Rui Martins, meu amigo de longa data e colaborador deste blog desde o seu início em 2008, bateu pesado (videaqui) no Paulo Roberto de Andrade, criador e dono das Fazendas Reunidas Boi Gordo, cuja falência foi decretada oficialmente em 2004.
Está certo o Rui quanto à necessidade de se punir quem aplica golpes no mercado, mas o Brasil está diminuindo a pena do ex-presidente Jair Bolsonaro, que, com sua sabotagem vacinal, acrescentou no mínimo três centenas de milhares de óbitos ao número de mortos pela covid.
O pilantra Andrade deveria passar alguns anos na prisão. O serial killerBolsonaro merecia ficar o resto da vida a pão e água num cárcere medieval. País que quebra o galho de um exterminador desses decididamente não é um país sério, como Charles De Gaulle disse ou levou a fama de haver dito.
Tenho mais desprezo pelos políticos profissionais, que roubam sem correr riscos, do que pelos bandidos, cujo ofício embute o perigo de serem mortos. O golpe da amenização das penas da dosimetria, um absurdo gerado no Congresso, está aí para mostrar como a corja da politicagem age com o máximo de fisiologismo para proteger seus pares, ainda que de outros partidos.
Quanto à Boi Gordo, era cliente de uma agência de comunicação empresarial na qual trabalhei. Depois soubemos que Andrade havia cumprido pena de prisão num passado distante.
.Seu negocio era vender bezerros para os investidores, cuja grana era devolvida, se bem me lembro, um ano e meio depois, acrescida da maior parte do valor obtido com a engorda.
Tratava-se de uma pirâmide: o dinheiro utilizado para pagar os clientes cuja engorda se encerrava saía dos novos contratos vendidos pela Boi Gordo.
Andrade percebeu que o esquema batera no teto e os novos contratos não seriam mais suficientes para reembolsar os clientes velhos. Então, tentou salvar a empresa comprando uma megafazenda no Mato Grosso, onde venderia lotes de terra e a Boi Gordo se incumbiria de construir as fazendas solicitadas pelos clientes.
A infraestrutura, com aeroporto, supermercado, usina de força, banco, etc., ra muito dispendiosa. E foi bem no meio do projeto que a 3ª Vara de Falências e Recuperações Judiciais de São Paulo proibiu a Boi Gordo de vender novas cotas. A quebra se tornou iminente.
Antonio Fagundes, o rei do gadoextraviado
Mas, não me parece que a intenção dele fosse encerrar as atividades e fugir com a grana, pelo menos no momento em que o fez. Caso contrário não gastaria tanto na compra de bois campeões e em melhoria genética.
Quando o colapso se tornou evidente, ele foi desfrutar sua fortuna nos Estados Unidos, deixando os investidores na mão.
Pelo que eu soube, o Andrade só pagou uma categoria de investidores: os bandidos que lavavam dinheiro aplicando-o na Boi Gordo. Com esses não se brinca. (por Celso Lungaretti)
Megafazenda da Boi Gordo no Mato Grosso: o princípio do fim.
Ogolpe do Banco Master terminará em pizza e Daniel Bueno Vorcaro vai rir da nossa cara, enquanto estiver tomando seu uísque à beira-mar de um resort de renome, curtido só por milionários?
Ao seu lado, poderá estar gargalhando até do nosso Judiciário um de seus prováveis inspiradores, Paulo Roberto de Andrade, famoso por um golpe de mais de 2,5 bilhões, não em ministros, políticos e bancos, mas em 34 mil pequenos investidores da classe média.
Segundo o professor Marcos Assi, na revista Exame, o golpe do Banco Master tem uma diferença marcante: os maiores lesados não foram apenas pequenos e médios investidores, mas fundos de pensão, municípios, Estados e empresas de capital aberto, com envolvimento direto ou indireto de políticos e até de importantes juristas, num total astronômico calculado em 10 bilhões de dólares.
O trambiqueiro Paulo Roberto de Andrade (foto à esquerda), criador e gestor da pirâmide ou safadeza das Fazendas Reunidas Boi Gordo nunca foi preso, graças a um habeas corpus concedido pelo Supremo Tribunal de Justiça. Depois da programada delação, Daniel Vorcaro também sairá livre e poderá comemorar com os amigos que viajavam no seu avião?
Mais de vinte anos depois da falência da Boi Gordo, a Justiça se arrasta na venda das fazendas tomadas de Andrade, cujo total serviria para indenizar parcialmente os investidores lesados. O pessimismo é do advogado de muitos dos lesados, Aurélio de Almeida Paiva.
E, embora grande parte dos investidores tenha enviado seus investimentos em dólares para Miami, até hoje a Justiça brasileira, encarregada da falência, não pediu aos Estados Unidos o retorno total desses recursos ao Brasil.
Diante do escândalo do Banco Master, lembrei-me de um artigo sobre a falência da Boi Gordo que escrevi em 2009, com descrença e pessimismo na Justiça brasileira, bem evidente já no título: Dono da Boi Gordo rico, feliz e livre.
O empresárioPaulo Roberto de Andrade tinha sido processado por crime falimentar e condenado a três anos de prisão pela 13ª Vara Criminal de São Paulo. Mas seu advogado entrou com um habeas corpus para Andrade aguardar em liberdade o fim do processo. E o ministro Og Fernandes, da 6ª Turma do STJ, concedeu a liminar alegando que o TJ paulista não podia determinar a prisão antes do trânsito em julgado da sentença.
Enfim, o STJ anulou a ação penal contra Andrade e reconheceu a prescrição do processo. Mas acrescentou um parágrafo elucidativo, segundo o promotor Eronildes Rodrigues dos Santos, da Vara de Falências de São Paulo:
É a pizza. Fazer o quê?Lamento a anulação de um caso emblemático como esse. Houve um golpe, milhares de pessoas foram lesadas e não haverá responsabilização penal
É o cowboy fora da lei cantado pelo Raulzito?
