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quarta-feira, 30 de outubro de 2019

NÃO DÁ PARA DIZER QUE O BOLSONARO ESTEJA ENVOLVIDO. MAS, PODE UM AMIGO DE MILICIANOS PRESIDIR O BRASIL?! – 1

Promiscuidade de outrora com as milícias é pedra no seu sapato 
josias de souza
FATOS INTIMAM BOLSONARO
A ACENDER A
LUZ DE CASA
A vinculação do nome de Jair Bolsonaro ao assassinato de Marielle Franco é, por ora, apenas um asterisco em meio a um inquérito crivado de pontos de interrogação. 

A despeito disso, ganhou ares de crise a notícia divulgada pelo Jornal Nacional de que o nome do presidente da República consta do processo sobre a execução da vereadora do PSOL. 

Deve-se o fenômeno às relações perigosas da família Bolsonaro com milicianos. Para evitar que uma dificuldade aparentemente pequena se torne crítica e passe a influenciar o rumo do governo, Bolsonaro precisaria acender a luz de casa. Mas ele não parece disposto a fazê-lo. 

Eis o que foi ao ar em horário nobre:
— no dia do assassinato de Marielle, um suspeito de participar do crime entrou num condomínio para visitar um comparsa, agora acusado de puxar o gatilho; 
—  alegou na portaria que iria à casa de Bolsonaro, localizada no mesmo conjunto habitacional;
— em depoimento à polícia, o porteiro disse ter obtido pelo interfone autorização do seu Jair para a entrada do visitante. 
"Flávio Bolsonaro percorre os corredores do Senado como se nada tivesse sido descoberto sobre ele"
O livro de controle de acessos anota o nome do suspeito, a placa do carro e o número da casa de Bolsonaro: 58. Naquele dia, esclareceu a reportagem, Bolsonaro estava em Brasília. Registrou presença na Câmara. Divulgou vídeos nas redes sociais. 

A guarita do condomínio dispõe de equipamento que grava as comunicações feitas via interfone. A polícia tenta recuperar o áudio, para descobrir com quem, afinal, o porteiro conversou na casa de Bolsonaro. 

A situação exige claridade e serenidade. Mas Bolsonaro, numa transmissão ao vivo pelas redes sociais, ficou fora de si. 

Com isso, tornou-se mais fácil enxergar o que o capitão tem por dentro: muita raiva e um enorme apreço pelo breu. A irritação compromete o discernimento de Bolsonaro, impedindo-o de perceber que o nome da crise não é imprensa, mas família Bolsonaro.  

"Toda crise tem um custo"
A novidade chega num instante em que Fabrício Queiroz, um policial militar que trabalhou com os Bolsonaro, envia pelo WhatsApp sinais de que se considera abandonado. 

Ex-assessor de Flávio Bolsonaro na Assembleia Legislativa do Rio, Queiroz ainda não forneceu ao Ministério Público do Rio uma explicação que fique em pé sobre suas movimentações financeiras. 

Amigo de Queiroz, o ex-capitão Adriano Magalhães da Nóbrega, da PM do Rio, teve a mãe e a mulher pendurados na folha salarial do gabinete de Flávio Bolsonaro. Apelidado de Caveira, o oficial Adriano foi expulso da corporação. Comandava uma milícia em Rio das Pedras. Está foragido.

É contra esse pano de fundo que a polícia civil do Rio encosta na biografia de Bolsonaro um letreiro de neon com o nome de Marielle. A novidade mistura-se aos passivos que não saem das manchetes. 

Acusado de peculato e lavagem de dinheiro, Flávio Bolsonaro percorre os corredores do Senado como se nada tivesse sido descoberto sobre ele. 

Superblindado por duas liminares do Supremo —uma de Dias Toffoli, outra de Gilmar Mendes, o primogênito toma distância de Queiroz: "Não falo com ele há quase um ano". Bolsonaro ecoa o filho. 

