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sábado, 14 de dezembro de 2024

"EU NUNCA IMAGINEI QUE UM DIA IRIAM ME ODIAR, ME XINGAR" (GILBERTO GIL, EXAGERANDO NO CHORORÔ)

Aos 82 anos de idade, o Gilberto Gil ou está tendo lapsos de memória ou não se importa em declarar nas entrevistas aquilo que mais lhe convém no momento atual (e não, necessariamente, a verdade.

Assim, participando do programa Conversa com Bial, da TV Globo, ele acaba de exagerar sua indignação com as grosserias de bolsominions, citando as recebidas de alguns torcedores brasileiros que hostilizaram a ele e à esposa Flora Gil durante a Copa do Mundo do Catar:
Eu nunca imaginei que um dia iriam me odiar, me xingar. E agora isso acontece o tempo todo, especialmente pela internet.
Pior, muito pior, foi a rejeição que ele e Caetano Veloso sofreram nos anos 60, ao mudarem de lado na guerra que os expoentes da MPB tradicional moviam contra a invasão do chamado som universal, influenciado pelos Beatles e que, além de uma maior liberdade temática, admitia a utilização de guitarras elétricas

Tudo começou quando compareceram ao 3º Festival da Música Popular Brasileira da TV Record, realizado entre 30 de setembro e 21 de outubro de 1967, com visual hippie e apoiados por músicos de iê-iê-iê (os Mutantes acompanharam Gil e sua Domingo no Parque, enquanto os Beat Boys faziam o mesmo para o Caetano Veloso e sua Alegria, Alegria.

Ambas foram muito vaiadas e obtiveram classificações inferiores (2º e 4º lugar, respectivamente) às que eram esperadas. 
E foi só uma marolinha, se a compararmos ao tsunami de um ano depois, quando a radicalização política passara a turbinar de forma poderosa a musical, e vice-versa.

O acerto de todas as contas se deu no III Festival Internacional da Canção da Rede Globo, que transcorreu em meio a passeatas que degeneravam em batalhas campais, mortes de opositores da ditadura, denúncias de torturas, ações armadas da esquerda, atentados dos grupos paramilitares de direita.

Os nervos já estavam à flor da pele na eliminatória paulista, que teve lugar no  Teatro da Universidade Católica de São Paulo, no dia 15 de setembro. Foi quando os baianos apresentaram composições que faziam uma correção de rumo no tropicalismo. Ao lançarem-no, no ano anterior, pareciam pregar o desengajamento dos jovens da política revolucionária, por que não?

modelo 1968, entretanto, veio fortemente influenciado pela Primavera de Paris, o movimento neo-anarquista que levou a França às portas da revolução.

Aliás, foi um slogan das barricadas parisienses o ponto-de-partida da composição inscrita por Caetano Veloso no III FIC: É proibido proibir. O estribilho já veio pronto, mas os versos que ele criou foram corrosivos, geniais: Os automóveis ardem em chamas/ Derrubar as prateleiras/ As estantes, as estátuas/ As vidraças, louças, livros, sim/ E eu digo sim/ Eu digo não ao não/ Eu digo, é proibido proibir.

Gilberto Gil seguiu o mesmo diapasão em Questão de Ordem, enfocando situações vividas pelos contestadores agrupados nas comunidades alternativas da Europa:

Se eu ficar em casa/ Fico preparando/ Palavras-de-ordem/ Para os companheiros/ Que esperam nas ruas/ Pelo mundo inteiro/ Em nome do amor.

A maior parte da esquerda brasileira via com desconfiança esse anarquismo de classe média do 1º mundo; e com franca hostilidade as roupas coloridas, os cabelos desgrenhados, a utilização das  sacrílegas  guitarras elétricas.

Preferia os ritmos nativos, do samba carioca à riqueza musical nordestina; e o visual bem comportado, com os intérpretes se apresentando discretamente para não atrapalharem a compreensão da mensagem que os versos transmitiam. Era esta a tendência majoritária na eliminatória paulista.

Quando da reapresentação das cinco escolhidas para a final da fase brasileira, marcada para o Rio de Janeiro, Caetano Veloso, que já estava indignado com a não-classificação da música de Gil, explodiu de vez, face às ensurdecedoras vaias que o impediam de interpretar adequadamente É Proibido Proibir.

