutos de pesquisa vêm apontando queda na popularidade do presidente, mas já que, de acordo com Olavo e sua ideologia, os institutos mentem, não há por que acreditar neles.

Mais recentemente, Bolsonaro se afastou um pouco da figura de Olavo —que ficou desgastado depois das sucessivas brigas com a ala militar do governo— sem com isso livrar-se dos olavistas que ocupam posições importantes na administração e da ideologia olavista (teorias da conspiração e fanatização da base a serviço de um projeto de poder absoluto).

Se de fato continuar nessa rota, encaminhará o governo para o sonho de Olavo e de seus seguidores: a ruptura institucional visando o poder total.

Parece uma estratégia fadada ao fracasso, mas dado o tamanho do abismo que o presidente criou entre si e o Congresso, talvez seja vista como o único caminho.

Em todos os projetos em que toca, Olavo deixa um rastro de desavenças, intrigas, ressentimentos, sem nenhuma realização. Com o governo federal não parece que será diferente. (por Joel Pinheiro da Fonseca)

quarta-feira, 22 de maio de 2019

A PERGUNTA QUE NÃO QUER CALAR: POR QUE O LEÃO MIOU COMO UM GATINHO?

igor gielow
MILITARES E DIVISÕES SEGURAM O FLERTE AUTOGOLPISTA DE BOLSONARO
O candidato Jair Bolsonaro elegeu-se investido de uma aura de inflexibilidade em relação à sua agenda, e conquistou uma gorda fatia do eleitorado de centro e centro-direita que não topava encarar mais quatro anos de PT com tal imagem.

Já o presidente Jair Bolsonaro tem reiterado uma saudável frouxidão ao ser confrontado com obstáculos, após cada um de seus arroubos. Toda aquela coragem indômita das redes sociais e pronunciamentos espontâneos não funciona muito bem no mundo real.

O exemplo do ainda inconcluso episódio do flerte autogolpista não poderia ser mais didático, e deve estar dando um nó na cabeça de seus fiéis mais fanáticos.

Há meses o núcleo duro do bolsonarismo, ao qual o presidente deve boa parte do que tem de aprovação, repete os mantras jacobinos de sua campanha. Resumindo, pressionar o Congresso e o Judiciário com massas nas ruas, quebrar o sistema e tal.

O elemento mais radical, que pede fechamento de instituições, está lá também —Bolsonaro não defendeu nada disso, mas nem tampouco condenou tais apoiadores.

Como em tudo nessa tragicomédia, o Twitter está aí por testemunha. O enredo olavista que desembocou na postagem de Bolsonaro na sexta (17) teve uma de suas primeiras páginas públicas escritas pelo assessor internacional da Presidência, Filipe Martins, em 22 de março. Disse ele na rede social que era preciso “mostrar que o povo manda no país”.

Mostrar àqueles que classificou de adversários da ala antiestablishment do governo, ou seja, todo mundo. 

Aliás, de tanto acreditar numa conspiração marxista cultural mundial, a turma mimetiza delírios esquerdistas: troque o termo por vanguarda do proletariado, p. ex.

Em 9 de maio, foi a vez do maior megafone virtual do bolsonarismo, o filho presidencial Carlos, reclamar das derrotas do pai no Congresso e dizer: “População, respeitosamente, acordemos!”. Noves fora sua gramática peculiar e o delírio de grandeza, fermentava ali o autogolpismo em estágio inicial abraçado enfim pelo presidente.

Abraçado e perigosamente amplificado com o apoio aos protestos pró-Bolsonaro do dia 26. O filho deputado, Eduardo, questionou por que criticavam o bolsonarismo se estudantes e a esquerda tinham ido à rua semana passada. Essa falta de noção acerca da instituição presidencial é um traço típico da primeira-família.
Uma concessão ao centrão ali, uma retribuição deles aqui, e o presidente parece ter jogado água no próprio chope ao anunciar que não participará do ato. Sempre pela onisciente voz do general Rêgo Barros, claro. 

Menos mal para o país que Bolsonaro exerça tal descompromisso com as próprias convicções, dado que até a um padre visionário andou recorrendo em suas postagens.

Novamente, foram os militares que operaram para segurar o chefe. Após perderem força relativa no embate recente com os olavistas, parecem ter recuperado capacidade de influenciar. O inédito sorriso do general Santos Cruz ao lado do inefável pastor Marco Feliciano sugere até algum tipo de acomodação.

Mas não foi só isso. A condenação por empresários, inclusive na nova classe que emergiu apoiando o candidato Bolsonaro, a perda de apoio da parte que se acha liberal de sua base e o racha explícito do grupo de WhatsApp que atende pelo nome de PSL ajudaram a modular a valentia presidencial. Até a próxima crise —se é que a atual realmente está em vias de acabar.

A facilidade com que a situação escalou foi um lembrete sóbrio do novo normal em Brasília. Muita gente desassombrada, com farda ou não, já tomou nota do padrão. (por Igor Gielow)
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Por Celso Lungaretti
TOQUE DO EDITOR — Faltou o Gielow escrever que o apoio explícito de um presidente da República a uma manifestação visando pressionar o Congresso Nacional e o Supremo Tribunal Federal, na qual decerto haverá deficientes intelectuais pregando o fechamento dessas instituições, seria um óbvio motivo para seu impeachment. 

Isto deve ter pesado muito na sua decisão de faltar ao ato de balbúrdia golpista que tanto havia incentivado. É chocante, contudo, que tal obviedade não lhe haja ocorrido antes de haver começado a botar fogo no circo, sendo obrigado a acionar o extintor de incêndio e a passar recibo de que nunca sabe direito o que está fazendo.
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