Afora os crimes de peculato e lavagem de dinheiro atribuídos a Flávio e a rachadinha administrada por Queiroz, o Ministério Público do Rio esquadrinha a folha do gabinete de Carlos Bolsonaro, o Zero Dois, na Câmara Municipal do Rio. Recolheram-se indícios de que funcionava ali outro ninho de ilegalidades funcionais. 

"como capitão de navio que reclama da existência do mar"
Num ambiente assim, presidente que se queixa da imprensa soa como capitão de navio que reclama da existência do mar. 

Só Bolsonaro sabe o tamanho real do buraco em que ele e sua família estão metidos. Toda crise tem um custo. O presidente precisa decidir quanto deseja pagar. A fatura vai aumentando com o tempo. 

Em tese, Bolsonaro ainda dispõe de três anos e dois meses de governo. Não há blindagem que dure tanto tempo. Melhor acender a luz, nem que seja num dos cômodos: o quarto das crianças. (por Josias de Souza, no seu blog)

sábado, 18 de maio de 2019

HOSTILIZANDO O CONGRESSO, OS JUÍZES E A OPINIÃO PÚBLICA, JAIR BOLSONARO ESTÁ CAVANDO A SEPULTURA DO SEU GOVERNO

demétrio magnoli
BOLSONARO, NO OUTONO
.
FHC descreveu-se como um improvável presidente, atestando seu reconhecimento de que chegara ao Planalto nas asas de um desvio histórico. 

Bolsonaro deve a cadeira presidencial a um acaso ainda mais fortuito que o sucesso do Plano Real: a ruína do sistema político da Nova República na moldura de uma profunda depressão econômica.

Mas, ao contrário do sofisticado intelectual, o capitão inculto imagina que seu triunfo deve-se à necessidade histórica —isto é, a uma revolução propelida pela ideologia. Dessa ilusão nasce a crise crônica que trava o governo e anuncia a sua implosão.

O sistema político edificado três décadas atrás combinou os poderes quase imperiais de um presidente que governa por decretos com as prerrogativas quase ilimitadas de um Congresso fragmentado em miríades de partidos. 

O presidente fantasiado de soberano precisa, ao longo do mandato, usar seus poderes para construir —e, depois, conservar— uma maioria parlamentar operacional. Bolsonaro não quer —e provavelmente não conseguiria, mesmo se quisesse— engajar-se na missão da governabilidade.

O impasse tem um contexto. FHC navegou o sistema político a bordo de uma nau mais ou menos estável: a aliança programática PSDB/PFL, que lhe conferia um núcleo sólido de apoio no Congresso. O tucano comprou a governabilidade a custo baixo, praticando moderadamente o esporte da fisiologia. 
"singra o mar de destroços girando o timão erraticamente"

Já Lula pilotou uma nau avariada pela falta de um consenso programático básico na coalizão PT/PMDB/PP e pela multiplicação descontrolada de partidos. 

O petista abriu as portas da administração pública e das estatais à sanha colonizadora das máfias políticas. Os resultados foram o mensalão, o petrolão e, no fim, a derrubada do edifício pela artilharia da Lava Jato.

O presidente —qualquer presidente eleito na hora da derrocada— teria as alternativas realistas de tentar restaurar o sistema ou de encarar o desafio de reinventá-lo. Bolsonaro, porém, não entende a natureza da encruzilhada. Isolado na concha ideológica de suas próprias redes sociais, singra o mar de destroços girando o timão erraticamente, desorientado por uma bússola que nunca aponta o norte.

De um lado, teme uma conspiração parlamentar destinada a envolvê-lo no novelo fatal da fisiologia. De outro, teme uma conspiração do STF e da imprensa destinado a fabricar um impeachment. Na batalha contra os dois moinhos de vento, hostiliza o Congresso, os juízes e a opinião pública, cavando a sepultura de seu governo.
"derrotas em votações banais no Congresso"

O governo não tem nada parecido com uma base parlamentar. 

As sucessivas derrotas em votações banais no Congresso, iluminadas pelos clarões de ataques aos parlamentares promovidos por ministros, assessores e filhos do presidente, erguem-se como nuvens de tempestade sobre o projeto de reforma previdenciária. A adição das ruas à equação política semeia o campo da incerteza. 