Então, enquanto os Mutantes continuavam tocando uma trilha musical improvisada, Caetano fez um longo discurso, que foi depois lançado em disco com o título de Ambiente de Festival

Eis alguns trechos:
Mas, é isso que é a juventude que diz que quer tomar o poder? Vocês têm coragem de aplaudir este ano uma música, um tipo de música que não teriam coragem de aplaudir no ano passado. Vocês são a mesma juventude que vai sempre, sempre, matar amanhã o velhote inimigo que morreu ontem. 
Quem teve a coragem de assumir a estrutura do festival e fazê-la explodir (...) foi o Gilberto Gil e fui eu. 
O problema é o seguinte: vocês estão querendo policiar a música brasileira.

Gilberto Gil está comigo pra nós acabarmos com o festival e com toda a imbecilidade que reina no Brasil. Nós, eu e ele, tivemos coragem de entrar em todas as estruturas e sair de todas estruturas. E vocês? Se vocês forem em política como são em estética, estamos feitos.

Esta foi a intolerância com que Gil se defrontou então. Não há termo de comparação com as vaias e xingamentos dos quais ele se queixa agora. 

Afinal, mesmo no auge do circo de horrores bolsonarista, nada ocorreu no front cultural com gravidade equivalente ao espancamento do elenco da peça Roda Viva pelos mentecaptos do Comando de Caça aos Comunistas em julho de 1968.

Gil e Caetano, ademais, foram presos no finzinho de 1968 e presos passaram os primeiros meses de 1969. 

Eu ocuparia, em junho, a mesma solitária da PE da Vila Militar na qual um deles se desesperava, submetido a sucessivas humilhações, conforme um velho sargento fazia questão de contar aos recrutas, suficientemente próximo para eu ouvir cada palavra  (por Celso Lungaretti)

terça-feira, 9 de maio de 2023

MEU TRIBUTO À ETERNA MUTANTE. SEM LOUVAMINHICE NEM CHORORÔ!

R
ita Lee foi passear, 20 anos namorar talvez... Tanto amor pra dar, ela quer ser feliz, ela só quer seu par.
Esta canção do LP de 1969 dos Mutantes é a primeira lembrança que me vem ao ouvir o nome da cantora, compositora e multi-instrumentista que acaba de morrer aos 75 anos.

E a primeira imagem é a de sua irreverência no festival de MPB da TV Record de 1967, quando os Mutantes foram escolhidos por Gilberto Gil para o acompanharem  na canção que, juntamente com Alegria, Alegria do Caetano Veloso, lançou a revolução tropicalista, bem na véspera do ano mais revolucionário que o Brasil já conheceu.
Mas, minha devoção pelas raízes negras do rock me levou a gostar, mais do que todas, de sua interpretação blueseira em Meu refrigerador não funciona (1970). Um inesquecível tour de force.

É assim que me recordo das pessoas e artistas dos quais gostei: no auge, bem vivos nas minhas lembranças. Sem louvaminhice nem chororô! (por Celso Lungaretti)  

sábado, 21 de outubro de 2017

AQUELA NOITE EM 67 COMPLETA 50 ANOS NESTE SÁBADO: SAIBA E VEJA COMO FOI O 3º FESTIVAL DE MPB DA RECORD.

Este sábado (21) marca o cinquentenário da finalíssima de um dos grandes festivais de música brasileira da década de 1967, não exatamente o mais importante de todos, mas aquele que as novas gerações podem conhecer melhor, graças ao bom documentário Uma noite em 67, que pode ser assistido, quase completo, na janelinha abaixo.

Não que falte qualquer trecho do filme de Renato Terra e Ricardo Calil; os 85 minutos e 5 segundos estão todos aí. Mas, tanto o filme quanto uma gravação do dito festival que a TV Record restaurou e exibiu no final da década passada têm uma lacuna imperdoável: não aparece uma das 12 finalistas, "De como um homem perdeu seu cavalo e continuou andando" (também chamada de "Ventania"), do Geraldo Vandré. 

Isto também serve para os jovens perceberem como eram nossos anos de chumbo. Nunca tínhamos certeza de que o filme visto num dia não sumiria de todas as salas, cinematecas inclusas, no dia seguinte; ou que certas músicas subitamente deixassem de ser encontradas nas lojas e passassem a ser disputadas a peso de ouro nos sebos, cujos proprietários as retiravam das prateleiras e tomavam o cuidado de não alardearem sua posse, só oferecendo-as os clientes mais confiáveis.  
O documentário mostra todas as finalistas do Festival da Record de 67...

