Leio no noticiário que um relacionamento amoroso compromete o andamento do processo de falência da Fazendas Reunidas Boi Gordo, em curso desde 2002, afetando 30 mil credores, lesados em cerca de R$ 5 bilhões.
Está sendo pedida a suspensão dos trâmites, por motivo incomum: um promotor de Justiça e a advogada do escritório que representa o síndico da massa falida têm estado in love nos últimos meses.
Realmente, salta aos olhos que ambos se tornaram suspeitos de conluio, de nada adiantando alegarem que uma coisa é uma coisa e a outra coisa é outra coisa. A juíza, se respeitar os textos legais, terá mesmo de acatar tal expediente protelatório.
Isto, claro, a menos que a igualmente escandalosa promiscuidade entre Sérgio Moro e Deltan Dallagnol nos casos da Lava Jato, mais do que provada pelo Intercept Brasil e até hoje sem as consequências jurídicas que se impunham, tenha inspirado jurisprudência, tipo se a Constituição inexiste para alguns casos, tudo é permitido...
| Ação promocional da Boi Gordo na esplanada dos Ministérios |
Tenho a Boi Gordo atravessada na minha garganta. Era uma das principais clientes de uma agência de RP na qual trabalhei por longo tempo.
Como editor da revista da Boi Gordo (a Moeda Forte), autor de editoriais, artigos e mensagens assinados pelo proprietário do grupo e responsável pelos cases para concorrer a prêmios de marketing, conhecia-a como poucos... menos aquilo que escondia ciosamente, claro. Dos podres só vim a saber depois que a massa fecal foi para o ventilador.
Como editor da revista da Boi Gordo (a Moeda Forte), autor de editoriais, artigos e mensagens assinados pelo proprietário do grupo e responsável pelos cases para concorrer a prêmios de marketing, conhecia-a como poucos... menos aquilo que escondia ciosamente, claro. Dos podres só vim a saber depois que a massa fecal foi para o ventilador.
No começo, o esquema funcionava às mil maravilhas: investidores aplicavam em bois magros e recebiam de volta tal valor, acrescido do ganho resultante da engorda e tendo descontada uma taxa de administração.
A Boi Gordo adquiriu grandes campeões e investiu pesado em melhoria genética, de forma que havia mesmo uma substancial diferença entre o valor do boi antes e depois da engorda. Mas, não o suficiente para manter o negócio em pé: o fechamento de novos contratos ainda era necessário para pagar a quem liquidava suas inversões. Continuava sendo uma pirâmide financeira.
A contratação de um merchandising da Boi Gordo na novela O rei do gado, da Globo, com direito a uma aparição do próprio dono da dita cuja acertando um negócio com o ator Antônio Fagundes (o qual, aliás, ficou tão deslumbrado que se tornou investidor na vida real e agora está entre os lesados) provocou um boom nesse mercado.
A contratação de um merchandising da Boi Gordo na novela O rei do gado, da Globo, com direito a uma aparição do próprio dono da dita cuja acertando um negócio com o ator Antônio Fagundes (o qual, aliás, ficou tão deslumbrado que se tornou investidor na vida real e agora está entre os lesados) provocou um boom nesse mercado.
Uma concorrente, a Gallus, começou a atuar com muita agressividade, tentando ir além do terço que conquistara oferecendo maiores vantagens (a Boi Gordo conseguiu conservar dois terços). Mas, esticou demais o elástico e quebrou em 1998, provocando uma onda de descrédito com relação ao esquema de engorda.
Na maratona para evitar que nossa cliente fosse arrastada para o lixo juntamente com a Gallus, coube-me redigir todos os textos da defesa da Boi Gordo, a acionistas, a fornecedores, a autoridades, a jornalistas, aos leitores da revista, etc., seja como ghost writer do dono da empresa, seja em nome da agência de RP da qual eu era gerente.
Foi uma trabalheira infernal, mas a salvação da Boi Gordo rendeu à agência uma profusão de prêmios de marketing, inclusive o principal das Relações Públicas internacionais, o Golden World Awards.
Meio ano depois a Boi Gordo, por uma divergência com a filha do meu patrão, encerrou o contrato com nossa agência, de forma que, quando ela finalmente despencou, não tivemos de mover uma palha em seu favor.
Meio ano depois a Boi Gordo, por uma divergência com a filha do meu patrão, encerrou o contrato com nossa agência, de forma que, quando ela finalmente despencou, não tivemos de mover uma palha em seu favor.
Mas, deu para saber o que realmente aconteceu. Percebendo que a pirâmide, mais dia, menos dia, atingiria o limite, o dono tentou criar uma colonizadora, oferecendo aos investidores lotes (ou uma casa de férias já instalada) num enorme paraíso ecológico, onde implantaria também aeroporto, hotel 5 estrelas, etc. O esquema era ambicioso demais e soçobrou.
Mas, prevendo que isto poderia acontecer, ele já tinha seu pulo do gato preparado e vem conseguindo manter-se fora das grades até hoje.
Passou adiante as empresas encalacradas, andou criando gado nos EUA (não consegui apurar se ainda o faz), etc.
Um boato que ouvi foi o de que, de todos os investidores prejudicados, ele só teria reembolsado os chefões do crime organizado que estariam utilizando o esquema para lavagem de dinheiro. Destes, nem nos States ele ficaria a salvo...
Passou adiante as empresas encalacradas, andou criando gado nos EUA (não consegui apurar se ainda o faz), etc.
Um boato que ouvi foi o de que, de todos os investidores prejudicados, ele só teria reembolsado os chefões do crime organizado que estariam utilizando o esquema para lavagem de dinheiro. Destes, nem nos States ele ficaria a salvo...
Quanto a mim, vi o meu melhor trabalho em comunicação empresarial virar pó, pois quem haveria de reconhecer o mérito de uma campanha que salvou de falência a Boi Gordo... apenas para ela passar mais algum tempo depenando investidores, antes da queda anunciada?!
Parece ser minha sina. O meu melhor trabalho nas batalhas de opinião da política, a participação no Cesare Livre, também virou pó quando a vitória de junho de 2011 se transformou na derrota de janeiro de 2019. E, como da outra vez, a reversão do quadro se deu quando eu já não estava mais diretamente envolvido com aqueles a quem defendi.
A diferença é que, no primeiro caso, a minha reação foi um aliviado eles que se danem!.
No segundo, senti um enorme pesar, que me tira o sono até hoje. (por Celso Lungaretti)