A gosma ideológica também é responsável pelo novo componente da crise: foram as repetidas provocações do ministro olavete [Abraham Weintraub] não um simples contingenciamento de recursos, que impulsionaram centenas de milhares de pessoas a aderir às manifestações. Da rejeição dos cortes na Educação à recusa da Nova Previdência, o passo depende apenas do ritmo da desmoralização do governo.

Idiotas úteis: não é, ainda, 2013, mas um presidente alheio à realidade esforça-se para recriá-lo. Bolsonaro tem prazo de validade, que não é 2022, mas 2020. Sem uma reforma previdenciária forte, a persistência da estagnação econômica dissolverá a legitimidade política do governo.

No horizonte cinzento, para lá da operação tartaruga do Ministério Público, emergem os contornos agourentos de um certo Adriano e de um tal de Queiroz. 

O Brasil real quer emprego, renda e serviços públicos, não a revolução reacionária do bolsonaro-olavismo. Mas o outono já vai passando, e só a Carolina não viu. 
(por Demétrio Magnoli)

quarta-feira, 23 de janeiro de 2019

OS BOLSONAROS SE DAVAM MUITO BEM COM AS MILÍCIAS, MAS ERA UMA UNIÃO DO TIPO "ATÉ QUE A ELEIÇÃO NOS SEPARE"...

bruno boghossian
FAMÍLIA BOLSONARO ENTERRA
SEUS ESQUELETOS EM COVA RASA
A família Bolsonaro nunca fez questão de esconder sua relação amistosa com as milícias. Os integrantes do clã tratavam publicamente esses grupos de policiais e ex-policiais como generosos prestadores de serviços de segurança, ignorando os crimes de extorsão e assassinato cometidos por muitos deles.

Os vínculos não se restringiam aos discursos. Sabe-se agora que Flávio Bolsonaro empregou em seu gabinete duas parentes de um ex-PM suspeito de chefiar uma facção de matadores que agia a serviço de milicianos.

Quase todo político com uma longa trajetória sabe que episódios do passado reaparecem como assombrações. Alguns, bem escondidos, caem no esquecimento. Os esqueletos da família presidencial, porém, parecem estar enterrados em cova rasa.

Até novembro, trabalharam para Flávio na Assembleia Legislativa a mãe e a mulher de Adriano Magalhães da Nóbrega, um ex-capitão do Bope acusado de comandar uma milícia na zona oeste do Rio.

O filho do presidente diz que seu ex-assessor Fabrício Queiroz foi o responsável pelas nomeações. Mas, se Queiroz tinha carta branca para contratar e demitir, suspeita-se que ele não era um auxiliar qualquer de Flávio.
Ele só se distanciou das milícias... em plena campanha eleitoral!

A coisa fica mais esquisita quando se destaca que a mãe de Adriano apareceu num relatório do Coaf por ter repassado R$ 4.600 para a conta do fiel amigo do ex-assessor.

Queiroz assumiu a responsabilidade, mas não fez qualquer menção ao envolvimento de Adriano com os matadores. A família também nunca demonstrou preocupação com o assunto. Tanto Flávio quanto Jair já enalteceram a atuação das milícias.

Em 2007, o filho votou contra a instalação de uma CPI para investigar os bandos no Rio. O pai disse que esses grupos apenas “organizam a segurança na sua comunidade”.

Por décadas, o clã Bolsonaro fez política aplaudindo essas associações e se recusando a tratá-las como criminosas. Em apenas 22 dias, essas ligações foram desenterradas e abriram caminho para a segunda crise do novo governo. (por Bruno Boghossian)

QUEM DORME COM MILICIANOS, ACORDA COM A ROUPA ENCHARCADA DE SANGUE

igor gielow
MARIELLE SURGE NO CASO QUEIROZ PARA
 ASSOMBRAR COMEÇO DO GOVERNO BOLSONARO
Se há um tipo de assombração que refuta exorcismos ou visitas dos céticos de programas de TV é aquela que ocorre no ambiente da política.