3º Festival da Música Popular Brasileira se iniciou exatamente no mês em que os estudantes desafiavam os dispositivos policiais e voltavam às ruas, nas famosas  setembradas  de 1967.

A partir daí o movimento de massas iria se intensificar e radicalizar até a promulgação do AI-5.

O certame da Record foi marcado por um dos episódios mais deprimentes de toda a história dos festivais: o público pespegou monumental vaia numa composição que abordava com muita propriedade o fenômeno futebol.

Sérgio Ricardo, compositor idealista e talentoso, autor de clássicos como "Zelão" e "Esse mundo é meu", além de haver dado magnífica contribuição musical para duas obras-primas de Glauber Rocha (Deus e o diabo na terra do sol e Terra em transe), cansou de tentar interpretar sua "Beto bom de bola". Que não era nem de longe alienada, tratando-se, isto sim, de uma veemente denúncia da engrenagem esportiva que triturava ingênuos como Garrincha.
...menos uma, a do Vandré, cujo sumiço foi pra lá de suspeito!
.
Afinal, o artista explodiu: "Vocês são uns animais!". E, arrebentando seu violão, atirou-o contra os espectadores. [A manchete jocosa de um jornal sensacionalista foi "Violada no palco"...]

O festival da Record de 1967 trouxe à tona, ainda, uma aguda cisão no front da música popular:
  • de um lado os defensores dos ritmos genuinamente brasileiros e das canções engajadas às lutas sociais; e
  • do outro, os adeptos do chamado som universal, da liberdade temática e das experiências formais.
Em teoria, a posição dos tropicalistas era inatacável: as raízes culturais só se mantêm vivas e puras em comunidades fechadas, não no Brasil de 1967, com sua economia integrada ao bloco ocidental e as informações chegando de todos os lados.
Músicos protestam contra as guitarras elétricas dos colegas

Na prática, entretanto, a contestação ao autoritarismo das lideranças políticas foi, para muitos, um pretexto conveniente para delas se afastarem, servindo-lhes, portanto, como justificativa para se omitirem durante um período crítico da vida brasileira.


A derrota, sabemos hoje, custou-nos seis anos de trevas absolutas. Mas, seria um exagero imputá-la apenas aos jovens que se desgarraram do rebanho ao verem o lobo se aproximando...

O próprio tropicalismo foi, por sinal, contraditório, ora pregando a revolta jovem ("É proibido proibir") e fazendo a apologia da guerrilha ("Soy loco por ti, América", "Questão de Ordem"), ora se embasbacando com as vitrines e outros signos da sociedade de consumo.

Em tempos normais, seria uma mistura de Semana de 1922 com psicodelismo à Beatles.

Em meio ao transe brasileiro, assumiu posturas às vezes mais radicais que a daqueles (os puros) que faziam passeatas contra as guitarras elétricas.

E, no final, acabaram todos vítimas dos mesmos algozes, frequentando as mesmas prisões e amargando o mesmo exílio.
Caetano Veloso foi quem trouxe a canção mais inovadora
A canção-manifesto do tropicalismo foi "Alegria, alegria", de Caetano, que ele interpretou acompanhado pelos Beat Boys, conjunto de iê-iê-iê cujos integrantes ostentavam enormes e desgrenhadas cabeleiras.

[Um deles era o guitarrista e cantor Tony Osanah, que parecia não saber exatamente em qual América se encontravam suas raíces, daí seguir pulando de galho em galho...]

Flagra o estado de perplexidade resultante do bombardeio de informações, contrapondo-lhe o descompromisso de caminhar "contra o vento, sem lenço, sem documento". Ficou em 4º lugar.

"Domingo no Parque" é uma música descritiva, propondo imagens cinematográficas e nada mais. Gil, aliás, já fizera coisa semelhante em "Água de Meninos". O que ela teve de tropicalista foram as guitarras elétricas dos Mutantes.

Numa total inversão de valores, o júri atribuiu-lhe a 2ª colocação, à frente da incomparavelmente superior "Alegria, alegria".

A vitória coube a "Ponteio", de Edu Lobo e Capinam, um dos temas da trilha musical do filme A Vida Provisória, de Maurício Gomes Leite.
"Água de Meninos": quase um rascunho da "Domingo no Parque".
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Metafórica (a viola a cujo ponteio os versos aludem é a metralhadora guerrilheira), correta, com ótimo arranjo e as presenças simpáticas de Edu Lobo e Marília Medalha, foi a solução encontrada para não se premiar a sensação tropicalista; em termos criativos, não avançou um milímetro em relação ao que já se fazia.