Procurado. o ministro Nilson Naves, responsável pela decisão do STJ, está ocupado e não tinha tempo para atender.
Vai ser assim com Daniel Vorcaro? Quem viver verá!
A lei, ora a lei, dizia Getúlio Vargas.(por Rui Martins)
Leio no noticiário que um relacionamento amoroso compromete o andamento do processo de falência da Fazendas Reunidas Boi Gordo, em curso desde 2002, afetando 30 mil credores, lesados em cerca de R$ 5 bilhões.
Está sendo pedida a suspensão dos trâmites, por motivo incomum: um promotor de Justiça e a advogada do escritório que representa o síndico da massa falida têm estado in love nos últimos meses.
Realmente, salta aos olhos que ambos se tornaram suspeitos de conluio, de nada adiantando alegarem que uma coisa é uma coisa e a outra coisa é outra coisa. A juíza, se respeitar os textos legais, terá mesmo de acatar tal expediente protelatório.
Isto, claro, a menos que a igualmente escandalosa promiscuidade entre Sérgio Moro e Deltan Dallagnol nos casos da Lava Jato, mais do que provada pelo Intercept Brasil e até hoje sem as consequências jurídicas que se impunham, tenha inspirado jurisprudência, tipo se a Constituição inexiste para alguns casos, tudo é permitido...
Ação promocional da Boi Gordo na esplanada dos Ministérios
Tenho a Boi Gordo atravessada na minha garganta. Era uma das principais clientes de uma agência de RP na qual trabalhei por longo tempo. Como editor da revista da Boi Gordo (a Moeda Forte), autor de editoriais, artigos e mensagens assinados pelo proprietário do grupo e responsável pelos cases para concorrer a prêmios de marketing, conhecia-a como poucos... menos aquilo que escondia ciosamente, claro. Dos podres só vim a saber depois que a massa fecal foi para o ventilador.
No começo, o esquema funcionava às mil maravilhas: investidores aplicavam em bois magros e recebiam de volta tal valor, acrescido do ganho resultante da engorda e tendo descontada uma taxa de administração.
A Boi Gordo adquiriu grandes campeões e investiu pesado em melhoria genética, de forma que havia mesmo uma substancial diferença entre o valor do boi antes e depois da engorda. Mas, não o suficiente para manter o negócio em pé: o fechamento de novos contratos ainda era necessário para pagar a quem liquidava suas inversões. Continuava sendo uma pirâmide financeira. A contratação de um merchandising da Boi Gordo na novela O rei do gado, da Globo, com direito a uma aparição do próprio dono da dita cuja acertando um negócio com o ator Antônio Fagundes (o qual, aliás, ficou tão deslumbrado que se tornou investidor na vida real e agora está entre os lesados) provocou um boom nesse mercado.
Uma concorrente, a Gallus, começou a atuar com muita agressividade, tentando ir além do terço que conquistara oferecendo maiores vantagens (a Boi Gordo conseguiu conservar dois terços). Mas, esticou demais o elástico e quebrou em 1998, provocando uma onda de descrédito com relação ao esquema de engorda.
Na maratona para evitar que nossa cliente fosse arrastada para o lixo juntamente com a Gallus, coube-me redigir todos os textos da defesa da Boi Gordo, a acionistas, a fornecedores, a autoridades, a jornalistas, aos leitores da revista, etc., seja como ghost writer do dono da empresa, seja em nome da agência de RP da qual eu era gerente.
Foi uma trabalheira infernal, mas a salvação da Boi Gordo rendeu à agência uma profusão de prêmios de marketing, inclusive o principal das Relações Públicas internacionais, o Golden World Awards. Meio ano depois a Boi Gordo, por uma divergência com a filha do meu patrão, encerrou o contrato com nossa agência, de forma que, quando ela finalmente despencou, não tivemos de mover uma palha em seu favor.
Mas, deu para saber o que realmente aconteceu. Percebendo que a pirâmide, mais dia, menos dia, atingiria o limite, o dono tentou criar uma colonizadora, oferecendo aos investidores lotes (ou uma casa de férias já instalada) num enorme paraíso ecológico, onde implantaria também aeroporto, hotel 5 estrelas, etc. O esquema era ambicioso demais e soçobrou.
Mas, prevendo que isto poderia acontecer, ele já tinha seu pulo do gato preparado e vem conseguindo manter-se fora das grades até hoje. Passou adiante as empresas encalacradas, andou criando gado nos EUA (não consegui apurar se ainda o faz), etc. Um boato que ouvi foi o de que, de todos os investidores prejudicados, ele só teria reembolsado os chefões do crime organizado que estariam utilizando o esquema para lavagem de dinheiro. Destes, nem nos States ele ficaria a salvo...
Quanto a mim, vi o meu melhor trabalho em comunicação empresarial virar pó, pois quem haveria de reconhecer o mérito de uma campanha que salvou de falência a Boi Gordo... apenas para ela passar mais algum tempo depenando investidores, antes da queda anunciada?!
Parece ser minha sina. O meu melhor trabalho nas batalhas de opinião da política, a participação no Cesare Livre, também virou pó quando a vitória de junho de 2011 se transformou na derrota de janeiro de 2019. E, como da outra vez, a reversão do quadro se deu quando eu já não estava mais diretamente envolvido com aqueles a quem defendi.
A diferença é que, no primeiro caso, a minha reação foi um aliviado eles que se danem!.
No segundo, senti um enorme pesar, que me tira o sono até hoje. (por Celso Lungaretti)