Veja o caso do PT. O partido passou, com fracassos e sucessos, 13 anos no poder. Mas nunca livrou-se do espectro que o assassinato de Celso Daniel, prefeito de Santo André que iria coordenar o programa de governo do então presidenciável Luiz Inácio Lula da Silva em 2002.

Morto às vésperas da campanha, Daniel virou personagem central de nove entre dez teorias conspiratórias da política brasileira. Reviravoltas, mortes de testemunhas, tudo contribuiu para a aura de mistério do caso —cuja versão de queima de arquivo sempre foi tratada como verdade pelo hoje presidente Jair Bolsonaro.

Na campanha eleitoral, ele chegou a comparar a nebulosidade em torno do homem que o esfaqueou em Juiz de Fora com uma suposta trama petista de violência e sangue no ABC paulista.
É portanto irônico que a maior dor de cabeça dessa alvorada de governo, o imbróglio do primogênito do presidente, Flávio Bolsonaro, esteja se aproximando lentamente de um outro cadáver famoso: o da vereadora carioca Marielle Franco (PSOL), executada no ano passado no Rio.

Os pontos de ligação ainda são tênues, mas extremamente incômodos para o governo. Em resumo, o gabinete do senador eleito Flávio, enquanto ele era deputado estadual no Rio, empregou a mulher e a mãe de um ex-capitão da PM que é investigado por ligação com as temíveis milícias que assolam a capital fluminense.

O grupo a que o policial estava associado é, por sua vez, investigado por suspeita de operar em ações criminosas que eram alvo de denúncias de Marielle. De que a vereadora foi morta por milicianos, há poucas dúvidas. Se houver eventual ligação daquela gente com o gabinete do filho do presidente, aí a palavra a usar é escândalo.

Por evidente, não se está falando aqui de qualquer conexão entre o senador eleito e o crime, mas sim de uma realidade política. Também não é um novo caso Celso Daniel, claro, pela total desconexão entre o papel dos protagonistas e o enredo.
Afinidade de Flávio Bolsonaro com as milícias vem de longe

Mas é uma assombração, digamos, a fazer companhia à já atuante versão ainda encarnada que atende pelo nome de Fabrício Queiroz —o altamente enrolado ex-assessor de Flávio, já responsabilizado pelo senador eleito por quaisquer contratações indevidas.

Do ponto de vista de imagem, a coisa fica particularmente complicada porque Marielle virou um símbolo, dentro e fora do Brasil, de vítima de um país truculento e autoritário que não dá certo, que não protege suas minorias. Ela foi antagonista do que defende o clã Bolsonaro e seus partidários do PSL, tendo alguns deles inclusive vandalizado uma placa em sua homenagem.

Se o caso está à porta de Jair Bolsonaro, a culpa é dele mesmo, que deixa um apoplético filho vereador participar de reuniões ministeriais e leva outro para a Suíça com status ministerial —o deputado Eduardo pode ter um convite para Davos, mas viajou como um igual ao lado de dois superministros e do chanceler na cabine reservada do Aerolula.

Enquanto o clã apenas se retroalimentava de práticas usuais do baixo clero, com uma personal trainer para cá, um assessor para lá, o tratamento dado a isso era algo leniente —um erro da imprensa e da classe política. Chegando ao grande palco, o cipoal de insinuações no Rio não será deixado de lado, por tenebroso que é e pelo potencial de impacto que tem.

Para Bolsonaro, a desgraça é que a hora de levantar um cordão sanitário já passou. Tudo indica que o presidente vai apenas dobrar a aposta enquanto as investigações correm, o que pode dar certo. Ou totalmente errado.

Com tudo isso, não parece um mero detalhe que o vice em exercício na Presidência, Hamilton Mourão, tenha feito uma pequena adequação em seu discurso sobre o caso. Antes, ele não interessava ao governo. Nesta terça (22), instado a falar sobre a questão das milícias, ele adicionou um “por enquanto” à avaliação. (por Igor Gielow)
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