Em 3º lugar, Chico Buarque com "Roda Viva", composta para a peça homônima (aquela cuja encenação foi vandalizada por uma horda do CCC) e defendida pelo autor com o MPB-4.

No 5º, a xaroposa "Maria, carnaval e cinzas", de Luís Carlos Paraná, por Roberto Carlos e O Grupo.

Como melhor letra, prêmio merecidíssimo para "A Estrada e o Violeiro", do precocemente falecido Sidney Muller.
Que letrista superlativo perdemos com a morte precoce de Sidney Muller!

Finalmente, uma última palavrinha sobre o cadê a música que estava aqui? O gato comeu ou o fósforo queimou? 

É realmente muito estranho que este seja o festival do qual se conservaram mais e melhores gravações, com a única exceção de "Ventania", de Geraldo Vandré, cujo sumiço pode ter sido imposição dos militares, mas também uma mera pirraça dos mandachuvas da TV Record (vide aqui).

Assim como é estranho somente eu haver percebido a omissão e escrito sobre ela. Parece que os críticos musicais se tornaram politicamente corretos desde criancinhas, não se incomodando com o boicote de ontem e de hoje a um grande artista que o autoritarismo destruiu, mesmo sem o matar.
Este é o vídeo salvo do incêndio que a TV Record restaurou e exibiu

segunda-feira, 1 de junho de 2015

O GRANDE ROGER WATERS CONCLAMA TROPICALISTAS A BOICOTAREM ISRAEL. OS NANICOS CAETANO E GIL DIZEM NÃO.

Gulliver...
Roger Waters, que foi letrista, baixista e co-vocalista do conjunto britânico de rock progressivo Pink Floyd, não é melhor do que Caetano Veloso e Gilberto Gil apenas como artista (o álbum conceitual The Wall, que foi por ele concebido, coloca-o num patamar inalcançável para os baianos): também vale muito mais do que eles como ser humano e como homem político.

Waters faz parte do movimento global BDS (boicote, desinvestimento e sanções), que pressiona Israel a devolver ao povo palestino os territórios que tomou e mantém manu militari. Neste sentido, enviou carta a Caetano e Gil, exortando-os a não se apresentarem num dos piores transgressores de direitos humanos do mundo atual, país genocida e réprobo (pois suas bestialidades foram condenadas um sem-número de vezes pela ONU).

Por meio das respectivas assessorias, ambos fizeram saber que são bem diferentes do que davam a entender em suas composições. 

Gilberto Gil prefere engordar sua conta bancária do que "ficar em casa/ (...) preparando/ palavras de ordem/ para os companheiros/ que esperam nas ruas/ pelo mundo inteiro/ em nome do amor" (Questão de ordem).

E do Caetano Veloso nunca mais poderemos esperar que nos ajude a "derrubar as prateleiras/ as estantes, as estátuas/ As vidraças, louças, livros, sim" (É proibido proibir). Ele quer mesmo é empilhar maços e mais maços de novos shekels, a moeda israelense.
...e os liliputianos.

Há uma página no Facebook dedicada ao assunto: Tropicália não combina com apartheid. Recomendo.

Abaixo está a carta de Waters, na íntegra. 

Irrespondível, o que explica a falta de resposta por parte dos habitualmente tão loquazes Veloso e Gil. Já devem estar arrependidos da capitulação à "força da grana que ergue e destrói coisas belas" (Sampa). Inclusive reputações...

Caros Caetano e Gilberto,

Quando olho para suas fotos, escuto suas músicas, leio a história de suas lutas pessoais e profissionais, lembro de todas as lutas de todos os povos que resistiram a um domínio imperial, militar e colonial através do milênio, que lutaram pelos aprisionados e pelos mortos. Nunca foi fácil, mas sempre foi certo.

Em uma de suas músicas, Gil, você menciona o arcebispo Desmond Tutu. Eu não falo português, mas assumo que vocês dois aplaudam a resistência do arcebispo Tutu ao racismo e ao apartheid que acabaram derrubados na África do Sul. Eram dias impetuosos, quando a comunidade mundial de artistas estava lado a lado com seus irmãos e irmãs oprimidos na África. Nós, os músicos, lideramos o levante naquele momento, em apoio a Nelson Mandela, a ANC, ao povo africano oprimido e a todos os aprisionados e mortos.

Estamos diante de uma oportunidade igualmente significativa agora. Estamos em um ponto culminante. Aqueles de nós que estamos convencidos que o direito a uma vida humana decente e à autodeterminação política devem ser universais estamos, em consonância com 139 nações da Assembleia Geral da ONU, focados na Palestina.

Após o ataque brutal de Israel à população palestina de Gaza, no último verão, a opinião pública, acertadamente, pendeu a favor das vítimas, a favor dos oprimidos e dos sem privilégios, a favor dos aprisionados e mortos.

O primeiro-ministro de Israel, Netanyahu, com seu governo de extrema-direita, lembra-me da história da "Nova roupa do imperador"; com certeza nunca houve um gabinete mais exposto em sua calúnia como este. Eles se condenam mais a cada fôlego, a cada discurso racista. "Olha, mamãe, o imperador está nu!"

Tive a oportunidade, recentemente, de escrever uma carta a um jovem artista inglês, Robbie Williams; eu compartilhei com ele o destino de quatro jovens palestinos que jogavam futebol numa praia de Gaza, mortos por artilharia israelense. Por que eu traria à tona uma praia e futebol? Por quê? Porque eu amo o Brasil, eu tenho a praia de Ipanema nos olhos da minha mente; eu lembro de shows que fiz em São Paulo, Porto Alegre, Manaus e Rio. Como poderia esquecê-los? Eu tenho uma camiseta de futebol, assinada: "para Roger, de seu fã Pelé".

Quando estive aí pela última vez, uma criança inocente tinha acabado de ser morta, arrastada por um carro dirigido por criminosos que escapavam da cena do crime. O remorso nacional era palpável, era todo abrangente, vocês, todos vocês, importavam-se com aquela pobre criança. De tantas maneiras, vocês são um foco de luz para o resto do mundo.

Como vocês sabem, artistas internacionais preocupados com direitos humanos na África do Sul do apartheid se recusaram a atravessar a linha de piquete para tocar em Sun City. Naqueles dias, Little Steven, Bruce Springsteen e cinquenta ou mais músicos protestaram contra a opressão cruel e racista dos nativos da África do Sul. 

Aqueles artistas ajudaram a ganhar aquela batalha, e nós, do movimento não-violento de Boicote, Desinvestimentos e Sanções (BDS) pela liberdade, justiça e igualdade dos palestinos, vamos ganhar esta contra as políticas similarmente racistas e colonialistas do governo de ocupação de Israel. Vamos continuar a pressionar adiante, a favor de direitos iguais para todos os povos da Terra Santa. Do mesmo modo que músicos não iam tocar em Sun City, cada vez mais não vamos tocar em Tel Aviv. Não há lugar hoje no mundo para outro regime racista de apartheid.

Quando tudo isso acabar, nós iremos à Terra Santa, cantaremos nossas músicas de amor e solidariedade, olharemos as estrelas através das folhas das oliveiras, sentiremos o cheiro da madeira queimando das fogueiras de nossos anfitriões, estimaremos essa lendária hospitalidade. Mas, até que isso termine, até que todos os povos sejam livres, nós vamos fincar nosso emblema na areia, há uma linha que não cruzaremos, nós não vamos entreter as cortes do rei tirano.

Caros Gilberto e Caetano, os aprisionados e os mortos estendem as mãos. Por favor, unam-se a nós cancelando seu show em Israel. (Roger Waters)

terça-feira, 11 de outubro de 2011

TOM ZÉ, UM GAROTÃO DE 75 ANOS

Tom Zé, o mais irreverente e criativo dos integrantes do movimento tropicalista, completa 75 anos nesta 3ª feira.

Quem me deu este toque foi o Everi Carrara, para quem a música de Tom Zé "vai chegando devagar como um baião espacial, um telescópio sobre o planeta devastado pela superficialidade e o vazio de nossas vidas, como uma espécie de xamã, um bruxo em pleno século 21".

De "São São Paulo" a "O correio da Estação do Brás", passando por "Parque industrial", "Passageiro", "O riso e a faca", "A babá" e "2001", Tom Zé é autor de verdadeiras pérolas de nossa música.

Lembro-me dele num incrível programa que a TV Tupi levou ao ar durante alguns meses, com os astros do tropicalismo: Divino Maravilhoso.

E de uma canção que apresentava lá e, aparentemente, nunca gravou.

Marcou-me muito, talvez porque eu estivesse vendo aproximar-se o momento de cair na clandestinidade -- e antevia quão traumática seria a saída do lar, no caso de um filho único.

Nunca esqueci a letra:
"Era eu, era meu pai,
era meu pai, era eu.
Nós dois numa demanda,
ele não ganha, nem eu.
Avisa meu pai, avisa meu pai,
avisa meu pai que a loucura
mandou me chamar"
It's a long way.
 

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

BAÚ DO CELSÃO: "TESTEMUNHA OCULAR DA HISTÓRIA"

Fui assistir à palestra de um professor universitário num local improvável: a antiga Casa de Detenção onde, em outubro de 1992, 111 presidiários foram assassinados pela Tropa de Choque da Polícia Militar, cumprindo uma desastrosa ordem de invasão do governador Luiz Antonio Fleury Filho.

O monumental complexo penitenciário foi desativado em 2002 e hoje abriga ensino profissionalizante, atividades esportivas, recreativas e de lazer.

Transformaram-no em local aprazível, mas não o suficiente para eu ignorar os fantasmas do  massacre do Carandiru  esgueirando-se nas sombras, a clamarem pela justiça que lhes foi negada.

Os jovens não notam nada – que sorte a deles!

A Escola Técnica Parque da Juventude promoveu um evento multimídia (Cale-se: censura na música) para marcar os 40 anos do ano em que os melhores resistiram bravamente aos piores, antes que a razão sucumbisse à força e as trevas engolissem a luz que ainda restava no Brasil.

Como dera uma longa entrevista para a moçada, fui lá ver o que resultou da síntese de tantos elementos díspares, bem no espírito de 1968.

Cheguei, vi, gostei. Muita vontade de acertar, de fazer tudo bem feito.

E soluções criativas, como o cemitério das músicas censuradas, uma lápide para cada canção que foi sonegada dos contemporâneos e (várias delas) aclamada pelos pósteros.

Marcelo Ridenti, professor do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Unicamp, fez uma agradável digressão sobre a grande música dos anos de chumbo, extraindo exemplos das dezenas de CD’s que trouxe a tiracolo.

Constatei de novo o que sempre percebo nas palestras e nos textos de quem reconstitui, a partir de pesquisas, aquilo que eu vivi: por melhor que seja o resgate do passado, sempre escapa algum detalhe, até ínfimo, mas significativo para quem foi testemunha ocular da História (como Ridenti afavelmente me designou, aludindo ao bordão do antigo Repórter Esso).

P. ex., “Aquele Abraço”, vista retrospectivamente, parece ser uma evocação nostálgica de cenários e pessoas queridas do Brasil, por parte do Gilberto Gil exilado. Algo como a versão tropicalista do “minha terra tem palmeiras, onde canta o sabiá”.

Quem viveu o momento, entretanto, sabe que Gil estava é dando toques furiosos nas entrelinhas, com a engenhosidade que lhe permitia driblar a censura burra da qual era um dos principais alvos.

“Alô, alô, Realengo” foi uma alusão ao quartel militar que existia naquele subúrbio carioca. Quando ele lá esteve preso, havia um carcereiro que, ao abrir a cela, costumava lhe dizer “e aí, Gil, aquele abraço!”. Ou seja, a gênese da música nem de longe é a que alguém possa imaginar, a posteriori.

E ele tinha justificado ressentimento por haver sido abandonado, entregue às feras, por tantos que antes o adulavam. Na hora do perigo, houve muito mais salve-se quem puder! do que solidariedade.

Então, o trecho “Pra você que meu esqueceu/ Ruuummm!/ Aquele Abraço!” não é uma admoestação aos fãs que o trocaram por outros artistas, mas sim uma banana para os amigos e colegas omissos, que tinham a obrigação moral de fazer muito mais por ele do que fizeram.

E o LP branco (1969) de Caetano Veloso, hoje lembrado principalmente pelo grito abafado de “Marighella!” na faixa “Alfômega”, tem uma música que me sensibilizava muito mais: “Irene”.

Preso na PE da Vila Militar, Caetano ansiava por sair daquele inferno (“Eu quero ir, minha gente/ Eu não sou daqui”) ao qual fora levado sem motivo (“Eu não tenho nada”) e poder de novo curtir a irmã querida (“Quero ver Irene dar sua risada”).

Minha sensação claustrofóbica era idêntica, nos meses intermináveis que passei no mesmo lugar e até na mesma cela... 
(artigo de dezembro/2008, que eu já tinha até esquecido. O "Poderá gostar também de" me levou de volta a ele...).
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